Capítulo 15 - O Término (PARTE 1)
Rayane passou o dia todo tentando ser amável conosco. Ela falou com Emily de forma cordial mesmo com a minha amiga rejeitando sua aproximação, elogiou um desenho de Peter e disse que a cor do meu cabelo é linda. Claro que seus elogios não eram verdadeiros, já que ela só fazia isso para reconquistar Maurício, mas ainda assim nós agradecíamos como se acreditássemos que suas intenções eram boas.
Os boatos que circulavam pelos corredores da escola eram de que Maurício iria terminar com ela na própria festa. Ele não confirmou nem desmentiu essa informação, só disse que eles estavam dando um tempo.
Rayane vai dar uma grande festa no sábado e eu fui convidada assim como Emily e Peter. O que era estranho, já que ela não gostava de nós. Decidimos interpretar aquilo como mais um ato disfarçado de boa fé, que nós sabíamos que de boa não tinha nada.
— Aposto que o Maurício vai dar outra chance para a Rayane. — Peter comentou durante o intervalo. Emily bufou ao seu lado.
— Vira essa boca para lá, Peter. Isso não pode acontecer. Essa fingida só tem feito mal para o Maurício, ainda mais com essa história de festa. Essa doida quer plateia pra aprontar alguma. — Emily se curvou para amarrar o cadarço de seu All Star. Reparei que hoje ela usava um All Star branco. Ontem ela usou um rosa claro e quando a conheci, ela usava um amarelo. Peter me contou mais tarde que Emily coleciona All Stars desde pequena.
— É capaz de ela forçar o Maurício a dizer que os dois ainda estão juntos só para não deixa-la em maus lençóis na própria festa. — observou Peter, tamborilando os dedos nos lábios.
— Se ela fizer isso, vai ser uma coisa muito idiota. — Eu disse, pensando que se Rayane fosse capaz de fazer algo assim, que eu não a subestimaria mais.
— Eu não duvido de mais nada. Essa cobra é ardilosa.
O assunto acabou no momento em que Maurício se sentou em nossa mesa com Rayane a tiracolo. Ela realmente não sabia respeitar um tempo mesmo. Eduardo vinha logo atrás, ele abraçou Emily e a beijou. Peter desviou o olhar da cena.
— A aula da Rita foi muito boa hoje. — disse Maurício, olhando diretamente para mim. Ele sabia que a Rita era uma das minhas professoras favoritas.
— Foi mesmo. — Rayane disse, se metendo no assunto sem me deixar responder.
— Como você sabe se você nem tem aula com ela? — Ele indagou, fazendo Emily cuspir o achocolatado que bebia para dar uma risada exagerada. Rayane emburrou e saiu da mesa bufando enquanto Maurício olhava feio para Emily.
Prevendo a discussão que começaria ali, eu me levantei.
— Gente, eu vou ao banheiro. — avisei, caminhando para fora do refeitório, sentindo uma vontade repentina e louca de ficar sozinha. Eu precisava colocar a cabeça no lugar, pois quanto mais o tempo passava, mais eu me sentia confusa em relação ao Maurício, e isso é uma coisa que tem me assustado muito.
Ao entrar em uma das cabines do banheiro, que estava vazio, encostei minha cabeça na porta enquanto tentava de uma vez por todas expulsar qualquer sentimento que pudesse existir em mim por Maurício.
Eu não posso me apaixonar, eu não posso me apaixonar... Era o mantra mental que eu repetia.
Ouvi passos e vozes de pessoas entrando no banheiro, o que me fez esquecer do mantra mental que eu repetia. Reconheci a voz fanha de Rayane assim que ela abriu a boca.
— Aquela puta vai tirar o Maurício de mim!
Ela só podia estar falando de mim.
— Ray, você é muito controladora e ciumenta. Isso não é saudável. — Ouvi a voz sensata do que parecia ser uma de suas amigas.
— Essa estranha que é uma ladra de namorados!
