Capítulo 24 - O Laboratório

Chegar na entrada secreta do laboratório do Conselho me fez sentir o nervosismo aflorar. Não sei se Anlyn estava do mesmo modo que eu, só sei que era difícil demais raciocinar com o corpo todo tremendo.

O local onde o laboratório ficava era em um terreno abandonado próximo à Área Sombria e a Barreira Mágica. Ele era protegido por uma cerca elétrica, mas de acordo com Lehinf, havia uma entrada secreta no qual não precisaríamos passar pela grade e pela cerca.

Tratamos de esconder nossos equipamentos e armas debaixo da terra, do lado em que sairíamos para facilitar a nossa fuga. Nós não podíamos deixar nossas armas e as mochilas para trás. Nós cobrimos nosso esconderijo com uma grande lixeira que havia ao lado do laboratório. Guardamos nossos mantos ali também enrolados em um saco plástico, deixando somente a arma de choque na cintura e o celular que usaríamos para gravar as provas.

Não haviam guardas monitorando os arredores porque segundo Lehinf, eles não precisavam se preocupar com invasões. As Almas que sabiam do que ocorria ali dentro eram leais ao Conselho porque precisavam ser, e as que tinham motivos para invadir, só podiam passar pela Barreira Mágica com autorização, então a segurança ali fora não seria uma preocupação para nós.

Apesar de Lehinf ter nos ajudado a facilitar a localização, ainda assim foi difícil encontrar a passagem secreta. Perdemos preciosos minutos procurando a entrada, quando me dei conta de que haviam arbustos sintéticos do lado de fora da grade. Nós nos abaixamos ali e eu encontrei uma porta de ferro que parecia estar fincada no chão por dentro dos arbustos.

Anlyn abriu a porta com um grampo de cabelo e nós entramos abaixadas, fechando a porta com cuidado. Nós descemos as escadas devagar para não fazer barulho. O corredor estava deserto e era todo cinzento e mal iluminado. Algumas placas indicavam os caminhos que precisávamos seguir.

Uma das primeiras salas era a de funcionários. Um A bem grande na placa fez com que eu e Anlyn sorríssemos. Por sorte não havia ninguém no corredor e aquela sala estava destrancada.

Nós adentramos a sala e a primeira coisa que encontramos foi o armário com os uniformes das enfermeiras. Abri o armário com agilidade e encontrei os uniformes empilhados de qualquer jeito na última prateleira. Peguei uma calça verde claro, uma blusa branca de manga cumprida, touca e máscara. Prendi meus cabelos assim que terminei de me vestir e os enfiei dentro da touca. Também coloquei a máscara para completar o disfarce e para que fosse difícil me reconhecer. Anlyn fizera o mesmo que eu. Seus cabelos curtos foram mais fáceis de esconder do que os meus.

Coloquei a arma de choque e o celular no bolso da calça do uniforme.

— Pronta? — Anlyn indagou, dando-me um sorriso fraco.

— Pronta. — Reuni o máximo de confiança que eu poderia ter dentro de mim para abrir aquela porta.

Aproveitamos que o corredor estava vazio para explorar as outras portas que tinham ali. Com o auxílio de Anlyn, consegui entrar na sala ao lado da de funcionários. Quando entrei, senti meu coração e meu corpo todo gelar. Minha amiga ficou do lado de fora vigiando a porta.

Haviam três corpos de Almas em macas separadas. Duas mulheres e um homem. O corpo dos três estava arroxeado e cheio de marcas. Me aproximei das macas e fotografei todos os corpos de ângulos diferentes enquanto tentava controlar os tremores em minhas mãos.

O ar ali dentro era mais gelado e mais carregado do que qualquer outro cômodo e eu não precisava acessar as outras salas para afirmar com certeza. Notei que haviam diversos furos nos corpos de ambos, principalmente nos pulsos e antebraços. Também haviam marcas em seus tornozelos e em seus pulsos que indicavam que as Almas tinham ficados presas por um longo período de tempo. Lacerações profundas cobriam grande parte dos corpos também. Uma vontade de chorar me acometeu quando vi aquilo e meu estômago embrulhou.

