Capítulo 20 - Cósmico

Acordei com um sorriso nos lábios tão grande que poderia ser visto a olho nu lá de Klímpf. A noite de ontem foi tão incrível que até agora eu fico me beliscando para me certificar de que tudo o que aconteceu era real.

Por anos, eu estudei tudo sobre o amor e relacionamentos, e mesmo com todas as preparações que tive que enfrentar, ainda assim, eu descobri que não sabia tanto sobre o amor como eu imaginava. Apesar de eu saber como funcionava a parte técnica da coisa, eu nunca tinha passado por algo parecido. E definitivamente nunca antes havia me apaixonado.

Pelo menos não até agora.

Levantei da cama e pela janela vi o sol brilhando forte no céu. Ainda era cedo, Emily dormia, então eu saí do quarto fazendo pouco barulho para não acorda-la. Entrei no banheiro e a primeira coisa que fiz foi me olhar no espelho. Minhas bochechas estavam coradas e um sorriso despontava no canto dos meus lábios. Tentei ajeitar meus cabelos, que estavam revoltos pela pouca noite de sono, já que eu e Maurício ficamos juntos até a madrugada.

Só de pensar nele meu estômago já se revirava de nervoso.

Fiquei no banheiro por um tempo considerável, pois além de me ajeitar, ainda aproveitei para fazer as minhas necessidades e vestir meu biquíni.

Pela primeira vez em toda a minha vida eu pensava em mim, e a sensação era boa.

Um brilho avermelhado surgiu em minha frente e dei um pulo para trás quando vi a mesma borboleta neon. Dessa vez, ela voava tão perto de mim que eu conseguia ver suas anteninhas e seus olhos atentos. Levantei a mão e ela pousou no meu pulso, onde ficou por algum tempo. Sua aparição me fez perceber que eu não tinha alucinado nada daquilo, e eu me senti decepcionada quando a mesma voou para longe pela janela semiaberta do banheiro. Ela era a borboleta mais linda que eu já tinha visto.

Quando eu desci as escadas, encontrei os pais de Peter tomando café da manhã.

— Bom dia. — Eu os saudei com um sorriso no rosto.

— Bom dia, Lyra. Caiu da cama? — Lucio, o pai de Peter, brincou comigo.

— Quase isso. — Me sentei na frente deles à mesa.

— Tem achocolatado e suco de laranja. — Tatiana, a mãe de Peter, apontou para as jarras em minha frente. Resolvi escolher o achocolatado.

Passei manteiga em algumas torradas que estavam postas à mesa de forma organizada enquanto eu e os pais de Peter conversávamos. Por um tempo, fomos os únicos acordados na casa. Eles disseram que estavam loucos para me mostrar a Praia do Forno, e confesso que eu mesma também não consigo conter a empolgação. Pena que ninguém além de nós esteja de pé.

Depois de tomar o café da manhã, eu me dirigi à varanda da casa, onde fiquei sentada aguardando meus amigos acordarem. Ali, corria um vento gostoso e refrescante. Algumas revistas que repousavam de qualquer jeito em cima da mesinha à minha frente eram folheadas pelo vento.

Emily passou pela porta uns dez minutos depois de eu me sentar ali. Ela trazia no rosto um sorriso animado. Seus cachos estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela já se encontrava com biquíni por baixo de uma saída de praia muito bonita.

— Daqui a pouco nós vamos sair. — Emily anunciou, sentando-se ao meu lado.

— Estou louca para conhecer as praias daqui.

— Bom dia. — Maurício me saudou com um beijo demorado na bochecha. Fui pega de surpresa, o que me fez dar um pulinho assustado enquanto meu coração acelerava. — Do que estão falando?

Ele se sentou ao meu lado e envolveu meu corpo com seu braço.

— A Lyra está animada para conhecer as praias de Arraial.

— De onde você e os seus pais são? — A pergunta repentina de Maurício me deixou desconfortável.

A aflição já corroía meu peito, meu cérebro ficou totalmente preto e eu não conseguia pensar em nada. Até que eu vi uma das revistas em cima da mesinha, cujo nome em destaque era Petrópolis, o que me fez lembrar que esta era uma cidade do Rio de Janeiro. Eu sabia disso porque já tinha feito uma missão lá.

