Capítulo 04 - Quem tem Medo de Fantasma?
03/02
Na aula de Educação Física, que acontecia no período da tarde, Danielle estava se empenhando para jogar vôlei com a turma. Na posição de levantadora, percebeu que a bola estava prestes a ser passada para o seu lado no campo por um vulto que deveria ser uma de suas colegas, mas que era enorme, e ainda parecia planejar cortar bem em sua cabeça. Não teria como se defender.
"Essa bola bem que podia passar direto..." pensou, sabendo que era impossível. Já podia até sentir a bolada no rosto, chegou a fechar os olhos de medo e esperou. Nada aconteceu.
A bola de voleibol atravessou sua cabeça, como se Danielle fosse um fantasma ou como se a bola fosse de vento. Era como se nada tivesse acontecido.
Só ouviu sua amiga Karen gritar:
— Ai, minha cabeça!
A garota estava bem atrás de Danielle, levando a bolada em seu lugar. Como aquilo poderia ser possível era a grande dúvida que pairava na mente de todas as alunas na quadra.
Danielle tomou coragem e virou-se para trás para encontrar Karen ao chão com as mãos no rosto, resmungando de dor. Todas correram para socorrê-las, até a dona do vulto, que Danielle descobriu tratar-se apenas de Amelia, uma aluna gigante que fazia somente aquela aula com o restante da turma, parecia preocupada.
Depois de ficar certo tempo sem reação, Danielle foi também ajudar a amiga. Hellen, uma garota de olhos e cabelos cor de mel, perguntou a ela:
— Como você fez isso?
— Isso o quê? — rebateu Danny.
— Ah, para com isso! — resmungou Lucia. Era outra de suas amigas. Prendia o cabelo louro em uma elaborada trança que se balançava com os movimentos nervosos — Você faz a bola passar direto por você como em um truque de mágica e agora vem perguntar "Isso o quê?" como se não tivesse acontecido nada de anormal!
Danielle se limitou a forçar uma risada. O que mais poderia fazer?
— Vocês estão loucas? Isso é impossível!
— Mas acabou de acontecer — discutiu Lucia e, por sua expressão, parecia realmente estar falando a verdade. Todas elas estavam sérias e assustadas. Não havia motivo para estarem mentindo sobre algo assim.
Mas como seria possível?
— Vocês estão brincando comigo... — desconfiou Danielle, desejando com todas as forças que a atenção das meninas voltasse para Karen que ainda choramingava com as mãos no rosto dolorido.
— Não! — responderam todas em coro, fazendo a garota ficar parada no meio da quadra as encarando, pensando por que raios era o motivo de brincadeira dessa vez.
O jogo tinha acabado com a bolada que Karen levou. Ninguém parecia disposto a voltar a jogar e o professor ignorava as alunas falando sobre futebol com os garotos do outro lado do ginásio.
As amigas mais próximas de Danielle a arrastaram para perto das arquibancadas, onde estava vazio e a cercaram. Ninguém conseguiria ver o que estavam fazendo.
— Tenta de novo! — gritou Alice, outra de suas colegas. Era muito bonita, mas já era de se esperar, pois era modelo fotográfica. Os belos cabelos lisos eram ruivos naturais e seus olhos eram de um dourado muito claro, combinando com sua pele cheia de sardas. Era exótica perto de todas as meninas de cabelos castanhos do colégio.
— É, tenta de novo! — incentivou Lucia, fingindo ser o alvo da vez, balançando a cabeça para que alguma bola atravesse pelo corpo de Danielle e a acertasse.
Danielle começava a perder a paciência com aquilo. Sério, o que acreditavam que ela tinha feito? E com poderia fazer qualquer coisa de novo se nem entendia o que realmente tinha acontecido?
— Não consigo — respondeu, séria, até mais ríspida do que desejava — Acho que vocês estão loucas. Parem com isso. Não tem graça nenhuma.
Olharam-na como se dissessem que a louca ali era ela por estar discutindo e negando o que todas diziam. Chegaram a abrir a boca para responder, mas o sinal tocou e não tiveram mais a oportunidade de conversar. Logo estavam todas pegando suas mochilas jogadas nos bancos e indo para casa.
Danielle fez o mesmo, pegou seu material e foi embora correndo, rezando que ninguém mais fizesse nenhuma pergunta. Estava com medo e sentia-se meio covarde por correr de suas melhoras amigas, porém, não queria mais nem pensar no assunto. O que as garotas queriam com ela afinal? Sabia, também, que não poderia se esquivar por muito mais tempo, pois teria que tentar criar uma explicação ou desculpa para acalmá-las. Desejava que elas simplesmente esquecessem disso tudo, como ela desejava esquecer.
