prata polida
Antigamente, os espelhos eram feitos de prata. Não nitrato de prata, mas prata polida, considerada, por alguns, como símbolo da pureza. E sabe o que não combina com pureza? A desconcertante ausência de alma dos seres mortos-vivos; os vampiros.
Hoje em dia, felizmente, os espelhos são o resultado de uma reação química entre nitrato de prata e glicose sobre vidro. E é por isso que ela não tinha problema nenhum para finalizar o delineado gatinho e retocar o batom bordô antes de deixar o elevador, os sapatos de salto estalando discretamente sobre o carpete de luxo enquanto se encaminhava para a área do lounge do hotel.
Ela amava o movimento do art déco, apesar de achar que a época, a bem da verdade, havia sido horrível: em sua opinião, não houve festa da juventude perdida que compensasse todo o desespero político, econômico e social, as guerras, o sexismo... A arquitetura, pelo menos, era um ponto positivo: aquele hotel sendo um exemplo claro, com toda a sua elegância de linhas retas e geometria. E o cassino, inclusive, era espetacular ─ mas isso já era a subjetividade dela falando.
Mas chega de falar de história. Afinal de contas, a noite está começando, e pode ser interessante observar o que aconteceu depois que Amèlie L'estat adentrou o lounge bar, com seu conjunto de iluminação indireta e o jazz suave e elegante ao fundo.
─ Boa noite.
Amèlie sorriu para a bartender no instante em que sentou-se em um dos bancos altos do bar. Ela tinha uns olhos penetrantes e uma boca que lhe despertou alguns desejos ─ mas aquele não era o momento. Em instantes, já havia uma taça de cosmopolitan sobre o mármore escuro, e as duas mulheres trocando apenas palavras o suficiente para que, aos poucos, a presença da nova cliente fosse percebida no ambiente.
À altura em que o homem surgiu, a bartender já estava em outra ponta do bar.
─ Boa noite.
Amèlie virou apenas a cabeça. Sobre o banco alto, tinha as pernas cruzadas, revelando uma pele pálida pela fenda do vestido impecavelmente preto. O cassino exigia traje de gala, e ela definitivamente estava a caráter ─ assim como o rapaz de black tie e cabelos claros milimetricamente desordenados diante dela.
─ Boa noite ─ ela respondeu, os dedos ainda tocando a taça e o queixo levemente elevado, em um ângulo que não necessariamente denotava superioridade, mas que passava uma mensagem clara: minha atenção está em você agora, mas vamos ver até onde isso vai.
O rapaz se voltou para o bartender que se aproximava e pediu vodka com gelo, atento demais ao copo para observar o ligeiro movimento da sobrancelha de Amèlie.
─ Então... o que uma moça faz sozinha nessa cidade numa noite assim?
A análise dela foi rápida: herdeiro; jovem demais para assumir a empresa, mas não para torrar o capital da família em qualquer tipo de aventura que o dinheiro pudesse pagar; forte o suficiente para se exibir com aparelhos de academia, mas provavelmente congelaria em uma situação de luta ou fuga. Como vítima, poderia ser avaliado como... adequado ─ mas, sinceramente, Amèlie estava cansada de lidar com os efeitos da cocaína em homens jovens.
─ E o que você faz?
O rapaz hesitou, e então tentou preencher o vazio com uma risada meio atônita.
─ Negócios.
Amèlie ergueu uma sobrancelha e usou o próximo segundo apenas para encará-lo, desafiando-o a sustentar a própria mentira. Ele desviou o olhar para o copo e optou por sorver um gole grande de vodka, o que lhe garantiu uma careta enquanto o líquido descia pela garganta.
─ Entendi ─ ela concluiu, com um sorriso sutil nos lábios carmim, enquanto bebia o último gole do cosmopolitan. ─ Foi um prazer conhecê-lo, senhor...
─ Wilson. Jonathan Wilson.
Amèlie meneou a cabeça, enquanto saltava com elegância do banco alto. Ela esticou a mão, polidamente, e ele correspondeu ao cumprimento, mas a moça percebeu o discreto sobressalto de Jonathan Wilson com a firmeza de seu aperto.
─ Até mais.
Ela abandonou o lounge, na direção do cassino, deixando para trás também o rapaz, que ainda tentava compreender a totalidade daquela curta interação.