— Somos de Petrópolis.

Ufa, a resposta veio na ponta da língua e eu senti a tensão diminuir. Acho que Maurício não notou a tensão que habitava meu corpo, ou se notou, não demonstrou que havia percebido.

Emily ficou olhando para mim e Maurício com um olhar diferente, quase malicioso. Ao que parece, ela já tinha notado o que rolava ali.

Peter foi o próximo a aparecer. Ele estava com uma cara de sono e comia um pedaço de pão francês. Ele deu um beijo na bochecha da namorada, que o cutucou de forma nada discreta para lhe chamar a atenção sobre o que acontecia. Peter nos olhou de um jeito engraçado.

— A Lyra é de Petrópolis. — disse Emily, demonstrando que era algo inédito e raro eu compartilhar algo sobre a minha vida pessoal.

— Meus avós moram lá. — Ele respondeu, coçando os olhos.

— Nossa, que coincidência! — Por fora eu demonstrava empolgação, mas por dentro eu só pedia para que esse tópico da conversa morresse logo. Eu não fiquei tempo o suficiente em Petrópolis para conhecer o lugar, a única coisa que eu sei é que lá costuma fazer mais frio.

Os pais de Peter apareceram e o clima estranho se dissipou. Eu sabia que meus amigos queriam saber mais sobre mim, mas eu nem fazia ideia do que dizer. Daqui a pouco eu terei que anotar cada mentira que eu disser para não me perder no meio delas.

O caminho até a Praia do Forno não foi tão longo quanto imaginei. Tivemos que deixar o carro no estacionamento e seguir a pé por uma trilha. Maurício, que esbanjava empolgação, segurou a minha mão quando começamos a subir o caminho de terra.

Tiramos fotos durante a subida, e eu quase caí para trás com tanta beleza. Ao chegarmos na praia, meus olhos brilharam com o local, pois ele era tão paradisíaco quanto o Caribe.

O mar, azul cristalino, brilhava contra os raios de sol. Alguns banhistas já aproveitavam a calmaria do mar para nadar. Emily e Peter, que estavam de mãos dadas, começaram a tirar as peças de roupa e correram para a água enquanto Lucio e sua esposa arrumavam as coisas.

Eu e Maurício ajudamos o casal enquanto Emily e Peter se divertiam.

Quando terminamos tudo, Maurício me puxou para si e depositou um beijo em minha boca. Aquele gesto me fez ver estrelas. Encostei a cabeça em seu peito e fiquei sentindo seu coração bater acelerado e seu corpo quente contra o meu. Ouvi Emily e Peter gritarem da água algumas palavras que não consegui entender devido a distância, mas que eram, claramente, zoações. Maurício beijou a minha testa e me levou para o mar.

Sentir a água do mar sempre seria uma das coisas mais relaxantes que já fiz, e daquela vez não foi diferente. Mergulhei junto dos meus amigos e furei as pequenas ondas que o mar produzia. Peter jogou água no meu rosto e eu revidei. Logo, estávamos os quatro jogando água uns nos outros, em meio a risadas e muitas brincadeiras.

O sol ainda brilhava no céu e um vento muito bom corria por nós, amenizando o calor. Eu estava deitada numa cadeira de praia tomando sol ao lado de Maurício. Eu me senti tão em paz ali que era quase como se eu fosse uma terráquea como eles.

Os pais de Peter nos chamaram para ir a um quiosque na beira da praia comer. Quando fui me servir, fiquei observando a comida tentando entender o que seria aquilo.

Emily e Peter estavam passeando pela areia há alguns metros de onde nós estávamos.

— Isso é carne de sapo. — Maurício disse assim que coloquei um pedaço daquilo na boca. Arregalei os olhos e cuspi o que tinha comido.

— SÉRIO?

Ele caiu na gargalhada.

— Não, isso que você tá comendo é filé de peixe cozido. Desculpa, é que foi engraçado te ver encarando a comida desse jeito.

— Inacreditável! — Dei um empurrão em seu ombro enquanto Maurício continuava rindo de mim.

Nós comemos em meio a risadas e brincadeiras. O peixe estava uma delícia assim como o resto da comida.

Depois de comermos, nós resolvemos aproveitar o resto da tarde na água.

