Parte 2
O cavaleiro acordou ofegante. Uma pontada de dor vinda de seu braço direito o fez gemer. Ele olhou para o membro enfaixado e perguntou-se onde estava. Olhou em volta. O lugar parecia o quarto de uma pequena cabana de madeira, mas seu interior era arredondado e as paredes pareciam com o tronco de uma árvore coberta em parte por musgo. Os móveis eram simples e pequenos. Olhou com mais cuidado e percebeu que a cama onde se deitava também era minúscula e que seus pés ultrapassavam o final dela por pouco mais de trinta centímetros.
O homem sentou-se confuso coçando sua cabeleira castanha. Foi quando percebeu que estava sendo observado por alguém escondendo-se parcialmente atrás da porta de madeira semiaberta. Uma jovem mulher.
− Olá... – ele disse com a voz rouca.
A jovem sorriu e entrou por completo no quarto, surpreendendo o cavaleiro. Tinha pouco mais de um metro e meio de altura e sua pele era de um moreno acobreado belíssimo. Seus cabelos eram arrepiados e curtos, quase tocavam seus ombros. Negros como a noite. As orelhas pontudas se sobressaiam sobre o emaranhado de fios. Usava um leve vestido alaranjado sem mangas e tinha os pés descalços. Seus olhos eram da cor das chamas e fitavam o homem com uma curiosidade quase doentia.
Tudo isso surpreenderia o cavaleiro de qualquer maneira, mas foi o fato dela entrar no quarto voando que o deixou embasbacado.
− Olá! – ela respondeu o homem que até já se esquecera de ter falado algo.
Várias perguntas passaram pela cabeça dele. Tudo que disse foi:
− Olá...
− Olá! – ela respondeu novamente com um grande sorriso e uma animação ainda maior, suas asas transparentes batiam como as de uma libélula.
− O que é você? – ele conseguiu perguntar.
− Eu me chamo Faye. E você?
− Christian... Não, não foi isso que eu quis dizer. O QUE é você? – ele repetiu com mais ênfase.
− Ah! Eu sou uma fada.
− Mas fadas não existem−
− Humanos! – Uma voz ranzinza veio detrás da garota.
Uma velha com vestimentas escuras mancou para dentro do quarto se apoiando em um pequeno cajado. Tinha feições parecidas com as da garota, mas era menor e sua pele era bem mais clara. Parecia ter cerca de oitenta anos. Asas transparentes como as da jovem podiam ser vistas saindo de suas costas, mas estavam caídas e não pareciam fortes o suficiente para levantá-la do chão. A velha continuou:
− Céticos! Todos vocês! Veem uma fada voando diante de seus olhos e tudo que conseguem dizer é: "fadas não existem" – ela o imitou com uma voz zombeteira.
− Desculpe, mas... – o homem começou a falar, mas parou quando a velha levantou a mão o detendo.
− Não importa. – Ela se virou para a garota. – Faye, vá buscar comida e água.
A garota acenou e saiu voando. Logo depois voltou com uma bandeja repleta de frutas nunca vistas pelo cavaleiro e um jarro de barro cheio d'água. O homem comeu as frutas experimentando seus diferentes sabores e bebeu diretamente no jarro, que era praticamente uma caneca para ele.
− Obrigado – ele agradeceu. Comer o deixou mais calmo e o fez lembrar-se de uma pergunta importante. – O que aconteceu?
− Você estava no fundo do rio quando eu te encontrei – a jovem falou. – Sua armadura reluziu ao sol e eu te resgatei. Você é pesado – ela ainda sorria. – Ah! E minha vó te curou. Você tem sorte. Sem a magia dela você teria perdido o braço inteiro.
Nesse momento Christian se lembrou da luta na ponte.
− O que aconteceu com o grupo de soldados que estava comigo?
A velha respondeu:
− Não sabemos do que você está falando. É mais fácil eu lhe mostrar do que explicar o porquê. Venha. – E saiu do quarto.
O cavaleiro se levantou deixando as cobertas caírem e só então percebeu que estava nu. A jovem fada corou e tapou os olhos, inutilmente já que deixara enormes frestas entre seus dedos para poder enxergar a cena. O homem se cobriu novamente, dizendo:
− Acho que estou sem roupas.
