Capítulo 27 - O Baile da Despedida

Tentei não focar na dor que eu senti quando vi Maurício no colégio no dia seguinte. Preferi me sentar afastada de Emily e Peter para dar o espaço que ele queria. Meus amigos não gostaram da minha atitude, mas não se opuseram. Eles estavam no meio do "fogo cruzado" e eu não queria coloca-los em uma situação ainda mais comprometedora.

Contei aos dois por mensagem o fiasco que foi a minha conversa com Maurício e ressaltei que estava apenas respeitando o seu tempo de absorver tudo.

A minha missão estava quase no fim, e eu e Anlyn tínhamos recebido naquela manhã uma convocação do Conselho. Um portal/holograma viria nos buscar no dia do baile da escola. Eu me transformaria em minha forma viajante para voltar para Klímpf provavelmente para ser exilada. Nós completamos a missão, mas era provável que o Conselho tenha descoberto que eu e Anlyn invadimos seu laboratório sujo. Sem as provas, nós estamos completamente de mãos atadas.

Hahue e Slahat voltaram a entrar em contato. Dellyn e ele ficaram felizes quando se reencontraram, mesmo sendo por holograma.

— Você vai mesmo embora no dia do baile? — Emily perguntou para mim na hora do intervalo. Sua voz estava embargada.

— Sim, irei junto com Anlyn à noite.

— Vem ao baile com a gente então, amiga! — Ela segurou minha mão e me olhou com os olhos pidões.

Eu bem que queria me animar para o baile já que eu nunca tinha ido em um, mas eu não estava com um humor muito bom para sair na rua. Eu só frequentava o colégio ainda para estar com meus amigos e ver Maurício mesmo que de longe.

— Eu não estou no clima de me divertir...

Emily e Peter me olharam com tristeza.

— Você vai mesmo ser exilada?

— Queria dizer que não, mas...

Eu realmente não sabia o que o destino tinha reservado para mim, mas eu acredito que não seja nada muito glorioso.

— O que acontece com a sua alma se você for exilada? — Peter perguntou, usando um tom de voz um pouco temeroso.

— Eu deixo de existir. Já morri várias vezes nas missões, mas um exílio não permite que a minha Alma retorne, então eu morro pra valer. — Usei um tom de voz normal para fazê-los pensar que eu não me importava em morrer, mas a verdade é que eu estava morrendo de medo do meu exílio.

— Não tem nada que possamos fazer?

— Infelizmente não. — respondi, tentando segurar as lágrimas, mas era difícil com meus amigos me olhando daquele jeito.

— Tente ir ao baile conosco pelo menos. — pediu Emily, ainda segurando a minha mão.

— Eu prometo que vou tentar. — Eles vieram me abraçar e eu retribuí o abraço enquanto derramava algumas lágrimas. Eu me tornara uma verdadeira chorona idiota.

Meus últimos dias na Terra — e talvez no mundo — estavam contados e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.

Na hora da saída, enquanto esperava Anlyn, vi Maurício sair do colégio acompanhado de uma garota muito bonita. Os dois conversavam animadamente e davam muitas risadas. Uma pontada no coração me atingiu ao vê-los daquele jeito.

Será que os dois vão juntos ao baile?

Desviei o olhar quando vi que Maurício me notou ali parada. Para a minha sorte, Anlyn parou o carro em minha frente no mesmo instante, me salvando de passar por mais algum constrangimento.

— Que bom que chegou, querida! — Dellyn exclamou assim que me viu. Ela estava mais animada do que o normal. — Soube que na sexta vai ter um baile na sua escola.

Fiz cara de poucos amigos ao ouvir a palavra "baile". Por que todo o mundo cismou com esse baile? Eu só queria curtir a minha tristeza em paz, só isso.

— É, mas eu não vou.

— Por que?

— Não estou muito animada. O Maurício me odeia e eu provavelmente serei exilada então não estou muito no clima de festejar.

Subi para o meu quarto e me deparei com um dos vestidos mais lindos do mundo em cima da cama. Ele era roxo e não era tão curto e nem muito cumprido.

— Seria uma pena desperdiçar a chance de Maurício te ver usando esse vestido. — Dellyn se lamentou parando atrás de mim. Soltei um suspiro enquanto olhava para o vestido.

Droga, ele era muito bonito.