Amèlie L'estat possuía um único prazer secreto ─ sua pequena indulgência: o cassino. É de se entender: estando viva há tempo suficiente, uma das únicas coisas capazes de não sucumbir à obsolescência é a sorte; os dados sempre podem surpreender. Assim, o prazer estético do ambiente e a facilidade da caça ─ ricos, afinal, são alvos fáceis ─ era, em resumo, unir o útil ao agradável.
Era na sorte que ela pensava enquanto sentava-se em uma das mesas redondas, ansiosa para saber o destino que suas fichas teriam naquela noite.
─ ─ ─
─ Ouch. Okay, okay... eu aceito essa derrota... ─ Jean-Michel Kayode recostou-se na cadeira e mesmo assim não teve dificuldade para alcançar o copo de whisky com um braço longo, bebericando um gole moderado sem tirar o sorriso dos lábios.
Ele havia acabado de perder uma soma considerável e mesmo assim ria, genuinamente bem-humorado, os dentes muito brancos se destacando contra a pele negra, em combinação perfeita com o traje black tie sob medida.
Jean chamou um dos amigos com um gesto rápido dos dedos e eles trocaram algumas palavras ─ nada fora do normal, mas o suficiente para que o outro rapaz recuasse com um olhar meio assustado.
─ Tem certeza?
Kayode riu outra vez, completamente descontraído, e pousou o copo de whisky na mesa com uma mão, enquanto empurrava, com a outra, uma surpreendente quantidade de fichas ─ dessa vez, olhando para o dealer.
─ Eu dobro.
O administrador da mesa acenou com a cabeça, séria e profissionalmente, e aceitou a aposta.
Nos lábios de Amèlie L'estat, surgiu um sorrisinho interessado.
A arquitetura de um cassino envolvia, propositalmente, a ausência de janelas, para que a passagem do tempo não fosse percebida. Mas, sinceramente, Amèlie não ligava nem um pouco para o relógio enquanto se divertia rolando fichas e dados e observando seus colegas de mesa.
Outra estratégia interessante de atratividade dos cassinos era o bar: bebidas à vontade, servidas nas mesas o tempo todo por garçonetes solícitas e atraentes ou direto do balcão, caso a necessidade fosse de fazer uma pausa das apostas.
A certo ponto, foi o que Amèlie fez; estava com sorte, mas não queria desperdiçá-la toda de uma vez. Pediu licença e abandonou a mesa, percorrendo calmamente seu caminho até o bar, onde pediu, dessa vez, um daiquiri de morango, batucando distraidamente as unhas pintadas de preto no mármore claro enquanto acompanhava com os olhos os movimentos seguros do bartender.
─ 1933.
Dessa vez, Amèlie não o viu chegar, trocando o copo vazio por outro whisky on the rocks novo em folha, com aquele charme displicente que parecia ditar cada movimento seu.
─ Como?
Jean-Michel abriu outro sorriso suave, como aqueles da mesa, momentos antes.
─ Esse cassino foi construído em 1933. Um pouco mais de 10 anos depois do hotel em si. Todo em mármore de Carrara. Não era nada barato na época... mas isso não era um problema quando se tinha a bênção da famiglia.
Amèlie ergueu uma sobrancelha e se voltou para ele, no instante em que decidiu que aquela conversa merecia um pouco mais de sua atenção. Não que ela desconhecesse a história do hotel ─ pelo contrário, inclusive a vira acontecer ─, mas achou interessante a escolha de assunto, quando tantos outros se limitavam ao repertório básico de "o que você faz aqui" e "outro desse drink aí para a senhorita".
─ É?
─ Uhum ─ Jean-Michel respondeu com um murmúrio, e seu tom era muito menos professoral e muito mais interessado; parecia genuinamente empolgado para compartilhar uma curiosidade que considerava interessante. ─ Foi um bom investimento. A Lei Seca estava quase sendo derrubada, e contrabandear scotch já não enchia os bolsos de ninguém... ─ completou, e as pedrinhas de gelo tilintando contra o copo de cristal vieram como ênfase para suas palavras.
Amèlie esboçou um sorrisinho interessado, estimulando-o a falar mais.
─ As Theresas vieram direto da Toscana, 100% mármore... ─ ele continuou, gesticulando na direção das figuras femininas pálidas e vestidas com véus, em sua pureza renascentista. ─ Só não entendo por que todas têm esse nome.
A bem da verdade, foi a última frase que despertou a atenção de Amèlie. Não por seu conteúdo, mas pelo tom de sincera ─ quase humilde ─ curiosidade, que, à primeira vista, não combinava com a pose do homem com o black tie perfeitamente bem-cortado e aqueles brincos de diamantes solitários, que reluziam suavemente dependendo do movimento de sua cabeça.
