Capítulo 11 - Prisioneiro
21/03
No restante do mês e a primeira quinzena de março, Danielle treinou bastante tempo sozinha, fazendo tudo perfeitamente, sem acidentes. Voava com mais facilidade, chegava a até 2 metros de altura descomplicadamente e com certa velocidade. Aprendeu também a controlar os arrepios, o que foi difícil no começo; era impossível não curvar o corpo em si mesma quando seu pai chegava do trabalho, de tão poderosa era a força que ele emanava. Com certo tempo, passaram a ficar mais leves na medida em que se acostumava com eles. Nos últimos dias, até parecia se tratar de arrepios "normais".
Algo que não mudou e que continuava a incomodá-la era o fato de seu pai esconder coisas dela. Desistiu de perguntar, ficando apenas atenta ao que ele dizia, à procura de alguma brecha, mas, infelizmente, ele não deixava escapar nada.
Era oito horas da noite e Danielle já estava na cama, com uma dor de cabeça insuportável. Dor que surgira após uma sessão de filmes com Taylor; as duas tiveram a ideia de terminar a maratona Harry Potter, já que fazia algum tempo que tinham assistido aos filmes e gostariam de reassistir a todos de uma vez só. Começaram na semana anterior, assistindo aos quatro primeiros, deixando os últimos quatro para aquele final de semana. Mesmo que em duas partes, havia sido demais para seus olhos. Não acreditava que a culpa fosse dos filmes, mas prometeu a si mesma a não ficar tanto tempo em frente à televisão de novo.
Não havia conseguido jantar direito, comendo apenas um pedaço de sanduíche para não tomar remédio de estômago vazio. A dor era tão intensa que não conseguia dormir, apesar de o remédio ser daqueles que a derrubariam em qualquer outro dia.
Uma hora mais tarde e Danielle sentia o rosto queimar ainda que o corpo tremesse com um frio avassalador. Deveria estar com febre, mas não tinha forças para chamar os pais. Ficou encolhida em posição fetal, esperando a dor passar.
Se hoje eu não conseguir, vou enlouquecer.
Ecoou na mente de Danielle.
"Que legal! Estou delirando!", pensou. "Ou melhor, deve ser Você-Sabe-Quem. Por que fui rever os filmes do Harry Potter com a Taylor hoje?!"
Com dificuldade, conseguiu cochilar um pouco. Não sentia mais estar com febre, mas a dor de cabeça ainda retumbava em suas têmporas.
— Filha, você está bem? — perguntou sua mãe, entrando no quarto, preocupada com o aspecto de Danielle.
— Dor de cabeça — murmurou a garota — Pode checar se estou com febre?
Victoria pegou o termômetro que havia no banheiro da filha e aproximou-se para verificar a temperatura. Enquanto esperava, colocou a mão na testa de Danielle.
— Está fria — comentou e encarou o termômetro confusa — Não está com febre, não.
— Acho que estou delirando — a garota murmurava quase inaudivelmente — Pensei ter ouvido vozes...
— Quer que ele leve você ao médico? — perguntou a mãe preocupada. Isso nunca acontecera.
— Não precisa... — Danny se aconchegou melhor nas cobertas que a mãe arrumava em sua volta — Só estou com dor de cabeça.
— Tem certeza? Você acabou de dizer que estava delirando...
— Tenho. Deve ter sido os filmes... — bocejou —Vou ficar bem.
— Boa noite, filha — Victoria beijou o topo da cabeça de Danielle. — Qualquer coisa, me chama. Vou deixar a porta entreaberta.
— Boa noite — respondeu e tentou dormir. Depois de se revirar por algumas horas na cama, finalmente conseguiu.
Acordo na cama de colchão duro. Levanto-me, alcançando o gélido chão de pedra polida. O frio não me incomoda, o hábito fez com que eu até me sinta bem em temperaturas tão baixas.
O lugar está um breu. Vou andando em frente e me lembro que a luz que às vezes me alcança é a do farol que em intervalos, ilumina onde eu me encontro. Olho para onde vem a luz, uma janela com grades, deixando cada fresta iluminada parecer um castigo de luz em vez de alguma coisa boa. É como em um filme antigo, daqueles em que retratavam a prisão do jeito que era há muitos e muitos anos. Horrível.