— Talvez eu mude de ideia. — Abri um sorriso nada convincente para Dellyn. Se ela percebeu, fingiu não ter notado. — Se eu conseguir dar um jeito de nos tirar dessa situação, eu prometo que venho te buscar. — Ela segurou minhas mãos e abriu um sorriso.

Me tranquei no quarto um tempo depois, deitei na cama e dei play nas músicas que eu tinha no meu celular. Coloquei no modo aleatório e a primeira música que tocou foi uma que Maurício me mostrara. Caí no choro no mesmo instante.

A minha vida estava dividida entre dois mundos completamente distintos. Um desses mundos não me pertencia, mas eu me apegara a ele da mesma forma.

— Não acredito que você ainda está aqui! — Anlyn estrilou ao me ver deitada no sofá com um saco de Fandangos e um copo de Guaravita na mão. — A Emily e o Peter já ligaram pro meu celular duas vezes porque você não atende o seu.

— Eu não vou, Anlyn.

A festa de fim de ano da escola já tinha começado, mas eu decidi que não iria. Além da falta de ânimo, eu não queria me despedir de ninguém.

Odeio despedidas.

— Claro que vai! — Ela arrancou o saco de Fandangos da minha mão — Tem tempo de sobra de curtir a festa antes do portal vir nos buscar.

— Mas eu não quero ir. — Puxei de volta o saco de sua mão. Anlyn se sentou do meu lado no sofá e eu tive que levantar as pernas antes que ela sentasse em cima delas.

— Você não quer se despedir dos seus amigos? Sei que odeia despedidas, mas pensei que quisesse passar um tempo com eles levando em consideração que talvez nós... bem, você sabe. E tem o Maurício também. — Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, temendo ter tocado em um assunto delicado.

— O Maurício me odeia. — falei com a boca cheia de biscoito e bebi o que restava do meu Guaravita.

— Não seja tola, garota. — Dellyn ralhou, se metendo na conversa e jogando o vestido roxo no meu colo. — Ninguém te odeia. E seus amigos querem te ver.

— Isso aí. Tenho certeza de que você vai se arrepender de não ter se despedido dos seus amigos. Se arrume, eu te levo. — Suspirei, refletindo no que Anlyn me dissera. Era provável que o meu arrependimento não indo a esse baile seja maior mesmo. Como eu aprendera depois de invadir o laboratório do Conselho, eu não tenho mais nada a perder.

A não ser a minha vida.

Indo ao baile ou não, esse pode ser o meu último dia nesse mundo — e em todos os outros.

Antes de Anlyn me levar para o baile, nós nos despedimos de Dellyn. Eu me preocupava demais em como ela ficaria agora que eu e Anlyn iríamos voltar para Klímpf.

Gostaria de que houvesse um jeito de trazê-la de volta, mas eu não sabia nem como salvar a minha pele e a de Anlyn e a de todas as outras Almas banidas, então ficava difícil.

— Vou tentar achar alguma forma de fortalecer o meu corpo para voltar pela Árvore Mágica.

— Mantenha contato. — Estendi o comunicador que Hahue tinha feito para mim. Dellyn o segurou com firmeza.

— Se conseguirmos alguma forma de te ajudar, nós o faremos. — Anlyn lhe assegurou, abraçando-a logo em seguida. Também a abracei, sentindo uma vontade louca de chorar.

Com os nossos olhos marejados, nós nos despedimos.

Coloquei meu manto branco por cima do vestido e guardei as minhas bagagens no porta malas do carro. Anlyn também guardou as coisas dela e logo em seguida partimos para a nossa última noite na terra.

Minha irmã provisória estacionou o carro próximo da escola. Quando o portal viesse, ele nos ejetaria em nossa forma viajante junto com as coisas do carro.

— Bom, como eu sempre quis ir em uma festa de escola, eu vou com você. — Anlyn disse, antes de tirar o cinto de segurança. — Você vai assim? — Ela apontou para o manto que eu usava por cima da roupa. Eu o abri, deixando o vestido a mostra. — Até que ficou legal. — Ela me olhou de cima a baixo com um sorriso empolgado.

Além da roupa, eu passei uma maquiagem bem leve. A única coisa que se destacava em minha maquiagem era a minha boca, que eu havia pintado de roxo para combinar com o vestido. Meu cabelo estava ondulado e solto.

Nós entramos na escola juntas e eu me impressionei com a decoração do corredor, que estava enfeitado com piscas piscas de cor branca que ficavam acesos direto, e mais alguns outros adereços prateados. O auditório principal onde ocorria a festa estava ainda mais bonito. Muita gente dançava, e as luzes eram baixas para não comprometer o efeito do ambiente.

