Capítulo 5

Capítulo 5

Alyssa

Presenciar o encantamento da Isa, ao abrir os presentes que eu havia trazido era um presente para mim. A infância era a melhor fase da vida, repleta de inocência e fantasia.

— Lindo, dinda. Vou mostrar a vovó. — ela se aproxima de mim, dá um abraço gostoso e sai tentando correr, arrastando o pula-pula que era maior do que ela.

— Isa, como fala para agradecer pelos presentes? — Isa para no meio do caminho, vira-se e voltando para mim e para a Duda abre um enorme sorriso, ela nem precisava agradecer, aquele sorriso valia muito mais do que um obrigado.

— Brigada, dinda! — E sai da varanda saltitando como uma coelhinha. Uma bola de pelos, meio amarronzados, segue-a parecendo pedir sua atenção. É impossível não rir com a imagem.

— Ainda não consigo acreditar que ela se enfiou em um buraco no muro da escola para salvar a Lika. — Quando a Duda tinha me falado sobre a proeza da filha eu não sabia se sorria, ou se ficava em pânico.

— Imagina como eu fiquei quando vi metade do corpo dela na calçada e a outra metade no jardim da escola? Acho que envelheci uns vinte anos. — Começamos a rir.

Cheguei cedo à casa da Duda, não eram nem três da tarde. Queria aproveitar o máximo possível para matar a saudade. Vovó Clara e tia Liliana iriam vir mais tarde e como hoje era domingo e Duda falou que convidou todo o clã Bianucci para o jantar de boas vindas, eles viriam no final do dia.

Gaspar não estava em casa, de novo, dessa vez ele tinha saído para comprar um ingrediente que tinha faltado para a sobremesa, Duda disse que ele não iria demorar muito. Laura estava adiantando algumas coisas na cozinha, que ele havia pedido e nós duas estávamos na varanda colocando o papo em dia. Assim que cheguei e vi a Isa, abracei-a, apertei e cobri de beijos, enquanto ela ria sem parar, dei os presentes que havia trazido e agora eu e Duda estávamos novamente sozinhas. Ela parecia bem melhor do que estava no dia anterior.

— Parece bem melhor do que ontem. — Comento depois de termos passado um tempo apenas admirando a vista da cidade.

— E estou. Chamo de dias bons e dias ruins. Quando faço a quimio eu tenho uns dois ou três dias ruins com enjoos, vômitos, tonturas, um mal estar horrível que parece não acabar nunca. Alguns dias que não faço quimio, também tenho esses sintomas, dores no estômago, enjoos, mau humor, enfim. Nos dias bons como hoje, não sinto tantas dores ou quase nem um dos outros sintomas — ela fecha os olhos, respira o ar fresco da manhã e sorri um sorriso que não tinha visto no dia anterior. — Nestes dias me sinto quase normal, sou muito grata por eles.

— Isso é muito bom. — Duda abre os olhos, direciona sua atenção para mim, sorri e depois volta a olhar a vista da cidade novamente. Ela sempre parecia transmitir uma paz, serenidade, acredito que essa seja a palavra certa. — Vai ganhar essa luta, eu tenho certeza disso — seguro sua mão que repousava sobre seu colo. Sinto seu leve aperto sobre a minha.

— O que pretende fazer? Agora que está de volta. — Pergunta mudando o rumo da conversa e se voltando para mim.

— Não sei, pensei em tentar uma vaga na orquestra do estado. Lembra-se do Cássio? Ele era orientador e coordenador do curso de Música da UFSC. — Ela assente — Então, agora ele é diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina, a central é aqui em Blumenau. Consegui o número dele com uma antiga colega da faculdade, que agora toca na orquestra. Talvez consiga um teste ou prova. Tudo é possível, vou tentar. Também estava pensando em retomar minhas aulas na ONG. Sinto saudade das crianças. — Sorrio ao lembrar-me delas.

— Isso é maravilhoso, Lys. Tenho certeza que o Cássio vai ajudar, ele sempre admirou muito seu trabalho.

