Capítulo 07 - Treino
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Danielle colocou seu par de tênis surrado e acompanhou o pai até o quintal, que era grande e bem florido, pois sua mãe contratava alguém para cuidar da paisagem. As flores que mais gostava de lá eram os lírios e as rosas, apesar de serem muito distintas, cada flor parecia trazer em si uma força que ela não conseguia explicar: não eram flores apenas bonitas, eram majestosas. Além de algumas árvores frutíferas, havia também uma mesa de madeira fosca, onde almoçavam quando os Parker, família por parte da mãe, vinha visitá-las, e aproveitavam os dias de sol para desfrutarem da grama muito verde e fofa, que era trazida de algum país distante e bonito. Mas isso tudo no verão, pois, no final de inverno, a grama ficava queimada por causa da neve e as árvores ficavam secas, parecendo se tratar de um quintal completamente diferente.
Porém Danielle adorava aquela parte da casa.
Robert tirou o blazer do terno e a gravata para colocá-los depois sobre a mesa de madeira. Deu uma leve arregaçada nas mangas e virou-se para a filha ansiosa:
— Tente ficar invisível.
Danny ficou parada esperando que seu pai dissesse mais alguma coisa, pois não poderia ser simples assim.
— Achei que tivesse ficado claro que eu não sei fazer nada — ressaltou quando viu que ele não diria mais nada — Inclusive ficar invisível, sabe, por livre e espontânea vontade.
Robert pareceu ter que respirar fundo para repor a paciência.
— Tudo bem, eu mostro como se faz primeiro — e do nada ele sumiu. Sem nenhum vestígio ou fumacinha como nos filmes. Sem emitir som algum.
Alguns segundos depois, se materializou ao lado da de Danielle, que, tendo um bom reflexo, deu um soco no estômago do pai pelo susto que levara; não estava preparada para realmente vê-lo sumir e aparecer em outro lugar, logo depois. E, para piorar a cena, percebeu que ela não tinha o atingido de fato: estranhamente seu punho fechado atravessou o abdômen de Robert e saíra pelo outro lado, atravessando completamente seu tronco.
Então Danielle gritou de medo, nojo e susto, tudo ao mesmo tempo. Ela nem saberia dizer bem o motivo por estar gritando, só achou aquilo muito perturbador. A sensação era tão estranha e tamanho era seu espanto, que ficou paralisada.
— Você poderia, por favor, tirar seu punho do meu estômago? — pediu o pai, mas estava sorrindo.
Ela moveu seu braço devagar e tirou o punho de dentro dele. Mesmo que agora tudo finalmente parecesse real, ainda era muito difícil de acreditar no que acabara de acontecer.
— Acredita agora? — perguntou Robert.
—Eu... Acredito — admitiu, ainda que receosa — Mas como você consegue fazer parecer tão simples?
— Mas é muito simples — Danielle o olhou sério e ele completou — É só você querer ficar invisível, desejar que ninguém te veja. Tudo que precisa é se concentrar muito nisso, nessa sua vontade e só — ele fez uma pequena pausa para a expressão descrente dela — Pode parecer muito difícil agora, mas logo tudo ficará mais fácil e você verá que é realmente simples.
— Desculpa, mas não parece muito fácil, não.
— Eu sei — concordou, compreensivo — E, para ficar mais fácil para você agora no início, vamos tentar fazer com que você consiga deixar apenas uma pequena parte do corpo invisível — ele segurou a mão da filha — Concentre-se em deixar somente sua mão invisível. Queira com vontade.
Danielle fez o que ele disse, concentrou-se em tentar ficar invisível, desejando com toda a força que conseguiu reunir em si, mesmo não entendendo muito bem o que fazia. Abriu os olhos e frustrada viu a própria mão, muito visível por sinal. Forçou-se a concentrar-se de novo e, depois do que pareceu muito tempo, acabou conseguindo. Se tinha achado toda a situação esquisita, nada se comparava com o que achava agora. Ali estava seu braço que terminava no pulso, e depois vinha ar e apenas ar, mas ainda era capaz de sentir o membro e os cincos dedos. Era a coisa mais estranha, mas se viu ficando muito feliz com o novo feito.
