Capítulo 8
Camila
Depois de trabalhar oito horas e ficar praticamente o tempo todo em pé, meus pés estão queimando e eu estou exausta. Descanso contra o encosto do banco do carro enquanto Normani nos leva para casa.
– Vai ficar mais fácil, quanto mais você fizer. O seu corpo vai se ajustar por volta de uma semana mais ou menos. – Ela me diz.
Eu suspiro enquanto termino de contar o dinheiro que está em meu colo.
– Eu espero que sim. Parece que é muito trabalho por cinquenta dólares em gorjetas.
– Eu te disse que eu iria dividir a gorjeta da L. Eu ainda não consigo acreditar que ela deixou quinhentos dólares. Essa mulher tem uma queda por você. – Ela remexe as sobrancelhas. – O que aconteceu entre vocês duas? Eu pensei que vocês estavam se dando bem depois que ela te levou para fora na noite passada.
Coloco a mecha de cabelo que caiu do meu rabo de cavalo atrás da minha orelha.
– Eu não sei. Somos amigas, eu acho, mas..
– Você está tão atraída por ela que ofusca o seu julgamento?
– Não!
Normani revira os olhos quando ela vira para a próxima rua.
– Ah, qual é, Camila. Você está falando comigo. Tudo bem que ela é um mulher forte e sensual, eu posso acrescentar que realmente excita você. Eu acho que vocês não passaram muito tempo juntas, mas o que há entre vocês é intenso e devastador. Ela obviamente te quer.
Eu belisco meu lábio inferior entre os dentes. Embora eu não queira admitir exatamente o quanto eu penso nela fazendo isso e muitas coisas para mim, Mani está certa. Mesmo depois que ela deixou bem claro que não haveria futuro a longo prazo para nós, eu ainda não posso acreditar que estou mantendo a ideia de me relacionar com Lauren. Eu só não quero me machucar.
– Eu vejo seu olhar. – Diz Normani, me tirando dos meus pensamentos.
Eu faço uma careta e balanço a cabeça.
– Eu não tenho um olhar.
Ela levanta as sobrancelhas.
– Sim, você tem. E eu estou dizendo a você agora, Camila, você tem que aprender a se libertar de todas essas noções preconcebidas de que o sexo é ruim. O mundo inteiro não vai julgá-la por querer a Lauren. Metade do mundo quer um pedaço dela para si! Seja jovem. Tenha uma aventura. Ela é o sexo em pessoa!
– Mani! – Eu a repreendo.
– Não, Camila, foda-se. Eu quero que você admita não só para mim, mas para si mesma em voz alta que não há problema em querer ter um sexo louco antes do casamento com uma bad-girl.
– O quê? – Eu pergunto completamente pasma. – Quem diz a alguém para fazer esse tipo de coisa?
Ela sorri enquanto estaciona no meio-fio em frente à sua casa.
– Uma melhor amiga, que é quem eu sou. Agora diga isso.
– Normani...
– Camila, então me ajude, se você não deixar crescer um par de peitos de mulher adulta agora e admitir em voz alta o que realmente sente, eu vou enviá-la de volta para o tio Alejandro hoje à noite.
– Isso é tão ridículo.
Ela cruza os seus braços sobre o peito.
– Fala, ou não saímos do carro.
– Você é implacável. – Passo a mão no rosto e suspirou. – Tudo bem. Eu quero ter.
Ela aponta para eu continuar.
– Louco...
– Sexo louco antes do casamento com uma bad-girl. Ok, eu disse isso. Feliz?
Ela nega com a cabeça.
– Diga mais uma vez com sentimento, e admita que você quer que essa bad-girl seja a deusa do sexo da luta livre, L.
Isto é monstruosamente doloroso, mas eu sei que ela não vai dar por satisfeita até que ela ganhe. Essa é uma coisa sobre Normani! Ela nunca desiste, se ela acredita que tem razão.
Eu respiro fundo e fecho os olhos.
– Eu quero fazer sexo com Lauren.
No momento em que essas palavras deixam meus lábios, a vergonha que eu sei que eu deveria sentir por pensar essas coisas não está lá. É realmente o oposto. É bom finalmente tirar isso do meu peito, porque pelos últimos dois dias, isso é tudo o que tem estado em minha mente.
Normani bate palmas e grita.
– Você não se sente melhor?
Eu dou risada.
