Capítulo 4 - A Sentença
A Área Sombria se tornou um tipo de refúgio para mim. Além de ser totalmente inexplorado por conta das Criaturas da Noite, eu sentia que tinham muitas coisas a respeito desse lugar que eram desconhecidas até mesmo pelo Conselho. Além disso, eu sabia que eles não compartilhavam conosco todas as coisas que sabiam sobre esse lugar.
Slahath acredita que eles tenham feito a Área Sombria para jogar as Almas desajustadas e as criminosas. Nosso planeta sempre foi metade dia e metade noite, mas a Barreira Mágica pode ter sido criada pelo próprio Conselho para barrar a fuga das Almas exiladas.
O pouco que eu sei sobre o local, é que além das coisas ilegais e perigosas ficarem daquele lado, tem muitas outras coisas importantes ali que podem estar escondidas por algum motivo.
Das últimas cinco vezes em que eu morri e fui parar do outro lado, Slahath e Hahue me ajudaram e me acolheram. Eles sempre deixavam um manto por perto para que eu pudesse me aquecer da brisa fria, e me levavam em segurança para a Barreira Mágica.
Nós lutamos contra várias Criaturas da Noite, e Hahue passou a admirar a minha habilidade com o arco e flecha.
Na última vez em que estive lá, fiquei mais tempo do que eu poderia.
Eu tinha acabado de vestir um manto negro muito quente e aconchegante. Hahue estava cortando madeira em um canto e Slahath afiava algumas lanças. Assim que os dois me viram, me olharam como se não acreditassem que eu realmente tinha morrido outra vez.
— Viram um fantasma? — Me aproximei dos dois e me sentei em um toco de árvore que estava próximo a Hahue e Slahath. Esse último agora acendia uma fogueira, e eu fiquei mais do que grata a ele em poder aquecer as minhas mãos.
— Você é quase um, vive morrendo...
Revirei os olhos para a piada de Slahath.
— Obrigada pelo manto, ele é bem quentinho e confortável. — agradeci ao Hahue, já que era por causa dele que eu ainda não tinha morrido de frio ali.
— A Dellyn tinha muitos mantos assim porque ela era muito frienta. — O coala respondeu, com um olhar de tristeza e saudade no rosto.
— O que aconteceu com ela?
O medo de tocar em um assunto delicado me fez ver que eu não devia mesmo ter feito aquela pergunta. Hahue parou de cortar a lenha e me encarou com um semblante cheio de tristeza.
— A Dellyn me salvou, literalmente. Eu fazia parte da Guarda, mas fui banido para a Área Sombria há uns dois anos. Quase fiquei louco com o Monstro da Sanidade que me tocava, e ela apareceu e o trancou em uma caixinha que eu nem sabia da existência. Ela era uma Alma banida como eu, e me contou que já estava há 30 anos vivendo no meio da escuridão. Nós viramos amigos e ela me trouxe para essa casinha. Vivemos tranquilamente por quase 10 anos, até que uns Guardas que vieram jogar uma Alma no Limbo a mataram como se ela fosse um lixo. — Ele abaixou a cabeça e ficou encarando um pedaço grande de madeira que estava em sua mão. Mais uma vez, me senti triste por ele. Dava para sentir o quanto ele deve ter se sentido mal e impotente por não ter impedido, e isso partiu meu coração.
— Você... Você a viu morrer?
— Sim. Um dos Guardas era o mesmo sádico que me jogou aqui. Não se engane, Lyra. Não são todas as Almas que vão para o Limbo. Tem outras que são jogadas no meio das Almas Atormentadas. A Dellyn era uma pessoa maravilhosa, e olha o que fizeram com ela. O Conselho não liga para isso aqui, não liga para nós.
— Ele também não liga para você, Lyra. — Slahath acrescentou, de modo sério. Seu olhar penetrante me fez estremecer de medo.
— Eles estão no meu pé porque eu tenho fracassado muito. Tenho certeza de que eles vão me mandar para cá também, ou vão me jogar no Limbo ou exilar a minha alma no meio de toda a população de nosso planeta.
— Por que você acha isso?
— Porque me advertiram. Disseram que se eu morresse de novo que fariam uma audiência comigo.
— Bando de pestes! — Hahue exclamou, jogando o pedaço de madeira longe, irritado.
Slahath se aproximou de mim e colocou sua mão sobre a minha. Ele olhou no fundo dos meus olhos como se me dissesse que me manteria segura caso algo acontecesse. Esse gesto me fez perceber que pela primeira vez em minha vida eu não estava sozinha.
— Lyra, eu não vou deixar nada de mal te acontecer, eu prometo.
Apesar de saber que não tinha muita coisa que ele poderia fazer por mim do outro lado, eu me senti confortada e aliviada em ver que tinha alguém disposto a me proteger.
Abri um sorriso repleto de gratidão para meu amigo. Senti vontade de tocar em sua cicatriz e perguntar onde ele a tinha conseguido.
— Essa cicatriz é resultado de uma luta com três Almas Atormentadas. — disse ele, respondendo meus questionamentos internos.
Ficamos os três em silêncio por um tempo, ambos perdidos em nossos próprios pensamentos.
Hahue me ofereceu um chá, e depois disso eu parti.