Penso em como seria fácil se as prisões fossem todas iguais. Seria só atravessar a porta e pronto. Livre. Mas aqui não funciona assim. Já perdi a conta de quantas vezes tentei, sem sucesso, atravessar aquela cela.
Vou ao pequeno espelho, iluminado de tempos em tempos pela luz do farol. Meu rosto está muito abatido. Nem lembro a última vez em que dormi direito ou me alimentei o suficiente. Não aguento mais esse lugar. Meus olhos, do mais puro e brilhante vermelho, me dão uma aparência fantasmagórica, contrastando com minha pele branca que nem se lembra como é ser beijada pelo sol.
Preciso sair daqui o mais rápido possível.
Assustada, Danielle acordou, sentando-se rapidamente, percebendo estar no aconchego de sua cama e não no que parecia uma cela de prisão. Não se lembrou da aparência do rapaz em que viu no espelho, lembrando-se apenas da intensidade de seus olhos vermelhos. Respirou fundo, deitando-se de novo, se deixando levar pela mão convidativa de Morfeu.
Olho para a grade existente na porta de aço. Os corredores estão iluminados e sou capaz de ver alguém chegando. Adam, o carcereiro ala dois, está de ronda. Ele é demasiadamente sádico, se alegra com o sofrimento dos outros e nem tenta disfarçar, parecer minimamente humano. Isso me faz abominá-lo.
— Ainda acordado, Daniel? — pergunta ele, com aquele tom arrogante.
— Apenas cobrindo o turno do Vincent — ele diz e olha para mim, bem fundo nos meus olhos. Não gosto do jeito que ele me olha.
— Perdeu alguma coisa? — pergunto sem paciência.
— Eu não perdi nada. Já você... — e começa a rir.
— O que perdi? — me aproximo da porta.
— A noção de quem poderia ser — ele também se aproxima um pouco mais — Sabe, você tem que ser muito idiota para ter feito essa merda toda sendo de uma família importante como a sua — diz sorrindo. Seus olhos negros me fitando me deixam com raiva.
— Eu sou idiota? — eu poderia tentar fugir agora. E ainda deixaria a culpa para Adam. Ele merecia.
Seguro nas grades com as duas mãos, já esperando o que vem. Ele somente ri um pouco mais de mim, pressentindo o choque que está prestes a me atingir e logo as descargas elétricas começam, ainda sem força máxima.
Olhar ele rir largamente enquanto meu corpo treme pelo choque, me deixa puto. Avanço um pouco mais, atravessando os braços pelos vãos da grade, e o agarro pelo colarinho daquela camisa ridícula que ele parece nunca trocar.
— Se continuar, você vai morrer — ele adverte. O sorriso não está mais lá e há certo medo em seus olhos.
Quem dera que ele não estivesse preparado, então poderia sentir também os choques que eu sinto.
Seguro em seu pescoço com força. As descargas aumentam, chegando ao máximo do que já aguentei.
Tudo fica preto.
Danielle acordou gritando pelo choque que parecia ter sentido. Teve sorte de ninguém ouvir. Acendeu a luz, pegou o termômetro e verificou a temperatura. Não tinha febre. Estava bem, até a dor de cabeça havia passado.
Tentaria voltar a dormir. Olhando as horas, recém marcava duas da manhã. Voltou a se deitar, demorando a dormir, pois pensava no que havia sonhado.
"Adam e Vincent, quem poderiam ser?"
22/03
Finalmente, livre deste pesadelo.
Voando sobre esse oceano infinito.
— Li-vre! — grito com minha voz rouca.
Acordada por mais um dos pesadelos, Danielle ainda ouvia uma voz rouca em sua cabeça e lembrava-se do oceano infinito abaixo de seus pés. Observando os raios de Sol se esgueirando pelas frestas da janela, pensou que talvez já pudesse levantar.
Queria acreditar que todos os sonhos não passavam de delírios causados pela febre, mesmo que o termômetro provasse o contrário.