Ela deixou escapar outro sorriso e bebeu um gole do daiquiri, percorrendo com a língua o discreto rastro úmido que a mistura de rum e morango desenhou em seu lábio.
─ Esse era o nome do navio que as trouxe. Giuseppe Romano foi mesmo um ótimo investidor, mas... não era nada criativo.
E, diante da expressão genuinamente surpresa de Jean-Michel, Amèlie meneou a cabeça e ergueu suavemente sua taça, em um cumprimento, antes de voltar à mesa redonda.
─ ─ ─
Era cerca de três da manhã quando Amèlie L'estat voltou para o quarto. Ela tirou os sapatos de salto, ainda na antessala, e deixou escapar um sorriso nos lábios carmim quando ouviu o som da porta da suíte se fechando.
─ Achei que tinha se perdido no caminho.
Jean-Michel Kayode também sorriu, exibindo os dentes perfeitos, e encolheu os ombros, com ar de desculpas, enquanto se aproximava dela.
─ Uma beleza assim pode atordoar um homem.
Amèlie teve que rir, apesar de o calor que a mão dele emanava, diretamente em contato com a sua cintura, a desconcentrar um pouco.
Não houve mais palavras enquanto o casaco dele e o vestido dela encontravam o tapete da antessala.
Aquele era um homem interessante; parecia inteligente, não era um idiota e, ugh, como era bonito. Era uma pena que, afinal, o mundo era feito de presas e predadores. Pelo menos ─ e isso Amèlie pensou enquanto os lábios dele percorriam seu pescoço, mornos, e os dedos hábeis afastavam com rapidez a renda preta de sua pele ─ ele parecia um homem forte. Com sorte, seus efeitos sobre ele não seriam piores que a sensação de uma ressaca violenta no dia seguinte.
Por outro lado, ela quase conseguia sentir toda aquela energia pelas veias dele, vibrando sob a pele, e seu corpo se consumia de pura sede.
─ ─ ─
Jean-Michel Kayode jazia deitado na cama enorme, envolvido pelos mesmos lençóis sedosos que cobriam debilmente o corpo de Amèlie L'estat. Ele tinha um sorriso muito menor nos lábios, como se, àquela altura, até mesmo sustentar seu sorriso largo fosse muito cansativo. Sob a pouca luz das arandelas, seu peito subia e descia, denunciando a respiração ainda agitada.
Amèlie sorriu discretamente, o batom bordô finalmente gasto dos lábios pálidos, e levantou-se. Envolveu o corpo em um robe preto e atravessou as cortinas entreabertas da varanda, respirando o ar frio da noite. A lua estava alta no céu e iluminava todo o ambiente com aquela luz fria, assim como a brisa que soprava seus cabelos desalinhados.
Era um noite agradável, e ela gostava de admirar a cidade naqueles momentos, quando pessoas vagavam nas calçadas e carros cortavam as avenidas em velocidades muito possivelmente ilegais; era um universo à parte, bem diferente das dinâmicas da cidade em horários comerciais.
─ Alguma coisa interessante aí?
O susto que Amèlie tomou naquele instante foi totalmente genuíno. Jean-Michel estava na varanda, uma mão segurando o lençol que lhe envolvia a cintura, o outro braço apoiando o corpo na balaustrada, o mesmo sorriso cheio de charme e displicência do início da noite.
Era a primeira vez, em todos aqueles anos, que ela via um homem se levantar da cama logo após uma noite com ela.
─ O que? ─ ele riu, inocente, e naquele instante Amèlie percebeu uma covinha do lado esquerdo do rosto, que apenas contribuía para o ar descontraído e suave de sua expressão. ─ Achou que me cansaria fácil assim?
Ele deu um único passo para frente, sem invadir o espaço pessoal de Amèlie; foi apenas o suficiente para que a luz da lua cobrisse seu corpo, brilhando como prata pura sobre a pele descoberta. No entanto, não foi nisso que ela focou ─ porque, afinal, a forma como a lua refletia nos olhos escuros de Jean-Michel era algo que ela nunca havia visto antes.
Amèlie L'estat sorriu e mordeu o lábio, vencendo a distância que a separava de Jean, e o beijou mais uma vez.
Afinal, talvez o mundo não fosse feito tão somente de presas e predadores.
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