Capítulo 17 - A Briga
— Coloquei um sensor de sobrevivência nele. Enquanto piscar, Slahat estará bem. — Hahue levantou a pata e mostrou o que segurava. Era uma pequena bola prateada que piscava lentamente uma luz vermelha.
— Eu ainda acho esse plano arriscado demais. — Eu disse, andando de um lado para o outro. Eu me sentia inquieta demais com essa situação, principalmente agora que descobri que Slahat realmente tinha se deixado ser capturado.
Agora não dava mais para voltar atrás. O que me resta é torcer para que isso seja um mal entendido e que todos estejam bem, inclusive Slahat.
— Vai dar certo. Eu estou escondido do lado oeste da Área Sombria. — Hahue abaixou ainda mais o tom de voz, o que me fez praticamente grudar o rosto no holograma para conseguir ouvi-lo — Mais de quarenta Almas já foram levadas.
— E nenhuma retornou?
— Não, Lyra. — Seus olhos me fitaram de um jeito preocupado e triste.
— Estou preocupada com vocês.
Hahue tentou abrir um sorriso, mas o máximo que ele conseguiu foi ficar com a boca meio torta em uma careta.
— Fique tranquila, nós vamos resolver isso.
— Como, Hahue? Eu quero ajudar vocês. — Eu não sabia como ajudaria, mas eu estava cansada de ficar de braços cruzados.
— Você não pode voltar, Lyra. Olha, eu tenho que ir, mas prometo que volto a entrar em contato. Não me procure.
— Quando? — perguntei, odiando todo esse plano de ficar sentada esperando.
— Espero que em breve.
Hahue encerrou a conexão, deixando-me ainda mais aflita com a situação toda. Slahat realmente tinha dado continuidade ao plano, e eu não conseguiria e nem poderia ajuda-lo de maneira nenhuma. Contatar alguém estava fora de cogitação, já que eu não conhecia ninguém de confiança para isso. Se eu o fizesse, colocaria em risco meus amigos e isso era algo que eu não poderia fazer. Eu estava literalmente de mãos atadas, e eu odiava a sensação de impotência que corroía meu peito.
Assim que a porta da frente se abriu, corri até Anlyn para contar tudo o que Hahue tinha me dito. Ela me amparou mesmo estando visivelmente cansada.
— Lyra, eu quero ajuda-los tanto quanto você, acredite. — Anlyn segurou meus ombros e se abaixou para me olhar — Mas nós sabemos que isso não é possível. O que nos resta é torcer para que tudo se resolva e que o Conselho não esteja, sei lá, sacrificando as Almas banidas para entrar em alguma seita maluca.
— Eu não vou conseguir me concentrar direito na minha missão. — Eu disse, tirando suas mãos dos meus ombros e andando de um lado para o outro — O bom é que Emily e Peter estão muito bem. Eles não assumiram o namoro, mas já andam como se fossem namorados.
— Já pensou na possibilidade do Amor estar ciente disso? Dessas capturas loucas todas serem somente para alguma outra finalidade que não seja exílio ou qualquer outra coisa?
— Eu acho difícil que o Amor esteja ciente dessa captura. Ele delegou tantas tarefas e se afastou que eu duvido que o Conselho recorra a ele. A maior parte das coisas é o Conselho que lida diretamente, então eles não precisariam do Amor nem para autorizar a passagem das Almas capturadas pela Barreira Mágica. Só não sei se isso se aplicaria ao exílio.
O exílio era algo raro no meu mundo, mas acontecia. Se as Almas não estão voltando, é porque algo assim pode estar acontecendo.
— Você acha que as Almas banidas estão sendo exiladas a troco de nada? Eles não fariam algo assim, Lyra.
— Eu não sei mais o que pensar. De qualquer forma, o Slahat vai descobrir. Só não sei se vai sobreviver para nos contar...
Ficamos as duas em silêncio. Deixei que Anlyn fosse tomar banho e descansar enquanto eu pedia silenciosamente para que as coisas se resolvessem. Slahat precisa de proteção, mas enquanto ele estivesse sob a mira do Conselho, ele só podia contar consigo mesmo.
Eu passei a noite toda acordada repassando os meus problemas e preocupações para decidir qual deles merecia prioridade, e no meio do processo, acabei perdendo o sono.
Minha cabeça descansava em cima de minha mão, que estava apoiada de forma preguiçosa no tampo da mesa. Meus olhos estavam fixos em um ponto qualquer enquanto eu lutava bravamente contra o sono que me consumia.
— Você está parecendo um zumbi. — observou Emily quando olhou bem para o meu rosto.
— Eu sei, não consegui dormir essa noite.
— Deve ser porque vamos entrar na semana de provas. — disse Peter, abraçando Emily de lado.
— Deve ser isso mesmo. — Não era, mas tive que fingir que sim, pois eu não podia compartilhar com eles os meus pensamentos.
