Tensão
Mesmo com o protesto de todos, Helena decidiu ir trabalhar e, logo depois se arrependeu de sua escolha. A despedida de seu avô estava em todos os noticiários e sites. Ela fechou a página da UOL, logo depois a do Globo, e como se ainda não bastasse, desligou a televisão da recepção do escritório, partindo a passos apressados para sua sala.
- Têm alguns jornalistas no estacionamento pedindo para falar com você. – Gabi disse depois de desligar o telefone. Helena se sentou na cadeira e massageou as têmporas. – Eu disse para você não vir, Hel.
Trabalhar seria a única possibilidade de esquecer por alguns momentos todo aquele terror que vivia. Então se já estava ali, iria aguentar. A amiga meneou a cabeça, e a contragosto, colocou seis pastas em cima da mesa dela.
– Então como você não vai embora, vou te dar um presente.
– O que é isso tudo?
– Uma cortesia do seu marido. Dúzias e dúzias de muito trabalho. Ele disse que trará as outras pastas amanhã pela manhã.
– Ele não estava brincando quando disse que precisa de assistência jurídica – Helena concluiu.
Helena começou a analisar cada um dos papéis de recibo, de contas e de registros. Além de todos os processos que a rede de hotéis estava em litigância nacional.
Tudo que averiguava, dispunha em fileiras e depois em pastas do próprio escritório. Assim que terminou, foi até a sala de arquivo e enfileirou os documentos na prateleira dentro do armário.
– Com licença – Cláudia entrou na sala de arquivos. Era impossível visualizar o rosto da secretária, o buque de rosas era tão grande que a escondia. – Doutora Helena, acabaram de deixar essa coisinha linda para você.
– Para mim? – Preocupada, Helena estendeu os braços. Os cheiros das rosas vermelhas estavam incríveis. Pareciam recém colhidas.
– Aqui o cartão. – Cláudia lhe entregou um papel pardo com um sorriso aberto. Ela ficou ali parada no meio da sala sem saber o que fazer.
– Helena! – Gabi a repreendeu entrando na sala.
– O que foi?!
– Você vai abrir o bilhete ou vai nos matar de curiosidade?
Gabi e Cláudia estavam lado a lado, ansiosas. Com cuidado, ela visualizou o pequeno papel pardo. Olhou no verso à procura do autor. Nada. Abriu o envelope e tirou um papel rosa bebê.
Estamos tendo um dia difícil. Espero que estas flores possam animá-la um pouco.
Max.
– Ah, é do Max. – tentou soar desanimada, mas seu coração batia tão rápido que parecia prestes a sair pela boca. Não aguentou. O que começou com um sorrisinho, terminou em um grande sorriso. Cláudia e Gabi riram. A amiga pegou o grande buquê e as cheirou.
- Ai que amor, doutora Helena, ainda não conheci o seu marido, mas já o considero. – Foi Cláudia quem disse enquanto passava as mãos pelos cabelos grisalhos para alinhá-los no coque. – E é bom que fisgue esse daí, viu? São poucos os homens que ainda são gentis assim. –Helena sorriu em resposta. Ultimamente, o gato parecia ter comido a sua língua. – Vou deixá-las trabalhando agora... Doutora Gabriela, o cliente das 18hrs disse que deve se atrasar.
– Está bom, Cláudia. Obrigada. – Assim que a secretária saiu da sala, Gabi colocou o buque de rosas na mesa e se jogou na cadeira. – Preciso de umas férias.
– E eu preciso de trabalho.
– Não, você também precisa de férias. Não que ainda não saiba... hum, realmente acho que foi um bom momento para Max entrar na sua vida.
– Com certeza, melhor momento não existiu! – Ironizou.
– Não estou falando da morte do Marcelo, Hel. Estou falando de amor.
– Que amor, Gabriella?! Nos conhecemos a menos de um uma semana.
– Que seja! Não acredita em amor à primeira vista? – A amiga abanou a mão no ar, a expressão ranzinza de Helena já dizia a resposta – Mas não é tarde para falar em sexo e, você com certeza está precisando.
