Capítulo 26 - Destruída

Quando chegamos, Dellyn nos esperava do lado da Árvore Mágica. Nós lhe contamos tudo o que acontecera, inclusive sobre o celular perdido e a aparição repentina de Rewick.

Pensar no celular perdido me fez lembrar que eu não checava as mensagens no meu aparelho desde que eu fui para Klímpf. Haviam algumas mensagens de Maurício no meu Whatsapp me procurando. Ele deve estar chateado pelo meu sumiço repentino.

A viagem de volta para Klímpf me fez refletir em diversas coisas, e uma delas foi que o Conselho e o Amor não mereciam tanto a minha consideração e empenho. Eu ainda me sentia mal por tudo o que vi e ouvi no laboratório clandestino e apesar de querer muito responder as mensagens do meu namorado, eu sentia que ainda não era um bom momento.

Comecei a chorar com o celular no colo. Anlyn percebeu e veio me abraçar junto com Dellyn. Eu estava com medo. Medo pelos meus amigos. Por mim. Pelas Almas aprisionadas naquele lugar horrível. Pelo meu planeta.

Entrei no chuveiro enquanto tentava acalmar os meus pensamentos. Tinha tanta coisa rondando a minha cabeça que era difícil decidir qual delas me atormentava mais.

Porém, ao sair do chuveiro e deitar em minha cama, eu já estava decidida. Minhas reflexões não eram somente sobre tudo o que presenciei, mas envolviam também minha missão na Terra. Mandei uma mensagem para Emily e Peter e depois uma para Maurício. Marquei um encontro com o casal e um a parte para meu namorado. Estava na hora de colocar as cartas na manga e contar a verdade.

Se tem ou não uma chance de sermos exiladas — já que Rewick nos viu e ele nunca foi confiável — eu não tinha mais nada a perder.

Maurício não se mostrou muito receptivo à conversa, mas eu entendia seu lado e esperava que ele também me compreendesse quando eu lhe contasse toda a verdade.

Avisei a Anlyn e a Dellyn que contaria tudo e elas não se opuseram.

— Eu consegui! Eu consegui! — Ouvir os gritos de alegria de Anlyn me fizeram estranhar seu comportamento. Minha amiga pulava com o celular em mãos enquanto eu e Dellyn tentávamos entender porque ela parecia tão feliz.

— O casal da minha missão não vai mais se separar! A esposa acabou de me mandar uma mensagem agradecendo pela ajuda, que eles vão viajar em breve para comemorar! Eu to muito fora de mim! — Abri um sorriso e a abracei. Por mais que nosso futuro seja incerto, foi bom receber uma notícia boa para variar.

— Parabéns, criança. — Dellyn disse como se já soubesse que aquilo aconteceria.

— Gente, eu vou indo. — Respirei fundo, sentindo o nervosismo chegando devagar pelo meu corpo. — Me desejem sorte.

— Vai dar tudo certo. — Anlyn beijou meu rosto e Dellyn me abraçou.

Apesar de querer sustentar o otimismo delas, eu sabia que abrir o jogo com os meus amigos seria tão difícil quanto voltar para Klímpf.

Eu aproveitei a caminhada até a casa de Emily para colocar as ideias no lugar. Ainda não consigo acreditar que dentro de poucos instantes eu contarei mesmo toda a verdade. Não sei se eles acreditariam em mim, mas eu precisava tentar para o meu próprio bem.

Todos os acontecimentos recentes, o laboratório clandestino, as minhas missões e as experiências que tive no planeta terra vieram em flashes dentro da minha cabeça. Eu não queria que tantas lembranças chegassem até mim, mas não pude evitar.

Eu tinha visto tantas mortes, eu mesma já morri centenas de vezes, que era quase como se nós já fôssemos íntimas. E, apesar de ter passado por experiências traumatizantes ainda nesse mesmo dia, era como se o que eu estivesse prestes a fazer se igualasse as minhas experiências de morte. A sensação era parecida, mas o motivo, diferente.

Emily atendeu a porta com um semblante sério quando viu que era eu ali parada. Ela deu espaço para que eu pudesse passar, mas não manteve o contato visual por muito tempo. Notei Peter sentado no sofá assim que eu entrei. Eles estavam sozinhos vendo alguma coisa na Netflix.

A minha amiga se sentou ao lado do namorado e eu fiquei ali em pé no centro da sala encarando os dois com as mãos cruzadas na frente do corpo. Eu estava completamente nervosa, mas não iria desistir.