— Por que vocês sempre atacam a mulher como se ela fosse a culpada de tudo? A garota é apenas uma amiga dele. Uma AMIGA! Você briga com o garoto até quando ele sai com a própria IRMÃ! Acorda, Rayane! A única pessoa que está afastando o Maurício aqui é você mesma.
Contive a vontade que eu senti de aplaudir a sensatez dessa amiga da Rayane, que perdera a fala por alguns instantes. Porém, eu reparei que ela não tinha absorvido nada do discurso da amiga quando retomou a falar.
— Ele vai voltar pra mim nessa festa, a Lyra não vai poder impedir isso. — Ela disse, batendo a porta do banheiro com força. Suas amigas ainda ficaram por um tempo reclamando da falta de noção da amiga antes de saírem também.
Respirei fundo e abri a porta do reservado pensando que a última coisa que eu queria no momento era uma louca me perseguindo.
As coisas com o meu grupo estavam estranhas, para não dizer o mínimo. Tentei dizer a Emily que estar com o Eduardo não a faria bem, principalmente porque ela não sentia nada por ele, mas não adiantou. Ela cismou que iria com ele na festa da Rayane e nem com meu poder de persuasão consegui convencê-la do contrário.
Peter dissera para mim que não se importava mais com isso e que sua presença na festa da Rayane traria muitas surpresas, o que eu achei bem preocupante. O Peter tramava alguma, e eu tinha medo do que esperava a Emily nessa festa. Estava na cara que a surpresa era relacionada a ela.
Além de ter que me preocupar com esses dois, ainda tinha a Rayane, que se convencera de que eu quero roubar o Maurício. Fico com receio de ir nessa festa, pois ela também pode estar tramando algo contra mim. Eu já tenho muitas coisas na cabeça, a situação com Slahat e Hahue tomava a minha mente de preocupações e teorias. Eu só queria que houvesse uma maneira de voltar para Klímpf sem ser notada. Eu não tenho nem forças para travar uma batalha colegial com a Rayane.
Anlyn ficou de dar carona para mim e para Emily, que encontraria Eduardo lá na festa. Quando chegamos, já era possível ouvir a música que tocava na casa de Rayane.
— Uau. — Anlyn disse, encarando o lar sofisticado de Rayane com admiração.
A casa devia ter uns três andares e um quintal que caberia a Cidade das Almas quase toda. O jardim que preenchia a entrada era muito bem cuidado. O portão de ferro e gradeado permitia que víssemos as pessoas transitando de um lado para o outro com copos de cerveja e salgadinhos na mão. Alguns já cambaleavam por conta da bebida, enquanto outros já se agarravam no meio do povo.
Nos despedimos de Anlyn e entramos na casa de Rayane, já que o portão se encontrava entreaberto, algo bem perigoso se formos levar em conta o número de assaltos que vinha ocorrendo de forma assustadora no bairro. Mesmo Rayane morando num bairro mais nobre, este não estava isento dos bandidos.
Enquanto passávamos pelo gramado, eu ficava me perguntando o que diabos eu fazia ali. O verão já tinha acabado e o clima estava mais fresco, o que me fez colocar um vestido leve de cor vermelha. Emily estava vestida com um macacão azul claro e All Star da mesma cor nos pés e os cabelos cacheados presos em um rabo de cavalo alto. Ela encontrou Eduardo na varanda. Os dois se abraçaram, Eduardo me cumprimentou e entramos juntos na festa.
Muita gente estava espalhada pelos cantos. A maioria dançava numa pista de dança improvisada no meio da sala. Um funk ensurdecedor e de letra duvidosa tocava no alto falante. Encontrei Rayane pendurada no pescoço de Maurício, que não parecia estar à vontade ali. Peter estava por perto também, acompanhado por uma garota negra e muito bonita.
Emily parou no meio do caminho quando os viu juntos. Ótimo, acabou de surgir mais um obstáculo para atrapalhar meu objetivo.
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