– Sim, eu realmente me sinto. Eu acho que você precisa voltar para a escola e obter um diploma de psicologia. Como você sabia que iria me ajudar?
– Eu sou uma estudante da natureza humana. Eu sabia que você queria aquela mulher dentro de sua calcinha no momento em que te vi lutar para conseguir sua bolsa de volta dela.
– Urgh. Ela pode ser tão frustrante. Ela ficou sob a minha pele tão rápido.
Ela ri enquanto abre a porta.
– É isso, Mila! É assim que eu sei que você gosta dela. Há uma linha tênue entre o amor e o ódio. Ambos causam ao seu corpo uma reação de certa forma similar. Cada uma dessas emoções criam sentimentos tão intensos que pode ser facilmente confundidos um com o outro.
– Eu nunca disse que a odiava. Ela só... Eu não sei.
Suspiro enquanto saio do carro, e nos dirigimos para a casa juntas.
– Uma pessoa como Lauren é um território novo para você. Eu aconselho uma aventura divertida com um bad-girl e não recomendo desenvolver quaisquer sentimentos por ela. Olhe para a bagunça entre Dinah e eu.
Minha curiosidade está de volta com força total.
– O que ela fez para aborrecê-la?
Ela balança a cabeça enquanto ela insere a chave na porta.
– Não vamos falar sobre ela. Dinah e eu somos passados. Não há necessidade de botar para fora detalhes chatos sobre algo que acabou.
– Ok.
Eu concordo, permitindo-lhe mudar de assunto. Eu deveria pressioná-la como ela me pressionou sobre Lauren, mas tenho a sensação de que ela não está pronta para falar sobre o que está acontecendo entre elas ainda. Assim, por agora, ela recebe um passe, mas se a tensão se mantiver entre elas no trabalho, então Normani vai ter que me contar tudo. Se Dinah fez algo horrível, eu quero odiá-la junto com ela e não continuar entregando as mensagens de Dinah.
No momento em que entro, eu ouço a tia Elisa nos chamando da cozinha:
– Ei, meninas! Como foi o trabalho?
Eu lanço minha bolsa em cima do balcão enquanto entro na cozinha.
– Foi ótimo. Todo mundo foi muito bom.
Tia Elisa olha por cima do pudim que ela está fazendo no fogão.
– Até Alice?
– Bem... – Eu faço uma careta. – Todo mundo, menos ela.
– Quando será que essa garota vai aprender a relaxar? Acho que ela precisa de umas férias.
Eu ri.
– Você parece Normani, falando assim.
– Correção. Você quer dizer que Normani parece comigo.
Normani move-se para a cozinha de pijama, passando os dedos por suas longas mechas escuras.
– Eu pareço como quem?
– Comigo. – Esclarece a minha tia.
Normani puxa algumas uvas da geladeira e joga uma em sua boca.
– Definitivamente não. Você não vai me pegar fazendo pudim quase meia-noite. Você é uma pessoa estranha.
Tia Elisa ri enquanto derrama o pudim em uma tigela de vidro.
– A mente criativa é sempre estranha, querida.
Normani senta-se sobre o balcão e balança suas longas pernas enquanto ela come as suas uvas.
– Mãe, adivinhe? Eu já consegui fazer com que a Camila admita que ela quer transar com Sra. Sexy.
Minha boca cai instantaneamente aberta, e Normani pisca para mim antes que ela jogue outra uva em sua boca. Eu nunca vou me acostumar como ela se abre com a tia Elisa.
– Boa escolha, Camila. Dei uma espiada lá fora quando ela te trouxe na noite passada. É uma bela mulher. – Tia Elisa lambe a colher antes de jogá-la na pia. – Quando você vai vê-la de novo?
Sacudo meus ombros.
– Eu não sei. Ela veio ao Larry hoje, mas as coisas não correram tão bem. – Ela inclina a cabeça e belisca o lábio inferior.
– Sinto muito, querida. Talvez tudo vá dar certo. Se ela for esperta, vai ver como você é especial e cair em si.
– Aí que está. Tenho certeza de que isso é tudo o que ela quer, para apanhar- me.
Tia Elisa atravessa a cozinha e para em frente a mim. Sua mão delicada afaga meu rosto.
– Eu não teria tanta certeza. Uma mulher como ela não tem que se esforçar para ganhar outras mulheres. Ela vê algo de especial em você ou então não estaria se esforçando.
Dou-lhe um sorriso triste.