Maurício me pegou pela mão e me jogou dentro de uma onda que tinha acabado de se formar. Eu engoli um pouco de água e emergi tossindo, o que fez meu talvez-quase-namorado rir graciosamente de mim depois de se certificar que eu estava bem.

Pela primeira vez desde que ficamos juntos, eu tomei a iniciativa. Envolvi seu pescoço com meus braços e lhe beijei enquanto as ondas quebravam quase em cima de nós. Ele ficou surpreso de início, mas me beijou com o mesmo fervor que eu o beijava. Eu não conseguia me acostumar com a sua presença, toda a vez que ele roçava seus lábios no meu pescoço ou me beijava, um frio dominava a minha barriga e meu coração disparava.

— Chega de melação! — Emily surgiu atrás de Maurício e Peter, que nos empurrou para que nos desgrudássemos.

— Olha quem fala! — retorqui, apontando para uma Emily corada de vergonha.

Nós ficamos ali na praia por mais um tempo, nos divertindo juntos. Eu já sentia o medo de ter que ir embora dali, porque eu acho que nunca tinha me divertido tanto em minha vida.

Quando chegamos em casa, já era de noite. Uma parte de mim não queria ir embora, pois eu realmente me apaixonei pela Praia do Forno, mas eu não podia ficar lá para sempre. Chequei as mensagens no celular com tristeza, pois Anlyn me dissera que Hahue não tinha feito contato. Aquilo me afligiu, mas eu tentei a todo o custo disfarçar para que não percebessem.

Emily se jogou de qualquer jeito no sofá da sala com as pernas cheias de areia, fazendo sua sogra surtar.

— Menina, vai direto pro banheiro, anda! — Ela enxotou Emily, que se levantou no mesmo instante. Tatiana ainda deu um tapinha na bunda de minha amiga. Ela me puxou pela mão e correu comigo para o andar de cima aos risos.

Os olhos dela estavam cheios de curiosidade.

— Me conta tudo!

— Contar o que? — indaguei, ainda pensando em Hahue e Slahat.

— Não faz a egípcia, Lyra! Eu sei que você e o Maurício estão no maior love!

Resolvi contar tudo para a minha amiga, desde a parte que eu tive insônia e saí do quarto até a hora em que nós finalmente nos beijamos.

— Eu sabia que vocês dois iam ficar juntos alguma hora! — Ela comemorou, batendo palminhas.

— E você e o Peter? Estão bem?

Emily abriu um sorriso completamente apaixonado.

— Sim, melhor do que nunca.

— Quer dar uma volta comigo? — Eu estava na sala mexendo no celular quando Maurício apareceu. Emily e Peter estavam em algum lugar da casa e os pais de Peter cochilavam na varanda, pois estava bem fresquinho lá fora.

— Claro.

Maurício me pegou pela mão e fomos juntos para a rua.

Mesmo de noite, as ruas de Arraial do Cabo ainda permaneciam movimentadas porque a casa ficava próxima ao centro da cidade e porque ainda não era muito tarde.

Nós nos sentamos na areia da Prainha, uma das primeiras praias de Arraial do Cabo. Maurício tirou umas fotos minhas quando eu não estava olhando. Eu já me acostumara a ser fotografada, principalmente quando as fotos que ele tirava ficavam tão bonitas.

O próximo clique de Maurício me pegou desprevenida. Ele olhou a foto que tinha tirado e deu uma forte gargalhada.

— Me dá isso aqui! — Estendi minha mão fingindo estar brava. Rindo, Maurício me estendeu a câmera. Fingi que ia olhar a foto que ele tirou e apontei a câmera para o seu rosto.

Ele me olhou com indignação.

— Ei! — protestou, tentando tirar a câmera das minhas mãos quando o flash da câmera pipocou em sua face.

— Sinta o gosto do seu próprio veneno! — exclamei, dando uma alta gargalhada. Maurício tirou a câmera das minhas mãos para olhar as fotos que eu havia tirado.

— Você é muito engraçadinha. — Maurício apertou os olhos em minha direção, e aquela expressão só lhe deixou ainda mais fofo. Seus cachos balançavam contra a brisa fria.

— Por que você não gosta de tirar fotos suas?

Ele ficou pensativo por alguns segundos.