As expressões de sofrimento das Almas me diziam que elas tinham sofrido muito antes de morrer. Fechei a porta bruscamente, tentando regular a respiração. Anlyn me encarou com preocupação.

— Você parece que viu um fantasma.

— Tem corpos ali dentro. — Anlyn segurou meus dois ombros firmemente. Notei que ela também estava trêmula, principalmente depois do que eu disse, mas se manteve forte para não desmoronar junto comigo.

— Fique calma, Lyra. Respira fundo. — Controlei a minha respiração enquanto nós caminhávamos.

Paramos em frente a próxima porta, já sentindo medo do que eu encontraria. Fiquei aliviada ao ver que era uma sala comum cheia de produtos de limpeza. Aquilo fez com que eu me acalmasse um pouco.

Dobramos o corredor e fomos para o andar de cima. O que eu vi foi tão desesperador que meu primeiro impulso foi dar alguns passos para trás.

Uma enfermeira sedava uma Alma que estava jogada no chão gritando e se debatendo. Mais a frente,encontrei uma Alma toda machucada agonizando numa maca. Seus pulsos estavam presos. Um coiote de coleira cambaleava pelo efeito de prováveis sedativos e muitas Almas gritavam. Haviam muitas enfermeiras no local. Tantas que o corredor ficou apertado para nós.

Eu e Anlyn passamos lentamente. Me virei para trás e fotografei de forma ágil e discreta a situação no corredor. Tirei umas cinco fotos ao mesmo tempo e continuei andando como se nada tivesse acontecido. As enfermeiras estavam tão ocupadas ao nosso redor que não perceberam o que eu tinha feito.

Nós viramos para o corredor seguinte e mais um pouco do caos que experimentamos no outro corredor se fez presente. Outras Almas agonizavam nos leitos. Haviam algumas portas a mais nesse corredor. Eu e Anlyn entramos em uma porta qualquer e levamos um susto com o que encontramos.

O cientista Ghowey acompanhado de quatro enfermeiras e mais dois médicos de jaleco monitoravam duas Almas. Elas estavam de pé, penduradas de forma desconfortável pelos pulsos. Seus braços estavam esticados acima da cabeça e sangravam. Haviam alguns aparelhos ligados aos seus corpos. Fotografei o momento meio que no piloto automático, já que todos estavam distraídos e eu me encontrava paralisada com tudo o que via.

Uma das Almas era uma garota. Ela estava acordada, mas debilitada. Um dos médicos injetou um líquido verde nela que a fez tremer. Seus olhos se reviraram e os monitores começaram a apitar cada vez mais alto enquanto seu corpo todo entrava em choque.

Eu e Anlyn trocamos olhares assustados.

A menina parou de se debater de repente e perdeu os sentidos.

Os médicos anotaram algo na prancheta e diminuíram um pouco a dosagem em uma outra seringa que aplicaram no homem que estava ao lado da menina.

Notei no canto da sala, em uma redoma de vidro, uma das sementes que costumamos usar para germinar o amor nos casais. A semente da menina estava destruída na redoma, mas a outra, que estava separada da dela, tinha crescido em tempo recorde. Aquela semente pertencia ao rapaz. O cientista e os médicos sorriram entre si enquanto o rapaz desmaiava.

Anlyn e eu estávamos tão atônitas com aquela cena que não conseguíamos nem nos mover.

— Vamos tentar encontrar o Slahat. — cochichei baixinho para Anlyn, que assentiu com a cabeça, desnorteada. Nós saímos de fininho da sala.

Andamos de forma apressada pelo laboratório até acharmos a porta onde eles mantinham as Almas aprisionadas. De acordo com Lehinf, ela ficava no fim do corredor. Anlyn precisou arrombar a porta com seu grampo para podermos entrar.

Fechei a porta atrás de mim e meu coração se apertou ao ver as Almas presas em celas minúsculas e precárias. Elas estavam tão fracas que não esboçaram qualquer tipo de reação quando entramos. Algumas nos olhavam com um olhar vazio, era como se nem estivessem mais assimilando o que se passava ao redor.

