4. SAFE & SOUND

Apenas feche seus olhos

O sol está se pondo

Você ficará bem

Ninguém pode machucá-lo agora

Ao chegar a luz da manhã

Nós ficaremos sãos e salvos

Eu estava encarando o homem à minha frente quase sem acreditar. Eu esperava algo bem diferente.

— Bem, o Eustass provavelmente já te conhece ou teria começado a sessão de reclamações. — Eu ri, voltando meus olhos para Law que tirava suas luvas e as guardava no bolso do jaleco. — Como eu disse, ele vai ficar bem, tem tudo o que precisa aqui no quarto. Creio que tenha conseguido aprender a ler os aparelhos no seu curto período no hospital...

Eu concordei com um pequeno aceno, encarando os caros e novíssimos aparelhos que monitoravam Kid.

— Ótimo. — Ele se voltou para mim, me entregando uma folha com a medicação, a dosagem, os horários e por qual via deviam ser administradas. — Vai se sair mais do que bem. E, se ele não te obedecer, tem minha autorização para sedá-lo ou dar alguma dolorosa injeção no rabo dele.

Eu ri vendo o meio rosto do Kid que não estava coberto por bandagens se contorcer em uma carranca. Law colocou sua mão em meu ombro, me encarando por alguns curtos instantes antes de exibir um pequeno sorriso.

— São bons rapazes, não se preocupe. Qualquer coisa pode me chamar, a qualquer hora e virei. — Ele me entregou um cartão. — Até breve, Merindah.

Eu sorri, o encarando enquanto ele saía do quarto, me deixando a sós com o Kid.

— Parece surpresa. — Ele me encarou enquanto eu puxava uma cadeira e me sentava ao lado dele. — Temos que conversar?

— Não necessariamente, eu vou esperar até você estar em melhores condições de responder meu interrogatório. — Eu sorri, olhando ao redor para os monitores antes de voltar meus olhos para ele e examinar rapidamente as bandagens no rosto e no ombro. — Por enquanto, eu vou deixar você descansar.

Eu sorri para ele, afastando algumas mechas teimosas de cabelo de seu rosto antes de me levantar. Kid me encarou por alguns instantes antes de virar seu rosto, fechando os olhos.

— Merindah? — Killer me encarou quando eu saí do quarto, fechando a porta atrás de mim.

— Ele está estável e eu tenho perguntas para o Dr. Law. — Eu sorri para ele antes de descer as escadas, encontrando Law na cozinha, pegando um café. — Doutor?

— Sim. — Ele se virou para mim, me entregando a xícara que ele tinha em mãos antes de pegar outra para si. — Tenho algumas recomendações extras que deixariam o Eustass irritado e, infelizmente, esse não é um bom momento para isso.

Eu ri e ele deu um sorriso, apontando para uma mesa onde nos sentamos.

— Primeiro, minhas recomendações como médico. — Ele tomou um gole do café, voltando seus olhos acinzentados para mim. — Eustass não é exatamente o melhor paciente que vai encontrar em sua vida. Ele vai reclamar, por vezes xingar e quem sabe até espernear, não espero menos de alguém tão infantil...

Law suspirou pesadamente e eu usei a xícara para esconder meu riso. Ele sempre foi tão contido, quase frio, mas ali parecia tão diferente, como se nosso paciente fosse capaz de tirá-lo do sério com apenas uma palavra.

— Nesses primeiros dias ele estará um pouco atordoado pela medicação. Espero que isso torne as coisas mais fáceis para você. — Ele exibiu um pequeno sorriso, passando a mão por seus cabelos pretos, as tatuagens em tinta negra se destacando. Um médico tatuado e de moral questionável e uma enfermeira bruxa, não é à toa que nos damos tão bem. — Agora, minhas recomendações como psiquiatra... — Law respirou profundamente, me encarando com seriedade. — Eustass provavelmente tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, muita hiperatividade. Junte isso com um humor terrível e tem um problema em mãos. Eu tenho total confiança em suas habilidades com medicina natural, então deixo em suas mãos toda e qualquer ajuda que possa oferecer a ele para a insônia e a hiperatividade, já que esse imbecil é derrubado por qualquer medicamento.

— Duas perguntas... — eu o encarei curiosa enquanto ele bebericava seu café. — Como assim provavelmente? E como a medicação o derruba?