— Eu reuni vocês aqui hoje para contar a verdade sobre quem eu sou. — Respirei fundo. Eles me encaravam em silêncio. — Me chamo Lyhua Lyra Iseult. Eu venho do planeta Klímpf. Meu trabalho é juntar casais humanos como se eu fosse o que vocês chamam de cupido. No meu planeta, nós somos chamados de Almas. Tenho uma forma cintilante que uso, especialmente, para viajar do meu planeta para o seu, mas também podemos vir por uma Árvore Mágica. Eu não tenho muito sucesso nessa coisa de ser cupido, então o Amor, que é o cara para quem eu trabalho, me deu uma última missão. Vir para a Terra como humana para juntar um casal que fique junto de verdade, então escolhi vocês.

Apontei para os dois enquanto lhes contava sobre absolutamente tudo o que eu consegui, inclusive o motivo de Emily ter me visto com o manto e o arco na mão. Eles não me interromperam, mas pareciam abismados a cada coisa que eu contava então não dava para ter certeza se eles acreditavam em mim ou se me achavam completamente maluca.

— Então é por isso que seus cílios e suas sobrancelhas são brancas? — Peter indagou, com um brilho de curiosidade no olhar. Fiz que sim com a cabeça.

— Não acredito que você tá realmente comprando esse caô! — Emily se virou para Peter de forma indignada.

— Eu posso provar que isso tudo é real. — encarei Emily, tendo uma ideia que provavelmente iria custar a minha cabeça numa bandeja mais tarde. — Lembram quando eu disse que tenho duas formas? — Os dois fizeram que sim com a cabeça. — Por favor, não se assustem.

Fazia um bom tempo que eu não me transformava em minha forma viajante, mas eu ainda me lembrava de como era. Eu não poderia ficar muito tempo na minha outra forma, pois se o Conselho perceber que estou utilizando minha forma viajante sem autorização, podem querer adiantar a minha sentença, caso tenham descoberto sobre mim. Eu precisava de tempo para contar as coisas ao Maurício, então não podia arriscar.

Senti meu corpo todo gelar durante a transformação. Minha temperatura diminuiu ainda mais quando senti que ao redor da sala um vento forte proveniente da minha transformação, atingia o cômodo ao lado. Meu corpo levitou e eu senti o frescor que sempre me envolvia quando eu me transformava dominar o meu corpo. Agora eu estava em minha forma cintilante. Não durou mais do que alguns segundos, mas quando voltei a minha forma normal Emily e Peter estavam boquiabertos.

— Como fez isso? — Emily perguntou estarrecida.

— Então você é mesmo a nossa cupida. — observou Peter, tão embasbacado quanto Emily. Seus olhos brilhavam, mas os dois não pareciam assustados ou com nojo de mim.

— Por isso você estava com arco e flecha! — Emily exclamou, apontando para meu rosto.

— Na verdade, o arco não é usado para o que você imagina. — Os dois me fitavam como se tivessem descoberto que o Papai Noel existe.

— Sei que você não podia nos contar isso então, obrigado.

— Espero que você não seja exilada. — Emily completou e os dois vieram me abraçar ao mesmo tempo. Notei que hoje ela usava um All Star preto. — É tão estranho e ao mesmo tempo legal conhecer uma pessoa que não é do mesmo planeta que a gente... Você agora vai contar pro Maurício! — Ela arregalou os olhos quando se deu conta disso.

— Eu não tenho mais nada a perder mesmo... — dei de ombros, mas meus olhos ardiam.

— Vai dar tudo certo. Boa sorte. — Eles me abraçaram mais uma vez ao ver a frustração estampada em meu rosto.

Me despedi dos dois e fui até a casa de Maurício sentindo o nervosismo aumentar. Pelo menos Emily e Peter tinham acreditado em mim no final. Talvez ainda processem o que viram e ouviram por algum tempo, mas eles reagiram melhor do que eu pensei que fossem reagir.

Quem me recebeu na casa de Maurício foi sua irmã. Ela me deu um abraço animado e me puxou para dentro. Minha talvez-ex-sogra saíra junto com Ana, e minha cunhada me disse que também iria sair, o que me deixou parcialmente aliviada. Eu precisava de privacidade para poder conversar com ele com calma.

Me dirigi até o quarto de Maurício com medo de como seria a sua reação depois que eu lhe contasse meu maior segredo. Peter e Emily levaram tudo numa boa, mas eu não sabia se meu namorado reagiria da mesma forma.

O encontrei deitado na cama com as pernas dobradas lendo um livro. Bati na porta timidamente e entrei colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha. A aflição percorria todo o meu corpo. Maurício fechou o livro e se sentou na beirada da cama.

— Como foi com a sua família? — Uni as sobrancelhas, inicialmente confusa com a sua pergunta. Por sorte, a minha confusão foi bem passageira, pois não demorou muito para que eu me lembrasse de que tinha dito a Emily que iria a uma reunião de família medieval.