− Eu também acho – a jovem disse ainda espiando. Logo depois entendeu o que ele quis dizer e buscou as vestes que ele usava por baixo da armadura, agora lavadas.
− Ainda estão um pouco úmidas, mas vão secar com o calor do seu corpo – Faye disse ao entregá-las ao cavaleiro. Depois saiu do quarto.
Christian se vestiu e seguiu para fora. Ao sair da casa entendeu porque a achou tão diferente. Ela era esculpida no tronco de uma velha e grande árvore. Desceu as escadas de pedra e se encontrou com a velha. Já ia dizer algo quando olhou em volta e perdeu a fala.
Não estava mais na Escandinávia, isso era certeza. Era inverno de onde vinha, mas o lugar onde estava agora se encontrava repleto de vida. O sol brilhava forte e havia verde e flores por todos os lados. Bosques se espalhavam por todos os lados sendo intercalados por lindas campinas. O rio, logo ao lado da cabana na árvore, reluzia cristalino.
− Onde estou? – perguntou boquiaberto.
− Você está em Alfheim – a velha lhe respondeu. – O Reino das Fadas.
Christian ainda não podia acreditar. Alfheim era só um mito pagão, uma lenda nórdica, mas ali estava.
− Faye – a velha gritou. – Leve o rapaz até Titânia. Ela disse que desejava vê-lo quando acordasse. E ela poderá lhe explicar tudo que não podemos.
A jovem fada concordou e pegou o rapaz pela mão.
Enquanto ela o guiava, o homem observava tudo. Havia fadas e elfos por todos os lados, de todos os tamanhos e realizando as mais diferentes tarefas. Colhiam flores e frutas, aravam a terra, cuidavam de plantas e animais, construíam novas casas. Gnomos brincavam na terra, Ondinas deslizavam sobre as águas, Silfos flutuavam no ar e Salamandras simplesmente queimavam como o próprio fogo.
Caminharam por uma estrada feita de pedras durante alguns minutos. Neste meio tempo o rapaz pôde reparar olhares estranhos e mal-encarados em sua direção. Não se surpreendeu com isso, afinal, era um humano em meio a fadas.
Ao chegarem a seu destino, Christian parou de ficar encabulado olhando para os lados, para ficar encabulado olhando para cima. À sua frente se encontrava a maior e mais frondosa árvore que já vira. Era um freixo com dezenas de metros de altura e com uma copa tão ampla que cobria uma área descomunal com sombra. Logo na sua base havia uma porta e ele percebeu que, como várias outras, aquela árvore também era usada como a moradia de alguém.
− Bonita, não é? – Faye perguntou voando a sua volta. – Essa é Yggdrasil. É a morada de Titânia.
− Quem é Titânia? – o cavaleiro perguntou curioso.
Nesse momento a grande porta na base da grande árvore se abriu. A elfa que saiu de dentro fascinou Christian de uma forma que nem Faye havia feito. Possuía aproximadamente dois metros de altura, o que fazia dela praticamente uma gigante perto de qualquer outra criatura ali. Seus cabelos eram absurdamente longos, quase tocavam o chão e tinham uma cor clara que ficava entre o ouro e a prata. Sua pele tinha a cor da neve. Suas orelhas eram longas e pontudas. Usava vestimentas verdes, como as folhas da árvore em que morava, e justas, modelando seu corpo esguio. Mas o que mais impressionou Christian foram seus olhos. Brancos. Sem íris ou pupila. Apenas brancos como a névoa. Ela o encarou com aqueles dois orbes alvos e era como se pudesse ver através de sua alma.
− Então você é o humano de que ouvi falar. Como se chama? – a elfa falou com uma voz dualizada e serena, quase hipnótica.
O cavaleiro ainda estava em transe e foi necessário um cutucão de Faye para acordá-lo.
− C-Christian, vossa majestade. Christian Lockhart. – Ele fez uma mesura.
A elfa levou um dedo à boca segurando um risinho.