— Admirou. Você acha?! — Após quatro anos de faculdade tendo Cássio como orientador e professor nos tornamos amigos, mas eu sempre ia contra tudo o que ele falava nas aulas, na época ele lecionava técnicas musicais. — Sei que ele admira, mas sempre achou que eu tinha a língua grande por ficar rebatendo tudo o que ele dizia na aula. — Cássio sempre foi um professor brilhante e eu uma aluna respondona. — É eu acho que podemos dizer que éramos amigos e que ele "admirava" minha música. Levando em conta nossa relação de amor e ódio. — Ela sorri, com certeza, lembrando das histórias que eu contava sobre os shows que eu dava em sala, com alguns professores que não tinham nem uma noção, com o Cássio eu fazia apenas por implicância, adorava as aulas dele.

— Bom, uma coisa é certa e você vai ter que concordar comigo — fala, assim que consegue conter o riso. — Cássio te apoiou muito quando decidiu concorrer à bolsa de estudos, e fez aquela carta de recomendação incrível. E você sempre foi sua queridinha.

— Não exagera, também não é pra tanto.

— Você sabe que estou certa. — Realmente, ela estava. — Vou até o banheiro tomar meu remédio, está na hora.

— Precisa de ajuda?

— Não, tudo bem. Estou ótima, já volto. — Ela parecia mesmo está bem ao se levantar e sair, percebi que até seu equilíbrio e coordenação ao caminhar estavam muito melhores do que no dia anterior. Era muito bom vê-la bem.

— Vou ao quarto, tomar o remédio e ir ao banheiro — era a voz da Duda vindo da sala, estava conversando com alguém.

— E a Isa? — Era a voz do Gaspar, a mesma voz grave e forte. Lembrava-me bem dela.

— Está com mamãe, exibindo os brinquedos novos que ganhou da tia.

— Lys já chegou? — Levanto-me e vou até a porta que dividia a varanda da sala.

— Chegou uns cinco minutos depois que você saiu, vai lá falar com ela. Ela está na varanda. — Consegui ver os dois, não estavam muito distantes. Duda beija-o e sai em direção ao corredor.

Alguns segundos depois Gaspar aparece diante de mim. Ele não tinha mudado muito, ainda parecia aquele cara charmoso, inteligente e irritante que eu conheci há alguns anos. Desencosto do batente da porta da varanda e entro na sala, ele continua me encarando, parecia mais um tipo de análise. Faz uma careta engraçada e se aproxima de mim.

— Não cresceu um único milímetro, desde que nos vimos da última vez.

— Tão pouco seu senso de humor melhorou, nesse meio tempo. — Alfineto para rebater o comentário ridículo dele.

Gaspar não responde e se aproxima mais, sorri, um sorriso engraçado.

— Bom te ver. — Dá mais um passo e me abraça. Era bom e acolhedor. Um gesto de boas-vindas, inesperado, mas fofo, vindo dele não me surpreendeu. Gaspar era assim. — Obrigada por vir rápido. Ela precisa de você. — Ele me solta e nos afastamos.

— Ela é minha melhor amiga, minha irmã. É claro que viria.

— Nunca duvidei. Vem, vamos para a cozinha, acho que a Laura ainda deve está por lá com meu pedacinho de gente, a tira colo.

Assim que chegamos à cozinha nos deparamos com uma cena no mínimo assustadoramente fofa. Isa estava sentada em um cadeirão de bebê, que parecia um pouquinho pequeno demais para ela. Um detalhe que com toda certeza não parecia estar incomodando-a, já que as frutas que deviam estar dentro do pratinho, estavam por toda parte menos dentro do pratinho. O rostinho da Isa estava todo sujo e risonho, principalmente pelo caldo da manga. Era a coisa mais fofa e linda do mundo. Tia Laura parecia conformada com a situação e encantada com a bagunça.

— Acho que estão se divertindo bastante. — Gaspar fala se aproximando da filha. — Princesa, que bagunça você fez!

— Papai, toma uva. — Isa estende a mãozinha toda suja, segurando firme um pedaço de uva meio amassado. Parecia até meio nojento, Gaspar aproxima-se da filha fingindo morder a mãozinha gorda, o que faz Isa soltar uma sonora e deliciosa gargalhada e abocanha a uva.

— Delicioso, filha. — Os pais realmente fazem tudo para deixarem seus filhos felizes.

—Tentei evitar, mas essa pequena é terrível. — Laura fala, tentando parecer brava, mas fracassando vergonhosamente.