– Ela me disse que não leva nada a sério com as mulheres.
– Talvez ela não esteja pronta para se permitir ter sentimentos por você, mas se ela a conhecer melhor, vai se sentir diferente. É impossível não amar você.
Ela beija minha bochecha, e pela primeira vez em muito tempo, sinto-me acolhida. Ela não me julgou quando eu contei a ela sobre o meu problema com Lauren. Em vez disso, ela me encoraja a me agarrar à esperança.
– Camila, por favor, pelo menos, pense em ligar para o seu pai. Ele sente sua falta.
Concordo com a cabeça, embora eu não tenha nenhuma intenção de falar com ele ainda.
– Tudo bem.
Ela acaricia meu rosto.
– Boa noite, meninas.
No momento em que a minha tia se tranca em seu quarto, ouço o som inconfundível de uma motocicleta parando do lado de fora.
Normani sorri.
– Adivinha quem é?
Eu mordo o meu lábio inferior, tentando esconder meu sorriso quando eu ando para a porta da frente e a abro, enquanto Lauren caminha na varanda de concreto.
– Oi.
Seus olhos verdes piscam de surpresa. Tenho certeza de que depois da forma como deixamos as coisas mais cedo ela esta se perguntando por que eu estou de repente tão feliz de vê-la. É incrível o que um pouco de pesquisa na alma e um empurrão de sua família pode realizar.
– Ei, Camila. Eu...Hum...Merda.
Lauren esfrega a parte de trás do seu pescoço e olha para o lado como se ela precisasse de um tempo para recuperar a compostura antes que seus olhos sejam capazes de olhar os meus novamente.
– Eu tinha cinquenta discursos diferentes preparados para você. Eu pratiquei no caminho, mas nenhumas das desculpas pareciam boas o suficiente. Nada que eu possa dizer vai fazer o que eu disse parecer menos do que uma merda, mas estou arrependida. Eu apenas pensei que você deveria saber.
Por alguma razão eu tenho a impressão de que este é um grande passo para Lauren. É bom saber que ela pelo menos, reconheceu que uma conexão entre nós era importante o suficiente para ela se importar se feriu meus sentimentos. Tenho certeza de que "desculpa" não é uma palavra habitual do seu vocabulário.
A súbita necessidade de confortá-la me oprime e eu chego e tocar a pele quente em seu antebraço.
– Eu sinto muito também. Eu não deveria ter forçado você.
Ela franze seus lábios em uma linha apertada.
– Não faça isso.
– O quê? – Eu pergunto, completamente surpresa e imediatamente puxo minha mão.
Esta não é exatamente a reação que eu imaginava quando eu me desculpei.
Os olhos de Lauren amolecem.
– Você tinha razão em dizer o que você disse. Eu sei que uso as mulheres, e eu tenho certeza que é provavelmente o que você acha que eu quero fazer com você, por isso não se desculpe por se defender. Nunca se permita ser usada, ou ser forçada a fazer algo que você realmente não quer. Não se desculpe por pedir respeito. Você merece.
Eu fico um pouco eufórica.
– Tudo bem. Vou me lembrar disso da próxima vez.
Sua boca puxa em um torto sorriso sexy.
– Da próxima vez? Você está dizendo que nós ainda somos amigas?
Eu ri e reviro os olhos.
– Sim, desde que as nossas regras de amizade ainda se apliquem.
– Ótimo. – Ela pega a minha mão, sem aviso ou pedido de desculpas, e me puxa para sua moto. – Então, nós vamos dar um passeio.
Eu puxo a porta que se fecha atrás de mim e a sigo. Isso é loucura. Eu nunca conheci ninguém ou tive uma amizade assim. Eu não deveria deixar isso continuar, porque eu sei que ela vai acabar quebrando meu coração. Se ela continuar sendo tão doce para mim, vou me apaixonar por ela. Nenhuma dúvida. Eu me conheço bem o suficiente para saber que, se isso continuar, vai acabar mal para mim, mas eu não tenho força de vontade para mandá-la embora. Eu quero estar perto dela, mesmo que isso nunca vá significar tanto para ela quanto para mim.
Lauren sobe na moto, estendendo a mão para mim com um sorriso enorme no rosto.
– Vamos, Camila.
E assim, eu sou um caso perdido. Estou muito encrencada. Montes e montes de problemas.
