Capítulo 05 - Pai

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Foi como se uma bala tivesse atingido em cheio seu coração. Atingido rápida e precisamente, para atravessar seu peito e deixar queimando os buracos de entrada e saída. Danielle não esperava por aquilo. Lembrou-se instantaneamente de algumas memórias com seu pai sorrindo em um quarto branco de hospital, cheio de tubos e bolsas de sangue. Não entendia como ele havia sobrevivido e como foram capazes de esconder isso dela por tanto tempo.

Aproximou-se de sua mãe, fitando seus olhos verdes claros molhados com lágrimas de alívio. Danielle estava quase chorando de felicidade, mas o sentimento estava manchado com a traição que sofrera. Como puderam enganá-la assim? Com que finalidade? Quem faria isso a uma filha?

— Como assim? — rebateu quando conseguiu falar — Ele está vivo? Vivo? — Porque se ele estivesse vivo mesmo, poderia vê-lo novamente.

— Sim, ele está — a mãe respondeu e, para confirmar suas palavras, abriu um belo sorriso. Lágrimas molhavam seu rosto e Danielle sabia que não estava muito melhor.

— Mas como... Por quê? — perguntou, não sabendo se em voz alta ou se para si mesma. Nada daquilo fazia sentido. Seu pai estava vivo? Sim? Mas por que não estava ali com elas? Por que tivera que lidar com tanta coisa sozinha quando ele poderia ter a ajudado?

Mas seu pai estava vivo.

Nesse momento, olhou para baixo de novo, evitando o olhar preocupado de sua mãe, e foi sua vez de abrir um largo sorriso, esquecendo as lembranças de um pai em estado terminal, esquecendo como a tinham enganado. Esqueceu-se de toda a dor porque tinha um detalhe naquela história que importava mais que tudo: seu pai estava vivo. As lágrimas que antes apenas ameaçavam cair, agora deixavam um rastro quente em seu rosto. Chorava de pura alegria.

Sabia, e seu coração também, que deveria estar com raiva de seus pais por toda aquela mentira, sabia que deveria estar brigando, gritando que não aceitava a mentira da morte de seu pai, quebrando coisas e batendo portas. Porém, naquele momento, queria apenas seu pai ali com ela.

Ele estava vivo e era somente com isso que queria se importar. Mais tarde sentiria raiva e gritaria com sua mãe, deixando o ultraje vencer, mas agora não. Queria apenas desfrutar da maravilhosa ideia de ter o pai novamente por perto.

Entretanto, havia partes naquilo tudo que ainda não se encaixavam nem pareciam que se encaixariam. O que o fato de seu pai estar vivo tinha a ver com o que estava passando? Os pesadelos, as sensações esquisitas, os momentos vergonhosos na frente dos amigos? E por que raios ela estava contando isso somente agora?

— Mas, mãe, o que isso tem a ver com o acontecido? — quis saber, secando as lágrimas com a manga da camisa.

— Acho que ninguém no mundo te explicaria tudo isso melhor que o seu pai — colocou a mão sobre a da filha, ainda sorria, aliviada por ter enfim contado a verdade. Agora poderia ajudá-la de verdade — Ele também sabe exatamente como te ajudar.

— Onde ele está? — perguntou ansiosa para falar com ele. Para vê-lo. Muito mais que finalmente ter as respostas sobre o que estava acontecendo com ela, queria vê-lo porque simplesmente sentia falta do pai, mesmo que ele não soubesse ajudá-la.

— Não sei a exata localização dele — antes de Danielle voltar a chorar, agora de frustração, completou: — Mas tenho o telefone dele, podemos entrar em contato a qualquer hora.

— E eu posso falar com ele? — só de pensar na possibilidade de ouvir a sua voz fez Danielle sorrir um pouco mais.

— É claro, minha filha, não estaria te contando isso se não fosse possível — do bolso da calça, Victoria tirou um papel dobrado que lembrava a um bilhete. Aquele papelzinho cheirava à segredos, à coisas que Danielle nem imaginava.

— É o número dele? — suas mãos tremiam ao segurar o papel.

Teve que tentar duas vezes até acertar o extenso número de tão nervosa que estava. O número grande indicava que ele não se encontrava nos Estados Unidos como elas. Chegou a acreditar que ninguém atenderia do outro lado de tantas vezes que chamou. Estava prestes a desistir quando ouviu:

— Quem é? — do lado da linha vinha uma voz forte e muito bonita, cheia de desconfiança. Era ele. Não tinha como não ser.

— É a Danielle — respondeu isso com uma voz meio abalada, nunca imaginou que seria capaz de ouvir a voz de seu pai de novo.

— É você, Danielle, minha filha? — Robert parecia tão abalado quanto ela e aquilo aqueceu uma parte de seu coração que parecia congelada para sempre desde a morte dele.

Minha filha eram palavras que esperava ouvir há muito tempo. Não que sua mãe não a chamasse assim, acabara de fazer, mas ouvir do pai que acreditara estar morto era uma coisa completamente diferente.

— Sou eu, pai — e é claro que ela queria chorar que nem uma criança no colo do pai.