Ao chegar em casa, encontrou sua mãe tomando café e aproveitou para contar-lhe o que tinha acontecido. Sentia que, se desabafasse, as coisas ficariam menos estranhas e tudo acabaria ficando bem. Sua mãe sempre foi uma boa ouvinte, daquelas que assentem quando necessário e parecem realmente interessadas no que a outra pessoa está falando. Porém, não teve as habituas palavras consoladoras que Danielle tanto queria ouvir. Pelo contrário, sua mãe largou o café e a torrada que comia pela metade e se levantou rapidamente, alegando que precisava voltar logo para o trabalho, pois só estava ali porque esquecera uns papéis em casa quando saíra pela manhã.
Ao levantar-se, quase derrubou a xícara e levou a toalha de mesa junto com ela. As mãos que abotoavam as fivelas da bolsa tremiam e ela não olhava sua filha nos olhos.
— Você parece nervosa, mãe — Danielle comentou, tentando chamar a atenção dela para que ficasse e conversasse. Não podia negar que estava com um pouco magoada pelo descaso da mãe — Aconteceu alguma coisa?
Sem virar-se para olhá-la, respondeu:
— É que tenho uma reunião importante hoje — despediu-se e saiu batendo a porta, sem esperar para ouvir o "tchau" sussurrado de Danielle.
Um aperto no peito atingiu a garota, fazendo com que pensasse que talvez sua mãe acreditasse que aquela história toda fosse um sinal de que ela já não estivesse mais obtendo sucesso nas sessões com a psicóloga, por isso, parecia tão nervosa. Sentiu-se um pouco decepcionada consigo mesma por ter contado o ocorrido e com sua mãe por não estar acreditando na sua melhora.
Pouco tempo depois, um arrepio passou por sua coluna na hora em que uma má lembrança tomou conta dela; lembrou-se da noite no cinema, quando ninguém era capaz de vê-la, nem mesmo Nolan, que se encontrava a centímetros dela enquanto gritava seu nome a procurando.
Não insistiria no assunto porque sabia que ninguém acreditaria quando ela falasse do que suspeitava. Era humanamente impossível uma pessoa simplesmente desaparecer do nada. Não queria pensar nisso e nem iria.
Victoria chegou mais tarde do que de costume naquele dia e Danielle não saberia dizer se era apenas coincidência ou se a mãe estava a evitando e não desejava conversar com a ela, o que a deixou ainda mais magoada.
04/02
No dia seguinte, Danielle foi normalmente para a escola, ainda ensaiando de maneira silenciosa frases para dizer se alguém perguntasse sobre o ocorrido na última aula de Educação Física. Ficou feliz que ninguém acabou lhe perguntando nada. Mas, ao mesmo tempo, cogitou a ideia de que estivessem com medo dela ou criando teorias de conspiração sobre aquilo, assim como ela fazia mentalmente.
No primeiro período, Danielle começou a sentir-se enjoada. Já esperava que isso aconteceria, pois teimara em comer pizza de pepperoni e cebola antes de dormir, algo que normalmente fazia mal ao seu estômago, mas era tão delicioso e sempre acabava valendo a pena. Algumas emoções fazem parte da vida.
Teve que pedir para o professor para sair da sala, para que pudesse lavar o rosto, na esperança de melhorar seu estado e aparência.
Ao se dirigir ao banheiro, viu dois garotos de outra sala correndo em sua direção, brincavam entre si e nem a viram se aproximar. Estava se sentindo muito mal para conseguir se esquivar deles. Acabariam batendo diretamente nela e só então a perceberiam ali. Tonta e conformada, pensou que se não quebrasse nada, sairia no lucro. Sua única e fraca tentativa de defesa foi colocar os braços na frente do rosto e... Nada.
Olhou para trás, eles estavam a olhando com cara de assustados, bocas abertas e olhos arregalados. Saíram correndo antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
Balançou a cabeça e fechou os olhos, tentando mandar para longe sua vertigem, tentando entender tudo aquilo. Será que estava tendo alucinações por causa da febre? Mas sua testa continuava gelada.
Como era comum durante as aulas, encontrou o banheiro vazio. Abriu a torneira, enchendo as mãos com a água bem fria, lavou o rosto e quase pode se sentir melhor. Ao cobrir o rosto com a toalha de papel que pegara para se secar, nem percebeu que entrara outra garota no banheiro, até que ouviu um grito:
— FANTASMA!!!
Virou-se rapidamente, assustada:
— Quê?! Onde?!
Mas a garota já corria para fora do banheiro. Danielle virou-se para ver se notava alguma coisa sobrenatural, ao passar os olhos pelo espelho, percebeu que não havia nada lá, somente papéis voando no cômodo vazio, com suas portas azuis brilhantes. Os azulejos cinza claro deixavam o ambiente mais arejado.
"Eu não me vejo!".
"Cadê meu reflexo?".
Arfando, jogou os papéis para longe e colocou as mãos no rosto, para se sentir, para saber que estava ali, tocar a própria pele, saber que ainda era sólida. Naquela hora, deixou-se ser levada pelo pânico e pela loucura:
"Será que elas estão certas? Eu desapareço? Fico invisível? O que está acontecendo comigo?!".
