Capítulo 1

Capítulo 1

Agosto de 2007

Alyssa

Ainda não conseguia acreditar na cena deplorável que eu estava presenciando. O idiota do meu ex-namorado estava no maior amasso com a mesma cretina com quem ele me traiu, a mesma que estudava comigo Teoria da Música. Eles estavam do outro lado da pista de dança do bar que eu sempre frequentava e que era o ponto de encontro de mais da metade dos alunos da faculdade. Suspeitava que ele fez de propósito, não que eu me importasse, já que tinha sido eu quem havia terminado nosso relacionamento, depois que ele resolveu colocar um belo par de chifres em mim.

Começamos a namorar no mesmo ano que cheguei à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em Blumenau, onde estudo Música há pouco mais de um ano. Desde o início eu percebi que éramos como água e óleo, mas o Maurício era o que chamaríamos de um cara gostoso, sexy e perfeito demais, então eu simplesmente fiquei com ele e ignorei todos os sinais.

Terminamos oficialmente há menos de uma semana quando o peguei quase transando com a cretina com quem ele estava se esfregando. Detestava admitir, mas sentia falta dele, essa parte era a pior, sempre me apaixonava pelo cara errado. Agora eu estava em uma festa que não pretendia vir, mas mesmo assim vim porque queria me distrair. Acabei arrastando minha melhor amiga a tira colo, que estava presa naquela fila infinita do banheiro e eu estava parada perto do bar, vendo o Maurício enfiando a língua na boca da garota que devia ter dormido com mais da metade da UFSC.

— Ei! Olha por onde anda... Está cego ou o quê? – Falo quase gritando, assim que um idiota me dá um encontrão, praticamente arrancando meu braço e ombro no processo. Ele ainda se vira, pisca um olho e manda um beijo. Devia ser um daqueles filhinhos de papai que se acham os donos da faculdade. – BABACA! – Berro bem alto, só que ele já tinha se virado e parecia bem distante agora.

— Sabe! – Ouço uma voz grave, pesada e meio rouca, vindo do bar atrás de mim. Só o que me faltava era outro babaca me enchendo a paciência. Viro-me e dou de cara com o dono da voz e o cara era a personificação da mais pura perfeição.

O homem era lindo demais, bem alto, provavelmente 1,90 de altura, talvez um pouco mais, cabelos castanho escuros meio bagunçados, como se tivesse acabado de sair da cama, seu maxilar era quadrado de um modo bem masculino, parecia ser forte, ainda não tinha visto suas mãos, mas meu palpite era que deviam ser enormes e seus olhos... Eram de , não tinha certeza, aqueles olhos deveriam deixar qualquer mulher meio perdida. Mesmo a iluminação não estando tão boa, consegui enxergar um pouco, afinal não estávamos tão distantes assim. Não sei por quanto tempo fiquei encarando. Ele usava um jeans escuro e uma camisa escura, o tecido parecia ser lã. Seu sorriso imenso de lado e debochado me deixou meio irritada.

— Você falou comigo? – Pergunto de forma direta, não gostei do ar presunçoso no seu sorriso.

— Falei! – Diz simplesmente sem mudar aquela expressão e postura de superioridade, mesmo ele sendo muito delícia me irritava.

— E? – Questiono estreitando os olhos com o intuito de ele continuar.

Gaspar

Tinha visto ela quando entrou com a amiga, ela me parecia meio confusa e perdida, fazia exatos trinta minutos que estava a alguns passos a minha frente bebendo a mesma bebida, que com certeza já devia estar quente. A amiga dela que eu não tinha visto muito bem, meio que desapareceu, não deu para reparar nela direito. Mas aquela morena que estava na minha frente, definitivamente, deixaria facilmente qualquer um louco. Ela era realmente linda, devia ter quase 1,70 de altura, cabelos ondulados que pareciam castanho escuros quase na altura da cintura, pernas longas e torneadas, cintura fina, quadris levemente largos e seios perfeitos. Ela parecia ser a personificação de tudo o que era proibido. Estava usando uma saia de um material que parecia couro, a cor era escura, mas não era preta, uma blusa de alças finas de tecido leve com estampa colorida e uma sandália sem salto. Não vi a cor dos seus olhos, a iluminação não estava das melhores e não a tinha visto muito tempo de frente apenas de perfil e de costas.