— Muito bem! — elogiou seu pai, realmente impressionado — Para reaparecer é a mesma coisa.
— Robert, — chamou, conseguindo deixar a mão visível novamente com mais facilidade do que fora fazê-la desaparecer. Por um momento otimista, acreditou que até poderia ser fácil controlar os poderes — Você acha que vai ficar por aqui?
Ele pareceu meio ferido por ter sido chamado pelo nome e não de "pai", mas relevou. Danny precisava de tempo para perdoá-lo e para entender tudo que estava acontecendo — e poderia vir a acontecer — e daria isso a ela.
— Sim — respondeu, e olhou para a casa, em direção às janelas do segundo andar — Se sua mãe assim deixar...
Danielle percebeu que seu pai enfim parecia aberto para perguntas de âmbito mais pessoal e tentou de novo:
— Por que você foi embora? Você nunca vai me falar o motivo disso?
— Danielle — repreendeu Robert, mas logo suspirou, desistindo. Sua filha merecia, nem que fosse, algumas respostas — Bem, eu precisava vigiar algumas pessoas em tempo integral, por isso, fui obrigado a deixar vocês. E por todos esses anos, esse foi o meu trabalho — falava em um tom sério que ainda não havia usado com ela. Dava para ver em seus olhos o quão esgotado estava por ter vigiado sabe-se lá quem, e o quão perigoso havia sido.
— Como assim "vigiar algumas pessoas por tempo integral"? — perguntou Danielle, aproveitando que ele estava falando.
— Era meio que um segurança.
— Mas, segurança de que tipo de pessoa? E de que tipo de lugar?
Ele ficou visivelmente incomodado com a pergunta, o que quase a fez em mudar de assunto, mas continuou:
— Você vigiava quem?
— Mesmo que eu fale nomes, você não saberia quem são essas pessoas.
— Esse seria um bom motivo para você falar — suspirou, sua vez de desistir — Então, fiz tudo direito?
— Sim — respondeu, aliviado com a troca de assunto — Agora que você já sabe como se faz, tente deixar mais partes do seu corpo invisível.
— Tipo o quê?
— Seu braço inteiro.
Respirando fundo, Danielle fechou os olhos e pensou em ficar invisível. Totalmente invisível. Pensou no seu corpo inteiro, em cada parte, em cada pedacinho que queria que ficasse invisível, cada molécula e cada milímetro seu. Desejou que ninguém a visse. Como fizera daquela vez, no estacionamento, em meio a chuva e a gritos de Nolan.
— Você conseguiu! — exclamou seu pai surpreso com a rapidez de seu avanço.
Ela então abriu os olhos e verificou seus braços, esticando-os para frente. Nada. Olhou para as pernas. Nada. Tinha conseguido ficar invisível. Totalmente e completamente invisível.
— Que legal! — exclamou, realmente feliz, surpresa e ainda sentindo-se estranha — E para reaparecer, é só querer ficar visível de volta, certo?
O pai assentiu, contente com o potencial de sua filha. Danny voltou a fechar os olhos, concentrando-se, desejando reaparecer. Quis que todos a vissem novamente. E, quando abriu seus olhos de novo, foi capaz de ver seus braços, pernas, mãos...
—Tá tudo aí, não há com que se preocupar — disse Robert rindo.
— Fiz certo então? — perguntou ela animada pelo seu grande feito. Nem podia acreditar! Tinha conseguido e com tanta facilidade que estava achando até um pouco simples agora, sem motivo para todo aquele medo que sentiu. O querer funcionava muito bem com ela, pois sempre fora muito teimosa.
— Sim, tudo certo — ele continuava a sorrir — Você fez tudo como eu disse e funcionou.
Danielle recapitulou os episódios em que antes havia ficado invisível mesmo sem saber que podia, tentando encaixar o recém-conhecimento com o que acontecera.
—Quer dizer que a bola me atravessou na aula de Educação Física aquela vez por que eu simplesmente não quis levar a bolada no rosto?
— É, basicamente é isso — respondeu Robert — Você não quis que a bola te acertasse, desejou que ela passasse direto, não foi?
— É, — Danielle sorria, lembrando-se da sensação daquele dia — Mesmo sabendo que era impossível, eu quis muito que ela passasse direto.
