Capítulo 25 - Carcereiro

11/05

Danielle abriu os olhos com dificuldade, prestando atenção na voz. Era Vincent. Sentando-se no sofá, ajeitou sua roupa e seu cabelo, indo para a cozinha. Eles estavam lá, tomando um café. Um arrepio passou pela espinha de Danielle, só de lembrar o susto que havia levado dele.

— Olá — disse Danielle, sem jeito.

— Boa tarde — disse Vincent, deixando a xícara sobre a mesa.

— Acho melhor vocês conversarem sozinhos. Será melhor — disse Robert — Estarei no quarto, ou no escritório.

— Vamos para a sala? — indagou Danielle.

Vincent assentiu, e seguiram para o cômodo.

— Novamente, peço desculpas por aquele dia.

— Aceito novamente — suspirou, o que queria era saber logo de tudo — Sei que você só fez o que Robert pediu.

— Bem, você quer saber primeiro sobre o que?

— Então, sobre a prisão e Daniel.

— Vejamos... — ele coçou a cabeça, olhou um instante para cima, e começou. — Quando cheguei ao Instituto de Recuperação...

— Onde?

— Não gostamos de chamar de prisão...

— Mas, alguém já se recuperou?

— Sim, mas foram poucos — ele fez uma pausa — Bem, quando eu cheguei lá, fiquei na segunda ala, cuidando de fantasmas como eu, os Espíritos. Meses depois, soube que ia ficar no lugar de um guarda. De Robert. Ele já possuía certa experiência, e me ajudou a entender como a ala um funcionava... No segundo dia, tive que presenciar algo bem... Desagradável.

"Um novo prisioneiro, adolescente. Ele tinha chegado inconsciente, e foi levado a UTI. Não imaginava que aceitavam gente tão nova. Robert explicou que não tinha jeito. Eles eram perigosos para a sociedade, mesmo com a pouca idade. Então, ele me levou para vê-lo. Era desumano ver aquilo. Ele parecia inocente, inofensivo enquanto dormia. Estava preso na cama, com algemas nos braços e pernas. Com vários tubos e máscara para respirar. Horas depois, ele acordou, então foi o problema. Robert foi para perto de um armário, e pegou uma seringa com agulha e um tubo azulado. Encheu a seringa e a escondeu atrás dele. O prisioneiro tentou se levantar, mas vendo que estava preso, começou a gritar, dizendo que queria sair dali. Quando se virou para Robert, ficou mais irado. Robert aplicou-lhe a injeção, colocando a mão sobre a cabeça de Daniel, pedindo-lhe desculpas.

"Daniel, então, desnorteado, fala algo que eu não entendi, e, logo após, adormeceu rapidamente. Achei aquilo muito brutal, horrível.

"Depois desse episódio, pensei em desistir de lá. Porém se meu pai conseguiu trabalhar por décadas ali, por que eu não conseguiria?

"Dias depois, ele já estava melhor, e foi levado a diretoria do Instituto. Lá, pessoas treinadas descobriram que tipo de segurança deveríamos dar a ele. Depois de uma longa conversa, mesmo que Daniel cooperando conosco em partes, ele foi levado a uma prisão nível Fantasma.

— Prisão nível Fantasma? — Danielle não se conteve.

— Quando um fantasma só pode usar um poder, ele é classe Sombra. Quando pode usar dois poderes, assim como eu, é Espírito, e quando pode usar três, é nível Fantasma, assim como Daniel, Robert e você. E tem um mais raro, um nível Possuidor, é quem pode possuir as pessoas. Esse necessita de muito mais cuidados, pois não pode manter nenhum contato com ninguém. E no caso de Daniel, ele era um Possuidor, mesmo que sem nem saber.

— Ele não poderia ter mentido?

— Poder, ele podia. Porém, ninguém consegue mentir para quem é treinado a mentiras. Eles têm o dom. Foi assim que descobrimos que ele já havia matado alguém, pois ele falara a verdade, e nenhum acusou do contra.

"Eu tive que ficar responsável por ele no meu turno. Antes, me apresentaram a uma cela. Ela até que era espaçosa. Tinha um espaço fechado para banheiro, uma cama, um criado-mudo e um pequeno armário com roupas. Não posso me esquecer das câmeras de segurança. Achei que elas eram comuns, mas... — ele balançou a cabeça, reprovando algo. — Eu mesmo tive que colocá-lo na cela e no primeiro momento, ele começou a se debater contra a porta, gritando que ele não devia ficar ali. Parecia um louco, até que... Ouvi somente um grito, de dor. Depois o vi estirado no chão.

