Capítulo 29 - Renascendo (PARTE 2)
O Amor chegaria a qualquer momento para realizar seu pronunciamento oficial. O Auditório da sede do Conselho — que agora não existia mais — estava repleto por todas as Almas de nosso planeta — pelo menos todas as que não tinham sido banidas ou presas pelo antigo Conselho no laboratório clandestino — que ansiosas, esperavam que o Amor aparecesse logo.
Anlyn estava sentada ao meu lado, inquieta.
— Esse lugar todo está muito diferente. — Fui tomada por uma alegria descomunal ao ver que o comentário saíra da boca de Hahue. Ele se sentou do meu lado direito e me abraçou. Fiquei ainda mais eufórica quando vi Slahat, Dellyn e Lehinf se juntarem a nós.
— Fico feliz que estejam aqui! — Slahat e Dellyn também nos abraçaram e Lehinf nos cumprimentou com um aceno de cabeça. Meu amigo estava mais corado que antes, mas ainda se encontrava um pouco magro.
— O Amor libertou vocês bem rápido. — observou Anlyn, impressionada — Pelo menos agora ele está mostrando que é eficiente.
— Fale baixo. — pedi, temendo que alguém nos ouvisse e colocasse nossa salvação a perder.
— O Amor disse que achou os relatórios forjados e os verdadeiros que Ansel escondia. Neles existem diversas provas então ele me trouxe de volta e libertou muitas outras Almas banidas injustamente. — Hahue explicou para nós. Isso realmente esclarecia a rapidez na qual ele conseguiu soltar tantas almas.
— Por falar no diabo... — Anlyn cruzou os braços e apontou com o queixo para o palco de onde o Amor surgiu. Sua assistente estava no canto segurando uma prancheta e uma pastinha contra o peito.
Ele se aproximou do centro do palco e pigarreou. O auditório mergulhou em um silêncio cheio de expectativas.
— Antes de mais nada, eu quero pedir desculpas a todos vocês por ter me afastado do trabalho ao ponto de deixar tudo nas mãos do Conselho. Garanto a todos que isso não vai mais se repetir. Amanhã haverá o exílio de todos os membros do Conselho com exceção de Rewick, que só se salvou pois decidiu contar a verdade. Porém, a partir de hoje, declaro que Rewick não é mais membro do Conselho.
Todo o mundo começou a falar ao mesmo tempo depois que essa bomba foi jogada. O Amor não entrou em detalhes sobre o exílio do Conselho, pois quase todo o mundo presenciou em primeira mão quando todos eles foram desmascarados, então não era necessário que ele falasse sobre aquilo novamente.
Olhei para trás e encontrei Rewick sentado na última fileira. Ele estava encolhido e deslizava cada vez mais na cadeira acolchoada. Seu rosto estava inexpressivo, então não dava para saber se não fazer mais parte do Conselho lhe alegrava ou lhe entristecia.
— Quando isso acabar, vou agradecê-lo por ter nos ajudado. — cochichou Anlyn no meu ouvido.
— Informo que eu mesmo irei escolher os próximos membros do Conselho e que todos os banimentos decretados pelo Conselho serão revistos. Todas as Almas que foram banidas injustamente poderão regressar. O laboratório clandestino já está sendo desativado e as Almas que lá estão serão removidas para o Hospital das Almas para receberem tratamento, incluindo Coiotes, Almas Atormentadas e outras criaturas. Estas em especial terão atendimento psicológico e dependendo do sucesso do tratamento, poderão voltar a ser Almas de novo.
A reação de todos foi a de espanto com essa informação. Acho que ninguém acreditava que fosse possível uma Alma Atormentada ou um Coiote voltar a sua condição original. As vezes a gente esquece que até mesmo eles já foram como nós um dia. Pensar que o Conselho possa ter uma participação grande nisso me deixava triste. Pelo menos agora essas Almas terão uma chance de renascerem.
— Uau... — disse Hahue, impressionado.
— E, por fim, Lyhua e Anlyn foram absolvidas e não serão mais exiladas. Elas mostraram bravura ao defenderem o nosso povo e são dignas de estarem conosco. Além do mais, Lyhua se tornou uma das Almas com mais índice de sucesso em relação aos casais que juntou. Mesmo suas sementes morrendo, todos os casais que ela juntou reataram o romance. Anlyn se mostrou melhor no departamento de Salvação, que é a área que alguns de vocês irão trabalhar, mas isso será explicado mais tarde.
O Amor ainda fez outras considerações antes de finalizar seu pronunciamento. Todo o mundo — pelo menos grande parte da população que ainda estava se familiarizando com as barbaridades cometidas pelo Conselho — se encontrava perplexa em seus respectivos lugares com as informações que o Amor despejou em cima de nós. O próprio ainda não tinha assimilado tudo, quem dirá o resto da população.