Bem no fundo de seu subconsciente ela sabia que era possível, só não conseguia lembrar como fazer para ser possível, feito uma palavra que você tem certeza que sabe, mas consegue lembrar-se apenas dos sinônimos que, mesmo sendo sinônimos, não possuem o mesmo valor.
— Até quando você pensa que é impossível ficar invisível, você fica — ele disse — E, a partir de hoje, você não deve desejar mais usar seus poderes em público.
— E se por um acaso eu correr risco de morrer? — quis saber, mesmo não fazendo ideia de por que raios se meteria em uma situação de vida ou morte.
— Daí você simplesmente usa — seu pai revirou os olhos. — Apenas tente evitar chamar a atenção dos outros. Nós, fantasmas, não queremos virar a atração principal em algum programa sensacionalista qualquer. Temos que manter isso em segredo ou seremos perseguidos como em qualquer filme ou livro em que há criaturas diferentes.
— Pode deixar, eu só usarei quando necessário, prometo — "E pregar uma peça na Taylor é bem necessário", pensou Danielle, deixando escapar um sorriso. Não se pode simplesmente descobrir que tem superpoderes se não for usar para assustar a melhor amiga: é para isso que servem os superpoderes e as melhores amigas.
— Só se estiver em perigo, entendeu? — ele fitou sério sua filha. Imaginou o que ela estava pensando. Já teve quinze anos também, mas ela deveria entender o quanto aquilo era importante para a própria segurança e a de todos como eles. Não se tratava apenas dela, era todo um mundo maior que viera antes de Danielle e continuaria a existir depois que ela se fosse.
— Entendi — disse bolando uma peça que não colocasse em risco seu segredo.
— Então, você já cansou ou quer tentar mais alguma coisa? — ele disse isso ainda sério.
Ela começou a ficar cansada, mas não se entregou, queria descobrir o que mais poderia fazer:
—Qual seria essa outra coisa?
— Intangibilidade. Atravessar as coisas — Robert se aproximou da mesa e ela o seguiu — Todos os poderes têm o mesmo começo, então é só você desejar ficar intangível.
— De novo, parece simples quando você fala.
— Você vai descobrir que é simples também, é só pensar "Eu quero atravessar esta mesa", então imaginar que seus dedos podem atravessar a tal mesa e vê-los fazendo isso. E... — ele sentou-se, colocou a mão sobre a madeira fosca da mesma, bateu os dedos nela, e, poucas batidas depois, seus dedos sumiram por dentro da madeira. Logo em seguida, só se pode ver seu punho — Se você faz isso, exatamente assim, acaba conseguindo — ele tirou a mão de dentro da mesa. — E aí, quer tentar?
Danielle assentiu, mas estava mais nervosa que antes porque isso parecia mais complicado que se fazer desaparecer. Era entrar em uma coisa. Bizarro. Colocou a mão sobre a mesa, como seu pai tinha feito, respirou fundo, concentrando-se em fazer tudo o que ele ensinara. Imaginou a mão atravessando a mesa, desejou que isso acontecesse. Ainda de olhos abertos, viu as próprias unhas descendo pela madeira.
Bizarro demais.
— Robert — chamou, meio desesperada — Se por um acaso eu não aguentar e não tiver poder suficiente para deixar meus dedos intangíveis...
— Você perde seus dedos — seu pai respondeu, sério, porém como se não fosse grande coisa.
Ao ouvir isso, ela tirou rapidamente os dedos de dentro da mesa. Essa informação a deixara extremamente assustada, pensando em como a intangibilidade era um poder perigoso demais.
Notando o pavor em seus olhos, Robert a falou em uma voz mais carinhosa:
— Mas como eu estou aqui, você não irá perder seus dedos. Eu tenho como perceber se você não estiver aguentando, e eu mesmo deixarei a madeira intangível — ele tocou na mão dela sobre a mesa — Enquanto você estiver comigo, pode treinar seus poderes sem medo.
— Obrigada... — Danielle respondeu, mais calma, contudo ainda com receio de usar a intangibilidade.
— E outra coisa — ele sorriu ao completar — Nossa família é forte, você tem poder para deixar seu corpo inteiro intangível e atravessar o quarteirão inteiro se assim desejar. Você só não sabe fazer isso ainda. Então, mesmo que eu não estivesse aqui, não perderia nada ficando intangível.