— Não consigo passar tempo suficiente conversando com ele para ter um diagnóstico completo... Já deve ter notado que não nos damos muito bem... E, sinceramente, a essa altura da vida, um diagnóstico não faria diferença para ele. — Law deu ombros, girando a xícara vazia sobre a mesa. — Quanto a medicação... Qualquer calmante fármaco costuma ou o fazer dormir muito pesadamente, ou o deixa atordoado por dias. Faça dele seu ratinho de laboratório por alguns dias e tente descobrir se seus calmantes naturais terão efeitos mais brandos.

Eu ri ao vê-lo abrir um sorriso quase cruel antes que Killer se aproximasse e se sentasse junto de nós.

— E o que pode me dizer sobre o temperamento do meu adorável paciente? — eu apoiei meu rosto a uma de minhas mãos, encarando Law que pareceu pensar por um momento.

— Terrível é uma boa forma de classificá-lo. — as palavras de Law chamaram a atenção de Killer que continuou a mergulhar seu saquinho de chá. — Eustass é genioso, resolve tudo na base da violência ou do grito, é teimoso e irritadiço.

— Não é para tanto. — Killer o encarou com uma expressão divertida antes de voltar seus olhos para mim. — Ele é teimoso, eu concordo. Mas na maioria das vezes ele é apenas impaciente, mas é uma ótima pessoa. E não resolvemos tudo na base da violência.

Ele pareceu realmente ofendido com a última parte, o que me fez sorrir. Killer e Law tinham opiniões bem diferentes quanto ao Kid, o que me divertia. Eu não duvidava de nenhum dos dois, ele podia ser os dois, ter essa dualidade.

— Bem senhores... — eu me levantei, indo até a pia e colocando a xícara dentro dela antes que Law fizesse o mesmo e começasse e a limpá-las. — Obrigada. Acho que agora é um bom momento para ir dar uma olhada no meu paciente e ir descansar um pouco...

Os rapazes concordaram com um aceno antes que eu seguisse em direção ao segundo andar.

O quarto estava escuro e as máquinas que monitoravam Kid eram quase silenciosas. Ele estava adormecido, com o rosto virado para a janela e com meio corpo coberto. Eu suspirei, o encarando e tentando evitar aqueles pensamentos de que talvez essa situação fosse minha culpa.

Eu me aproximei, cobrindo um pouco mais seu corpo e passando a mão por seu rosto, afastando os fios rebeldes e aproveitando para olhar superficialmente sua temperatura antes de sair do quarto.

Ficar sozinha definitivamente não era a melhor opção para a minha saúde mental nesse momento já que a única coisa em que eu conseguia pensar era o que eu tinha feito de errado.

***

Como alguém pode ser tão caótico? Eu arrumei algumas coisas sobre a mesa antes de fazer uma rápida leitura dos aparelhos e me certificar de que meu paciente estava bem acomodado, respirando profundamente e saindo do quarto logo em seguida.

Aquela sensação de que essa terrível situação em que Kid estava era minha culpa ainda rondava a minha mente e agora acompanhada de mais algumas pequenas preocupações não me deixava dormir.

— Preciso de um chá... — eu desci as escadas até a cozinha, parando estática à porta ao ver a grande figura de coque loiro que usava uma samba-canção preta e uma camiseta azul com uma caveira. — Killer.

— Oi Merindah. — Ele se virou para mim, exibindo um pequeno sorriso no rosto um pouco vermelho. — Alergia, não tem com o que se preocupar. Aceita um chá?

— Por favor... Camomila se tiver. — Eu exibi um pequeno sorriso, me sentando e deixando minha cabeça descansar sobre a mesa.

— Tudo bem com o Kid? Normalmente não te escuto tão tarde. — Eu o espiei, vendo que ele ainda estava de costas para mim, distraído com as xícaras.

— Sim, ele está se recuperando bem. Melhor do que eu esperava até. — Eu suspirei, virando meu rosto para o lado oposto, pensando por alguns instantes. — Killer, posso te perguntar uma coisa? Duas, na verdade...

— Claro. — Ele se virou para mim, colocando as xícaras sobre a mesa e me encarando com os olhos azuis. — Quais são suas dúvidas?

— Por que vocês parecem sempre tão incomodados com a minha presença aqui? — eu o encarei e ele me pareceu levemente desesperado.