— Estou percebendo, Laura. Tudo bem. — Era visível em sua voz que Gaspar não estava nem um pouco chateado, na verdade ele parecia se esforçar para não rir, já que a blusa da Laura estava completamente suja. — Que acha de um banho, princesa?

— Não quero, papai. Brincar.

— O que aconteceu aqui? Um vendaval? — Duda pergunta assim que entra.

— O ataque das frutas, ia levá-la para tomar um banho.

— Você tem que continuar com o jantar. Mamãe, Isa não é a única que precisa de um banho — fala com um ar de riso.

Era tão natural e comum ver todos naquele ambiente familiar. Era como se o tempo nunca tivesse passado.

— Quer ajuda?

— Não precisa, Lys, mamãe e eu damos conta. A família vai chegar logo, melhor você ficar e ajudar o Chef. — Seu comentário era irônico, só podia ser. Eu era péssima na cozinha, o máximo que arriscava era uma omelete ou uma massa.

— Sabemos que eu atrapalharia mais do que ajudaria.

— Fica aí atrapalhando que eu já volto. Vem com a mamãe, amor. — Fala ao pegar a Isa. Antes de sair, aproxima-se de Gaspar e beija-o.

— Hoje ela está muito bem. Quando estive aqui ontem, fiquei surpresa ao encontrá-la tão abatida — comento assim que estamos a sós, Gaspar retira a jaqueta e começa a lavar as mãos.

— Os três primeiros dias depois da quimio são bem difíceis. Depois melhora. —Ele coloca um avental com umas estampas geométricas coloridas, ele parecia relaxado, tranquilo. Engraçado como aparentava estar em um parque de diversões.

— Qual é o cardápio? — Pergunto para mudarmos de assunto, hoje é um dia feliz, como a Duda havia dito, temos que ser gratos por eles, e talvez por uns segundos esquecer um pouco os problemas.

— Bruschetta com confi de tomates frescos para a entrada, prato principal uma costeleta de vitela à moda italiana com risotto alla milanese e salada caprese, como sobremesa uma torta de merengue de limão siciliano. O que acha?

— Que você deveria ser preso por crimes contra a balança. — Seu riso preenche o ambiente. Algo me dizia que ele não andava sorrindo muito ultimamente. — E que é um cardápio bem italiano.

— Sou de família italiana, queria o quê? Vocês mulheres têm uma relação estranha com o próprio peso. Não precisa ficar se preocupando com a balança, Lys, está ótima. — Enquanto ele fala, vai se movimentando na cozinha, tinha me esquecido como era incrível vê-lo cozinhar.

— Seus olhos brilham enquanto cozinha, parece estar em seu ambiente natural. — Sento-me em um dos bancos da bancada de mármore e fico admirando a destreza de seus movimentos.

— Nunca me imaginei fazendo outra coisa, a não ser comandando minha própria cozinha. Acho que sua descrição é aceitável.

— Um sonho que conseguiu realizar e que parece descartar. Henrique e Duda me falaram que você contratou outro Chef para comandar a cozinha do Sabores.

— Henrique e minha amada esposa falam demais, e é só por um tempo, até a Duda se recuperar. Depois eu retomo.

— Você está deixando a Duda maluca com essa sua teimosia. Não pode suspender sua vida por causa do que estão enfrentando. Isso não fará bem a nem um de vocês. Não é apenas seu sonho, é seu trabalho também, pelo qual você lutou muito, até conseguir estabilidade e reconhecimento — queria que ele entendesse como essa escolha poderia afetá-los. — As pessoas vão até o Sabores para comer sua comida e não a de um outro Chef.

— Ela falou com você sobre isso não é? O quer que eu faça? Que deixe minha mulher no momento mais difícil da vida dela? Que a deixe enfrentando sozinha essa merda toda?

— Não, quero que você pare e pense um segundo. Como se sentiria se as pessoas que você ama modificassem suas vidas quase que por completo, porque você está doente ou impossibilitado? Como se sentiria se a vida de todos ao seu redor mudasse só porque a sua teve que mudar? Já tentou se colocar no lugar dela por um segundo?

— Então acha que estou errado? Que estou exagerando? — Ele larga o que estava fazendo da pia e me encara. — Não esteve aqui nas últimas semanas, não tem ideia de como tem sido difícil. Para você as coisas são muito simples, sempre foram.