— Ah, Danielle, que saudade de você — com essas palavras, ela quase se deixou levar pela raiva novamente. Se ele sentisse falta dela mesmo, não teria sumido pelo mundo fazendo sabe-se lá o quê e nunca a teria feito acreditar que estava morto quando tudo que ela mais precisava era dele. Se isso fosse verdade, ele teria estado ali esse tempo todo.

— Pai — chamou Danielle, a voz era de criança enquanto voltava a enxugar as lágrimas na manga da camisa, um gesto que a mãe sempre repreendeu — Você pode me ajudar? Está acontecendo algumas coisas comigo e a mãe disse que você entenderia, que saberia me explicar, porque, pai, eu acho que estou pirando.

Ouviu seu pai rir.

— Claro que sim — ele respondeu — Tirando essas "algumas coisas", está tudo bem com vocês? — Robert tentou não parecer distraído enquanto escrevia o seu novo compromisso na agenda. Não estava em seus planos mais próximos viajar para ver a filha, mas sabia que esse momento chegaria, só não esperava que fosse justo agora.

— Está sim. E você pai, por que... — ela queria fazer as perguntas o mais rápido possível porque havia tanta, tanta coisa que precisava ser respondida.

— Filha, nessa semana eu chego aí — ele a cortou, fechando a agenda — E eu acho melhor que as perguntas sejam feitas pessoalmente, você não concorda? — Qual seria o melhor dia para deixar o lugar em que vinha morando? Fazia tempo que estava lá e ainda teria que avisar seu colega que talvez não voltasse tão cedo. Por que justo agora?

— Na verdade, eu não concordo... — sabia que podia soar birrenta, mas já a tinham deixado no escuro por muito tempo.

— Filha, eu não posso falar muito e preciso desligar agora. Não me ligue, por favor, logo estaremos juntos de novo — despediu-se Robert e desligou o telefone. Precisava adiantar alguns assuntos antes de partir. O prazo que recebera estava chegando, percebeu que teria que visitar a filha mesmo que ela não ligasse.

Danielle ficou algum tempo olhando para a tela de seu celular, encarando as palavras "Chamada Encerrada" sem acreditar no que acabara de acontecer e na forma com que fora dispensada, e falou com sua mãe:

— Por que você disse que ele estava morto? — era a maior de suas dúvidas e a maior das traições.

— Foi a melhor solução que encontramos, filha — a mãe segurou a mão de Danielle com carinho — Ninguém queria te ver sofrendo, Danny, e eu não aguentaria te ver sofrendo pela ausência dele.

Danielle bufou. Ah sim, por que a dor de um luto era menos forte que a dor de um pai ausente? Pelo menos ela saberia que ele estava vivo, que ainda havia chance para eles.

— E quem disse que não sofri pela ausência dele? Isso é loucura! — afastou-se da mão acolhedora de sua mãe — Vocês preferiram que eu passasse anos me sentindo órfã do que me dizer que meu pai estava por aí fazendo sabe-se lá o quê???

Victoria levantou-se e deu um abraço forte na filha, tentando fazer com que ela se sentisse mais calma e, talvez, protegida.

— Fizemos isso para o seu bem, para que ficasse segura — respondeu com a filha nos braços. Ela parecia tão nova assim, tão pequena, indefesa, como a menina que chorara em seu colo por meses pela falta do pai — Só por isso mentimos para você, Danielle. Só mentimos porque tínhamos que proteger os outros. Isso tudo é maior que você e um dia acabará entendendo e, quem sabe, nos perdoando.

A garota se afastou, confusa: Mas protegê-la do quê? Do quê ou de quem a protegiam? Também sabia que nada daquilo não estava certo, mentir não era certo.

Mas será que mentir para proteger os outros fazia disso uma coisa certa?

Tentou arrancar da mãe mais algumas respostas e tudo que recebeu foi a promessa de que seu pai saciaria toda a sua curiosidade e dissiparia toda essa nuvem de desconfiança e dúvidas.

Ao deitar-se naquela noite, cheia de esperança de que tudo ficaria bem assim que visse seu pai, permitiu-se deixar de lado a dor da traição e os anos de mentiras para focar no lado positivo daquela história louca:

"Meu pai está vivo!"

Mal conseguiu dormir de tanto pensar nele, em como ele estaria agora, será que continuaria carinhoso e atencioso com ela? Fazendo de tudo para deixá-la feliz? Esperava que nada daquilo tivesse sumido com o decorrer dos anos.

Em meio a felicidade e desconfiança, Danielle esqueceu das últimas vezes em que vira o pai, aquelas cenas terríveis com ele na cama alta demais para que pudesse ficar ao seu lado naquele quarto branco; ele em estado terminal, a mãe chorando em seu leito de morte e tudo cheirando à remédios que nunca saberia dizer o nome.

Talvez se ela não tivesse deixado essas cenas de lado, teria sido mais difícil acreditar no que estava por vir.


Olá fantasmas! Como estão? Gostando da história?

O que acharam de Robert,  e sua volta? Por que as deixaram? Onde ele estava? 

Se gostaram, deixem uma estrelinha e comentários, ficarei bem feliz!

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