Eu tinha vindo ao Nixy's esperar o Henrique. Marcamos de nos encontrar aqui para curtir um pouco, já que desde que chegamos a Blumenau só estudamos e trabalhamos. O dono do bar, o Nicholas, era nosso amigo desde os tempos da graduação. Nós somos daqui mesmo de Blumenau, mas passamos alguns anos mochilando pela Europa, agora estou trabalhar como Sou Chef* em um restaurante bem conhecido na cidade e Henrique que é meu primo está fazendo uma especialização em Administração. Um cara dá um encontrão na morena gata, ela começa a gritar com ele, pelo visto ela não era de levar desaforo para casa. Acho engraçado seu jeito desaforado.

Ela grita novamente, quando o cara está um pouco distante, ele a provoca e ela o xinga de babaca. Apesar da provocação, o cara não teve culpa, ele parecia apressado e ela estava parada bem no meio do caminho. Ela parecia bem irritada, não sei o que me deu para abrir a boca e começar a questioná-la, acho que fiz só para provocá-la ainda mais e deu certo.

— E? – Ela me questiona levantando uma das sobrancelhas e com cara de poucos amigos.

— É que o cara que te deu o encontrão! A culpa não foi dele, sabe?! – Ela me encara e começa a me avaliar.

— Como é que é? – Fala com a voz meio irritada, pela sua expressão parecia estar achando que eu era um babaca também. Essa garota com certeza é problema.

— Você está aí parada há exatamente meia hora, no mesmo lugar onde as pessoas passam. O cara parecia estar apressado, então a culpa não foi dele. Em minha opinião, você não devia tê-lo chamado de babaca. – Sua cara era de descrença e quanto mais eu falava, mais descrente ela parecia ficar. Também não consigo evitar e dou um meio sorriso debochado.

— Primeiro, a culpa foi dele sim, já que eu estava parada e não em movimento... – Ela começa a dizer, assim que parece se recuperar. – Segundo, ele deveria ter pelo menos me pedido desculpas. Aquele mal educado! Ainda por cima ficou de deboche. – Um grupo de garotas passa esbarrando em nós dois, uma delas empurra a outra e a morena e eu acabamos muito próximos com nossos rostos a centímetros um do outro. Seus olhos eram de um castanho claro com uma tonalidade meio dourada, ela tinha um olhar profundo e muito intenso. – Terceiro, não pedi sua opinião. – Ela ficava ainda mais gata quando fica brava.

— Realmente não pediu, mas considerando que nos últimos trinta minutos você ficou bem na minha frente olhando para o outro lado da pista, provavelmente admirando algo muito interessante – ela estreita os olhos, parecia gostar muito de fazer isso. – E uma pobre alma levou o nome de babaca sem merecer, então achei que deveria fazer essa observação – ela balança a cabeça de forma negativa.

— E eu acho que você deveria enfiar suas observações, você sabe onde! Cuida da sua vida e me deixa em paz, você nem me conhece. Guarde suas observações para você.

— Nossa, como você é esquentada e um poço de educação também. – Falo a última parte ironicamente e antes que ela pudesse falar qualquer coisa dois idiotas começaram a discutir, acho que por alguma aposta ridícula.

Assim que volto minha atenção para ela, percebo que voltou a olhar para o mesmo lugar de antes. Não resisto e olho na mesma direção, vejo um cara caminhando até onde estávamos de mãos dadas com uma loira alta e cheia de curvas.

— Que droga! – Balbucia virando-se para mim. – Você tem namorada? – como ela pergunta uma coisa dessas a um cara, que ela acaba de conhecer em um bar.