Mesas e cadeiras estavam dispostas nos cantos para quem quisesse descansar ou comer alguma coisa. No palco, uma banda animava a galera com músicas dançantes.

— Lyra, você está linda! — Rayane entrou em minha frente, tampando meu campo de visão. Seu rosto estava alegre.

— Você também! Adorei seu vestido. — Ela sorriu ainda mais quando apontei para seu vestido rodado e rosa.

— Obrigada. — Ela me abraçou forte. — Por tudo. — Rayane desfez o abraço com os olhos marejados. Eu também senti vontade de chorar.

— Não precisa me agradecer. — Apertei sua mão de forma suave entre as minhas e ela devolveu o gesto com um sorriso emocionado. Rayane cumprimentou Anlyn com a cabeça, se despediu de nós e voltou para as suas amigas.

— Vou circular por aí. Boa sorte. — Anlyn afagou meu ombro antes de se misturar com os outros alunos na pista de dança.

Fiquei ali observando as pessoas se divertindo ao mesmo tempo em que procurava meus amigos. A primeira pessoa que encontrei foi Maurício. Ele conversava num canto com a mesma garota da outra vez.

Será que vieram juntos?

Abaixei a cabeça e me recriminei por ter aqueles pensamentos. Aquilo não era mais da minha conta.

— Você veio! — Emily e Peter me abraçaram.

— Gostei muito da sua roupa! — Emily disse, apontando para o vestido e para meu manto.

— Nós encontramos a Anlyn dançando a beça na pista de dança. — Peter indicou com a cabeça o local onde a galera dançava.

— Ela nunca veio numa festa de escola, então não pude impedi-la. — Os dois deram uma alta gargalhada.

— Queria que você me ensinasse a usar arco e flecha. A Emily te viu com um arco na mão e eu não parei de pensar nisso. Eu acho que ia me sentir dentro de um RPG medieval. — Os olhos de Peter brilhavam.

— Eu também queria poder ensinar. Modéstia a parte, eu sou uma das melhores atiradoras de Klímpf.

— Uau...

— Já falou com o Maurício? — Somente a simples menção de seu nome já fez meu coração sangrar. Olhei na direção em que ele estava conversando com a menina, mas os dois tinham sumido.

— Não. Acho que ele me odeia.

— Ele não te odeia. — Peter disse firmemente — É sério.

— Esquece esse mané. Vem dançar com a gente! — Emily puxou a mim e a Peter pela mão para a pista de dança, onde começamos a nos balançar de um lado para o outro no ritmo da música. Anlyn logo se juntou a nós. Peter me pegou pela mão e me girou várias vezes. Ele repetiu o gesto com Emily e depois com Anlyn também. A música acabou e uma mais lenta foi iniciada. Nós paramos ao mesmo tempo e nos entreolhamos com lágrimas nos olhos. Era isso, então. Hoje era o meu último dia na Terra.

— Nós vamos sentir muito a sua falta. — Emily enxugou uma lágrima que caíra.

— Se houver um jeito de te visitar lá em cima, nós iremos descobrir.

— Espero que você não seja exilada.

— Eu também espero. — Eles me deram um abraço e juntos, começamos a chorar.

Enxuguei as lágrimas do rosto e disse aos meus amigos que iria dar uma volta e que depois os encontraria novamente.

Subi as escadas e fui para uma espécie de terraço. Estava vazio ali e a música abafada. Fechei a porta atrás de mim e me debrucei no muro mantendo meus olhos fixos no céu estrelado acima de mim.

O Conselho viria nos buscar em nossa forma viajante, que é o jeito mais rápido e prático de viagem. Pela pressa, acredito que tenham descoberto o que eu e Anlyn fizemos no laboratório.

De onde eu estava eu conseguia ver grande parte da cidade e um pedaço da praia também. Muitas luzes acesas, muitas casas. A visão urbana mesclada com a natureza do mar dava um ar diferente a Porto Detroy. Eu iria sentir muita falta daqui.

Ouvi um rangido da porta de ferro que usei para chegar aqui se abrindo. Me virei para trás e encontrei Maurício.

Todas as terminações nervosas do meu corpo pareceram entrar em colapso quando Maurício apareceu. Ele se aproximou de mim vagarosamente, e quando parou em minha frente, era quase como se eu não conseguisse respirar direito. Não sei se era a tristeza quase sufocante que apertava meu peito, ou se havia mais alguma coisa. Acho que era o efeito do que amar Maurício se tornou para mim.