— Não é bem assim. — ele deixou sua xícara de lado por um instante. — Existem pequenas coisas sobre a gente que você não sabe e que explicam bem isso. E também, não estamos acostumados a ter uma garota andando pelo Q.G.

Eu revirei os olhos e ele riu.

— Vamos da parte mais fácil de explicar, nós. — Ele tomou um pouco do chá, abrindo um pequeno sorriso sem jeito. — Nossa noção de privacidade é... diferente. Nós entramos nos quartos sem bater, pegamos roupas emprestadas, dormimos em qualquer lugar... principalmente o Kid. Nos acostumamos assim. É claro que entendemos que se uma porta está totalmente fechada não devemos entrar, mas num geral...

— Acho que entendi. Fechar a porta para não ter surpresas. — Eu ri quando ele pareceu ficar um pouco mais vermelho.

— Outro ponto... Aestus e Mallacht. — Killer pareceu pensar por um instante em como abordar o assunto enquanto eu esperava com toda a impaciência que eu tinha a explicação pela qual os dois pareciam querer morrer sempre que eu aparecia. Ele suspirou pesadamente antes de continuar. — Aestus é gênero fluído e assexual e Mallacht é bissexual e tem um estilo de se vestir mais... feminino, não sei...

Killer massageou as têmporas antes de apertar a ponte do nariz, parecendo preocupado e incomodado. Eles estavam se 'escondendo' por minha causa.

— Acho que esse pode ser um bom momento para avisar que eu sou, literalmente, uma bruxa natural... e que não deveriam estar se importando com isso. A casa é de vocês, quem deveria estar se adaptando sou eu. — Eu sorri para ele, o vendo levantar os olhos para mim, parecendo surpreso antes de sorrir mais tranquilo.

— Obrigado. Vou falar com eles... — ele sorriu, bebericando o chá. — Ah, tem mais uma coisa... tenho que te explicar o incidente com o pijama, né...

Eu quero me esconder em um buraco. Dois dias antes, eu estava exausta e sonolenta, do tipo bêbada de sono, e desci até a cozinha no menor pijama que eu tinha por causa da noite incrivelmente quente e encontrei todos os rapazes na cozinha. Para o meu alívio eles sabiam disfarçar muito bem.

— Eu sei que isso não deve ser exatamente fácil para você, mas quanto mais confortável você se sentir e ficar, melhor para nós até o sistema de ar-condicionado voltar a funcionar... — Killer apontou com o polegar para o ar da cozinha, que tinha uma irritante luz vermelha que piscava sem parar. — Como eu disse, não estamos acostumados a ter uma garota aqui, então normalmente estaríamos andando mais à vontade...

— O quanto? — eu o encarei curiosa.

— Sem camisa, de samba-canção ou pijama e o Mallacht anda de box e com um roupão de seda... Algumas vezes o Kid anda só de cueca, mas bem... — ele deu ombros e eu ri. Meio que eu já tinha visto tudo do Kid.

— Eu posso ficar bem com isso. — Eu apoiei meu rosto a uma de minhas mãos e Killer sorriu concordando com um aceno.

— Eu não sei se isso é a coisa certa a se falar, mas enfim, se você se sentir confortável, pode ficar com seus pijamas... Nós meio que não ligamos muito pra isso... Porra, eu não sei mesmo explicar. — Eu não pude evitar rir da frustração dele.

— Tá tudo bem. Eu entendi... acho que posso testar por uns dias e se não me sentir melhor arrumo outras roupas. — Ele concordou com um aceno, sorrindo mais calmo.

— E qual é a sua segunda pergunta? — Killer bebeu mais um pouco do chá enquanto eu encarava minha xícara.

— Foi minha culpa? O que eu fiz de errado para eles nos acharem? — eu levantei meus olhos para ele.

— Nada! Merindah, isso não foi sua culpa, nem de ninguém. Essa coisa só é maior do que imaginamos. — Killer deixou sua xícara de lado e olhou através de mim para os computadores. — Nosso trabalho era apenas de descobrir e enviar informações pro nosso chefe de um esquema de tráfico humano e prostituição que estava prejudicando os negócios dele. O que pensamos ser apenas uma coisa local, se mostrou muito maior, internacional e foi isso que complicou tudo. O Kid te protegeu muito bem e seu trabalho foi ótimo, limpo e discreto, nem nós teríamos feito melhor.