Passear pelas ruas na garupa da moto de Lauren é incrivelmente libertador. O vento passeia pela minha pele, e eu fecho meus olhos, descansando a minha bochecha contra suas costas. A musculatura ondula sob sua camisa, e o cheiro de seu perfume picante misturado com sabonete permanece em sua pele. Estar perto dela como agora, me faz esquecer todas as razões pelas quais eu deveria acabar com tudo isso que está acontecendo entre nós antes que fique muito complicado. A distância me dá clareza, a capacidade de ver que eu deveria ficar longe. Há apenas um problema: Eu não quero. Eu poderia ficar assim para sempre, o que é ruim, mas eu não me importo.
Lauren retorna ao estacionamento da mesma lanchonete que ela me levou na noite passada. As luzes da rua iluminam a área, e o neon na janela do restaurante brilha "Aberto 24h", convidando as pessoas com fome em todos os momentos do dia.
Lauren abaixa o apoio da moto com sua bota e depois desliza seus óculos de sol para o topo de sua cabeça.
– Eu espero que você esteja com fome.
Tomo sua mão e balanço a minha perna fora da moto, os músculos de minhas coxas ainda formigando por ter uma máquina tão poderosa vibrando entre elas.
– Faminta, na verdade. Meus nervos estavam muito agitados para comer em Larry durante o meu almoço. Além disso, eu não tenho dinheiro.
Ela franze a testa.
– Você mudou-se para uma nova cidade sem dinheiro?
– Eu não tenho dinheiro... não um monte dele. Eu sabia que podia contar com tia Elisa para comer até que eu começasse a ganhar algum dinheiro, então, realmente não é grande coisa. – Eu digo, tentando minimizar à situação.
– Não, Camila. Não comer é um grande negócio. Você é uma coisinha pequena. Se você não comer, você pode desmaiar e se machucar. A partir de agora, você come. – O tom autoritário de sua voz é impossível de perder. – E se você não tem dinheiro, você me chama. Entendido?
Meus lábios torcem enquanto eu tento descobrir por que isso é do interesse dela. Então, eu pulei uma refeição grande coisa.
– Você está sendo um tanto ridícula, você não acha? Eu não entendo por que você está transformando isso em uma 'coisa'.
Lauren desce da moto, e eu não posso deixar de notar o quão deliciosa ela está com os jeans que está vestindo.
– Vamos apenas dizer que eu sei o que é ter fome e fazer o que você tem que fazer, para comer. Alguém como você nunca deve ter que experimentar isso. A vida difícil pode tornar você uma pessoa dura.
Meus olhos vagueiam sobre os ombros esculpidos e viajam para baixo ao longo de seu torso. É difícil imaginar essa mulher bem alimentada passando fome, mas as palavras que ela disse indicam que teve que lutar.
– Deve ter sido difícil. Será que sua família...
Eu paro antes que minha mente curiosa intervenha e peça respostas que não são da minha conta. Uma onde de calor sobe pelo meu pescoço e no meu rosto, com certeza criando uma mancha rosada com o pensamento sobre minha atitude descarada.
– Desculpe. Não é da minha conta.
Quando tento desviar o olhar, Lauren desliza o dedo indicador embaixo do meu queixo.
– Você pode me perguntar qualquer coisa. Eu não posso prometer que eu sempre vou responder, mas você pode perguntar tudo o que quiser. Eu gosto de saber que você está curiosa sobre mim. Suas perguntas me permitem saber o que está dentro da sua cabeça. Mas você deve saber de antemão que eu não falo sobre a minha família.
Eu abro minha boca para lhe perguntar por que, mas acho melhor não. Provavelmente é mais inteligente honrar os seus desejos, porque eu, de todas as pessoas, sei que às vezes as famílias sugam muito de nós. Talvez ela esteja tentando esquecer seu passado assim como eu estou.
– Eu entendo.
Ela me dá um sorriso triste e pega a minha mão, me puxando em direção à entrada do restaurante.
– Espero que esteja tudo bem por vimos aqui novamente. É o único lugar que eu posso relaxar quando estou na cidade. É como...
– Um lar. – Eu digo, preenchendo a resposta para ela, depois de lembrar como foi fácil estar ao seu lado na noite passada. Após um momento de contemplação, ela acena com a cabeça.
– É... Algo assim.
No momento em que entro, noto que o lugar está vazio. Jude olha por cima da vassoura que ela está usando para varrer o chão e um enorme sorriso aquece o rosto dela.