Aquele era o algo cósmico que eu tanto procurava explicar. Não era eu, era o que eu sentia.

— Me desculpe por ter esperado chegar o último dia para falar com você. Eu me senti muito envergonhado com a forma como te tratei quando me mostrou a verdade. Eu estava confuso e enraivecido por gostar de uma garota que nem desse planeta é e não tive uma reação muito boa. Eu precisava de tempo para assimilar tudo o que me contou. — Percebi que ele estava ofegante também. Será que ele também tinha aquela sensação sufocante de algo comprimindo seu peito?

— Tudo bem. — Eu disse, com a voz embargada e as lágrimas presas nos olhos. Abaixei a cabeça, mas Maurício levantou meu queixo para que eu continuasse lhe olhando.

— Sei que não fomos feitos para ficar juntos, mas eu queria aproveitar esse último momento para dizer que eu te amo, Lyra. De todo o meu coração. — Meu coração bateu ainda mais forte com aquela declaração. Maurício encostou seus lábios nos meus em um beijo sofrido e cheio de emoção. Uma de suas mãos agarrou a minha nuca enquanto a outra desceu para a minha cintura, puxando-me para mais perto de seu corpo.

Agarrei seus cabelos com toda a força e grudei em seu corpo para sentir seu calor, seu toque e seu cheiro de perto. Sua boca foi para o meu pescoço e meus olhos se fecharam, tomados pelo prazer.

— Eu também te amo.

Ele uniu sua testa na minha e beijou a minha boca novamente. Meu corpo todo tremia e se não fosse seus braços em volta do meu corpo, tenho certeza de que eu já teria caído.

— Você é o algo cósmico que eu não acreditei, é o algo cósmico que eu nem sabia que queria. Eu sei que você vai embora hoje, mas eu precisava te ver e me desculpar por tudo. — Ele segurou meu rosto entre as suas mãos e eu tive que lutar para manter meus olhos abertos. Era tão bom sentir o toque de Maurício que me dava vontade de fechar os olhos e me entregar.

— Não se preocupe com isso...

— Tem alguma maneira de deixarem você ficar? — Maurício perguntou, afoito e desesperado — E que história é essa de exílio?

— São coisas do meu mundo. Não há nada que eu possa fazer para mudar isso.

— Saber que você vai embora já é difícil, mas a ideia de você deixar de existir me apavora.

— Eu sei... Mas se existir alguma chance, mesmo que pequena, de eu voltar, eu te prometo que voltarei para você. — Ele assentiu com a cabeça, mas eu fiquei séria mesmo com as lágrimas caindo incessantemente dos meus olhos — Mas não me espere. Siga a sua vida e se torne o médico que almeja ser.

— Lyra... — Anlyn apareceu desconcertada ao pé da porta do terraço — Já levaram as nossas malas.

— Chegou a hora. — Mordi o lábio para reprimir o resto do choro, mas as lágrimas continuaram caindo. Maurício também derramou algumas lágrimas. Emily e Peter apareceram. Eles também estavam aos prantos.

Corri ao encontro deles e os abracei.

— Volte para nós, se puder. — pediu Emily, me abraçando apertado.

— E tente não morrer. — acrescentou Peter, com a voz embargada.

— Prometo que vou tentar. — Me virei de volta para Maurício, que me olhava com um sorriso triste nos lábios. Eu o abracei fortemente e inspirei seu perfume, tentando guardar a sensação que era abraça-lo e senti-lo tão perto de mim.

— Eu te amo, Maurício. Muito. Espero que nos encontremos novamente algum dia.

— Eu também te amo, Lyra. Vou sentir sua falta. — Ele me beijou uma última vez. Era um beijo lento e carregado de tristeza, com gosto de lágrimas e de despedida.

Uma luz forte me cegou e nós nos separamos.

A nossa carona tinha acabado de chegar.

Anlyn e eu demos as mãos. Olhei para os amigos que eu tinha feito e para o amor da minha vida com lágrimas nos olhos. Eu nunca os esqueceria.

Eu e Anlyn nos transformamos em nossa forma viajante e deixamos que a luz nos guiasse de volta a Klímpf. A viagem ocorreu em um piscar de olhos.

Aterrissamos direto em uma cela cinzenta e assustadora.

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