Eu sorri, me sentindo aliviada. Era mais que bom saber que eu não havia cometido um enorme erro, de novo.

— Eu acho que pode ser uma boa ideia eu ir descansar um pouco... — ele sorriu para mim e eu concordei com um aceno, me levantando e deixando a xícara sobre a bancada antes de virar. — Boa noite e obrigado pela conversa.

— Por nada. — Ele acenou para mim, arrancando a camisa antes de ir para os computadores, me fazendo rir enquanto eu ia para o quarto.

Minha visão ainda estava turva, mas eu podia ouvir claramente um baixo e suave cantarolar no quarto. Eu pisquei algumas vezes, apenas então conseguindo distinguir melhor as cores em meio a penumbra do quarto.

Uma figura de cabelos esverdeados estava sentada na minha escrivaninha. Quem é o idiota que está mexendo nas minhas coisas?

Aestus entrou no quarto, segurando uma xícara e uma garrafa de água, me encarando e sorrindo antes de voltar seus olhos para a pessoa na escrivaninha.

— É, eu sei que ele acordou e que tá me olhando com essa cara... — a voz de tom melódico ecoou pelo quarto e me soou familiar. — Daqui a pouco ele dorme de novo...

Ele deixou as coisas sobre a mesa, acenando para mim e saindo do quarto com um sorriso divertido.

— E então como se sente? — a pessoa se levantou, arrumando algo sobre a mesa antes de finalmente se virar para mim. Eu pisquei meus olhos algumas vezes, me acostumando a meia luz antes que uma imagem clara se formasse a minha frente.

— Merindah... — eu a encarei surpreso enquanto ela sorria e se aproximava de mim.

— Eu mesma. — Ela se sentou ao meu lado na cama, acendendo o abajur e mais alguma luz auxiliar que o Law provavelmente arrumou pra ela. — Vou aproveitar que você parece mais sóbrio e vou refazer seus curativos...

— Pensei que tivesse ido embora. — Ela sorriu, começando a tirar as faixas e fazendo uma careta.

— Pro seu azar, não. Ainda vai ter que me aturar por um tempinho a mais. — Eu sorri antes de sentir uma pontada de dor. Nem quero ver a minha cara depois disso. — Não se preocupe, não estragou tanto esse lindo rostinho...

Eu ri, tentando mexer o mínimo possível o meu rosto antes de sentir um cheiro forte e sentir meu rosto queimar.

— Ai! Essa porra ar-de! — eu tentei afastar as mãos de Merindah do meu rosto, mas parecia que meu corpo não estava muito a fim de me obedecer. — Caralho! Vai botar fogo na minha cara desse jeito!

— Não seja tão dramático. — Ela riu, fazendo uma expressão doce que me irritou. — Estou apenas limpando. Ou arde agora, ou você fica sem metade de cara quando infeccionar... O que você prefere?

Ela riu da minha meia expressão mal-humorada antes de passar mais alguma coisa nos machucados e voltar a enfaixar meu rosto. Eu começava a me sentir uma múmia.

— Acho melhor você virar o rosto por enquanto, o que acha? — ela afastou os lençóis até um pouco acima do meu quadril, pegando uma tesoura. Eu suspirei, virando o rosto. Odiava admitir que ela estava certa, eu ainda não queria olhar para o que sobrou do meu braço.

— Caralho, mulher! — eu tentei me mexer, mas Merindah me segurou.

— Não se mexe, Kid! — quem ela acha que é pra me dar ordens? — Para de se mexer ou eu vou te colocar pra dormir!

Eu congelei. De novo não. Porra, como isso arde.

— Pronto. Nem foi tão ruim... — ela limpou as mãos, se levantando.

— Prefiro não comentar. — Eu voltei meus olhos para ela, a vendo olhar ao redor e fazer uma expressão de desgosto, curvando os lábios. — Eu sei o que você está pensando... deixa as minhas coisas quietas.

— Não dá pra trabalhar nessa bagunça. — Merindah se afastou, começando a mexer em algo, eu podia ouvir um barulho metálico.

— Claro que dá. Onde você acha que eu trabalho? Agora para de mexer em tudo. — Ela me ignorou e eu comecei a ficar preocupado. Eu não vou conseguir achar nada depois. — Cadê o Killer quando a gente precisa dele?

