Capítulo 5 - A Viagem (PARTE 2)
— Acho que nós chegamos. — Eu disse, reconhecendo a casa pela foto que o Amor tinha colocado no arquivo da missão.
Anlyn parou o carro em frente à casa, seu rosto demonstrava a sua admiração.
— Uau, o Amor está nos castigando ou nos premiando? — Ela indagou, saindo do carro para poder admirar a casa.
O imóvel tinha dois andares e uma sacada. A casa era branca, bonita e apesar de não demonstrar tanto luxo quanto Anlyn fez exageradamente parecer, era uma moradia que estava em um patamar elevado para Almas como nós.
— Nenhum dos dois. Ele nos deu uma segunda chance de não estragar tudo.
Abri a porta do carro e parei ao lado dela, ambas olhando para aquela casa ainda sem acreditar que estávamos sem poderes no meio dos humanos.
— Pois eu vou usar essa chance para aproveitar todo esse luxo. — Anlyn piscou para mim e se virou na direção do porta malas do carro. Fiquei ali parada sem acreditar.
— E a sua missão?
— Acha que eu quero ser exilada? Eu vou cumprir com a minha missão, só estou dizendo que não há mal algum aproveitar um pouco esse luxo todo. — Ela deu de ombros enquanto retirava as suas bagagens. Retirei as minhas também e as guardei enquanto Anlyn colocava o carro dentro da garagem.
A casa por dentro já estava mobiliada e abastecida com comida, o que fez o estômago de minha companheira roncar. Ela correu para a cozinha enquanto retirava alguns ingredientes da geladeira para fazer um sanduíche.
— Vai querer? — Anlyn perguntou, com os olhos brilhando de empolgação — Tem até queijo provolone!
— Faz um para mim, por favor.
Fui para o meu quarto no andar de cima checar se todas as minhas bagagens estavam ali e aproveitei para deitar na cama e refletir sobre tudo. Antes de chegarmos aqui, o Amor tinha se encontrado conosco uma última vez para esclarecer algumas coisas sobre a missão, e enfatizar uma das principais regras impostas:
Não se apaixonar por um humano.
"Almas não se apaixonam por humanos", disse ele. "Elas fazem outras pessoas se apaixonarem".
Se nos apaixonarmos, mesmo que completemos a missão, seremos exiladas. O Amor deixou isso bem claro para nós de manhã.
Para ser sincera, eu não tenho medo de me apaixonar. Sei que não vou me envolver emocionalmente com ninguém aqui ao ponto de deixar isso acontecer. Acho que essa é uma das vantagens de entender bem como funciona o amor de forma teórica. Eu só vou me apaixonar se permitir que isso aconteça.
— Lyra, seu sanduíche está pronto. — Anlyn colocou a cabeça para dentro do meu quarto. Ela segurava um pratinho com um sanduíche em uma mão e um copo de suco de laranja na outra.
— Obrigada.
Segurei o prato e apoiei o copo na mesinha de madeira que estava do lado da minha cama. Dei uma mordida no sanduíche e saboreei uma das melhores comidas que eu já tinha experimentado.
Anlyn se sentou ao meu lado, com seu sanduíche pela metade. Ela me observava atentamente, eu já tinha reparado que ela gostava de observar as pessoas, algo que eu acho meio constrangedor.
— Gostou? É um sanduíche de queijo provolone derretido.
Assenti com a cabeça de forma afirmativa umas cem vezes, enquanto comia com uma voracidade absurda. Eu não tinha percebido o quanto estava faminta.
— É maravilhoso! Acho que quando voltarmos eu vou abrir um comércio para vender esses queijos lá no nosso planeta.
— Vai fazer um sucesso tremendo! — Anlyn exclamou, aprovando a ideia. Ficamos em silêncio por um tempo, apenas saboreando nossos respectivos sanduíches.
— Amanhã é o meu primeiro dia de aula. — Eu disse, sentindo como se meu estômago fosse embrulhar.
No meu planeta temos aulas parecidas com as da Terra, a diferença é que além de estudarmos todos os idiomas, nós estudamos para sermos cupidos formados nas artes do Amor. Eu tinha um vasto conhecimento sobre matemática ou física, mas não sabia nada sobre o quesito socialização.
Eu sabia que Anlyn também se encontrava tão apreensiva quanto eu. Por mais que ela saiba melhor do que eu como fazer amizade com humanos, eu sentia que a garota não estava tão confiante quanto gostava de aparentar. Acho que ter seu coração partido pelo Rewick pode ter influenciado isso.
— Eu vou lá para o meu quarto agora ler um pouco o arquivo da minha missão. Eu nem sei direito com o que vou trabalhar, não faço a mínima ideia de como o Amor me arranjou esse emprego. — Ela disse, com um sorriso cabisbaixo no rosto. Senti vontade de aborda-la sobre Rewick, mas fiquei com medo de que ela não gostasse.
— Vou ler o meu arquivo depois que eu tomar um banho.
— Se precisar de dicas sobre quais cantores ouvir, eu sou a pessoa certa.
— Eu com certeza vou precisar.
Nós duas sorrimos brevemente uma para a outra. Anlyn saiu do meu quarto levando seu prato vazio e seu copo.
Lavei tudo o que tinha usado e tomei um banho depois. Caminhei para a sacada do meu quarto e observei o movimento na rua, que já era mais intenso do que quando chegamos. As pessoas caminhavam de um lado para o outro, algumas apressadas, outras andando devagar. Como a nossa rua não era uma estrada principal de carros, o fluxo de veículos não era tão intenso.