— O quê?

— Você tem namora? Anda responde logo, sim ou não? – Pergunta ainda balbuciando.

— Não! Mas por que... – ela não me deixa terminar de falar.

— Ótimo! – Diz antes de enlaçar meu pescoço com seus braços e colocar seus lábios nos meus.

Alyssa

Não sei o que deu em mim! Acho que devia ser algum desequilíbrio hormonal ou algo do tipo. Como eu beijo um homem que eu nem conheço, que nem ao menos sei o nome só para provocar o Maurício, eu devo estar com algum tipo de distúrbio mental, só podia ser. Mesmo assim o beijo era tão bom, aquele cara realmente beija bem. Era como estar embriagado, o que deveria ser um beijo apenas para provocar se aprofunda. Ele invade minha boca com sua língua e descaradamente lhe dou completo acesso, se era para fazer esse papel lamentável, que fosse pelo menos bem feito. Não sei quanto tempo durou, perdi a noção de tempo quando ele envolveu minha cintura e aproximou ainda mais seu corpo ao meu.

Escuto um pigarrear e o cara com quem eu estava agarrada e que ainda não sabia o nome pareceu escutar também, porém parecia ter ignorado completamente. Gostei muito disso. Aos poucos nos separamos, ele encosta seus lábios nos meus, pela última vez. As minhas mãos estavam agarradas a sua nuca, quando percebo começo a soltar meus dedos lentamente, um por vez. Encaro-o por algum tempo até sermos interrompidos pelo mesmo pigarro irritante.

— Alyssa! – Fecho meus olhos, assim que ouço a voz do Maurício.

— Oi, Maurício! – Falo já me virando.

— Meu nome é Gaspar, a propósito. – O cara sussurra em meu ouvido antes que eu esteja completamente de frente para o idiota traidor do meu ex-namorado. Não consigo evitar um sorriso, ele pensa rápido e é esperto, com certeza deve ter percebido o que eu tinha feito.

— Você está linda! Não te vi nos últimos dias! Por onde andou? – Fala sério, como se fosse da conta dele.

— Não deve ter me visto, porque passei uns dias na casa da minha avó, mantendo distância de você – dou um sorrisinho irônico, ele parecia meio constrangido, como se isso fosse me comover.

— Lys! Sobre o que aconteceu...

— O que aconteceu? – Pergunto sem conseguir me segurar e respondo minha própria pergunta. – Hum... Deixa ver se consigo lembrar! – Depois de uns dois segundos estalo meus dedos e falo. – Lembrei! Você transou com a garota que estudava comigo. E olha que coincidência é a mesma cretina que está com você agora. Então para de fingir que se importa, porque eu sei que você não está nem aí e não me chama mais de Lys, para você é Alyssa – falo em um só fôlego com minha melhor cara de "vai se ferrar".

— Você me chamou de quê? – Jéssica pergunta parecendo ofendida.

— Quer que eu soletre, querida?

— Tá legal, chega! – Maurício fala com um tom irritado. – Já entendi perfeitamente, você me odeia. Aceito isso, talvez eu até mereça, mas não fica aí fingindo que está sofrendo, porque está bem claro que já superou – diz olhando para o cara que eu tinha acabado de beijar e que eu descobri que se chamava Gaspar.

— Olha aqui, Maurício, eu acho que isso não é da sua conta. Nada o que diz respeito a mim ou ao que eu faço é da sua conta, então por que você não vai encher outra pessoa com esse... – antes que eu pudesse terminar sou interrompida.

— Maurício, nossa que surpresa ver você aqui! Vejo que seus gostos ainda continuam peculiares, para dizer o mínimo – ouço a voz de Duda, minha melhor amiga e salvadora, ela tinha o "time" perfeito para me tirar de problemas. Duda se coloca do meu outro lado, já que o bonitão irritante ainda continuava ali, graças a Deus por isso. – Achei que não veria sua cara por um bom tempo, depois do que fez. Acho que estava enganada. Seu cinismo foi maior. – Eu amo essa garota, essa era uma das melhores características da Duda. Ela podia ser a pessoa mais doce do mundo, mas quando se tratava de lealdade aos amigos, não media esforços para defendê-los. Temos isso em comum e algumas outras coisas também.