— Cozinhando, eu acho. — Ela se levantou, limpando as mãos na lateral do pijama. — Desisto. Acho que prefiro contratar uma faxineira... Vocês que estão pagando mesmo.

— Nem pense nisso! Já basta você mexendo em tudo. — Merindah foi até a escrivaninha, pegando um caderno, a xícara e a garrafa d'água, anotando algo enquanto saia. — Merindah!

Ela me ignorou com um pequeno sorriso e eu bufei enquanto encarava a porta.

— Ótimo, eu tô fodido! — eu encarei a porta por um momento a mais antes de virar meu rosto para a janela. — Merda.

***

— Quer sossegar? — Merindah se aproximou de mim, arrumando os travesseiros e verificando meus curativos antes de tomar o celular que eu tentava esconder dela. — Nada de trabalho.

— Não é trabalho. — Ela levantou uma das sobrancelhas, me mostrando a tela do celular onde eu conversava com Killer por mensagens criptografadas. — É apenas uma conversa casual.

— Você é um péssimo mentiroso. — Ela se afastou, deixando o celular sobre a escrivaninha. — Agora, faz o favor de ficar quieto.

Eu suspirei enquanto ela anotava algo em seu caderninho antes de sair do quarto.

— Pare com isso. — Killer entrou no quarto, me encarando e abrindo um sorriso ao ver minha expressão rabugenta. — Se obedecer a ela vai voltar ao trabalho mais rápido.

— Estou entediado, preciso de algo para fazer... — eu olhei ao redor, suspirando e isso pareceu o amolecer. Killer pegou o celular, me devolvendo antes de puxar uma cadeira para si e se sentar ao meu lado. — Obrigado.

— Só não trabalhe. Gaste o seu tédio assistindo algo. — Ele me encarou por um momento, seus olhos percorrendo a metade do meu corpo descoberto. — Como se sente?

— Pesado, mas melhor. — Eu mantive meus olhos no celular, procurando por algo. — Estou me adaptando, mas...

— Podemos trabalhar em um protótipo depois quando você estiver se sentindo melhor. — Ele virou para mim o tablet que tinha em mãos, me mostrando algum artigo que Haytham havia lhe enviado com próteses.

— Pode ser. — eu lhe oferecei um pequeno sorriso antes de voltar a fingir me distrair com o celular. Não queria pensar nisso, não agora.

— Vou deixar você descansar... — Killer se levantou, parando por um momento e encarando meu rosto. — A Merindah vai reclamar do seu cabelo.

— Provavelmente... — eu levantei meus olhos para ele, o vendo sorrir antes de sair do quarto.

Passei a próxima hora tentando me distrair com séries ou filmes, mas não conseguia me concentrar em nada. Os pensamentos gritavam na minha cabeça e isso começava a me enlouquecer. Eu precisava fazer eles se calarem.

— Eu não tinha tomado essa coisa de você? — eu tentei esconder o celular e Merindah riu. — Hm, vou ser boazinha e deixar ele com você, já que está sendo um bom garoto...

— Vai se foder, vai. — Ela riu, deixando seu caderno sobre a escrivaninha e se aproximando de mim. — O que quer agora?

— Olhar seus machucados... — Merindah se sentou, mexendo nos curativos. — Preciso dar um jeito nesse seu cabelo...

— Tem algo aqui que você não queira controlar? — eu sorri quando ela parou, me encarando com uma expressão um pouquinho irritada.

— Acha que eu estou tentando te controlar? — ela cruzou os braços em frente ao corpo e meu sorriso se tornou maior enquanto eu concordava com um aceno. Merindah balançou a cabeça, suspirando. — Vai dormir, vai. Você está começando a delirar.

Eu ri quando ela se levantou e foi para a escrivaninha, se sentando de costas para mim.

— Não respondeu minha pergunta. — Eu me ajeitei sobre a cama e ela me olhou sobre o ombro. Meus pensamentos se calaram enquanto eu pensava em como a tirar do sério. — Está fugindo do assunto.

— Vai dormir Kid. — Eu ri quando ela se levantou, se aproximando de mim com um sorrisinho. — Descanse... antes que eu resolva tomar sua única distração nesse quarto.

Eu apertei o celular em minha mão enquanto ela sorria e se afastava.

— Boa noite. — Merindah acenou para mim, saindo vitoriosa de nosso primeiro embate. Felizmente, eu estava disposto a mudar isso.



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