— Somos tão fortes assim?
— Mais do que você pode imaginar
Ela respirou fundo mais uma vez.
— Então posso tentar de novo — e colocou as mãos sobre a mesa como tinha feito antes, desejou com força que seus dedos atravessassem a madeira sem empecilhos. Poucos segundos depois, grande parte dos seus dedos já havia atravessado a mesa.
— Muito bem — ele a cumprimentou, orgulhoso — Quer tentar o braço?
Danielle nem respondeu, só imaginou a mão, o pulso e antebraço atravessando aquela madeira fosca da mesa que sua mãe tanto gostava. E assim aconteceu.
— Ótimo — Robert já não conseguia mais esconder a satisfação que sentia ao ver sua filha se mostrando tão talentosa — Que tal tentar isso? — ele andou até o fim da mesa, e continuou andando para frente, atravessando a mesa de um lado ao outro. Era estranho ver aquilo da primeira vez; meio corpo para cima da mesa e a outra metade para baixo. Um belo clichê de filmes sobre fantasmas.
— Que tal? — ele indagou chegando ao fim da mesa, sem nada para atrapalhar a passagem de seu corpo.
Danielle se viu ficando muito animada. Era bizarro, mas tão legal!
— Quero tentar — falou, quase dando pulinhos — Mas você...
— Irei cuidar disso, não se preocupe.
Danny ainda tinha certa desconfiança sobre ele; seu pai poderia estar mentindo, já o havia feito antes, não tinha? Quando sumiu por anos e apareceu vivo do nada. Ele simplesmente poderia não cumprir com o que disse e ela não conseguir deixar madeira intangível e acabar toda picotada. Não queria imaginar seu corpo com uma madeira atravessada.
"Não, isso não vai acontecer! Eu sou capaz de fazer isso! Consigo atravessar a mesa de um lado para o outro".
— Danielle, já disse que você é capaz de fazer isso — ele disse sorrindo e esticando o braço, deixando sua palma da mão para cima como se a chamando — Pode vir.
E ela foi.
Mesmo com medo, tinha certeza que conseguiria atravessar toda a mesa. Lembrou-se de seu pai fazendo o mesmo de chama-la quando tentava ensiná-la a andar de bicicleta. Confiava naquele homem. Amava aquela pessoa a sua frente e sentira tanta saudade dele... Não tinha como dar errado.
Quando finalmente conseguiu alcançar a mão de Robert, ela a segurou forte, como quando era criança, exatamente a mesma cena da qual ela lembrava naquele momento.
— Consegui! — comemorou a garota.
— Isso aí, Danielle, meus parabéns! — ele a puxou para sair da mesa.
Ela conseguira atravessar uma mesa daquele tamanho no seu primeiro dia de treino, o que a deixava muito mais feliz do que podia imaginar, porque provava que ela era capaz, que nada daqueles últimos dias vivendo no escuro importavam agora que sabia quem era e o quê.
— Então — disse ela — Eu consigo ficar invisível e intangível...
— Calma aí, garota — seu pai riu — Para dizer que já consegue ficar intangível, você precisa treinar com o corpo inteiro — ele pensou um pouco, olhando ao redor — Tente atravessar alguma árvore.
Danielle foi para perto de uma das árvores do jardim; já decidira desistir de ficar impressionada com cada pedido de seu pai.
— Pode ser esta? — perguntou perto de uma roseira.
— Não vejo porque não poderia — Robert disse e esperou que ela começasse, atento a qualquer movimento em falso que a filha pudesse dar.
Danny, então, colocou a mão sobre o tronco da árvore escolhida. Quis atravessar primeiro a mão e, só depois de conseguir, praticamente mergulhou para dentro da árvore. Era parecido com entrar no mar com a ponta dos pés, testar a água, para depois mergulhar por inteiro e nadar nele. Só que a sensação era mil vezes mais esquisita.
Ainda dentro da árvore, perguntou:
— Posso abrir os olhos?
— Se eles continuarem intangíveis, sim.
Abriu os olhos esperando que pudesse ver como a árvore era por dentro, mas obviamente estava muito escuro para poder ver alguma coisa. Quando terminou de atravessar a árvore, voltou para mesa, sentando-se em um dos bancos, como se atravessasse árvores desde criancinha.