Fui até o Conselho redigir mais um relatório das minhas falhas. Dois dias depois eu recebi uma intimação deles me chamando para a audiência.
E aqui estou eu.
— Eu já disse que não tive ajuda. Tem placas indicando o caminho de volta. Eu cruzei com algumas Almas Atormentadas sim, só que eu consegui despista-las. Posso não conhecer bem a Área Sombria como um Guarda, mas sei me virar.
— Acreditaremos em você. — Ansel abriu um sorriso que não chegou aos seus olhos.
Não acreditarão, não.
Taylyn e os outros membros do Conselho se levantaram.
— Agora iremos nos reunir para definir a sentença de vocês.
O Conselho e o Amor se retiraram para uma salinha a prova de som que fica no fim do auditório. Cada minuto que eles passavam lá dentro a minha agonia aumentava. Eu consigo me lembrar bem do quão aterrorizante as Criaturas da Noite podem ser. Sei que posso me tornar uma delas também.
Meu coração se retorce de medo só em pensar no que me aguarda.
Anlyn ao meu lado parecia nervosa também. Ela esteve entediada e impaciente antes da audiência começar e agora exibia uma expressão de tristeza. Acho que ela ainda absorvia o fato de que Rewick era um canalha que não tinha movido uma palha para defendê-la durante a audiência.
Quando a porta da salinha se abriu e todo o Conselho e o Amor reapareceram em nossa frente, eu achei que fosse desmaiar. Meu corpo tremia tanto que por um momento eu pensei que estivesse frente a frente com uma Criatura da Noite de novo.
— Nós já temos um veredito. — Taylyn tinha no rosto um semblante desgostoso, seja lá o que tenham decidido, não foi com a aprovação dele.
— Anlyn e Lyra, devido aos fatos apresentados aqui hoje, o Conselho não teve dúvidas de que nenhuma das duas está apta para trabalhar conosco. Nossa decisão seria jogar as duas no Limbo amanhã pela manhã. — Ansel disse, com o rosto fechado e repleto de insatisfação — Porém o Amor, com sua bondade infinita, interveio com uma nova missão.
Eu e Anlyn nos mexemos na cadeira, ansiosas pelo que viria.
Pela primeira vez desde que chegou, o Amor se pronunciou:
— Anlyn e Lyra, vocês duas irão para uma última missão no Brasil, só que diferente das missões originais, vocês irão como humanas. Anlyn, você será a irmã mais velha de Lyhua. A sua missão é proteger o relacionamento de um casal que está prestes a se divorciar. Eles ainda não comentaram sobre o assunto, mas o casal tem brigado constantemente. — O Amor se virou para mim sem se importar com a careta desgostosa que surgiu no rosto da garota — Lyhua, a sua última missão é juntar um casal de jovens da escola em que será matriculada. Ambas terão que se misturar com os humanos. Usem suas estratégias, mas lembrem-se de que não terão suas ferramentas de trabalho à disposição.
— O que? — perguntei, me sentindo atordoada com aquela missão.
Se com meus poderes eu não consigo fazer um casal durar, imagina sem!
— As duas terão um ano para cumprirem com a missão. Quando o prazo acabar, vocês voltam para cá. Se fracassarem, suas almas serão exiladas para sempre na frente de todos. — Anlyn e eu nos entreolhamos, boquiabertas.
Não é possível que isso esteja acontecendo. É como se eles estivessem prorrogando um destino que não pode ser evitado.
Estou feliz de ter a oportunidade de tentar salvar o meu pescoço de morrer para sempre, só que eu acho que essa missão vai ser praticamente impossível de ser cumprida.
— Ou seja, vocês não terão uma segunda chance. — Ansel completou, dando uma piscadela para nós. Cretina.
— Deixarei todos os detalhes e informações pertinentes a esta missão na mesa da recepção. Tenham uma boa sorte. — O Amor disse, abrindo um sorriso para nós duas. Fiquei com a bunda colada na cadeira, absorvendo o fato de que eu ainda tinha um ano de vida.
— Decreto o fim da audiência.
Anlyn e eu caminhamos em silêncio para fora do sufocante salão do Conselho. Nós não trocamos nenhuma palavra durante o caminho, mas nossos olhares diziam tudo.
Pegamos o relatório com os dados da missão. Eu e Anlyn seríamos irmãs mais velhas e moraríamos juntas. Aparentemente o Amor tinha comprado uma casa bem bonita — tinha fotos dela — para nós em uma vizinhança bem legal do Rio de Janeiro.
Haviam endereços de vários lugares que frequentaríamos, inclusive da escola em que eu estudaria. Me matricularam no segundo ano do ensino médio numa escola particular. Já Anlyn trabalharia na mesma empresa que o casal que ela teria que ajudar. Nós lemos tudo em silêncio, e depois nos despedimos. Acho que a ficha de nenhuma das duas tinha caído ainda.
Nem percebi quando eu cheguei à minha casa, de tão distraída e desligada que eu fiquei depois dos últimos acontecimentos. Deitei em minha cama enquanto a minha cabeça rebobinava o fato de que amanhã eu iria para o Rio de Janeiro para completar a — talvez — última missão de toda a minha vida.
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