− Por mais que este lugar seja chamado de Reino das Fadas, eu não sou nenhuma rainha, Christian Lockhart – ela o corrigiu. – Sou uma líder espiritual, uma sacerdotisa, uma conselheira. Chame-me de Titânia. Agora... Imagino que tenha perguntas.
− Sim, Titânia. – O homem ficou feliz por irem direto ao ponto. – Como cheguei aqui? E como volto para minha terra?
− Primeiro conte-me onde estava antes de vir para cá – a elfa pediu.
− Bem... Sou um soldado bretão. Eu e meu pelotão estávamos fazendo uma incursão ao sudeste do território escandinavo para reconhecimento quando fomos atacados por nórdicos ao atravessar uma ponte. Fui ferido e derrubado no rio. Depois acordei aqui.
− Hum... Entendo. – Titânia levou a mão ao queixo. – Christian, o que você talvez pense ser azar foi a maior sorte que podia lhe acontecer. Veja bem, o único rio que liga essa região onde você estava à Alfheim é chamado por nós de Rio dos Elfos. E de tempos em tempos um portal, ou ponte, surge neste exato local ligando Mannheim, seu mundo, à Alfheim. Quando você caiu no rio, deve ter afundado por completo e entrado pela abertura chegando assim aqui. É muito provável que estivesse morto do contrário.
Christian estava pasmo. Para ele toda aquela história parecia ter saído de um conto de fadas. O homem parou por um momento olhando a fada parada no ar ao seu lado e a elfa à sua frente e percebeu como seu pensamento era estúpido. Obviamente aquilo era um conto de fadas e ele o estava vivenciando.
− E é possível voltar para minha terra? – perguntou desesperançoso.
− Sim – a elfa respondeu. – Mas talvez essa não seja a melhor escolha a se fazer.
− Por quê? – o cavaleiro perguntou quase ofendido.
Titânia o observou mais uma vez com aqueles olhos enevoados. Novamente Christian sentiu seu âmago sendo encarado por ela. A verdade não era muito diferente.
− Você saberá a razão disso quando chegar a hora de partir.
− E quando será isso? – o homem indagou ansioso.
− Daqui a um ano – a elfa respondeu resoluta.
− O que? – gritou o cavaleiro. – Eu não posso ficar por um ano aqui. Tenho meu reino para defender. Você tem de entender, Titânia!
− Eu entendo – ela respondeu no mesmo tom dualizado. – Mas não há nada que eu possa fazer. Existem incontáveis portais que podem ser usados pelos faeries, os habitantes de Alfheim, para ir à Mannheim, mas pouquíssimos que podem ser atravessados por humanos. Estes geralmente ficam escondidos em sua terra no fundo de rios, lagos ou cavernas e só se abrem durante uma época muito especial do nosso ano. Durante a Floração de Yggdrasil. Olhe a seus pés.
Christian baixou o olhar para o chão entendendo o que Titânia queria dizer. O chão estava repleto de flores já murchas. Ele se agachou pegando uma e a olhou. Tinha a mesma cor dos cabelos da elfa. Ele se perguntou se aquilo era uma coincidência.
− A floração ocorreu ontem. No mesmo dia que você chegou – ela continuou. – Ela ocorre apenas uma vez no ano e durante apenas um dia. A próxima será daqui a exatamente um ano menos um dia.
− Não há outro jeito? – ele insistiu.
A elfa negou pacientemente com a cabeça.
Christian fitou Titânia, depois a árvore deflorada e por último a flor em sua mão. Não queria acreditar na elfa, mas qual outra escolha tinha? Aceitou seu destino. Só podia esperar. A guerra não iria a lugar nenhum em apenas um ano. Ele não estaria desertando sua terra. Seria apenas uma dificuldade momentânea.
− Muito bem. Esperarei até o dia da floração e então irei para casa. – Pensou um pouco. – Mas até lá o que eu faço?
− Ora, humano de Mannheim. Viva. – Ela sorriu. – Você tem minha permissão e proteção para viver entre o povo de Alfheim o quanto achar necessário. – Logo depois olhou para a fada ao lado de Christian. – Faye, não é?