– Rapaz, dois dias seguidos! O que eu fiz para ter tanta sorte? – Ela inclina a vassoura contra o balcão antes de caminhar até nós. Depois de um rápido abraço em Lauren, Jude volta sua atenção para mim.
– Eu acho que isso é um recorde. Joe, você está vendo isto?
Joe gira em torno da grelha que ele está esfregando.
– Eu vejo isso, mulher. Eu não sou cego.
– Ninguém pediu sua opinião. Volte para a limpeza. – Jude reclama com Joe.
Eu ri da brincadeira entre eles.
– Vocês dois tem um rolo?
Jude levanta as sobrancelhas e desliza os olhos para Lauren e depois de volta para mim.
– Quem? Eu e Joe? Aquele velho tolo quer!
Lauren balança a cabeça.
– Vamos lá, Jude, eu sei quando este lugar está parado, vocês dois aproveitam um pouco de tempo sozinhos dentro do armário de armazenamento. – Jude joga as mãos nos quadris.
– Lauren Jauregui, eu ainda posso te dar umas boas palmadas por falar comigo desse jeito.
Lauren inclina a cabeça para trás e solta uma risada profunda.
– Não é grande segredo a forma como você pensa Jude. Todo mundo sabe que você e Joe são um casal. – Jude cruza os braços sobre o peito.
– Eu não tenho ideia do que você está falando.
– Claro que não.
Não perco a piscadela que Lauren lança antes de me puxar para o mesmo canto da noite passada. Eu deslizo no assento em frente a ela.
– Por que eles escondem que estão juntos?
Lauren dá de ombros.
– Quem sabe. Eles são loucos, mas juntos eles funcionam. Não sei por que esconder. Eu os conheço há anos. – Eu descanso minha cabeça na minha mão enquanto me inclino.
– Como exatamente você os conheceu?
– Eu costumava trabalhar aqui.
Eu olho em volta para os assentos rasgados e chão quadriculado desgastado e tento imaginar Lauren trabalhando aqui. Eu não posso imaginá-la como algo além de um ícone poderoso da luta livre, por isso é difícil imaginá-la esfregando o chão e servindo refeições.
– Há quanto tempo foi isso?
– Quando eu tinha dezessete anos, Jude e Joe me ofereceram um emprego. – Ela responde enquanto Jude coloca dois copos de água na nossa frente.
– Vocês duas querem a mesma coisa que na noite passada? – Ela pergunta.
– Sim, eu quero. E você Camila?
Lauren pergunta e eu aceno.
– O mesmo que a noite passada, Jude.
– Farei isso, mas, desta vez, não deixe nenhuma pilha de dinheiro. Nós não queremos que você desperdice seu dinheiro conosco. – Ela aperta o ombro de Lauren.
– Fale por você! – Joe responde do fogão. – Ela pode me deixar todo o dinheiro que ela quiser. – Jude volta à cabeça em sua direção.
– Você vai conseguir outra coisa se não parar!
Joe roda uma toalha branca ao seu redor.
– Caramba! Só o que eu gosto de ouvir. – Jude revira os olhos e Lauren ri.
– Vocês dois me matam.
– Eu vou trazer sua comida assim que estiver pronta. – Diz ela balançando a cabeça e marchando em direção a Joe, que ela prontamente estapeia na parte de trás da cabeça.
– Eles são ótimos. – Eu digo.
Os olhos de Lauren se tornam quase nostálgicos.
– Eles realmente são. Tenho a sorte de tê-los.
Enquanto eu acho que é cativante que ela ame seus antigos colegas de trabalho, também quebra o meu coração. Quão mal deve ser a sua própria família para ela ser mais próxima de estranhos?
– Então você os conhece há onze anos? – Eu pergunto ainda curiosa sobre o seu relacionamento com eles.
Ela levanta a sobrancelha direita.
– E como você sabe disso?
O calor inunda meu rosto. Prendo a respiração.
– É matemática simples. Você disse que trabalhou aqui quando tinha dezessete anos, e eu sei que você tem vinte e oito anos... então eu percebi isso.
– Eu suspeito que você descobriu a minha idade a partir da Internet na pesquisa que você e Normani fizeram. – Ela torce seus lábios.
Eu reviro os olhos e respondo de volta:
– Assim como você pesquisou sobre onde eu estava hospedada quando você me deixou na noite passada. Eu não lhe dei o endereço.