Sonhara com um prisioneiro, um garoto desconhecido. Não era o mesmo dos sonhos que tivera no final do ano anterior, pois o jeito que ele pensava e agia era diferente. Quem poderia ser essa pessoa? E aquele olhar hipnótico, aqueles olhos vermelhos, deixariam qualquer um com medo de chegar perto dele.
Danielle quis acreditar que os sonhos foram provenientes dos filmes que viu, pensando na prisão de Azkaban. Acreditou também que era melhor esquecer tudo isso por ora e descer para comer alguma coisa já que fazia tempo que não se alimentava.
Chegou na cozinha e seus pais já estavam tomando café da manhã.
— Acordou cedo, caiu da cama? — brincou seu pai assim que a viu.
— Não, só não consigo dormir mais — respondeu, sentando na cadeira a sua frente.
— Está melhor, filha? Ou não conseguiu dormir direito? — perguntou Victoria enquanto colocava as torradas na mesa.
— Estou melhor agora. Mas dormi ainda me sentindo febril e com dor de cabeça, tive um daqueles sonhos estranhos, ouvi vozes — suspirou — Foi bem intenso.
— Você estava doente? — Robert perguntou desentendido — E o que você quer dizer com "um daqueles sonhos estranhos"?
— Agora já estou bem — respondeu, servindo-se de uma caneca gigante de café — Com febre, uma forte dor de cabeça e alucinações, eu acho — deu uma risada abafada. — Delirei... E os sonhos... Você deveria saber.
— Que sonho você teve?
— Não sei explicar direito...
— Tenta, pode ser que eu entenda — Robert insistiu, visivelmente preocupado.
— Nem eu entendo o que aconteceu, pai — ela se calou quando percebeu que chamou ele de pai.
— Tudo bem, filha — respondeu ele, feliz por ouvir pai sair da boca de Danielle — Mas se você não falar, não vou conseguir ajudar.
Outro suspiro.
— Okay, vou tentar. Sonhei que estava numa prisão e que eu não podia atravessá-la. Eu também era fantasma, tinha poderes, mas sabia que era impossível usá-los naquela prisão.
— Será que foi o que a psicóloga falou aquela vez, um desejo subconsciente de ter um irmão, por isso, ele teria as mesmas habilidades, seria tão parecido com você? — Victoria perguntou quase em um sussurro.
Robert olhou muito sério para ela.
— Acho que foi o monte de filmes que eu vi ontem — respondeu Danielle — Mesmo que o Harry Potter possa se passar como meu irmão mais velho, acho que não tinha ligação. Talvez eu precise voltar para a terapia.
— O que mais você lembra do sonho? — perguntou seu pai.
— Era como se eu visse o mundo pelos olhos de outra pessoa. Foi muito estranho — ainda não acreditava que estava falando com Robert sobre o que sonhara, parecia tão íntimo.
— Realmente, bem estranho — ele se levantou, subindo as escadas e não falou mais nada sobre o assunto.
Danielle ouvia música tão alto de sua banda preferia, Paramore, que não reparou nas batidas da porta de seu quarto, nem viu Taylor entrar e começar a cantar o refrão de Misery Business, alto o suficiente para vizinhos reclamarem. Sorrindo, acompanhou a amiga. Terminaram de cantar para se falarem:
— Danny, então... — Taylor pegou fôlego. Havia feito muitas jogadas de cabelo. — Meu pai veio falar com o seu. Então resolvi fazer uma visitinha a você.
— Você sabe qual é o assunto?
— Não. E a sua mãe? — perguntou Taylor sentando-se na cama.
— Ela acabou de sair para visitar uma amiga. Acho que só voltará à noite.
Conversaram um pouco como se não tivessem visto ainda no dia anterior e já tivessem muitas novidades para contar. Danielle tinha uma:
— Tay, eu tive um sonho bem estranho essa noite.
A amiga já se preocupou:
— Era tipo aquele que você tinha ano passado?
— Acho que não...
— Como foi então? Você só tinha sonhos assim quando vê filmes de terror.
— E a culpa foi sua! — exclamou rindo e jogou um travesseiro na amiga.