— Estava escuro lá dentro? — Robert quis saber sorrindo.
— Sim — ela sorriu de volta, acreditando que o desejo de ver a árvore por dentro era idiota e um pouco infantil...
— Já tentei fazer isso também — revelou seu pai em tom confidente. Pelo visto, fazer coisas idiotas vinha de família.
— Invisibilidade e intangibilidade já foram — ela repetiu — O que vem agora?
— Voar.
Ela parou, encarando-o. Aquilo já era demais, não era? Até as coisas mais esquisitas que vinha fazendo deveriam ter algum limite. Sério.
— Você sabe voar? — começou a rir, pensando que não, ele não poderia voar. Muito menos ela. Sério, como assim? Apesar disso, não podia negar que, lá no fundo, a ideia de poder voar a deixava maravilhada. Como qualquer pessoa, sempre sonhara com isso.
— É óbvio — ele cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas, arrogante — Por acaso você quer ver e depois tentar ou prefere ficar aí rindo da cara de seu pai?
— Quero ver.
Ele então alçou voo até ficar em uma altura de mais ou menos um metro acima do chão. Danny assistia de boca aberta. Aquilo sim era ter superpoder. Agradeceu aos deuses pela família Haunt não ter vizinhos na parte dos fundos; ali tinha apenas uma pequena vegetação com várias árvores altas de tronco fino.
Robert voltou ao chão e Danny não se aguentava mais de ansiedade. Queria fazer o mesmo.
— Como eu faço isso? — perguntou.
— Concentre-se e pense em voar, no seu desejo de sair do chão. Ou melhor, em flutuar.
— Está bem — ela ficou feliz por ser tudo tão simples, nada de métodos elaborados além de desejar. Estava longe de ser fácil, mas ser simples já ajudava.
Decidiu levantar-se do banco e fechar os olhos para se concentrar. Quando abriu os olhos, ainda estava no chão. Respirou fundo e tentou mais uma vez. Sentiu o chão se distanciando de seus pés. Ela estava a poucos centímetros do solo. Ficou animada por flutuar, mas sentia medo também, um friozinho na barriga, como descer de montanha-russa.
— Gostou? — perguntou Robert vendo sua animação.
— É muito bom! — exclamou ela voltando a ser a criança que aprendia a andar de bicicleta de tão alegre que estava.
— Tente ir mais alto, Danielle — o pai a incentivou.
Ela tentou e, após se concentrar muito e desejar mais ainda, conseguiu ficar uns vinte centímetros do chão:
— Agora tente se locomover voando.
A sensação de liberdade que voar dava era muito grande; Danielle voava de um lado para o outro, muito lentamente no começo, tomando coragem para ir mais rápido aos poucos e estava se divertindo. Ainda sentia aquele friozinho na barriga, mas a sensação de estar voando superava qualquer medo de cair.
— Danielle — chamou seu pai, preocupado — Pode descer?
— Está bem — respondeu, mesmo que a contragosto.
Foi só encostar os pés no chão que uma fraqueza a atingiu: já não conseguia ficar de pé, seu corpo parecia mais pesado do que era quando foi ao ar. Acabou caindo de joelhos ao chão. Robert se aproximou e perguntou preocupado, abaixando à filha:
— Danielle, você está bem? O que está sentindo?
— Estou sim — ela levantava com a ajuda dele — O que foi? Por que me chamou?
— Te chamei porque, no começo, é melhor você ir devagar, senão pode se cansar rápido.
— Está bem — ela sentou-se à mesa — Mas é mais fácil se cansar voando?
— Geralmente é — Robert sentou ao seu lado — Como você não mostrou nenhum sinal de cansaço nos outros poderes, pensei que esse exigiria mais de você.
— Então por hoje acabou? — já se sentia um pouco melhor, mas o cansaço demoraria a passar.
— É, acho melhor pararmos. Você precisa se alimentar e descansar.
Depois de comerem sanduiches preparados à pressa, por causa da fome, sentaram-se no sofá para conversar. Estavam cansados e ainda era esquisito ter seu pai por perto. Danny não sabia bem como agir.