Ela era completamente, irrevogavelmente o oposto de tudo o que eu era, quando se tratava de personalidade. Agradeço a Deus por isso. Eu sou uma força da natureza como diz minha avó e ela é meu equilíbrio, então éramos uma ótima dupla.

— E eu acho que você está se deixando influenciar demais pela Alyssa, lembro de que sua educação era muito melhor que isso. Acho que ficar muito tempo com a Alyssa está afetando seu traquejo social. – Minha vontade era de pular na jugular dele por ter falado aquilo, quem ele achava que era. Antes que eu pudesse falar ou me lançar contra ele, Duda interfere mais uma vez.

— Você pode até ter razão, mas se eu for metade parecida com a Lys, já vai ser de bom tamanho para mim. Ela é uma das melhores pessoas que eu conheço e sempre mereceu alguém melhor que você. – Fala com a voz firme encarando-o. Como eu disse amo essa garota. – Você é o tipo de homem que me faz sentir repulsa por todos da espécie. Graças aos céus nem todos são tão traidores e cínicos como você. – Ela não se altera, apenas fala o que quer falar e se vira para mim.

— Vamos beber alguma coisa? Já que você me arrastou para essa festa, mereço pelo menos uma dose de tequila – fala com a sobrancelha levantada e pela primeira vez pareceu notar que eu não estava sozinha, sorrir para o Gaspar ficando meio sem jeito, mas volta a olhar para mim. Ela parecia ter ignorado completamente a presença do casal bizarro, que saem com o rabinho entre as pernas. – E então? – Pergunta novamente e eu não consigo evitar um sorriso.

— Te amo eternamente! – Falo lhe dando um abraço apertado. – Você os exorcizou como uma verdadeira exorcista. Sempre fui sua fã, agora também sou sua admiradora mais fiel – afasto-me dela. – Não que eu estivesse precisando, eu teria dado uma bela de uma surra neles e... – Ela me interrompe levantando uma das mãos, fazendo um sinal de pare.

— Foi exatamente por isso que eu o enxotei, não queria que fosse presa por assassinato ou por agressão aos animais – com esse comentário caímos na gargalhada.

— E eu achando que estava vindo para uma festa chata de estudantes! – Aquela voz grave, pesada e meio rouca fala , paramos de sorrir na mesma hora e voltamos nossa atenção para ele.

— Caramba, foi mal! – Falo tentando usar meu melhor tom de sinto muito, mas na verdade não estava nem um pouco arrependida. – Duda! Esse é o Gaspar, ele meio que me ajudou... – ele me encara incrédulo e balançando a cabeça de modo negativo, parecia tentar não rir – Depois eu te explico. Gaspar! Essa é minha melhor amiga, Maria Eduarda ou Duda como todos a chamamos porque seu nome é grande demais. E eu sou Alyssa. Te devo uma, camarada. – Camarada? Quem ainda usa essa palavra? Duda olha para mim, tentando segurar o riso. Gaspar dá um meio sorriso e estende a mão.

— Prazer em conhecê-las, Alyssa... – aperta minha mão e solta em seguida para apertar a da minha amiga – e Duda... – Ele olhou para ela de um jeito, foi como se os olhos de Gaspar se acendessem como enormes faróis. E saquei naquele momento que o beijo que tínhamos acabado de trocar já era.

