Capítulo 1 - "Sim, mestre"
Ela acordou sentindo o gosto amargo da tristeza na boca, e o aperto sufocante da dor que aquela lembrança em forma de sonho lhe causou. Uma ardência invadiu os olhos ao mesmo tempo que lhe faltou o ar e, irritada, levantou-se de súbito para afastar o choro que certamente viria, forçando-se a pensar no que aconteceu poucos dias após aquela memória: a mãe morreu e o pai a abandonou. Aquela criança passou horas na companhia da mãe já morta, inocentemente velando seu sono. Quando seu amado pai chegou a levou até o orfanato mais próximo e a deixou ali, indo embora literalmente sem olhar para trás. A criança apoiou-se na janela, chorando e apertando sua boneca de pano enquanto contava os passos que ele deu ao se afastar daquele lugar estranho e o homem não olhou para trás enquanto ela rezava para que o fizesse. Desde então ela nunca mais rezou.
Relembrar aqueles acontecimentos de seu passado cumpriu com o propósito de deixá-la furiosa. Isso, assim era melhor. Lágrimas não valiam de nada, apenas inchavam seus olhos e entupiam seu nariz, a impedindo de respirar adequadamente. Lágrimas não mudariam seu passado, nem trariam sua mãe de volta. Mas a raiva tinha utilidade, raiva era o combustível que a impulsionava em um dia após o outro, o que a garantia sobrevivência.
Retirou a camisola com mais brutalidade do que pretendia, quase rasgando o tecido já muito usado, e vestiu-se apressadamente na intenção de não perder o café da manhã. Aqueles brutamontes imbecis comiam demais e nunca deixavam nada para ela além de farelos, então a saída mais fácil era chegar antes deles. A jovem adquiriu essa tática após anos brigando por um pedaço decente de pão, o que ela agora agradecia, pois foi assim que ficou tão estupidamente boa na arte de quebrar um nariz. Vestiu uma calça de lã marrom, suas botas de couro já gastas, camisa branca e amarrou na cintura seu cinto que continha uma adaga embainhada. "Nunca esteja desarmada", esta foi a primeira lição que Willk, seu mestre, a ensinou. Devidamente vestida, seguiu para o salão de refeições enquanto trançava seus cabelos negros como ébano pelos corredores.
O cheiro de pão de cevada e bolo de milho recém assados, juntos do aroma inconfundível de café invadiram seus sentidos e a fizeram apertar o passo. Uma refeição tão boa assim tinha o poder de tirar os homens da cama mais cedo, atraídos pela comida como a mágica do canto de uma sereia. Ao chegar ao salão vazio, rapidamente encheu seu prato com as delícias e acomodou-se na grande mesa da maneira mais confortável que conhecia, o que infelizmente não durou muito, pois logo foi agraciada com um já familiar tapa na nuca.
-- Tire os pés da mesa! -- ginchou Rosene, a cozinheira, que trazia uma jarra transbordante de leite de cabra.
-- Ai, Rosene! -- resmungou a mulher de boca cheia, enquanto acariciava dramaticamente a nuca e obedecia o pedido com certa relutância -- Não sei porque Willk a colocou na cozinha, seria mais útil bandindo uma espada com essa força que tem!
-- Estou na cozinha porque nenhuma outra de vocês inúteis sabe sequer sovar um pão! -- respondeu prontamente.
-- Mentirosa, todo mundo sabe que você desmaia ao ver sangue. -- zombou e serviu-se de café puro -- Que diabo de cozinheira é você que desmorona ao matar uma galinha ou limpar uma carcaça?
Sua impertinência, já tão conhecida na Irmandade, lhe garantiu mais um glorioso tabefe de Rosene.
-- Aquela que enche essa sua barriga esfomeada, mulher insolente! -- disse irritada, porém um canto de seus lábios lutava para levantar-se num sorriso.
-- Rose! -- reclamou de boca cheia novamente, fazendo migalhas voarem -- O que deu em você hoje, mulherzinha rabugenta?
Ao ser indagada diretamente, a mais velha ergue os braços num gesto de agradecimento irônico e se senta na cadeira ao lado.
-- Achei que teria que te bater novamente até que perguntasse.
-- Se quer me falar algo, é só dizer.
-- Não queria incomodá-la com meus dramas entediantes de cozinheira. -- deu de ombros e acrescentou despreocupadamente -- Soube que Willk acabou de retornar de sua misteriosa viagem.
Despreocupadamente até demais, o que obviamente, a deixou alerta para a conversa. Rosene era o que a jovem possuía de mais parecido com uma amiga. Quando chegou ali anos atrás, desnutrida e trêmula como um bebê corsa, foi a Rosene de dezenove anos quem cuidou dela. Mas essa Rosene, a de trinta e um anos, não era plenamente confiável pois uma coisa primordial havia mudado: agora ela era uma das amantes do mestre. O que, em outras palavras, a tornava uma espiã dele, então ela deveria ser cuidadosa com as palavras.
-- Não tão misteriosa assim, Rose. Todos sabemos que os olhos e ouvidos de Willk na cidade e redondezas foram silenciados. Ele foi atrás do idiota responsável. -- deu de ombros e serviu-se de mais um pedaço de bolo ainda morno.
