Capítulo 12 - O Sumiço das Almas

   Passei o resto do final de semana me sentindo extremamente romântica e inspirada, o que me ajudou a planejar os meus próximos passos em relação a minha missão. A chegada de Eduardo iria atrapalhar meus planos, e isso não era nada bom.

Decidi que ajudaria Peter primeiro afinal, além de inseguro e retraído ele é um garoto que tem dificuldade em expressar os seus sentimentos. É extremamente difícil para ele dizer o que sente, e Emily precisava que ele mostrasse a ela que se importa mais do que aparenta. Ambos ficarão na estaca zero enquanto um deles não tomar uma iniciativa.

A minha decisão de ajudar Peter não era só por causa da minha missão. Eu conheço esses humanos há pouco tempo, mas tenho que admitir que criei uma afeição por eles. São pessoas acolhedoras, estudiosas e que merecem coisas boas em suas vidas e eu prometi a mim mesma que enquanto eu estivesse na Terra eu faria de tudo para que eles ficassem bem.

Ao chegar no colégio, encontrei Peter sentado sozinho num banco de concreto ouvindo música. Ele abriu um pequeno sorriso ao me ver e tirou os fones de ouvido no mesmo instante.

— Meus pais decidiram marcar um psicólogo para mim. Eu ia em uma, mas parei quando meu antigo psiquiatra começou a me receitar alguns remédios para ansiedade.

Nós, as Almas, não temos muitos problemas de saúde. Nosso corpo e nossa mente já nascem preparados e fortalecidos para suportar qualquer doença. Porém, isso não nos impede de adoecer de vez em quando. São poucas as doenças que existem no nosso mundo, mas a grande maioria das que existem podem até mesmo nos matar.

O fato de Peter ter concordado em retornar ao psicólogo por conta própria me encheu de alegria.

— Essa é uma ótima notícia. — Segurei sua mão com carinho e ele corou de vergonha com meu gesto. Acho que eu era uma das poucas pessoas que o tratava daquela forma tão carinhosa.

— Eu pensei um pouco sobre o que você me disse em relação aos meus desenhos. — Ele olhava para baixo enquanto falava — Isso me fez refletir sobre outras questões.

— Isso é mesmo muito bom. — Abri um sorriso e percebi que Carlos e seus amigos olhavam para nós e cochichavam — Falou com a Emily nesse final de semana?

— Não, eu preferi não atrapalhar o encontro dela.

— Você quer conversar sobre isso?

Peter levantou a cabeça e me olhou como se decidisse se sentia a vontade comigo o suficiente para dizer o que se passava dentro de si.

— É que aquele Eduardo é um mané! — desabafou, respirando fundo para continuar — Ele pode ser bonito, mas é um idiota. Ele não está interessado nos estudos e dá em cima de praticamente todas as garotas que ele vê. Tenho medo de que ela acabe se magoando.

— Se serve de consolo, a Emily não gosta dele tanto assim.

— O Carlos e ele andam juntos. Os dois vivem implicando comigo. Não sei mais o que fazer para ter paz aqui dentro.

— Você nunca pensou em se defender de alguma forma? — No dia em que enfrentei Carlos eu percebi que ele nunca tinha sido confrontado antes pelas reações que teve. Se todas as pessoas que ele implica começassem a rebater as afrontas, tenho certeza de que ele perderia a voz.

— Não, porque eles são muitos e já ameaçaram me bater.

— Isso é um absurdo.

Carlos e seus amigos estão merecendo uma lição. Pelo jeito como olham para cá, tenho certeza de que será uma questão de tempo até que tramem alguma contra Peter ou contra mim. O que ele não sabe, é que quando ele resolver agir, eu já estarei lhe esperando.

— Oi gente, qual é a boa? — Emily e Maurício surgiram quase ao mesmo tempo em nossa frente. Os dois nos cumprimentaram com beijos na bochecha.

— Estávamos conversando algumas coisas sobre os nossos trabalhos.

Eduardo chegou por trás de Emily e a abraçou. Peter retesou os músculos ao meu lado.

— E aí, gatinha. — Ele beijou a sua bochecha ao mesmo tempo em que nos levantamos para ir para a sala de aula.

Caminhamos todos juntos e em silêncio. Notei que o braço de Eduardo se encontrava em volta dos ombros de Emily. Eu sabia que Peter, apesar de estar encarando fixamente o chão, tinha notado também.

Rayane ainda não tinha aparecido, o que foi um alívio, já que Peter, Maurício e eu nos mostrávamos totalmente desconfortáveis com a presença de Eduardo e se ela estivesse junto as coisas iriam piorar, já que Emily e Rayane tinham se estranhado outro dia.

Não demorou muito para que Eduardo seguisse seu rumo, uma vez que nossa sala vinha primeiro que a dele. Ainda pude vê-lo depositar um selinho nos lábios de Emily antes de nos deixar. Notei também que Emily se sentiu desconfortável com a demonstração de afeto e que as outras garotas que estavam em nossa sala lançavam olhares nada amigáveis a minha amiga. Pelo visto, existem muitas garotas apaixonadas pelo Eduardo em nossa turma.