— Espero que o Amor cumpra tudo o que prometeu. — Slahat disse enquanto saíamos do auditório.
— Quem será que vão escolher para o novo Conselho? — Dellyn estava curiosa.
— Contanto que não seja eu, pode ser até o papa. — Hahue disse, arrancando de nós uma gargalhada.
— Ei, Rewick! — Anlyn acenou para ele quando o viu saindo cabisbaixo do auditório. Ele se aproximou de nós com passos cautelosos. — Obrigada por ter nos ajudado ontem.
— É, foi bacana o que você fez por nós.
— Era o mínimo que eu poderia fazer para compensar o mal que eu fiz a vocês. — Seus olhos se voltaram para Slahat, que desviou o olhar bruscamente. Rewick também era seu sobrinho, afinal.
— Obrigada. — Anlyn abriu um sorriso tímido. Rewick acenou com a cabeça e se afastou. Ele parecia amargurado. — Cara, tenho que confessar que eu tenho um fraco por homens darks.
— Nem começa, por favor! — Levei as mãos para cima para ilustrar a minha advertência. Anlyn gargalhou.
— Alguém pode decifrar o que ela disse? — Slahat perguntou, com um semblante confuso no rosto.
— Preciso falar com vocês. — O Amor surgiu em nossa frente com sua assistente bradando ordens no telefone. O dia dos dois seria cheio, bem cheio. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça. — Dellyn, Lehinf, Hahue e Slahat, a minha assistente entrará em contato para marcar uma reunião com vocês. — Hahue arregalou os olhos, temeroso — Relaxa, é só para saber quais áreas vocês vão querer trabalhar.
— Ah, menos mal. — Ele colocou a mão sobre o peito, demonstrando que estava aliviado.
— Estou indo fechar o laboratório e dar assistência as Almas. Lyra e Anlyn, amanhã vocês podem passar no meu escritório? Preciso falar com vocês sobre algumas coisas.
— Tudo bem.
— Até mais, pessoal. — Ele se afastou andando com pressa pelo gramado. Sua assistente e cerca de mais de cinquenta guardas o seguiam.
— O que será que ele quer com a gente? — indaguei, temerosa. Anlyn também parecia apreensiva.
— Sinto cheiro de coisa boa no ar. — disse Dellyn de forma enigmática.
Bati na porta do gabinete da sala do Amor com o coração batendo muito rápido dentro do peito. Depois da noite do exílio, eu tinha um pouco de medo do que ele poderia querer comigo. Anlyn estava parada atrás de mim e compartilhava do mesmo pensamento que eu.
O próprio abriu a porta. Seu rosto sempre impecável se encontrava com olheiras profundas e seus cabelos, bem despenteados. Acho que o Conselho e seus esquemas tinham muito a ver com sua aparência de quem não dormia há séculos.
Ele indicou para nós duas cadeiras acolchoadas que estavam posicionadas lado a lado em frente a sua mesa. Ele se sentou e nós o imitamos.
— Eu chamei vocês aqui porque quero conversar com as duas com mais calma. Quero parabenizar vocês por tudo o que fizeram e pelo sucesso que demonstraram ter em suas respectivas missões. Anlyn, você tem uma aptidão muito grande para a área da Salvação e gostaria de saber se você não gostaria de começar a trabalhar nesse departamento.
— Claro que eu quero. Eu gostei mais de ajudar casais, me senti mais útil.
— Então está combinado. A minha assistente vai passar os detalhes para você. — Seus olhos pousaram em minha figura encolhida — Lyra, eu analisei seu real desempenho depois que Rewick expôs as coisas que Ansel fez e fiquei impressionado. Ao contrário do que Ansel fez todo o mundo pensar, te digo que é uma Alma brilhante. — O Amor se aproximou mais de mim com empolgação — Sinto que você é diferente da maioria das Almas, e eu só senti isso com a Dellyn. — Pela primeira vez eu vi o Amor sorrir. Era um sorriso bonito e genuíno que o deixava mais parecido com o meu criador.
— Tenho outras missões que envolvam seu departamento, mas são missões mais emocionantes do que as que você já teve. Está preparada para isso? Você aceita novos desafios? — Os olhos dele continuaram esbanjando a mesma empolgação de antes enquanto despejava todas aquelas informações. Eu estava eufórica e ao mesmo tempo pensativa em relação a tudo o que o Amor pensava sobre mim.
Por um momento, eu pensei em Emily, Peter e Maurício. Como será que eles estão? Também pensava em Rayane. Será que ela continuava indo bem em seu tratamento?
Suspirei, afastando aqueles pensamentos da cabeça afinal, aquele mundo não era mais meu.
Com um sorriso, eu olhei para o Amor e respondi:
— Claro que sim.
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