Busquei por Slahat e o encontrei jogado numa das últimas celas. Foi difícil reconhece-lo, pois ele estava fraco e debilitado. Seu peito subia e descia vagarosamente, me deixando agoniada.

— O que fizeram com você? — O corpo do meu amigo estava repleto de perfurações e ele estava tão magro que eu conseguia ver seus ossos com clareza. Ele era só osso e pele. Anlyn arrombou o cadeado de sua cela e eu entrei, fazendo com que ele abrisse os olhos, atordoado.

— Vou pegar aquela cadeira de rodas ali. Podemos fingir que vamos leva-lo a algum lugar. — sugeriu Anlyn apontando para a cadeira de rodas no canto da sala.

Slahat tentou mover a mão, mas ele não tinha forças nem para isso. Segurei seu corpo pelas axilas e o puxei para cima com delicadeza. Por ser alto, ele era pesado demais, mas meu corpo era forte o suficiente para levantá-lo sozinha. Anlyn chegou com a cadeira de rodas e me ajudou a coloca-lo sentado nela. Foi então que eu notei que ele fazia um não repetidamente com a cabeça. Ele não tinha me reconhecido e provavelmente achava que iríamos leva-lo para mais alguma sessão de testes.

Me abaixei em sua frente, aproximando meu rosto do dele e desci a máscara para que Slahat visse meu rosto. Ele arregalou os olhos quando me reconheceu.

— Co-como? — Ele falou com dificuldade.

— Essa é uma longa história. — Lhe dei um sorriso amável para garantir que tudo ficaria bem agora. Os olhos do meu amigo se encheram de lágrimas. Afaguei seu rosto com carinho enquanto tentava controlar a vontade de chorar. Levantei a máscara novamente enquanto Anlyn conduzia a cadeira de rodas para fora da sala. As Almas mais lúcidas tinham no rosto um olhar de tristeza. Fotografei a sala com as celas.

— Eu prometo que vou salvar vocês nem que essa seja a última coisa que eu faça. — Eu disse, olhando para todas aquelas Almas ali com os olhos cheios d'agua. Nunca em minha vida eu tinha visto tanta atrocidade num planeta que sempre foi calmo.

O Conselho não devia ter feito isso.

Fechei a porta da sala com cuidado e continuamos caminhando em direção à saída agora que tínhamos atingido o nosso objetivo.

As enfermeiras que passavam por nós estavam tão apáticas que não suspeitaram de nós. Entramos no corredor secreto que Lehinf dissera que existia no mapa e nos deparamos com uma escada enorme.

Anlyn e eu apoiamos os braços de Slahat por cima de nossos ombros e subimos as escadas. Ele se esforçava para caminhar sem exigir muito de nós mesmo estando enfraquecido. Nós nos abaixamos no topo da escada enquanto Anlyn fazia sua mágica com a porta de ferro. Nós saímos dali abaixados e fomos até o nosso esconderijo. Vesti o manto com pressa e desenterrei a minha mochila para retirar uma garrafa de água. Coloquei Slahat apoiado em minhas pernas e coloquei a água em sua boca. Ele bebeu tudo avidamente.

— Parados! — Um guarda gritou enquanto vinha para cima de nós brandindo sua arma. Porém, ele chegou perto o suficiente para que Anlyn empunhasse sua arma de choque em sua barriga. O guarda urrou e caiu no chão desmaiado.

— Merda. — Anlyn levantou Slahat enquanto colocava nas costas a mochila e armava um cutelo. Coloquei a aljava com as flechas nas costas e preparei meu arco para atacar os outros guardas que apareceram.

— Vamos por ali! — Apontei para uma mureta capaz de nos proteger dos tiros. Mirei a flecha no ombro de um dos guardas e atirei. Ele soltou um grito de dor e caiu no chão. Nós corremos para trás da mureta e eu puxei outra flecha da aljava, acertando outro guarda e depois outro, mas eles começaram a atirar com suas armas a laser e eu tive que me abaixar atrás da mureta junto com meus amigos para me proteger dos tiros.

— Eles vão nos capturar. — Anlyn choramingou, sua voz estava abafada pela máscara.