— Tá, isso foi estranho demais. — cochichou Maurício ao meu lado antes de se sentar.

Emily me pediu para sentar com ela, então coloquei minhas coisas em cima da carteira que estava ao seu lado e me sentei.

— Como foi o encontro? — Somente a menção a palavra "encontro" fez o corpo de Emily ficar tenso.

— Ele saliva demais durante o beijo.

— E você ainda vai continuar saindo com ele? — Emily tinha uma expressão de agonia no rosto. Ela encarou Peter, que estava sentado em sua frente desenhando enquanto a professora não chegava.

— Eu não sei.

— Você está brincando com fogo e agindo de forma muito infantil.

Emily não me respondeu. Não sei se foi porque a professora chegou ou se refletia sobre o que eu dissera.

Peter reprime muito os seus sentimentos, o que significa que ele deve ter uma grande quantidade de raiva armazenada em seu peito. Fico com medo de que Peter acabe explodindo alguma hora, e dos danos que ele pode causar a si mesmo e também a quem estiver por perto caso isso chegue a acontecer.

A primeira coisa que eu fiz quando eu cheguei em casa foi pegar o comunicador. Hahue e Slahat não se comunicaram comigo ainda e eu tinha receio de que eles tivessem tentado falar comigo durante a aula. A minha preocupação começou a afetar a minha concentração na missão, uma vez que eu não consegui agir devidamente hoje quando Emily e Eduardo foram embora juntos, deixando um Peter emburrado para trás.

A única coisa boa no meu dia foi que eu não vi a Rayane na escola e Maurício também não fez questão de menciona-la na conversa nem uma vez. Achei estranho, mas preferi não me meter, eu já tinha um relacionamento que nem tinha começado para olhar.

Resolvi tomar um banho e almocei com o comunicador em minha frente. Já estava cogitando a possibilidade de leva-lo comigo para o colégio quando um som de chiado chamou a minha atenção. O som vinha do comunicador, e só as pernas de Hahue apareciam no holograma. A imagem tremeu e o rosto de meu amigo surgiu na tela. Slahat estava ao seu lado, eu só conseguia ver metade do seu rosto.

— Até que enfim vocês apareceram! — exclamei, me posicionando na frente do comunicador — Vocês estão bem?

— Lyra, nós vamos sumir por um tempo. — Hahue estava sério — Nós precisamos investigar uma coisa.

— O que?

— As Almas estão sumindo da Área Sombria. — Slahat disse, tão sério quanto Hahue. Aquela informação me deixou desnorteada.

— Sumindo? Como assim?

— Os Guardas estão tirando as Almas daqui com a autorização do Conselho. Coiotes e outras Criaturas da Noite e até as Almas presas no Limbo estão sendo levadas.

Todas as Almas que vão para a Área Sombria não saem de lá. As penalidades não são revistas, você é literalmente abandonado lá e tem que se virar para sobreviver. Ninguém, absolutamente ninguém tinha permissão para sair. Uma vez banido pelo Conselho, banido você ficaria. Só eles poderiam liberar o acesso para o outro lado, e ninguém nunca voltava para te buscar, então era estranho que os Guardas estivessem indo até lá capturar as Almas.

— E nenhuma delas voltou até agora. — completou Hahue. Percebi que ele falava baixo, como se alguém pudesse aparecer a qualquer momento.

— Acreditamos que o Conselho esteja fazendo algo com as Almas, só não sabemos o que.

— E como pretendem descobrir isso?

— Um de nós vai precisar ser capturado. — Slahat olhou fixamente para mim.

— Ficaram loucos? E se vocês morrerem? — Arregalei os olhos, quase agarrando o colarinho de Hahue e de Slahat pelo holograma, mesmo sabendo que era impossível.

— É a única forma de descobrirmos. — disse Slahat, demonstrando que não se importava em se entregar para o Conselho.

— Tá, mas se ninguém está voltando, como que vocês vão fazer pra se comunicar? Querem mesmo arriscar?

— Slahat é parente da Ansel. Eles não o matariam.

— Como tem tanta certeza? Eles jogaram Slahat pra morrer aí! Vocês não estão raciocinando. Não façam isso, por favor. — pedi, choramingando. Eu não queria perder meus amigos, tinha medo do que podia acontecer. Se o Conselho estava liberando o acesso das Almas banidas, se elas não estavam voltando, quer dizer que tinha algo muito estranho acontecendo.

— Eu preciso fazer isso, Lyra. — Slahat estava convicto. Percebi que eu não conseguiria tirar essa ideia de sua cabeça — Eu conheço a Ansel, ela sabe que não pode me ferir.

Fiz que não com a cabeça, mas eu sabia que de nada iria adiantar. Querendo ou não, os dois iriam dar continuidade ao plano suicida.

— Precisamos ir, Lyra.

— Prometam que vão me contatar quando puderem, por favor.

— Nós prometemos. — Hahue e Slahat sorriram tristemente para mim. Algumas lágrimas desceram pelo meu rosto. Aquilo não podia ser uma despedida.

— Tomem cuidado, por favor.

A imagem tremeu e a conexão foi interrompida.

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