Pensei no resgate de Slahat, no celular perdido e na visita de Rewick.

— Bom... Tecnicamente, não tão bem quanto eu gostaria.

— Eu estou um pouco chateado. Não me importo que saia, mas você não se deu ao trabalho de me responder ou de me informar os seus planos para o fim de semana. Eu tenho notado que você tem agido de forma estranha, e nunca me fala nada sobre sua família. Você conhece muito de mim, e eu conheço pouco de você. — Ele levantou a cabeça e eu pude ver o quão magoado ele se sentia. Senti um nó na garganta tão grande que foi difícil começar a falar. — Tem certeza de que quer ficar comigo? Porque se não tiver, melhor terminarmos aqui e agora.

— Claro que quero, Maurício mas... É complicado. — Mais do que complicado, era impossível — Quero que mantenha a mente aberta para o que irei te contar, porque existem coisas sobre mim que você precisa saber.

Ele assentiu com a cabeça, demonstrando que estava disposto para me ouvir. Aquilo silenciou um pouco as vozes nervosas dentro da minha mente.

— Tudo bem.

— Eu me chamo Lyhua Lyra Iseult e não sou daqui. Eu venho do planeta Klímpf, e minha principal função é ser aqui na Terra o que vocês chamam de cupido...

Maurício me ouviu atentamente sem me interromper nenhuma vez. Consegui lhe contar tudo até o meu sumiço e os motivos de eu não ter avisado nada. Sua expressão permaneceu fechada e impassível o tempo todo, até mesmo na parte em que lhe disse que posso ser exilada e morrer para sempre.

— Você se deu ao trabalho de inventar tudo isso só porque não quer me contar a verdade? — Seu ceticismo em relação a mim me magoou mais do que eu gostaria.

Isso vai ser mais difícil do que eu pensava.

— Mas é claro que não! Você precisa manter a mente aberta para poder receber a minha verdade. Emily e Peter já sabem. Lembra quando eu te pedi para acreditar em algo cósmico? Eu peço agora que acredite em mim, por favor. — Supliquei, unindo as mãos em um apelo quase desesperado. Maurício abrandou um pouco mais a expressão em seu rosto, mas também não dava indícios de que acreditaria no que eu lhe contava.

Antes mesmo que ele pudesse falar mais alguma coisa, eu me transformei novamente em minha forma cintilante por alguns segundos. Maurício arfou e jogou o corpo para trás, encarando-me com os olhos arregalados assim que eu voltei a minha forma.

Ele se levantou da cama com as mãos nas laterais da cabeça.

— Isso é demais para mim. — O olhar que ele direcionou a mim fez as lágrimas brotarem em meus olhos.

— Eu entendo que é difícil de acreditar nisso tudo e de assimilar, que se sente estranho e confuso, mas tente se colocar no meu lugar, por favor. Pense em tudo que eu te contei.

Eu sabia que por mais que ele acreditasse no que eu disse que não havia espaço para o nosso romance no mundo. Eu sabia que naquele momento eu estava agindo como uma idiota, afinal, meu objetivo era contar a verdade e não convencê-lo de que ainda queria estar com ele. Eu queria, mas querer não é poder e eu infelizmente não podia.

— Preciso ficar sozinho para poder assimilar isso tudo. — Ele respondeu, de costas para mim. Me coloquei em sua frente mesmo me sentindo triste e magoada com as reações de Maurício. Eu o entendia, mas seria mentira da minha parte se eu dissesse que nada daquilo me incomodava.

— Sei que não podemos ficar juntos, sei que somos, literalmente, de planetas diferentes, mas o que eu sinto por você é real. É mais real do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Desde que eu conheci você, eu soube que nunca tinha vivido de verdade. E eu te amo, Maurício. — Ele permaneceu sem me olhar diretamente nos olhos, mas senti que minha confissão tinha lhe afetado. Eu não planejava dizer que o amava porque eu não tinha percebido o tanto de sentimentos que eu tinha guardado para ele até perdê-lo. — Se eu for exilada, ou se nunca mais nos vermos ou nos falarmos, eu quero que saiba que o que nós tivemos foi sincero e recíproco. Levarei o que vivi na Terra contigo para onde eu estiver, independente de qual seja o meu destino. Te levo em meu coração. Para sempre.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto enquanto Maurício não me olhava diretamente nos olhos. Ele parecia tão triste quanto eu. Me aproximei o suficiente para sentir o calor de seu corpo e a eletricidade que nos envolvia quando estávamos juntos. Beijei a sua bochecha e saí de seu quarto com o coração partido em milhares de pedacinhos.

Eu estava destruída.

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