— Robert, se a minha mãe deixar você ficar, vocês vão ficar juntos como casados de novo? — perguntou ela encabulada, recriminando-se por ser tão curiosa.
— Não sei, faz tanto tempo que vivemos separados, precisamos nos conhecer de novo — ele sorriu timidamente, mas, pelo seu olhar, dava para notar que ainda nutria muito amor pela mãe de Danielle.
— Menos mal que aqui tem quartos sobrando, você pode até escolher, temos dois. Na verdade, sempre achei essa casa grande demais só para mim e a mãe.
Ele deu um leve sorriso quando Danny falou no quarto sobrando, mas ela não reparou. Continuou conversando, coisa que fazia quando estava cansada:
— Por que logo você teve que vigiar aquelas pessoas?
Robert olhou para ela parecendo não entender sobre o que ela falava.
— Você quer saber por que outro não foi em meu lugar? — ela confirmou — Bem, eu era o mais preparado para vigiá-los. E era um bom emprego, você não pode simplesmente recusar um chamado desses.
— Entendi — respondeu Danielle, mas não entendia nada. Se ele quisesse continuar escondendo coisas dela, tudo bem — Como eles eram? E em que lugar do mundo você estava?
— Filha, tudo isso é secreto, não posso falar — ele sequer parecia disposto a falar, mesmo se pudesse.
— Mas eles eram fantasmas como a gente, ou eram...?
— Humanos? — ele deu um sorriso amarelo — Eles eram fantasmas, quase como a gente.
Antes que ele parasse de falar sobre o trabalho super-ultra-mega-secreto dele, Danielle resolveu perguntar sobre seu passado:
— Como você disse para a mãe quem você realmente era? — havia mudado do nada de assunto. Ainda estava meio atordoada com tantas novidades, não sabia o que perguntar e nem pensar primeiro.
— Quando comecei a gostar dela, eu já sabia o que era, mas não tinha como provar, porque não tinha desenvolvido meus poderes ainda — Robert sorria ao lembrar — Só contei para ela quando os poderes estavam aparecendo e eu pude mostrar para ela.
— Vocês tinham que idade quando você falou isso tudo para ela? — perguntou.
— Uns dezesseis.
— E o que ela falou? Como reagiu?
— Quando contei tudo, ela primeiro ficou com um pé atrás, ficou com um certo receio. Medo do diferente, o que já era esperado. Ninguém realmente acredita em fantasma, ainda mais em um fantasma vivo — os dois acabaram rindo — Mas depois de muita conversa, ela aceitou bem, e também gostou da ideia de ter um namorado que possuía poderes, disse que se sentia meio Lois Lane. Nunca falou sobre para ninguém, nem para os seus próprios pais. Só posteriormente, depois que casamos, que eu mesmo acabei revelando os meus poderes aos seus avós maternos.
— Que bom que ela te aceitou assim — Danielle deitou-se no sofá, esgotada, tanto emocionalmente quanto fisicamente. Sorria ao pensar na mãe adolescente com o namorado com habilidades especiais. Ficou feliz em saber que sua mãe era capaz de amar assim tão incondicionalmente.
— Por que, Danielle, você está pensando em dizer isso para alguém especial? — perguntou seu pai depois de um tempo, levantando as sobrancelhas.
Naquele momento, a garota ficou vermelha. Sentou-se rapidamente e respondeu:
— Não... Eu queria contar para uma amiga minha, de confiança. Minha melhor amiga.
— É de confiança mesmo? Como eu disse antes, ninguém deve saber quem somos — ele estava desconfiado. Sabia que adolescentes conversavam sobre tudo, ainda mais no mundo da Internet, mas, como pensara antes, isso era maior que ela e sua filha deveria perceber isso.
— Sim — respondeu prontamente — Somos amigas há mais de cinco anos.
— Está bem, se você acha que pode confiar nela — Danny sorriu — Mas apenas por curiosidade, qual é o nome dessa sua melhor amiga?
— Taylor Spook. Por quê?
Olá meus fantasmas!
Então, agora sabemos o que os fantasmas são capazes de fazer.
Será que a Danny vai contar quem é para Taylor? E se contar, vai assustá-la?
Deixem seus comentários, e se gostaram, votem!
Até mais!
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