— Eu não vou permitir que isso aconteça.

Me levantei apenas o suficiente para mirar outra flecha em outro guarda. Eles avançavam cada vez mais em nossa direção. Nós estávamos em desvantagem ali, e eles já se aproximavam de nosso abrigo improvisado.

O som de uma buzina chamou a minha atenção. Levantei o corpo e vi Lehinf dirigindo um carro da polícia de Klímpf. Eu e Anlyn nos entreolhamos sem entender nada. Hahue também estava ali, sentado no banco do carona atirando nos guardas com sua espingarda. Os guardas alvejados fizeram os outros se assustarem e pararem de avançar. Com essa abertura, foi possível que eu voltasse a atirar as minhas flechas para que eles recuassem ainda mais.

Eu sempre tive uma mira boa, então aproveitei para acertar o máximo de guardas possíveis. Não queria mata-los, só imobiliza-los ou fazer com que eles recuassem.

— Vamos! — Aproveitei que os guardas restantes estavam ocupados e atrapalhados decidindo se atiravam, se iam embora ou se abaixavam, para avançar até o carro que Lehinf dirigia. Ele parou em nossa frente bruscamente e nós caminhamos abaixados enquanto Lehinf destravava a porta de trás para nós.

Ajudamos Slahat a entrar e nos jogamos no carro enquanto Lehinf catava pneus. Os guardas que não tinham sido alvejados voltaram a nos atacar. Slahat deitou a cabeça em meu colo e fechou os olhos enquanto eu ouvia os barulhos das balas e do laser atingindo a lataria do veículo.

— Como vocês passaram pela Barreira Mágica? — Eu realmente estava curiosa para saber como eles haviam chegado ali.

— Nós nos deixamos ser capturados pelos guardas. Quando nos capturam eles liberam o nosso acesso através de um aparelho. Golpeei um deles e roubei o carro com a ajuda de Lehinf.

— A nossa sorte foi que só tinha dois guardas no carro.

Tateei os bolsos da calça e não encontrei o celular que compramos para a missão. Meu corpo todo gelou.

— Nós temos que voltar! O celular com as provas sumiu! — Continuei tateando os bolsos de forma desesperada, esperando que ele estivesse por ali.

— Nós não podemos voltar, Lyra. Eles devem reforçar a segurança depois do que aconteceu, e receio que não possamos vencer outra batalha. — Hahue disse, virando-se para mim com a espingarda em mãos.

Soquei com força o estofado de couro do banco da frente, frustrada por ter sido descuidada a esse ponto.

— Que droga!

— Nós vamos dar um jeito, Lyra. — Anlyn afagou meus ombros, mas eu sabia que tudo estava perdido.

Pior, estava perdido por um erro idiota que eu cometi.

— As Almas vão continuar morrendo! Como vamos provar o que o Conselho está aprontando se a única prova que tínhamos foi perdida? — A vontade que eu tinha de chorar se atenuou com a frustração e o desespero que eu sentia. Meus amigos me encararam com tristeza, mas não pareciam me culpar da forma como eu estava me culpando.

— Nós vamos dar um jeito. — Anlyn repetiu, segurando a minha mão com força, mas só de pensar na idiotice que eu fiz já me dava vontade de bater a cabeça contra a parede.

Lehinf escondeu o carro num canto afastado da Área Sombria e nos afastamos rapidamente dali. O lugar sempre fora perigoso, mas com as capturas das Almas, os sobreviventes permaneciam fugindo e se escondendo constantemente.

Tratamos de apagar o nosso rastro caso mandassem equipes de busca atrás de nós.

Slahat estava apoiado em Lehinf e em Anlyn. Eles o colocaram sentado no esconderijo de Hahue enquanto o curandeiro cuidava de suas feridas.

Ouvi um farfalhar de sapatos pisando nas folhas secas de forma desenfreada e descuidada.

Preparei meu arco e flecha enquanto meus ouvidos apuravam o som de nosso perseguidor, já pronta para atirar em quem quer que fosse. Hahue se juntou a mim com a sua espingarda.

A silhueta de um homem foi revelada, surpreendendo a todos nós, principalmente Anlyn.

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