— Tem razão, eu não estava aqui. Mas não porque eu não queria estar, sabe muito bem disso. — Sentia a raiva emanar dele, era visível a impotência que sentia ao ver Duda passar por tudo aquilo, sem poder mudar ou ter o controle de nada. — Não acho que esteja exagerando em querer se manter próximo a Duda. Não disse que devia manter distância ou que devia negligenciar a situação. O que estou tentando dizer, é que abandonar seus projetos e as coisas pelas quais lutou, não vão ajudar em nada ou mudar o que estão vivendo.

— E o que sugere que eu faça? Que volte a trabalhar, praticamente de domingo a domingo como antes?

— Não. E você não tem que trabalhar de domingo a domingo como antes. Contratou um Chef, não tem que demiti-lo. Pode revezar os dias, fazer uma escala, trabalhar três dias na semana e deixar os outros com ele. Iria continuar a frente da cozinha, até mesmo nos dias que não estivesse lá e ainda assim teria tempo para a Duda e ajudar na recuperação dela. — Queria que compreendesse meu ponto de vista, que se colocasse no lugar da Duda por um segundo.

— Devo estar maluco, já que estou levando seus conselhos em consideração. Só que amo a Duda, ficar longe sabendo que ela precisa de cuidados é como definhar um pouco a cada segundo. Já tentei.

— Tia Laura está aqui, e agora também estou, Duda não estaria sozinha. Sei que a ama, mas o amor também pode ser sufocante as vezes. Posso não ser a pessoa mais centrada que você já conheceu e com toda certeza não sou uma especialista em amor, mas sabe que estou certa. — Ele apenas continuava me encarando.

— Tenho que concordar com você, de novo. — Voltando sua atenção novamente para as panelas, continua. — Acho que morar esses anos fora te fez bem, te fez amadurecer. Ao ponto de ser capaz de me mostrar, que venho agindo como um carcereiro e não como um marido. Só que ter consciência disso, não deixa as coisas mais fáceis.

— Não disse que seria, tem apenas que ser possível. Apenas tente. Primeiro chefiar a cozinha, depois reuniões com fornecedores. Vai aos poucos e quando menos perceber terá uma rotina novamente.

— Acho que posso tentar fazer isso.

— Também acho.

— Nossa dá pra sentir o cheiro, assim que sai do elevador. — Era a voz da Samara, irmã mais velha do Gaspar. Alguns segundos depois, ela adentra a cozinha, com o sorriso marcante dos Bianucci, o fato dela carregar o sobrenome do marido não alterava isso.

— Lys, como é bom te ver. — Me abraça quase me esmagando. Samara era assim, a personificação da mãe natureza. Linda, muito parecida com Lívia, matriarca da família, ambas tinham os mesmos olhos. Nos afastamos e ela me analisa. — Você está linda! Fiquei contente quando Gaspar me disse que tinha voltado.

— Muito obrigada, pelo "linda". Cheguei ontem, nem tive tempo de respirar direito, passei aqui para falar com a Duda, mas não demorei muito estava cansada de mais.

— Posso imaginar uma viagem longa como essa, deve cansar muito — enquanto falava ia até as panelas, mas antes mesmo que pudesse abrir alguma delas, Gaspar deu um tapa de leve em sua mão, que parou no meio do caminho. — Você é um chato, sabia?

— Mamãe, onde a tia Duda e a Isa estão? Não vi a Lika também. Elas não estão na varanda. — Uma menina linda de uns dez anos invade a cozinha falando com a Samara, Savana estava linda, uma mocinha e muito parecida com o pai. A única característica que tinha da mãe era os marcantes olhos azuis, os mesmos da avó. Aquela família inteira era linda, por dentro e por fora. Savana para no meio do caminho, quando percebe minha presença.

— Minha nossa! Você é a Savana? — Ela apenas faz que sim com a cabeça. — Mas você já é uma mocinha, quando viajei não media nem meio metro e agora olha pra você, está quase da minha altura. — Não era bem um exagero, levando em conta que minha altura é 1,65 e ela realmente tinha crescido bastante. Ela abre um enorme sorriso. — Vem aqui me dá um abraço — meio sem jeito ela se aproxima de mim e eu a abraço. — Espero que o presente que eu trouxe caiba em você. — Seu rostinho se ilumina. — Pode pegar com a Duda depois.