— Não é que eu não goste, eu só me sinto estranho não sendo o fotógrafo.

— Se sente exposto?

Ele deu de ombros antes de responder. Seu olhar encarava o horizonte.

— Talvez.

Puxei a câmera de sua mão novamente, foquei em seu rosto e tirei outra foto. O rosto de Maurício estava pensativo, e do ângulo que eu tirei a fotografia, dava para ver parte do céu estrelado. Maurício inclinou o pescoço para olhar a foto comigo.

— Uau, até que essa ficou boa. Isso aí só pode ser sorte de principiante. — Ele se aproximou mais de mim para olhar melhor a foto. Seu tom de voz era debochado e ao mesmo tempo brincalhão.

— Você deve estar com inveja de mim, isso sim. — Eu respondi, me gabando. Maurício, que forçava uma expressão séria, começou a rir. Ele me puxou para os seus braços e me deu um abraço.

Estar no meio dos seus braços acalmou a minha mente como nenhum outro chá faria.

Lembrar dos meus problemas parecia ser algo distante e insignificante a aquela altura. Estar neste lugar paradisíaco enchia meu coração de sentimentos que eu nunca pensei em sentir.

Ele segurou meu queixo e eu levantei a cabeça. Senti minhas bochechas ficarem quentes de vergonha quando percebi que Maurício me encarava de um jeito diferente. Encostei meus lábios de leve nos seus num beijo tímido que durou apenas meio segundo.

Maurício esboçou um sorriso e ainda segurando meu queixo me deu um beijo um pouco mais demorado. Eu não era a pessoa mais experiente neste departamento, mas pela forma como ele segurava meu corpo, acho que eu não era tão ruim nisso quanto pensava.

Ele acariciou meus cabelos e desceu as mãos até a base das minhas costas. O beijo, que até então estava calmo e devagar, foi assumindo uma forma diferente. Meu corpo começou a responder aos beijos de Maurício de um jeito que eu nem tinha controle. Sua boca grudada na minha e suas mãos em minha pele fizeram meu coração disparar ainda mais. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo comigo.

Encostei a minha cabeça em seu ombro e Maurício me abraçou novamente, enquanto eu me recuperava da sensação maravilhosa de seus beijos. Olhei para as estrelas, notando que o céu estava tão lindo quanto na noite anterior.

— Você tem mais alguma curiosidade sobre as estrelas aí na manga? — Com um sorriso, ele fez que sim com a cabeça.

— Tá vendo essa constelação aqui? — Ele apontou para uma constelação que estava bem no meio do oceano. — Ela se chama constelação de Ravena. Ravena era uma estrela que se apaixonou por um humano. Sempre que anoitecia, ela aparecia no céu para procura-lo. As outras estrelas sempre a seguiam, curiosas. Ravena passou bilhões de anos lhe procurando antes de morrer. Essa constelação é formada por todas as estrelas que a seguiram.

Afastei a cabeça de seu ombro e lhe encarei de modo surpreso.

— Uau, essa história é real?

Ele deu uma risada leve e eu fiquei sem entender o que era tão engraçado.

— Não, mas eu fico feliz que você goste das coisas que eu falo.

— Você é criativo. — observei, colocando em palavras um pensamento que se formou em minha mente — Mas porque algo assim não poderia acontecer? Quero dizer, existem planetas que talvez nem saibamos da existência. Por que coisas assim não podem existir?

Eu indagava aquilo na esperança de que Maurício fosse capaz de acreditar na existência de outras coisas, coisas como eu. Não sei porque eu queria tanto que ele acreditasse, já que eu nunca poderia contar a verdade sobre a minha origem, mas eu não conseguia evitar. Acho que eu queria que ele acreditasse porque de alguma forma significava que ele poderia acreditar em mim. No que eu sou, mesmo se não soubesse disso.

— Fica difícil acreditar naquilo que a gente não vê. Mas, talvez daqui a algum tempo, pode ser que a gente descubra algo cósmico. Isso seria legal.

Talvez o algo cósmico já esteja na sua frente e você nem saiba disso.

Foi o que eu pensei em dizer. Mas, ao invés de reproduzir o que eu pensava, eu apenas concordei com ele:

— É, seria mesmo. 

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