Passar a noite toda acordada não clareou as minhas ideias como achei que deveria. A preocupação com as Almas Sombrias — especialmente meus amigos — estava no topo da lista, mas não merecia tanta prioridade porque estou literalmente de mãos atadas. Fiquei a maior parte do tempo pensando em formas de ajuda-los, mas nada me veio à cabeça.
Outra questão que me perturbava era meus sentimentos por Maurício. Eu nunca ouvi relatos de Almas apaixonadas por humanos, mas tenho certeza de que se existem, eu nunca teria acesso. Deve ter um jeito de matar esse sentimento, e eu iria descobrir como fazê-lo.
A única parte boa nessa história toda — se é que existe uma — é que o Maurício nunca se interessaria por alguém como eu. Quem em sã consciência iria gostar de alguém que tem os cílios brancos?
Além das sobrancelhas e cílios brancos eu tenho olhos azuis claríssimos de um jeito bem distinto dos humanos. Minhas pupilas não dilatam tanto quanto as pupilas humanas, e isso me difere um pouco dos terráqueos. Outra coisa que me separa dos humanos são as sardas exageradas que estão espalhadas por quase todo o meu rosto. A Anlyn tem o rosto limpo, mas o meu é tomado por sardas, o que me deixa ainda mais diferente e bizarra.
Maurício e eu temos sim uma conexão, mas é uma conexão de amizade mesmo.
A única coisa que parecia ir bem era a minha missão, já que Emily e Peter são o casal mais fofo do colégio de Porto Detroy. Eles andam de mãos dadas pelos corredores, conversam sobre tudo e não são melosos.
As primeiras aulas do dia passaram por mim como um borrão. Eu andava tão distraída com as preocupações que ocupavam a minha mente que quando dei por mim, já era hora do intervalo.
Eu caminhava pelo corredor com os olhos cansados e a cabeça pesada de tanto pensar. Era um daqueles dias onde a gente só existe mesmo.
— Oi, estranha. — disse Carlos quando passei por ele e seu grupinho de amigos para ir para a sala de aula. Seu olhar em minha direção era carregado de deboche. Rayane e Eduardo estavam ali também e me encaravam de um jeito similar.
— O que você quer?
— Você acha que tá arrasando com essa sobrancelha pintada e essas sardas horrorosas, mas tá parecendo um ET. — A opinião não requisitada de Carlos sobre a minha aparência fez Eduardo, Rayane e o resto de seus amigos gargalharem. Eu revirei os olhos e fiz questão de demonstrar que aquele papo me entediava.
— E você acha que me ofende, mas eu só sinto desprezo pelo tipo de pessoa que você é.
— Olha aqui, sua puta... — Carlos avançou com o dedo apontado para mim e com o rosto transtornado, mas Eduardo o segurou pelo braço antes que ele pudesse me tocar. Eu nunca tinha lidado com uma pessoa tão furiosa antes e aquilo me assustou.
— Se você me chamar de puta outra vez eu....
— Você não vai fazer nada porque é exatamente isso que você é. — Rayane entrou na frente de Carlos com os punhos fechados.
— Não, Rayane. Eu não sou. Ninguém é. Sinto muito se o Maurício te deixou, mas não irei permitir que me culpe pelos problemas que você mesma causou. — Dei as costas para eles e continuei meu caminho tentando não parecer tão abalada por fora como me sentia por dentro. Deixei os gritos de Rayane para trás e entrei no refeitório com as mãos trêmulas
Esse acontecimento reforçava um novo pensamento em minha cabeça:
Acabou de surgir mais um problema para me deixar acordada a noite.
Assim que pisei no refeitório com meu lanche na mão, eu senti que o colégio inteiro me olhava e cochichava. A princípio, eu pensei que fosse impressão minha, mas a medida que eu avançava na direção dos meus amigos, eu percebi que não era coisa da minha cabeça.
Antes mesmo que eu me sentasse, Maurício disse:
— Lyra, me desculpe...
— Eu vou acabar com a raça da Rayane! — Emily bateu com a mão no tampo da mesa, furiosa. Seu rosto estava vermelho. Meu rosto provavelmente trazia uma interrogação enorme, pois Peter pigarreou antes de começar a me explicar o que tinha acontecido.
— Ela espalhou para a escola toda que você... bom, que você transou com o Maurício, com o Carlos e com o Eduardo.
— O que?
Tudo se encaixava agora. Os risos, os olhares e os cochichos. Eu nunca tinha me sentido tão exposta e vulnerável em toda a minha vida. Eu nunca antes me preocupei com a minha reputação. A minha maior preocupação sempre foi cumprir as missões e ser bem sucedida em meu trabalho. Porém, pela primeira vez na vida, eu era vítima de um boato maldoso e cruel que mesmo não sendo verdadeiro, fez meus olhos se encherem de lágrimas.
As vozes dos meus amigos foram ficando cada vez mais distantes. Maurício me segurou pelos ombros ao perceber o quanto eu tinha me afetado com aquilo e disse algo que eu também não consegui compreender.