Ela encolhe os ombros.
– Eu sempre procuro informações sobre as coisas que me interessam.
Tomo um gole de água para aliviar minha garganta subitamente seca.
– Você está dizendo que você está interessada em mim?
Ela olha diretamente nos meus olhos.
– Você sabe que eu estou. Mas eu nunca poderei me envolver com você, então, por essa razão, somos amigas. E isso é tudo o que sempre vai ser.
Eu não posso deixar de perguntar:
– Por que isso?
Ela lambe os lábios antes de roçar seus dentes superiores sobre o inferior.
– Eu sei que o tipo de relacionamento que eu gosto de ter com as mulheres nunca daria certo com você. Eu não posso simplesmente usá-la, Camila. Eu a respeito muito para isso.
Meu coração dispara em meu peito enquanto eu penso sobre o desejo que está se construindo dentro de mim. Desejo a Lauren. Eu sei que eu não a conheço há muito tempo, mas eu sinto como se nós estivéssemos passado muito tempo juntas. O pensamento de nunca chegar a descobrir o que uma noite com ela seria, me assusta, quase ao ponto em que eu estou disposta a dobrar minha própria moral apenas para descobrir.
– E se eu quisesse ter uma relação assim com você? – Lauren nega com a cabeça.
– Você diz isso agora, mas eu sei que você se arrependeria mais tarde. Meninas iguais a você são para compromisso a longo prazo. Isso é algo que eu não posso prometer.
– Você continua dizendo isso, mas eu não entendo por que você acha isso? Como você sabe que não é o meu tipo? Você não fez nada, além de me vigiar e me manter segura nesta nova cidade. Você é uma grande pessoa. Eu realmente gosto de você.
Ela franze a testa e puxa seus lábios em uma linha apertada.
– Você não deveria.
A intensidade de seu olhar me faz engolir em seco.
– Por quê?
– Há muito mais sobre mim do que apenas a pessoa que o público vê. Há uma escuridão dentro de mim que ninguém deveria ter que experimentar e é disso que eu estou tentando protegê-la. Ninguém deveria ter que viver com meus demônios além de mim.
A dura realidade me atinge. Há muita coisa sobre Lauren Jauregui que eu não sei. Algumas questões óbvias que ela está lidando. Ela se recusa a falar sobre a sua família, e acredita que é o mal de alguma forma. Com tudo o que está sendo dito, eu ainda sei que há muita coisa boa nela, mas não sei se ela vê isso ou não. Eu sou uma perfeita desconhecida, e ela esteve lá por mim desde que embarquei no avião em Portland. Ela só precisa ver que é uma pessoa legal e que não é completamente ruim como acredita que é, ela merece ser feliz também. Todo mundo merece.
Estendo minha mão para tocar a sua. Há um leve estremecimento, e sua expressão dura permanece, mas eu não puxo para trás. Eu quero que ela saiba que todos nós temos segredos que gostaríamos de esconder do mundo.
– Todos nós temos coisas que nos assombram, coisas que gostaríamos de esquecer. A chave é não permitir que eles fiquem no caminho da nossa felicidade.
Lauren passa a mão ao longo de seu queixo.
– Nem todo mundo está destinado a ter felicidade, Camila. Alguns de nós estão destinados a escuridão.
– Eu não acredito nisso.
Ela nivela seus olhos em mim.
– Isso é porque você tem um bom coração e gostaria de acreditar que todo mundo por dentro é uma boa pessoa. Eu sabia a partir do momento em que me recusou no avião que uma garota como você não é feita para uma mulher como eu.
Seu tom é para me assustar, eu posso dizer, mas ela está fazendo exatamente o oposto. Isso está me puxando em direção a ela. Dizendo-me para fazer ver que ela está errada.
Jude põe nossa comida em cima da mesa na nossa frente, redirecionando a atenção de Lauren e sua auto-aversão para o momento. Assim que o doce cheiro de panquecas flutua em torno de mim, minha boca se enche de água. Lauren não perde tempo atacando sua comida fumegante enquanto eu levo o meu tempo aplicando manteiga em minhas panquecas.
– Há quanto tempo você ainda fica com a gente, Lauren? – Jude pergunta enquanto ela encosta seu quadril contra a mesa.
– O resto da semana, e então eu tenho que voar para Atlanta para Tension Tuesday. Se tudo correr bem, eu vou caminhar para um combate pelo título em breve.