— Como pode ser minha culpa?! — ela exclamou surpresa, desviando das batidas com o travesseiro.
— Já não bastava eu estar com febre e dor de cabeça...
Taylor se preocupou ainda mais:
— Você estava passando mal ontem?
— Sim, pouco depois de você sair. Parecia que tinha uma voz em minha cabeça...
— Ah, a culpa é da nossa sessão Harry Potter?! Isso não faz sentido, sua doida.
— Provavelmente seja culpa dos filmes sim, está bem? — riu — Tinha uma voz estranha na minha cabeça enquanto estava com febre, estava delirando...
— Sonhou com mais o quê além do Você-Sabe-Quem? — a amiga debochou — Hogwarts? Azkaban?
— O sonho foi mais estranho. E foi com uma prisão...
— Você sonhou com Azkaban mesmo?!
— Não, para mim era tão sinistro quanto Azkaban... Sonhei que estava numa cela de prisão e que lá era muito escuro e frio. E eu não conseguia atravessar nada... Apesar de saber que possuía os poderes. Eu não conseguia atravessar aquelas paredes.
— Que estranho, algo que os Haunt não conseguem atravessar... — disse Taylor sorrindo.
— Engraçadinha — retrucou sorrindo também — E depois veio uma luz, de um farol lá longe, entra na cela pelas grades da janela, iluminando parte do lugar que eu não tinha visto antes. Olhei para o espelho na minha frente e vi no reflexo um garoto, mais velho que eu, presumo...
— Como ele era? Bonito? — Taylor levantou as sobrancelhas.
— Não sei direito, com a luz do farol, consegui ver apenas seus olhos: tinham a íris avermelhada e pareciam hipnotizantes — enquanto descrevia o sonho, a outra garota ficava cada vez mais espantada.
— Nossa, Danny — falou Taylor depois de um tempo, pondo as mãos na boca — Que sonho mais do estranho é esse?
— A culpa é sua! — Danielle repetiu, jogando mais uma vez o travesseiro nela — Eu não queria ver todos os filmes num dia só...
— Ah, e como eu ia saber que você teria sonhos estranhos por causa da nossa sessão? Harry Potter, Danielle, crianças de dez anos assistem e não se impressionam assim.
Danny ficou um pouco envergonhada.
— A culpa também era da febre...
— E o que a voz de Você-Sabe-Quem dizia?
Antes que pudesse responder, Vladmir bateu na porta e chamou por Danielle.
— O que será que seu pai quer comigo? — perguntou a Taylor.
— Não sei. Vamos lá ver — respondeu Taylor, se levantando também.
Não o encontraram do outro lado da porta e isso fez com que as duas descessem as escadas para encontrar os dois pais na sala. Perceberam que Robert estava preocupado e inquieto. Danielle se perguntou o que poderia ter acontecido para ele ter ficado daquele jeito.
Aproximou-se dele, estranhando a expressão tensa em seu rosto. Ele se levantou, colocando uma mão em seus ombros, fazendo um sinal com a cabeça para Vladimir.
— Vamos Taylor — disse o homem, indo em direção a porta, muito sério — Esse assunto é de família.
— Está bem, pai — a garota assentiu e os dois foram embora sem mais uma palavra.
— O que houve, pai? — perguntou, retirando suavemente as mãos dele de seus ombros para que pudesse olhá-lo nos olhos — O que aconteceu para você ficar assim?
Mesmo distante, Danielle estava começando a se esforçar a aceitá-lo como pai, já que era algo que sempre quisera em ter de volta.
— Acho melhor sentarmos — ele disse, estendendo seu braço e apontando para o sofá.
Danielle assentiu, sentando-se um ao lado do outro.
— Danielle... — ele parecia incomodado com alguma coisa, como se não concordasse com o que estava prestes a falar — Chegou a hora de você saber toda a verdade.
Olá meus fantasmas!
Então, estamos muitos próximos de descobrir a verdade!
Quem é Daniel? Vincent? Adam?
Teorias, palpites e perguntas? Venham para o grupo de Haunt, link na minha bio!
Até mais 💙
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