Gaspar

Depois daquela apresentação dramática e turbulenta para dizer o mínimo, meu primo Henrique chegou e Nicholas descolou uma mesa para nós dois e as meninas, Nike não pôde ficar, já que o bar estava lotado. Henrique logo se enturmou com as meninas, principalmente com a Alyssa e lamentou ter perdido todo o drama. Maria Eduarda era como um sopro de ar fresco, quando ela chegou e arrasou o idiota, toda brava e explosiva, pensei que assim como a amiga ela fosse um tornado, mas me enganei, Duda era suave e tinha uma doçura que a tornava ainda mais encantadora. Ela era baixinha, cabelos castanho escuros quase negros na altura dos ombros, com enormes olhos azuis, uma pele perfeita , curvas que deveriam ser proibidas e usando aquele vestido azul, então. Diferente de Alyssa parecia ser mais centrada.

Enquanto meu primo e Alyssa conversavam animadamente, eu e Duda fazíamos o mesmo e quanto mais ela me falava sobre si mais eu queria saber. Duda estudava Belas Artes, estava no terceiro período, era madura, pé no chão e eu estava completamente encantado por ela.

— Vocês duas são aqui de Blumenau mesmo? – Pergunto porque sei que tem muitos estudantes de outros estados que vem estudar aqui.

— Moro aqui, mas nasci no Rio de Janeiro, me mudei para Santa Catarina com a minha mãe quando tinha cinco anos. – Seu tom era leve e descontraído, assim como eu parecia estar muito à vontade. – Meus avós moravam em Itajaí, agora só meu avô, minha mãe nasceu lá, só se mudou para o Rio depois que conheceu meu pai. Atualmente, minha mãe mora em Florianópolis- ela toma mais um gole da cerveja.

— E eu agradeço aos céus, você ter vindo morar a poucos quarteirões da minha casa – Alyssa fala tomando mais uma dose de tequila. – Ela me salvou de uma garota idiota que adorava implicar comigo no parquinho. Eu não era nada popular no tempo da escola – diz fazendo careta, de repente as duas começaram a gargalhar.

— Não sei do que vocês duas estão rindo, mas definitivamente são as duas garotas mais interessantes e divertidas que já conheci. – Henrique fala encarando as duas. Depois desse momento nostálgico, o foco da conversa mudou completamente.

Conversamos por um bom tempo, fico sabendo que Alyssa estuda Composição e Violoncelo na UFSC. Ela e Duda começaram a faculdade juntas, apesar dos cursos serem diferentes. Ainda a achava meio maluca, nunca conheci uma garota que se agarrasse com um cara no bar sem saber nem o nome dele, claro que eu sabia que elas existiam, mas foi a primeira vez que me deparei com uma. Lys começa a falar em meio às lágrimas, graças às inúmeras tequilas e cervejas que tinha ingerido, que o ex-namorado babaca de codinome Maurício, a traiu com a mesma garota com quem ele estava essa noite. Uma informação que o bar inteiro já tinha conhecimento. Pelo que eu tinha entendi, elas duas tinham ido até o Nixy's para comemorar o início do semestre e para Alyssa voltar à ativa, palavras delas, definitivamente Lys era um tsunami.

— Saaabe! – Lys fala com a língua meio enrolada. – Eu tenho o dedo cooompletamente podre para homensss, vocêsss... – ela diz apontando em minha direção e na de Henrique ou quase já que provavelmente estava vendo tudo dobrado. – Não conseguem manter o pinto de vocêssss dentro das calças, são como um bando de ninfosmenoicos ou será ninfostos, como é messsmo, Duda? – Pergunta.

— Ninfomaníacos, e eu acho que já passou da hora de irmos para casa. Você já curtiu demais e aproveitou demais por uma noite. – Fala já se levantando e indo para o lado da amiga.

— Isso... Niiinfomaníacos! Obrigadaaa, amiga, estar no DNA de todos vocês.

— Tudo bem! Acho que já chega por hoje. – Diz tentando ajudá-la a se levantar, com dificuldade.

— Acho que precisa de ajuda? – Falo já levantando e apoiando Alyssa em mim, Henrique só fazia rir das palavras sem sentido da Lys.

— Obrigada, Gaspar!