"Era necessário. Quando o prisioneiro perturba o silêncio ou tenta fugir, as câmeras fazem o seu trabalho. Quando necessário, dão descargas elétricas, disse seu pai, antes de partir.

"Cada vez eu percebia como aquilo era cruel. Entrei na cela, já que ele estava desacordado. Coloquei-o na cama, e era incrível! Ele não parecia a mesma pessoa! Ele dormia profundamente, não sabia como ele estava. E foi assim por semanas. Levava choque, desmaiava, era posto na cama, dormia... Várias vezes por dia, a mesma coisa...

— Como ele era? — Danielle perguntou, mudando de assunto para fazer aquele sentimento agoniante sair de perto dela.

— Ele tinha cabelos escuros, que sempre estavam desgrenhados. Mas aqueles olhos... Não eram normais. Eram vermelhos, brilhantes, no começo, eram vingativos, odiosos. Nos últimos meses, ele mudou. Ele raramente levava choques, e ficava sentado no canto, ao lado de sua cama... Seus olhos eram tristes. Ele estava cansado, abatido...

Ela se lembrou do sonho que teve antes da fuga de Daniel.

— Você sabe exatamente como ele fugiu?

— Sei, mas não presenciei. Tive que me ausentar e outro ficou no meu lugar. Ele me disse que foi surpreendido por Daniel, pego pelo pescoço e subitamente possuído. Todos achavam que ele tinha conseguido escapar da cela, mas ainda permanecia no Instituto. Levaram o guarda para a enfermaria, já que ele estava desacordado. Não podiam imaginar que ele estava possuído.

"Logo que ele acordou, fugiu pela janela. Depois de sumir por um tempo, foi encontrado numa praia de Massachusetts, já... Morto

— Você o considerava uma má pessoa?

Ele balançou a cabeça, afirmando.

— Ele dizia que precisava se acertar com a sua irmã, que roubara seus poderes.

— Eu roubei os poderes dele? Como?

— Não disse que roubou de fato. Como isso poderia ter acontecido? — ele deu um leve sorriso — Às vezes, queria saber o que tinha acontecido com ele de verdade. Queria poder conversar com ele para saber o que fez ficar assim.

— E você não podia? — perguntou ingenuamente.

— Tinha que manter o emprego.

— No seu turno, cuidava somente de Daniel?

— Sim. Quando fazia parte da ala dois, poderia cuidar de dois prisioneiros. Eles haviam feitos pequenos delitos, como roubar uma loja de videogames e outra de joias. Mas como Daniel, além de ser um nível acima de mim, ele matou uma pessoa. Deveria ter cuidados exclusivos.

— Mas você, sendo um Espírito, poderia cuidar de um Fantasma?

— Sim, quando é somente um nível acima, sendo Daniel o único que eu cuidava. Seu pai, por exemplo, cuidava de dois do mesmo nível. Eu poderia cuidar de dois do mesmo nível que eu.

— Interessante. Quem é o dono de lá? — ia tentar arrancar o que poderia dele.

— Na verdade, sei somente que pertence de uma Família Real...

— Família Real?

— Coisa da Inglaterra sabe, realeza — Vincent sorriu — Brincadeiras à parte, são fantasmas muito poderosos.

— Mais do que os Haunt? — indagou curiosa para conhecer essa família.

— Na verdade... Devem ter um nível bem parecido — disse o que sabia.

Verificando o relógio, percebeu que não poderia mais ajudá-la.

— Danielle, eu preciso ir. Daqui a pouco tenho que pegar o avião, para voltar...

— Está bem. Muito obrigada mesmo. Você me ajudou a imaginar como Daniel era e a entender algumas coisas. Pelo menos não tenho que me preocupar com ele.

— Não sei. Se ele disse que queria se vingar para alguém, ou que não gostava de você, se essa pessoa souber que ele está morto, pode ser um problema — ele se levantou, indo para a porta.

— Vocês sabem se ele tinha algum amigo, uma namorada, e que podia saber de tudo? — ela se levantou-se, para se despedir.

— Não, é só uma hipótese...

Robert desceu as escadas, para se despedir e agradecer a Vincent também.

Danielle foi para seu quarto pensar na hipótese. Se tivesse contado a alguém, talvez ao colega de quarto. Sentou-se rapidamente, tentando se acalmar. Pensava estar neurótica. Temia ter alguém a sua procura, alguém que ia acabar com sua vida.

— Não! Não tem ninguém... — gritou até baixar a voz a um sussurro.

— O que foi Danielle? — perguntou Robert, aparecendo no quarto.

— Estou com medo dos meus sonhos... Você teme? — indagou receosa.