Foi se acalmando aos poucos, tentando respirar fundo ao sentar-se no chão para descansar a cabeça nos joelhos. O chão e parede eram gelados e isso, de alguma maneira, ajudou com que seu enjoo passasse, mas nada poderia fazer seu pânico passar.
Depois de algum tempo, apenas contando sua respiração, resolveu levantar e, muito, muito lentamente, virou-se para o espelho e viu-se refletida no vidro sujo. O suspiro de alívio que veio quase foi capaz de derretê-la e Danielle foi para a sala de aula sentindo-se bem melhor. Nem teve problemas em mentir para o professor que pedira uma água com açúcar na cozinha e por isso demorara mais que deveria.
No intervalo, foi falar com Taylor, que depois de vários dias fora, voltava agora de uma viagem que fizera com o pai. Deixou a amiga a par de tudo sobre os acontecimentos do dia anterior e aproveitou ainda para falar o que acontecera mais cedo. Tinha certeza que se existia alguém que a pudesse ajudar, esse alguém seria sua melhor amiga.
— Danny, amiga, o que você teve foram alucinações por causa da do mal-estar provocado por ter comido coisa forte e pesada antes de dormir — balançou a cabeça indignada como se a amiga fosse uma criança e não entendesse nada do mundo — Também, comer pizza de pepperoni e cebola sabendo que te faz tão mal! Lembra o estado que você ficou da última vez?
"É claro, ela me ajudou bastante", pensou Danielle irritada.
— Não, eu não lembro — teimou, cruzando os braços, mesmo sabendo que o que a amiga falava poderia ser bem plausível. Mais que ser uma pessoa capaz de ficar invisível e andar por aí.
— Mas eu sim — revidou Taylor — Deve ter sido isso, você teve alucinações, febre, sei lá. Só sei que foi sua imaginação, Danielle.
— Pode até ser... — cedeu, meio concordando com a amiga — Mas e no jogo de vôlei?
Taylor revirou os olhos.
— Você simplesmente desviou sem querer — respondeu rapidamente — Você não fechou os olhos quando viu a bola chegando?
— Sim — pensou mais um pouco e suspirou, sentindo-se ridícula — É, acho que você está certa. Tem que ser isso — e desejou do fundo do seu coração que aquilo fosse verdade.
Chegando em casa, Danielle ligou para a mãe e contou o que acontecera na escola, precisava ouvir de mais alguém que fora só sua imaginação e que se acalmasse. Victoria, após se certificar de que a filha estava bem, prometeu chegar mais cedo para que pudessem conversar. Pediu que tivesse paciência e que a esperasse acordada.
Quebrando deliberantemente a promessa, Danielle não teve paciência alguma enquanto esperava sua mãe chegar e ficou rondando aflita pela casa, sem conseguir se concentrar em nada para que o tempo passasse mais depressa. Sentia que quando a mãe chegasse, algo em sua vida mudaria para sempre. Mesmo achando que podia ser meio dramática às vezes, sentia que tudo estava prestes a mudar.
Finalmente, a maçaneta da porta girou e sua mãe entrou em casa. Num pulo, Danielle a abraçou e teve o abraço retribuído com carinho. Foram para sala conversar e a garota já não mais cabia em si de ansiedade.
— O que estava acontecendo, mãe? O quê? — perguntou aflita ainda em pé — Eu sei que você sabe de alguma coisa, eu sei que você sabe o que está acontecendo comigo. Você vem estranha há dias toda vez que eu toco nesse assunto, eu preciso saber...
— Filha, você sente falta do seu pai? — Victoria a cortou antes que jorrasse mais palavras desesperadas.
Não entendeu o porquê daquela pergunta justo naquele momento, não fazia sentido, completamente fora do contexto. Victoria sempre soube que Danielle sentia falta do pai, assim como qualquer filha sentiria. Mas para era parecia ainda maior que isso, porque sentia falta de alguém para ficar ao seu lado. Sua mãe sempre fora muito legal e gentil com ela, entendiam-se muito bem e também não guardavam segredos uma da outra. Mas com seu pai era diferente.
Mesmo sem entender o porquê da pergunta, Danielle respondeu meio ultrajada:
— Claro que sim, mãe! — diminuiu a voz, revelando seu desejo infantil — Queria muito poder vê-lo de novo, só mais uma vez.
— Então isso vai acontecer.
Danielle levantou a cabeça e encarou a mulher a sua frente, a mulher em que mais confiava no mundo e que jurava não guardar segredo nenhum dela.
— O quê?! Mãe, como isso é possí...
— Seu pai não está morto, Danielle.
Olá fantasmas! Como estão? Gostando da história?
O que acharam da volta de Robert, pai de Danielle?
Se gostaram, deixem uma estrelinha e comentários, ficarei bem feliz!
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