— Espero ganhar presentes também. — Samara fala, pegando uma fruta. Savana vai abraçar o tio, que já tinha chamado sua atenção. Eles se abraçam forte, toda a família era muito próxima.

— Todos ganharam e é "presente" no singular e não no plural. Era apenas uma estudante e não uma versão feminina do Yo-Yo Ma.

— De quem?

— Como assim quem? O que as escolas de hoje ensinam? Yo-Yo Ma é simplesmente um dos maiores violoncelistas do século vinte e um, e também um mestre em composição, senhorita Savana Serrado. — Ela me encara parecendo não entender nada do que tinha acabado de dizer.

— Minha filha está entrando na adolescência e não na Faculdade de Música Lys, dá um tempo. — Fala com ar de riso.

— Mamãe, a tia e a Isa? — Savana volta a perguntar ainda com uma expressão de quem não entendia nada.

— Elas estão no nosso quarto, linda, Isa estava suja, tinha que tomar banho para ficar apresentável.

— Vou até lá então, tio. — beija o rosto dele e sai.

— Que saudade de quando ela era bebê. — Samara suspira com um olhar saudoso, encarando a porta por onde Savana acabava de desaparecer. — Filhos são a melhor coisa do mundo. Então! — A última palavra ela diz se voltando para mim. — Como foi à experiência de morar dois anos inteiros nos EUA? Quero saber de tudo.

Tinha esquecido como conversar com a Samara poderia ser interessante e divertido. Caíque, o marido dela, chegou com Mael algumas horas depois. Caíque e Samara se casaram jovens e tiveram Savana, alguns anos depois. Aos poucos todos foram chegando. Como senti saudades de tudo isso, todos ao redor de uma enorme e farta mesa, falando sem parar, discutindo por bobagens e falando escandalosamente alto. Os americanos eram tão contidos, discretos e silenciosos que me dava nos nervos.

— Acho que está ainda mais bonita do que sempre foi, Lys, não vejo a hora de ter o prazer em vê-la em um concerto. — Gael, pai de Henrique, era um galanteador incorrigível, mas também um verdadeiro gentleman de sorriso fácil. Por um tempo ele tentou conquistar minha tia, mas ela nunca levou muito a sério as investidas dele, mesmo que todas as outras pessoas levassem.

— Muito obrigada, Gael, mas você é suspeito. Tem uma queda pelas mulheres em geral, assim como seu filho.

— Agora sobrou para mim? Inacreditável. — Dá uma garfada na vitela, que por sinal estava incrível, como todo o jantar.

— O mesmo sangue corre em suas veias. — Não me contenho em alfinetar, Henrique era um homem galinha, pegar sem se apegar era a definição de seus relacionamentos. Encaro-o sorrindo.

Touchê, menina má. — Nunca entendi muito bem, por que me deu esse apelido quando nos conhecemos, mas era o Henrique, o melhor era não tentar entender.

Nós dois caímos na risada e o assunto mudou novamente. Isa se entrega ao sono, fico admirada em como Gaspar era jeitoso com ela. A forma como ele pega Isa dos braços da Duda e carrega até o quarto, sempre soube que ele seria um bom pai. Aquele jeito de bom moço dele, nunca deixou espaço para dúvidas. Percebo os olhares de Gael para minha tia, ele tinha sentimentos por ela, mas tia Liliana tinha sido muito magoada pelo ex-marido. Confiança era algo que se conquistava, não era dada de graça, principalmente, quando as pessoas sofrem por terem confiado mais do que deveriam. Se Gael gostava de verdade da minha tia, ele teria que conquistar sua confiança primeiro, também isso não dizia respeito a mim, eles são adultos, sabem se cuidar muito bem.

— Tenho que falar, o risoto estava incrível, Gaspar, maravilhoso. Essa receita está no cardápio do Sabores? — Volto a prestar atenção à conversa. Nem tinha notado que Gaspar tinha retornado. Vovó era apaixonada por ele, pelo Henrique, pelo Mael e é claro pelo Gael também.

— Está sim, Clara, só que com algumas modificações, Sabores é um restaurante que tem como marca registrada, os pratos clássicos adaptados para ficarem com cara de Brasil. — E eles vinham fazendo um enorme sucesso por causa dessa "marca registrada", Duda havia me contado que os grandes críticos ficaram fascinados pelo tipo de gastronomia que o Gaspar reinventou.