Faye, que só estava ouvindo até agora, se sobressaltou por ser chamada por Titânia, que se dirigira diretamente a ela pouquíssimas vezes em sua vida.
− S-S-Sim... Senhora Titânia – ela gaguejou.
A elfa não pôde evitar sorrir novamente.
− Apenas Titânia, por favor. Foi você quem salvou nosso convidado aqui, estou certa?
Faye apenas acenou com a cabeça.
− Se importaria em abrigá-lo até o momento de sua partida?
− Sim... Quero dizer não... Não me importo... Eu abrigo ele – finalmente falou.
− Muito bem. Aproxime-se Christian Lockhart – a elfa pediu ao homem que o fez. Ela então sussurrou em seu ouvido. – Eu devo lhe avisar uma coisa. Nenhum faerie irá lhe fazer mal, pois você está sobre minha proteção, mas... Nem mesmo nosso mundo é perfeito e existe preconceito mesmo entre meu povo, principalmente com humanos. Por favor, perdoe qualquer insolência que possa sofrer durante este ano por parte de qualquer um dos meus.
− Eu entendo. – Christian já esperava aquilo de qualquer maneira.
− Você também descobrirá que é por esse mesmo motivo que lhe coloquei junto de Faye.
− O que quer dizer? – ele perguntou confuso.
− Pergunte à velha Pixie, a avó da garota – a elfa sorriu e então seguiu para a porta de sua morada.
− Espere, Titânia – Christian gritou.
− Sim? – ela perguntou pacientemente.
− Há algo me incomodando desde que cheguei aqui. – Ele procurou as palavras certas. – Eu... Eu sou um cristão. Sempre fui. Meus sacerdotes exaltam nossa religião e rebaixam as outras a rituais pagãos. E justo agora estou em Alfheim, um dos mitos pagãos que tanto desacreditei. Titânia responda-me: a minha religião está errada?
A elfa sorriu admirando a coragem e a fé do homem.
− Não, Christian. – Sua voz era inabalável. – O errado é o fato dos humanos acreditarem que apenas uma crença deve estar correta. – E a elfa se retirou para seus aposentos sem mais uma palavra.
O cavaleiro e a fada voltaram para a cabana de Pixie. Faye dessa vez foi voando à frente sentindo-se muito feliz por ter falado com Titânia e por ter um novo amigo. Christian agora pôde então perceber que nem todos os olhares de desgosto, como pensara antes, eram dirigidos para ele. Faye também era um alvo.
Ao chegar à cabana foi diretamente falar com a velha.
− Parece que vou ficar com vocês por um tempo. Será um problema, minha senhora?
− Ora, claro que não – ela respondeu. – Já esperava por isso mesmo. E me chame de vovó. Você mora conosco agora.
− Sei... Avó Pixie...
− Vovó! – a velha insistiu com uma cara feia.
− Vovó Pixie – o cavaleiro cedeu. – Preciso falar com a senhora... A sós.
A velha mandou Faye para dentro da cabana, para preparar mais comida. Christian então falou:
− Titânia me disse que Faye... Que ela... Ela tem certos problemas com os outros faeries. Por quê?
− Isso é porque ela é uma mestiça.
− Mestiça? – o homem perguntou surpreso.
− Sim. Sua mãe era uma fada e seu pai um elfo-negro. Ela nasceu muito grande para uma fada e com a pele cor de cobre dos elfos-negros. Foi rejeitada pelos outros desde seu nascimento.
− E seus pais?
− O pai morreu numa batalha contra orcs invasores. A mãe ao dar à luz. – A velha suspirou ao lembrar-se da filha. – Faye teve muito azar, desde pequena. Foi uma benção dos deuses ela se tornar uma menina tão boa assim. Sempre descontraída e com um sorriso no rosto.
Christian sabia que aquilo era verdade. Desde o início percebera que a fada era diferente e também se interessara por sua personalidade. Não havia muitas pessoas tão sinceras quanto ela no mundo, humano ou não. Esperava que não houvesse problemas para ele ou a fada.
A resposta veio no dia seguinte.
* * *
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