– Você certamente está subindo. Ouviu isso, Joe? Nossa menina está a um passo de ser campeã.
Ela fala por cima do ombro.
– Eu nunca tive dúvida que ela seria. Não depois da maneira que ela esmurrou metade da vizinhança por aqui. – Joe ri enquanto se inclina sobre o balcão e olha para o teto com um brilho nostálgico no olhar.
— Você disse a sua namoradinha aqui sobre a primeira vez que nos vimos? – Lauren engole sua comida.
— Somos apenas amigas. E não, eu não disse a ela. Ela não precisa saber sobre isso.
— Ah, vamos lá, L. É engraçado agora. Você não é a mesma garota punk que veio aqui pela primeira vez. Vá em frente, diga a ela. Ela vai se divertir com isso. – Diz Joe, a provocando.
Essa minha curiosidade traquina ressurge novamente, e eu me junto a provocação de Joe, desesperada por qualquer vislumbre do passado desta mulher. Desesperada para conhecê-la melhor.
— Por favor?
Ela nega.
— Eu era estúpida. Não vale a pena relembrar.
— Não vale a pena relembrar? Cara... – Jude o corta.
— Calado, Joe. Se Lauren não quer contar para esta menina sobre seu passado, deixe pra lá. Tenho certeza de que ela tem suas razões, mesmo que esteja orgulhosa de ter dado a volta por cima.
— Bem, se Lauren queria manter segredos dela, ela não deveria tê-la trazido aqui. A menina, de qualquer forma, vai descobrir mais cedo ou mais tarde.
Lauren esfrega a mão sobre o rosto.
— Tudo bem. Tudo bem. – Ela vira seu olhar de volta para mim. — Quando eu tinha dezessete anos, eu roubei esse lugar. Eu estava com fome, precisava de dinheiro e ele parecia ser um bom alvo, já que ficava aberto até tarde. Eu só não previ o velho homem ali levando a melhor sobre mim. Uma vez que Joe me pegou, tudo estava acabado. Sem fuga. – Eu recuei. Isso não é exatamente uma grande história. Isso é triste e trágico, para não mencionar incompreensível, desde que eu sei que ela trabalhava aqui.
Olhando para ela agora e tentando imaginar a jovem que deve ter sido no limite da fome, sentindo necessidade de recorrer a um ato tão violento que faz meu coração doer. Mesmo que eu não a conheça há muito tempo, sinto que ela não tolera piedade, então eu faço o meu melhor para manter a minha cara séria enquanto pergunto:
– Eu pensei que você tivesse dito que trabalhava aqui.
– Eu trabalhei.
Meus olhos voam para Jude e depois voltar para Lauren.
– Você roubou seus próprios empregadores?
– Querida, ela não trabalhava aqui quando ela fez isso. Foi assim que ela conseguiu o emprego. – Jude diz enquanto ela dá um tapinha no ombro de Lauren.
Minha testa formou vincos quando a franzi.
– Eu acho que estou confusa. Por que você iria dar-lhe um emprego se ela tentou roubar você?
– A menina estava com fome. Todos nós fazemos coisas loucas quando não temos outra escolha. Imaginamos que a lei não faria nada para ajudar esta menina, só iria corrompê-la a jogando na cadeia. Então, em vez de chamar a polícia, nós lhe oferecemos um emprego.
Meus olhos derivam ao longo de Lauren e ela franze a testa quando mede minha reação. Isso explica a sua aspereza. Ela era uma menina de rua. Crescer para ela não foi fácil... Eu não sei o que experimentou com sua família, mas o que quer que fosse era ruim o suficiente para que ela ainda não quisesse discuti-lo. É óbvio que eles a maltrataram, mas gostaria de saber em que medida.
Eu endireito os ombros e dou a Lauren um pequeno sorriso, tentando tranquilizá-la que isso não influenciará a minha opinião sobre seu caráter.
— Parece que você estava certa, Jude. Ela parece ter se dado muito bem.
Um lampejo de alívio cobre a sua expressão estoica enquanto Jude diz:
— Eu concordo. Ela deu a volta por cima. A parte mais difícil foi...
Lauren a corta.
— Está ficando tarde, e devemos realmente ir. Quanto lhe devo?
— É por conta da casa. – Jude responde enquanto reúne os pratos vazios.