— Sim, temo. Os piores, para mim, são os das possibilidades.

— Possibilidades?

— É — ele se aproximou da cama, e prosseguiu — Você tem uma série de sonhos, mostrando o fato em consideração com finais diferentes. Minha mãe, que tinha na família gêmeos também, explicou assim:

Se você fez uma prova, e estudou, mas achou que errou tudo, você poderá ter sonhos disso. O primeiro, de você sem estudar, e tirando zero. O segundo, com você colando, e tirando uma boa nota, mas com o peso na consciência, já que você colou. E o terceiro e último, com você sendo descoberta colando, com um zero e uma suspensão.

"São possibilidades do fato a prova. Isso não quer dizer que são sempre três sonhos também. Entendeu?

— Sim, perfeitamente. Eu sonhei algumas vezes com cemitério — disse com receio de dizer isso a ele.

— Como eles eram? — perguntou se sentando em sua cama.

— Eu estava de luto, vestida de preto. Com um ramalhete nas mãos mas não conseguia ver de quem eram as lápides.

— Interessante. Tive um sonho semelhante a esse. Tempo depois, um amigo meu faleceu, doente. Não tem muito nexo nós termos esses tipos de sonho. Alexander também teve um sonho no cemitério, ele me contou enquanto estávamos no velório... Não quero te assustar, mas, alguém próximo de você... — ele parou de falar depois de ver sua filha temendo aquilo — Ou pode ser um medo seu; perder alguém, já que perdeu seu irmão... — ele sorriu, tentando a acalmar.

O sorriso de Robert não adiantou, ela estava temendo perder alguém. Sentiu um frio tomar conta de seu corpo, era o medo do futuro.

— Calma filha... — Robert a abraçou forte, como fazia quando era criança.

— Por que temos esses sonhos? — indagou no meio de soluços. Chorava pensando na possível perda — Achei que sermos separados já era ruim o bastante.

Ficaram abraçados até ela se acalmar.

— Está melhor? — ela somente assentiu, escorando-se em seu ombro, dando uma trégua a tudo.

— Achei que você não gostasse de mim... — ele disse fazendo um cafuné nela.

— Mesmo que você tenha me separado dele, não ter contado toda a verdade a minha mãe... Você é meu pai. Eu te amo sim — deu um largo sorriso, verdadeiro, assim como as minhas palavras.

— Eu te amo também. Talvez não pareça, mas te amo muito. E, fiz e faço o possível para salvar você, e a ele.

Abraçaram-se forte. Ela pensou em ser mais flexível com o pai. Ele pensou que tentaria dizer o que faltava a ela alguém dia.

Ela se escorou na cabeceira da cama.

— Se ele não tivesse sido preso, como seria?

— Acho que... Eu o traria comigo, naquele dia que você me chamou. Ou, ele estaria estudando no colégio interno ainda.

— Teria conhecido ele então — sorriu — Eu ainda não me lembro muito dele. Isso é normal?

Ele deu de ombros.

Pensou que havia algo que ele ainda escondia. Decidida a ainda ficar em trégua, mudou de assunto.

— Pai, existem de fato fantasmas?

— Ah, bem, eu nunca vi na minha frente. Mas, eles existem.

— Como? São... Pessoas mortas que não encontraram o seu caminho?

— Basicamente sim. Ou, que tiveram uma morte trágica, mal resolvida, ou que guardavam um segredo que tinha que ser dito, sobre sua própria morte... Também porque deixara uma pessoa amada por aqui. Há várias teorias.

Uma ideia percorreu a mente dela.

— Isso quer dizer que eu ainda posso vê-lo?

Ele balançou a cabeça, reprovando essa ideia.

— São teorias, não sei se é verdade. Não sei como encontrar fantasmas, principalmente um em especial. É impossível, eu acho.

— Tá bem, entendi. Mas se souber de algo me avise.

Ele concordou, embora soubesse que isso seria praticamente impossível.

Robert saiu do quarto, deixando Danielle com seus pensamentos.

O silêncio de Robert estava a incomodando.

Queria que ele contasse tudo a sua mãe.


E aí meus fantasmas, como vão?

Nesse final de ano chegaram as cópias da antologia que participei. Nela tem um conto que fala como os Haunt, Spook e Eidolon conseguiram seus poderes. A terceira família ainda é desconhecida por vocês, ou será que já apareceram na história? Fica a dúvida haha

Quem quiser comprar uma cópia, só me avisar que explico certinho.

O que acharam das revelações de Vincent?

Como fiquei uma semana sem postar, vou tentar postar mais um no decorrer da semana.

Até mais!

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