A mão de Carlos em meu ombro me fez virar em sua direção. Ele também dizia algo para mim, mas eu ainda estava distante demais naquele momento. Fui brutalmente empurrada para o lado e caí sentada no chão. No instante seguinte Maurício estava em cima de Carlos socando seu rosto. Peter se juntou a ele enquanto Eduardo e o resto dos seus amigos iam para cima de Maurício e Peter.
Alguns alunos tentaram separá-los uns dos outros e apesar de conseguir ver o caos ao meu redor, eu ainda não conseguia ouvir nada. As coisas só voltaram ao normal quando Maurício se desvencilhou de todo o mundo ajeitando a camiseta da escola com brutalidade em seu corpo. Ele caminhou na direção de Rayane, que observava tudo de forma atônita. Percebi que Emily tentava a todo o custo me tirar do chão.
— Rayane, por favor, você sabe que esses boatos não são reais. Como você se sentiria se fizessem contigo o que você e seus amiguinhos fizeram com a Lyra? Entenda que o nosso namoro acabou por motivos que não envolvem ninguém além de nós dois. Se continuar atacando as pessoas que eu amo, vou perder todo o carinho que ainda sinto por você. Pare, por favor. — Rayane tinha o rosto vermelho e os olhos cheios de água. Seus lábios tremiam. Pela primeira vez Rayane entendeu que perdera Maurício para sempre.
O inspetor apareceu carregando Maurício, Peter, Carlos, Eduardo e todos os envolvidos na confusão para a diretoria. Inclusive eu.
Foi um caos. A diretora falava de um lado e nós do outro. Acabou que Carlos e seus amigos foram suspensos por três dias assim como Peter e Maurício, que quase foi expulso por ser bolsista. A suspensão com certeza mancharia o seu histórico impecável, o que o deixou extremamente irritado. O que salvou o Maurício foi que antes de hoje ele nunca tinha demonstrado um comportamento violento.
Emily nos esperava do lado de fora da sala da diretora. Ela estava sentada mexendo o pé de forma impaciente. Eu e os outros acabamos perdendo os últimos tempos de aula na sala da diretora.
— Fui suspenso por três dias! — Maurício esbravejou, chutando uma lata de lixo.
— O Carlos e o Eduardo que mereciam isso e não vocês. — Emily se levantou, acariciando o rosto do namorado enquanto falava.
— Nós não temos provas de que eles inventaram os boatos então a diretora não pôde fazer nada. — Peter demonstrava estar tão indignado quanto Maurício.
— A única coisa boa é que a diretora nos deixou fazer as provas na sala dela. O ruim é que teremos que fazer as provas da semana toda num dia só.
Parei no meio do caminho, sentindo-me culpada por ter prejudicado meus amigos.
— Me desculpem, eu não quis causar problemas para vocês
— Você é a que menos tem culpa nessa história. — disse Maurício, beijando minha testa.
— É, você me defendeu daqueles idiotas sem nem me conhecer. — Peter me abraçou de lado e me deu um sorriso.
A maioria dos alunos já tinha ido embora do colégio, mas alguns ainda se encontravam por ali. Parei no meio fio esperando que Anlyn já estivesse ali, mas pelo visto ela também tinha se atrasado. Emily me abraçou e foi ao encontro de Peter, que já caminhava para o ponto de ônibus.
— Você vai ficar bem? — Maurício perguntou para mim.
— Claro que vou. — Meus olhos encheram de água, e naquele momento tudo foi a tona. Tentei conter as lágrimas que insistiam para serem libertadas, mas quando Maurício enxugou meu rosto com a ponta do dedo, eu percebi que era tarde demais.
— Eu sinto muito.
— Você também não tem culpa de nada. — Ninguém tinha culpa, mas ainda assim eu me culpava pela detenção dos meus amigos.
Como uma bola de neve, todos os meus problemas e aflições se juntaram, e por isso as lágrimas vieram.
Maurício me deu um abraço apertado que por um momento me fez esquecer tudo o que tinha acontecido hoje. Seu corpo era tão quente e confortável que eu cheguei a fechar os olhos para aproveitar melhor aquele abraço. Ele ainda ficou ali por um tempo até que eu me acalmasse.
Quando ele se foi, a sensação de vazio me preencheu, principalmente quando me lembrei dos boatos que circulavam na escola sobre mim.
Eu comecei a me sentir observada enquanto aguardava Anlyn, e aquilo encheu meu corpo de angustia. As ruas estavam movimentadas pelos pedestres e carros, então era difícil saber se realmente havia alguém de olho em mim.
Andei para o lado e virei meu corpo para várias direções diferentes, sentindo uma palpitação em meu peito que me deixou desorientada. Meus olhos focaram em uma movimentação estranha do outro lado da rua. Atravessei sem saber se fazia a coisa certa e soltei um grito horrorizado ao ver Carlos, Eduardo e mais três amigos espancando Peter.
— NÃO! — gritei, me aproximando. Os covardes correram assim que ouviram meu grito, deixando um Peter ensanguentado para trás.
Seu rosto tinha vários hematomas, e seu lábio sangrava. Quando toquei seu rosto, Peter se encolheu de dor no chão.
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