Lauren revira os olhos e pega a carteira, colocando algumas centenas na mesa novamente.
— Lauren, não deixe esse dinheiro...
Lauren levanta e envolve um braço em volta dos ombros de Jude.
– Não seja um pé no saco. Pegue o maldito dinheiro.
Ela cede contra Lauren.
– Você sabe que não tem que fazer isso toda vez que vem aqui. Adoraríamos se você ainda estivesse quebrada. – Ela beija o topo de sua cabeça.
– Eu sei. – Ela libera Jude e estende a mão para mim. – Pronta?
Com a moto rugindo, a viagem de volta para a tia Eliza é tranquila. E requer cada centímetro do meu autocontrole reprimir todas as minhas perguntas sobre o seu passado. Eu quero tanto saber sobre ela que dói fisicamente.
Lauren estaciona sua motocicleta ao lado do meio-fio e desliga o motor. Depois de tirar os meus braços de sua cintura, eu desço da moto e lhe entrego o capacete.
Ela passa a perna por cima da moto, e eu levanto as sobrancelhas. A expressão no meu rosto deve mostrar minha surpresa, porque ela ri quando ela diz:
– Relaxa, eu só estou caminhando com você até a porta. Muitos caras indesejáveis andam por aí à noite.
– Você está no 'modo guarda-costas'?
Outra risada faz com que seus olhos enruguem os cantos quando ela dá de ombros.
– Você pode me culpar que eu queira proteger este seu corpo pequeno e quente?
Suas palavras me fazem corar e correr os dedos pelo meu cabelo, desesperada para tirar a atenção de minhas bochechas avermelhadas. É louco como estas pequenas frases simples dela fazem meu coração vibrar.
Ela pega a minha mão e me puxa em direção à porta da frente.
– Qual o horário do seu turno amanhã?
– Começa às quatro.
Ela morde o lábio inferior enquanto pisa na entrada.
– Você quer sair depois do trabalho?
A única coisa inteligente para eu fazer é sair dessa agora. Nós duas sabemos que este nunca pode ser um relacionamento de longo prazo, uma vez que ela está saindo em breve, mas eu não posso me manter longe da tortura que eu sei que está por vir.
– Eu gostaria disso.
O sorriso de Lauren se alarga.
– Ótimo. Eu virei para o Larry buscá-la. Que horas acaba o seu turno?
– Onze.
Isto parece um encontro, e eu sei que não deveria ter esperanças, mas eu não posso negar a euforia pura que me engole com a ideia de passar mais tempo com ela.
– Eu vou buscá-la depois. – Seus olhos derivam para baixo, para os meus lábios.
– Tudo bem. – A minha boca me trai e, ignorando completamente uma de nossas regras de amizade, eu a abro deixando claro o que eu queria.
Meu coração ressoa em meu peito. Oh, meu Deus. É isso. Eu finalmente vou sentir seus lábios nos meus. Eu fecho meus olhos. O calor de sua pele me rodeia, e meu peito se ergue. Eu quero isso mais do que eu posso até mesmo expressar, e eu não posso esperar para finalmente passar para o próximo nível com ela.
No momento em que seus lábios tocam contra a minha testa, meus ombros caem, enquanto as minhas esperanças são imediatamente esmagadas. Lauren ri, sabendo que ela está me provocando enquanto ela se afasta.
– Eu acredito que 'nenhum beijo de língua' era sua regra, não minha.
Eu torço meus lábios e luto contra a súbita vontade de me chutar. Minhas estúpidas regras de boa menina estão voltando para me dar um tapa na cara.
– Certo. – Eu suspiro.
– Vejo você amanhã. – Diz ela, enquanto ela pressiona seus lábios na minha testa novamente.
– Boa noite.
Ela se afasta sem dizer uma palavra, e meu corpo inteiro cede. Quando ela se vira e volta em direção a sua moto, meus olhos se concentram imediatamente em sua parte traseira. Não há como negar que a mulher tem uma bunda maravilhosa. Eu acho que nenhuma pessoa no mundo iria discordar de mim sobre isso. Mas, assim como a maioria das coisas perigosas, é proibido por uma razão e eu não posso me permitir ser arrastada no que parece ser o início de um romance épico. Suas palavras de advertência deveriam ser suficientes para me assustar, mas elas não são. Não há como lutar contra essa atração que sinto em relação a ela, não importa o quão tola eu sei que eu estou sendo.
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