Alguns dias antes, o mestre da Irmandade das Sombras perdeu todos os espiões. Prostitutas, crianças de rua e mendigos que empilhavam as ruas respondiam unicamente à Willk, contando-lhes tudo o que acontecia e vigiando seus inimigos, até mesmo os amigos, à troco de moedas e da grande benevolência dele em permitir que vivessem em sua cidade.
-- Sim, eu ouvi uma ou duas palavras à respeito. -- concordou Rose e hesitou, pensando em suas próximas palavras, ganhando tempo ao arrumar seu penteado alto de fios dourados -- E você recebeu alguma missão?
Para qualquer um, aquela era uma conversa inocente. Mas ela compreendeu o significado das palavras imediatamente. Aquilo foi um aviso. Alto e claro. Subitamente, a jovem sentiu uma pontada de arrependimento ao desconfiar da mulher, mas a vida era assim. Pelo menos a dela. "Nunca confie plenamente em ninguém, a não ser em mim", foi o segundo ensinamento de seu mestre. Ela não iria se permitir sentir remorso por ser inteligente.
-- Estou livre feito um canário. -- suspirou contente -- Se quiser posso acompanhá-la na compra dos suprimentos esta tarde e, na volta, paramos naquela doceria que vende aquelas balas de caramelo.
Rose assentiu, os olhos cor de mel cintilando com a menção ao doce preferido das duas e, ao tomar fôlego para continuar a conversa, foi interrompida por aquela voz trovejante que mesmo depois de tantos anos, faziam os pelos do braço da jovem se arrepiarem.
-- Nix! -- bradou Willk ao adentrar o salão de refeições, com passadas largas e furiosas.
Involuntariamente ela empertigou as costas e, com a ajuda do café, engoliu o restante do bolo que estava mastigando.
-- Mestre! -- cumprimentou em voz baixa, porém firme.
O homem parou do outro lado da grande mesa de carvalho e, com apenas um olhar, fez Rosene sair apressada. Quando aquele mesmo olhar pousou sobre ela, Nix entendeu o que fez a mulher fugir. Fúria pura era uma maneira de começar a descrever a tempestade que obscurecia os olhos azuis dele.
-- Suponho que sua missão não tenha sido um sucesso. -- apontou corajosamente.
Ela tinha medo dele. Seria uma idiota se não tivesse, aquele homem era implacável e tinha certa tendência para crueldade. Mas os anos de convivência e ensinamentos quebraram algumas barreiras no relacionamento dos dois, o que possibilitava que ela não segurasse tanto sua língua afiada quanto os outros soldados da Irmandade.
-- Voce é muito perspicaz. -- ironizou o homem quando ela constatou o óbvio, depois sentou-se com a graça de um felino, pegou um pãozinho e o mordeu -- Sinto muito em estragar seus planos de uma tarde ociosa gastando meu ouro, mas você tem uma missão.
-- Nosso ouro, Willk. -- destacou -- Eu trabalho pela minha parte de ganhos dessa Irmandade. Muito mais do que alguns inúteis que você insiste em manter nesse lugar.
-- Se algum dia você conquistar o lugar de mestre poderá enxotar quem quiser, Nix. Mas até lá eu dito quem entra e quem sai.
Não era segredo que, atualmente, a jovem estava na lista de herdeiros da chefia da Irmandade. Ela era a terceira, sendo precedida por Breno em segundo e Hamós em primeiro. E aquela missão poderia lhe garantir a dianteira, pois Nix sentia nos ossos que seria importante. Ainda mais se considerar o sutil aviso de Rosene para que ela se preparasse.
-- O que devo fazer?
-- Encontrar Thomas Longford e trazê-lo para a minha justiça.
-- Esse velho morreu há meses, Willk. Quer desperdiçar meu tempo com um cadáver? Com certeza não foi ele que desapareceu com seus espiões tão queridos.
-- O velho deixou um herdeiro, garota! Thomas Longford II, vinte e oito anos. Foi um ninguém até ser obrigado a assumir o título do pai e cometer a estupidez de me irritar. Agora, parece que sua alteza está com os dias contados e sua majestade terá o trabalho de encontrar algum outro bajulador para oferecer a herança do ducado.
-- É essa minha missão? Encontrar esse homem e trazê-lo aqui? Não poderia me arrumar algo menos tedioso?
Nix estava há dias sem um objetivo, uma boa luta. Ela ansiava por gastar energia e fazer alguém sangrar.
-- Ninguém sabe como ele é, tudo ainda é muito recente, o homem quase não foi visto. Você vai encontrá-lo e trazê-lo para mim vivo. -- ordenou, depois a presenteou com um sorriso de canto -- No entanto, não precisa ser inteiro.
Aquela missão tosca e sem emoção não lhe garantiria o primeiro lugar na lista de favoritos de Willk, talvez nem mesmo o segundo. Mas Nix jamais seria estúpida de negar um comando direto e, além do mais, aquela sensação de que algo estava prestes a acontecer ainda latejava em seu peito.
-- Sim, mestre. -- concordou e saiu para preparar-se para mais um trabalho.
Olá, amorecos!! Vocês já sabem o quanto AMO histórias medievais, né? Kk
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Sejam bem vindos nessa aventura, e venham comigo torcer pelos nossos Predestinados ❤
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