— Você não quer uma carona, Duda? – Henrique pergunta ainda sentado em sua cadeira, ainda com um sorriso idiota estampado na cara – meu primo pode levar vocês duas. – Encaro Henrique com ar interrogativo, sem deixar de me perguntar qual era a dele. Esse idiota nunca dava ponto sem nó.

— Claro que posso, não terei problema nenhum – acabo falando por fim.

— Eu agradeço muito de verdade, mas viemos de carro. Eu bebi apenas uma dose, acho até que a tequila já foi eliminada do meu organismo, estou ótima para dirigir. Mas aceito ajuda para levá-la até o estacionamento, não conseguiria sozinha. – Fala abrindo um sorriso doce, ela era realmente linda.

— Levo- a até o carro de vocês.

— Valeu, Gaspar, você é um amor. – Ela fica na ponta dos pés e me beija no rosto. – Vamos, antes que ela desmaie – assim que ela termina de falar, Lys apaga nos meus braços e posso dizer sem medo de estar errada, ela é uma falsa magra, como alguém magra desse jeito pode ser tão pesada? Ergui nos meus braços e fomos em direção à porta.

Caminhamos até o estacionamento sem falar muito. O carro delas não estava muito distante, um pequeno UNO vermelho, duas portas, em ótimo estado. Assim que Duda destranca as portas, abre a porta do banco traseiro, coloco Lys deitada com o máximo de cuidado que consigo e fecho a porta, tentando não fazer muito barulho.

— Obrigada, por me ajudar com a Lys. Acho que estou agradecendo muito, não é? – Ela passa uma das mãos pelos cabelos, torcendo e fazendo um nó.

— Está sim, mas tudo bem. Foi um prazer te ajudar – dou uma boa olhada na amiga maluca dela, que já estava completamente desacordada no banco de trás do carro. – Ela parece ser bem instável? - Pergunto ainda encarando a garota que me beijou sem nem saber meu nome, ela era uma figura.

— Esse não é o normal da Lys. Ela é incrível. Você apenas a conheceu em um momento ruim. O Maurício é um idiota, ela não merecia o que ele fez com ela – seu pescoço começa a ficar avermelhado, ela começa a coçar. – A faculdade é cheia de garotas daquele tipo, ele tinha que pegar logo uma que estuda com a Lys? Que tipo de pessoa faz isso? Elas faziam trabalhos juntas e ele sabia disso. – Aparentemente, ela ficava com algum tipo de urticária nervosa quando era contrariada ou irritada. – Ela estava muito apaixonada por ele, Lys pode parecer confusa ou até mesmo instável como você disse, mas ela é uma pessoa incrível – ela esfrega o pescoço um pouco mais e para.

— Gosta muito dela? – A pergunta era mais por curiosidade do que por outro motivo, a verdade é que eu estava enfeitiçado pelo seu jeito doce de menina.

— Sim! Nos conhecemos desde os oito anos. Ela é como uma irmã para mim e o sentimento é recíproco. Somos filhas únicas, ela foi abandonada pelo pai e o meu morreu quando eu tinha quatro anos, então de certa forma, isso acabou nos aproximando.

— Nossa! Imagino. Você disse que se mudou para Blumenau quando tinha cinco anos, mas só se conheceram quando tinham oito? – Desejava conhecer tudo sobre ela, tinha fome por colher o máximo de informações possíveis, e ela parecia não se incomodar em estar parada no meio de um estacionamento em plena madrugada, então continuei perguntando.

— Pois é, quase a vida toda e nunca brigamos. Estudávamos na mesma escola, mas nunca fomos amigas, até que um dia eu vi umas garotas que adoravam ser cruéis, implicando com ela, o pai da Lys tinha acabado de pedir o divórcio à mãe dela, e algumas crianças podem ser bem maldosas às vezes. – Enquanto me contava parecia estar vivenciando o momento novamente. – Fiquei furiosa com as coisas que elas estavam falando, fui até lá e briguei com a líder delas, desde esse dia nunca mais nos separamos. Descobrimos que morávamos a alguns quarteirões uma da outra, minha mãe ficou muito amiga da avó e da tia da Lys. E é isso. – Fala com um lindo sorriso nos lábios.