— Imagino, qualquer dia desses vou até lá, apenas para saborear suas delícias.

— É só me avisar o dia para eu poder me programar. Faço questão de cozinhar para você.

— Vai voltar a ficar a frente da cozinha, filho? — Lívia pergunta, enquanto saboreava as últimas colheradas da sobremesa.

— Vou sim, mãe. — Duda que estava sentada a minha frente, ao lado dele, me encara, pisco um olho para ela, que sorri. — Afinal de contas, as pessoas vão até meu restaurante para comer minha comida. — Todos na mesa o encaravam como se ele tivesse falado que entraria para a política. — Só que não vou trabalhar todos os dias no restaurante, estou pensando em ficar três ou quatro dias na cozinha e os outros ajudando o Henrique aqui de casa mesmo. Ainda pretendo acompanhar seu tratamento e recuperação. — Fala essa última parte encarando Duda, beija-a nos lábios e depois a mão.

— Isso é muito bom, filho, faz muito bem. — Ettore era aquele tipo de pai que estufava o peito de tanto orgulho.

— Conversar com a Lys me fez abrir os olhos para algumas coisas que andei fazendo, pai. Às vezes é necessário alguém para puxar de verdade nossas orelhas.

Todos me encaram parecendo incrédulos.

— Posso ser bem persuasiva.

— Não duvido disso, nem por um segundo. — Mael fala com ar sarcástico.

— Dá um tempo, Mael.

— Já dei.

— Acho bom guardar um tiramisu, que amanhã quando sair do trabalho irei passar lá para pegar. — Caíque fala pegando mais uma fatia da torta. — Sua irmã me inferniza pelo menos duas vezes por semana, por causa do seu tiramisu, por isso tive que vir até aqui te roubar semana passada. Ai, isso dói. — Reclama ao levar um beliscão da Samara.

— Não é bem assim. Está exagerando, meu bem. — A careta da Samara era impagável.

— Estão foi por isso que apareceu aqui com aquela história maluca de histerismo? E que doce era o único remédio e todo aquele blá blá blá?

— Isso aí.

— Poderia apenas ter falado que minha irmã estava tendo um ataque por falta de glicose no organismo, cresci com ela, sei bem como acontece. Principalmente na TPM.

— Acredito que o problema dela estava mais relacionado ao seu tiramisu do que especificamente a falta de glicose ou a TPM.

— Vocês são inacreditáveis, parem de falar como se eu não estivesse aqui.

— Amor, estamos apenas relatando os fatos. — Samara fez uma careta para o Caíque, que não se conteve e começou a rir, acompanhado por Gaspar.

— Sam sempre foi maluquinha por doces, desde criança. Não é fofinha? — Samara geme baixinho e esconde o rosto no peito de Caíque, por causa do comentário do pai. Ettore tinha falado apenas para provocar.

— Papai, por favor, fofinha não. — Dessa vez todos riram.

O restante da noite foi repleta de lembranças de bons momentos incríveis e conversas comuns do dia a dia. Savana já tinha se entregado ao sono, no sofá mesmo. Tinha sido uma noite perfeita, que aqueceu meu coração, aquela era a minha família e finalmente me senti em casa depois de dois anos.

Março de 2012

As semanas se passaram, para mim foram semanas de adaptação. Adorava morar com minha avó e tia, só que eu não era mais uma menina, ter meu espaço era uma questão necessária, porém para isso ser possível teria que encontrar um emprego primeiro. A primeira pessoa que procurei foi Cássio, que me deu a infeliz notícia de que o quadro de músicos da OSSCA estava completo, felizmente por uma coincidência do destino, Naomi uma colega de trabalho da Duda, informou que estavam procurando uma professora de música para os alunos mais velhos e eu me candidatei à vaga. Começaria em alguns dias, o que me deixou muito animada.

Mesmo Cássio tendo me garantido que conseguiria uma colocação para mim na orquestra, o que não duvidei, precisava pagar minhas contas me reestruturar, e precisava começar por algum lugar. Tinha experiência de sobra em dar aulas, graças ao meu trabalho nas ONGS onde fazia voluntariado. Enquanto minha grande oportunidade não se apresentava, ficaria dando aulas para adolescentes, algo que sempre amei fazer também.