Me virei para o meu arquivo, sem nenhum pingo de força para lê-lo. Eu já tinha lido aquelas páginas tantas vezes que não aguentava mais olhar para ele, eu já sabia tudo o que eu precisava sobre a missão.
Liguei o celular que eu usava na Terra e conectei o wi-fi da casa. No arquivo da missão tinha o login e a senha, caso precisássemos acessar a internet, o que Anlyn gostou muito de saber e não deixou de comentar de forma eufórica sobre. Pela sua reação, acho que ela ainda não tinha lido seu arquivo todo.
Digitei na busca do Youtube "Ariana Grande" e dei play na primeira música que apareceu. Eu gostei tanto das músicas que ouvi que pedi para Anlyn me ensinar a baixar músicas, o que fiz com frequência depois de ter aprendido como fazia. Baixei algumas músicas da Ariana, e acabei baixando outras que apareceram na playlist automática.
Já era de noite quando Anlyn apareceu no meu quarto com seu celular na mão.
— Precisamos fazer nossos perfis nas redes sociais! — A platinada exclamou, elétrica.
— Por que precisamos disso?
— Todo o mundo tem Facebook hoje em dia, maninha. — Anlyn se sentou de frente para mim na cama e pegou o celular de minha mão.
— Por que você está me chamando assim?
— Nós somos irmãs aqui, esqueceu? — Ela me lançou um olhar breve antes de se voltar para o meu celular — Precisamos fazer Facebook e Whatsapp pelo menos, vai ser bom pra gente se socializar com a galera.
Hesitei, ponderando se realmente valia a pena perder tempo fazendo isso tudo.
— Não sei se é uma boa ideia.
Anlyn me ignorou, enquanto eu esticava o pescoço para ver o que ela estaria digitando avidamente em meu telefone.
— Você pode começar a pesquisar sobre a sua escola, é bom estar preparada para o que está por vir. Nós precisamos agir com naturalidade, já somos estranhas o bastante por aqui, você mais ainda porque nunca teve contato direto com um humano.
— Nossa aparência é tão estranha assim?
— Lyra, nós duas temos cílios e sobrancelhas brancas, isso por si só vai gerar um rebuliço danado. Quer mesmo ser taxada como a garota estranha que não tem redes sociais e pinta os cílios e a sobrancelha de branco? — Anlyn indagou, me olhando firmemente com seus olhos azuis.
— Não! — exclamei, sentindo-me uma idiota quando encarei o meu reflexo no espelho e reparei que tanto meus cílios quanto sobrancelhas eram brancos, e não pretos como o dos humanos que eu tinha visto.
Pelo amor do Limbo!
— Pois bem! Nessa missão nós teremos que nos enturmar, não tem jeito.
— Tudo bem, como fazemos isso? — A garota em minha frente levantou uma das sobrancelhas e sorriu como se já tivesse pensado em tudo.
Anlyn e eu ficamos mais de duas horas montando nossos perfis no Facebook. No Whatsapp foi um pouco mais fácil, tirando a parte que nenhuma das duas tinha fotos para colocar no perfil.
Em meio a risadas e a uma pizza de mussarela que eu gostei muito de ter experimentado, tentamos tirar fotos uma da outra com nossos celulares.
— Eu estou parecendo uma alien com essa sobrancelha! Olha isso! — Anlyn apontou o celular dela para mim de forma teatral. Eu ri porque Anlyn estava muito mais bonita do que eu em todas as fotos que tentamos tirar.
— Mas você tá linda nessa foto, Lyn.
— Não tô nada, apaga essa foto e finge que ela nunca existiu.
Revirei os olhos que de relance captaram uma parte do arquivo da minha missão. Um sorriso se abriu em meu rosto com a revelação que eu tive ali.
— Tive uma ideia!
Puxei Anlyn pela mão e subi a escada que nos levava até o sótão da casa. Tinha uma portinha que abria para cima que dava acesso para o terraço — eu realmente tinha lido o arquivo inteiro, nele tinha uma planta da casa — e a vista era estonteante.
O céu negro estava cheio de estrelas naquela noite. A lua cheia parecia imponente e intimidadora daquele ângulo. Fui recebida por um vento refrescante que sacudiu os meus cabelos e me fez relaxar.
— Uau. — disse Anlyn, encarando a visão que tínhamos do céu e de grande parte da cidade.
Coloquei Anlyn numa posição que pegava parte do céu e da cidade iluminada e bati a foto. Os cabelos lisos e platinados de Anlyn faziam um contraste intrigante e bonito com a paisagem do terraço. Ela amou a fotografia.
Tiramos mais algumas fotos ali no terraço, e com a ajuda de Anlyn, consegui escolher a foto que usaria em meus perfis.
Nós não tínhamos amigos, e isso era meio estranho. Tivemos a ideia de adicionar algumas pessoas aleatórias, a maioria aceitou nosso convite rapidamente. Apesar de ainda ser estranho termos poucas pessoas no Facebook — principalmente quando uns caras estranhos começaram a dar em cima da gente no privado — seguimos com o plano das redes sociais.
Já era bem tarde quando fomos dormir. Apesar de louca e espevitada, Anlyn parecia ser uma garota legal. Queria que ela pudesse ir comigo para a escola amanhã, seria muito melhor para mim se eu tivesse alguém conhecido para estar ao meu lado lá. Quero começar o quanto antes a minha busca, só fico com medo de não conseguir achar ninguém que valha a pena juntar naquele colégio.
Eu tenho que criar um plano de ação para concluir essa missão com êxito. Eu preciso provar para os engomadinhos do Conselho de que eu sou capaz de fazer um casal de jovens se apaixonar. Eu não vou mais deixar que os meus fracassos definam o meu destino.
Não mesmo.
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