— Nossa! Esse tipo de amizade é raro. – Era tão fácil conversar com a Duda, era como se nos conhecêssemos há muito tempo, nunca tinha tido uma sensação como essa antes.

— Sua amizade com Henrique não me pareceu muito diferente da minha.

— E não é, só que nós dois somos primos, temos o mesmo sangue, crescemos juntos – ela parecia estar pensando.

— Amizades verdadeiras não são feitas por laços sanguíneos e sim pelo sentimento que une as pessoas – diz como se isso respondesse tudo, o que de certa forma respondia. Não conseguia tirar meus olhos dela, parecia que existia um imã invisível entre nós. – Acho melhor levar essa maluquinha para casa. Mais uma vez, obrigada pela ajuda! – Ela baixou o olhar e levou uma das mãos até a porta do carro.

— Você não quer sair comigo amanhã? – As palavras saem da minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar no que deveria falar, eu simplesmente não podia deixá-la entrar naquele carro sem ter uma chance de vê-la novamente.

— Eu nem te conheço direito! – Fala sorrindo, parecendo meio sem jeito.

— Verdade! Mas eu acho que é para isso que as pessoas marcam encontros, para poderem se conhecer melhor.

— É eu sei! Só que... – ela fica meio pensativa por alguns segundos – Tudo bem! – Fala por fim. – Você está certo, além disso, sei que sua família é de Itajaí, sei que é um futuro Chef e sei seu sobrenome, então posso pesquisar no Google sobre você – me pareceu impossível não rir do que ela tinha acabado de dizer, então não me contenho. – Não sei qual é a graça! Gosto de ser uma garota precavida – fala antes de também começar a rir sem parar, sua risada é simplesmente linda.

— O que acha de darmos uma volta e depois almoçarmos juntos? Seria um encontro à luz do dia e você não correria nem um risco. O que me diz? – Pergunto assim que consigo conter minha crise de riso.

— Está bem! – Ela abre a porta do motorista, pega uma caneta e um bloquinho de anotação, escreve alguma coisa, destaca uma folha e me entrega. Era seu endereço e seu número. – Pode me pegar às 09h00min? – Abre um sorriso, percebi nas poucas horas desde que nos conhecemos que ela tinha mais de um sorriso, naquele momento tinha acabado de descobrir mais um.

— Vou estar na porta da sua casa às 09h00min.

— Acho bom! Tenho que ir, antes que ela passe mal e acabe sujando meu carro. – Antes de entrar no carro, ela vira-se uma última vez na minha direção. – Boa noite, Gaspar! A gente se vê! – Antes que ela pudesse entrar, seguro sua mão.

— Boa noite! – Me aproximo, coloco minha mão livre em sua nuca e chego mais perto depositando um beijo no canto da sua boca.

Quando me distancio alguns centímetros, sinto a sua respiração acelerar. Era muito difícil segurar minha onda e não beijá-la de verdade, mas consegui me conter. Não queria que nosso primeiro beijo fosse assim, queria que fosse especial. Quando nos beijássemos queria que ela soubesse que seria para sempre, porque isso é o que eu quero e ela também, só que no momento ela ainda não sabe.

— A gente se vê! – Digo com a voz baixa e sussurrada.

— Certo! – fala ainda tentando regularizar a respiração.

Nos separamos, ela finalmente entra no carro e segue seu caminho. Enquanto olhava o carro da Duda se distanciando, me veio à certeza de que minha história com ela estava apenas no começo. Até aquele momento, a única coisa na minha vida que eu tinha absoluta convicção era sobre a minha carreira. Sempre fui um cara que acredita no amor e que no mundo há uma única pessoa certa para cada um de nós, eu tinha acabado de encontrar a minha.

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