Tinha combinado de ir com Duda para sua última sessão de quimioterapia, antes do retorno médico, para fazer a checagem do tratamento, que seria em alguns dias. Gaspar aos poucos tinha conseguido construir uma nova rotina, conciliando seu trabalho no restaurante com suas funções como super marido, o que deixou Duda aliviada e feliz. Por esse motivo hoje eu seria sua acompanhante junto com a Laura.

A caminho do hospital, onde tínhamos marcado de nos encontrar me deparo com a última pessoa que esperava encontrar e que não via há anos. Nunca era fácil reencontrá-lo, mesmo que fosse apenas de longe. Meu pai não havia mudado muito, ele ainda continuava com a mesma postura segura e firme que eu me lembrava. Tinha ido até um pequeno café. Enquanto saboreava a bebida fumegante, o vi de longe com a esposa e a filha. Minha irmã, a que nunca conheci, nunca sequer me aproximei ou fui apresentada. Eles pareciam felizes. Uma família de verdade, a mesma que não tive o direito de ter. Em alguns momentos da minha vida, até cheguei a me culpar pela separação dos meus pais, isso até eu crescer, perceber que os únicos culpados foram eles e que não cumprir promessas era um talento que pertencia a ambos. Apenas fiquei olhando-os de longe. Assim que entraram em uma pequena loja, segui meu caminho.

Não gastei nem quinze minutos caminhando até o hospital, quando cheguei, Duda estava na recepção com um livro em mãos. Seu sorriso ao me vê desapareceu à medida que fui me aproximando dela.

— Bom dia! — Fala, enquanto me analisa. Sento-me em uma poltrona ao seu lado.

— Bom dia! Tia Laura não veio? — Não queria demonstrar meu abalo emocional, por ter visto o homem que me gerou com sua família feliz, mas estava difícil.

— Ela foi preencher alguns documentos. Aconteceu alguma coisa?

— Não, estou ótima. — Aquele não era o momento de despejar meus problemas. Duda já tinha muito com o que lidar.

— Engraçado, porque não é o que parece.

— Que bom que já chegou, Lys. Vamos. Você é a próxima, filha. — Laura surgiu, me salvando de ter que dar explicações e evitando que Duda continuasse a me pressionar para dizer o que tinha acontecido.

— Então vamos. — Fico de pé e uso a minha melhor cara de animada fingida. Tinha certeza de que Duda não desistiria de tentar saber o que havia de errado.

Seguimos pelos corredores até uma sala com algumas cadeiras enormes pretas, pareciam ser muito confortáveis. Ao lado de cada uma delas, havia um suporte de soro, só que pendurado nele tinham duas bolsas uma com um líquido meio alaranjado transparente e o outro era transparente e mais viscoso, também tinha um aparelhinho digital ao lado. Não entendia muito como tudo funcionava, a única coisa que sabia era que tinha que ficar ao lado dela. Fiquei olhando, enquanto Duda era preparada pela enfermeira. Elas pareciam ser velhas conhecidas. Duda usava um lenço na cabeça. Nas últimas semanas os cabelos dela haviam caído muito. Os dois líquidos pendurados ao suporte estavam sendo injetados através de um cateter intravenoso próximo a clavícula, nem conseguia imaginar o desconforto que aquilo causava.

Minhas suspeitas de que ela não esqueceria o modo como cheguei ao hospital se confirmaram, assim que a enfermeira saiu com tia Laura para pegar gelo e chiclete. Não entendi muito bem para que Duda precisaria deles.

— E então, vai me contar o que houve ou vou ter de adivinhar?

— Acho que não é o melhor momento para falarmos sobre isso.

— Esse é o momento perfeito. Estou presa aqui pelas próximas duas horas, então acho melhor você começar a falar, se não vou insistir até que fale. Seria melhor se nos poupasse tempo. — A teimosia dela só aumentou no tempo em que fiquei fora, isso ficou bem evidente.

— Tudo bem. Resumindo. Vi meu pai com a família dele, esposa e filha. Não me aproximei, os vi de longe. A família feliz. — Sempre que ficava contrariada, dava um sorriso nervoso.

— Nossa, quando foi a última vez que o viu? Você lembra?

— Alguns meses antes de ir para Boston.

— Verdade, ele te procurou, não foi? Lembro-me disso. — Também me lembrava. — Ele queria conversar com você.

— Não foi bem uma conversa, Duda.

— Eu sei, lembro muito bem do estado que chegou lá em casa. Nunca teve curiosidade em saber o que ele tinha para te falar?

— Ele me abandonou ao se divorciar da minha mãe, depois de ter prometido que nunca deixaria de ser meu pai. Acha mesmo que alguma coisa do que ele me falasse poderia mudar isso?

— É claro que não, Lys. Mas, sei lá talvez exista um motivo, uma razão. Obviamente, que independente de qualquer coisa, nada justifica sua negligência, mas tem que ter um motivo. Pelo que me contou, vocês eram próximos.

— Sim, nós éramos. Mas aparentemente, isso nunca teve muita importância para ele, afinal, logo ele teve outra filha, construiu outra família, e nunca fez muita questão da minha presença.

— Apenas acho que talvez as coisas... — aquela conversa já tinha ido longe de mais, por isso decido por um ponto final.

— Duda! — Interrompo-a antes que ela continuasse dando continuidade ao assunto. — Isso tudo foi há muito tempo, consegui seguir em frente, da mesma forma como fiz quando meu avô e minha mãe morreram. Vê-lo com a família mexeu comigo porque sou humana, sabe que não sinto raiva dele. Meu sentimento é de decepção, mágoa. A raiva que sentia na adolescência já foi superada há muito tempo. — E era verdade, quando me dei conta de que a minha felicidade dependia única e exclusivamente de mim, e do que eu escolhia fazer com minha vida, entendi que a morte da minha mãe foi culpa das escolhas erradas que ela fez, foi escolha dela se entregar a doença e se enterrar viva, não do meu pai. — Agora podemos mudar de assunto. Prefiro falar sobre meu novo emprego. — Ela apoia-se na poltrona, parecia estar procurando uma posição mais confortável.

— Está bem, não vou insistir se é isso que você quer. Já conversamos tanto sobre esse assunto, de tantas formas diferentes. No final, a escolha sempre acaba sendo sua. — Percebo que ela parece um pouco desconfortável.

— Você está bem? Quer que eu chame a enfermeira?

— Não precisa, é apenas a medicação.

— Faz efeito tão rápido assim? — Quando a Duda ia responder tia Laura aparece.

— Desculpa a demora, querida, não tinham do sabor que você gosta. Comprei esses aqui. — Enquanto ela fala, vai separando um copo com alguns cubos de gelo e um pacote de chiclete sem açúcar sabor melancia com maçã verde.

— Desculpa minha ignorância. Mas para que serve o gelo e o chiclete?

— Não é ignorância, apenas não está acostumada. O gelo serve para manter minha boca úmida, a medicação deixa-a ressecada e o chiclete para adoçar porque minha boca também amarga muito. Outra paciente me passou a dica e realmente ajuda.

— Entendi. Precisa de mais alguma coisa? Posso fazer algo?

— Pode. Distraia-me, fale sobre aquele gato inglês que você namorou, enquanto estava em Boston.

— O Will? Você já sabe tudo sobre ele. O que mais quer saber?

— Comece pelo início. Por que acha que não dariam certo?

Nas horas seguintes, ficamos conversando sobre Boston, Will, Gaspar, o Sabores, Duda disse que eu precisava ir até lá e ver com meus próprios olhos como o trabalho deles tinha ficado incrível, também falamos sobre Isa, como a cada dia ela estava mais esperta e sempre inventava uma novidade. Transformamos a quimioterapia em uma sessão nostalgia, até que foi bem divertido.

Quando termina, o médico passa alguns receituários para os exames da próxima semana, e lembra que o retorno para a entrega dos exames e check-up completo seria dentro de trinta dias. Duda parecia fraca, enjoada, sonolenta, tudo ao mesmo tempo. A ação daquele tipo de medicação é imediata, e consumia muito rapidamente as forças do paciente. Saber na teoria era uma coisa, acompanhar o funcionamento era outra bem diferente. Ajudei Laura em tudo o que pude, Isa ficaria na casa da Samara aquela noite, hoje era um dos dias ruins.  

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