– Na verdade, tudo que eu tenho tido é sexo casual e, estou bem assim, obrigado.
– Amiga, você pode mentir para mim, ok? Mas não para si mesma. Eu ainda não conheci o Max, mas to vendo o jeito que ele te deixa...deve estar sendo difícil, né?
– Ok, Gabi. Podemos mudar de assunto?
– O que temos de bom aí? – Aceitando sua proposta, Gabi perguntou em relação às pastas que havia dado para ela anteriormente.
- Assédio, dano moral... algumas coisas de natureza tributária. Nada novo sob o sol. – Ela se sentou em outra cadeira – Você fala para mim com o Vinicius? Ele precisa pegar a parte de tributário o quanto antes.
- Vou ficar aqui até mais tarde, mesmo. Depois eu vou para o andar dele.
Com a concordância da amiga, Helena foi se levantando. Era só pegar sua bolsa em sua sala e partir para casa.
- Ei, só vai, está bem? E se der medo, vai com medo mesmo. – Gabi tentou incentivá-la. Ela sorriu. Não tinha escolha mesmo.
Na volta para casa, Helena aumentou até o último volume a música "perfect", Ed Sheran, e cantou alto enquanto aguentava mais uma tarde de congestionamento.
Aproveitou para pensar em tudo o que vinha acontecendo com sua vida. Lembrou do avô. E quando menos esperava, via os olhos de Max em sua mente. Por mais que quisesse esquecer, ou se arrepender de ter feito sexo com ele, era Max quem via quando fechava os olhos.
Helena estacionou na vaga destinada a ela e saiu do carro. Já chega de sentir medo de chegar na própria casa. Ela iria entrar como em qualquer dia normal. Entrou no elevador e colocou as mãos na cintura, confiante. Mas assim que entrou no Hall de entrada, a porta de seu apartamento estava entreaberta.
Helena parou por um segundo. Os pelos do corpo se eriçando em alerta. Ela tirou o celular da bolsa e andou a passos lentos em direção a porta. Talvez devesse ligar pra polícia... ou quem sabe para o porteiro?
Mas e se não fosse nada? Era bem provável que não fosse nada. Ela colocou o celular no bolso traseiro da calça jeans que usava. A porta entreaberta exibia a sala de estar escondida na penumbra.
Helena voltou para o corredor do elevador e abriu a porta que guardava os pertences das pessoas que trabalhavam com serviços gerais no prédio.
Ela escolheu uma vassoura e voltou para a porta da sua casa, respirando fundo antes de entrar buscando fazer o mínimo de barulho possível. Tinha um cheiro de temperos e alho sobrevoando o seu ambiente. Ela foi até a cozinha com a vassoura à sua frente. Segurava o cabo com tanta força que os nós dos dedos começavam a ficar brancos.
Apesar do cheiro, não havia nada sob o fogão. Ela franziu o cenho e retornou à sala, depois partiu para o quarto, que estava escuro e igual havia deixado pela manhã. O banheiro não havia nada também.
Helena deixou a vassoura no banheiro. Céus! Como estava sendo ridícula.
Ela seguiu pelo corredor enquanto ria sozinha. No entanto, quando jogou seu corpo no sofá, se deu conta. Onde estava Lorenzo? Um desespero lhe subiu pela espinha no mesmo instante que seus olhos marejaram.
Seu irmão havia deixado o cachorro por pouco mais de um dia, e já o tinha perdido? Não podia ser possível. Ela balançava a cabeça em negativa quando percebeu.
Por causa do escuro, a claridade dos postes de luz refletiam dentro da sala. E na varanda, Uma sombra alta e longa se mexia. Ela apertou os olhos tentando ver melhor. O que era aquilo no chão? Pelos?
Se fosse um homem, a vassoura não bastaria. Helena foi até a cozinha e abriu a gaveta de talheres, pegando uma faca qualquer.
Andando devagar e na ponta dos pés, Helena sentia a adrenalina subindo por suas entranhas, preenchendo o ar a sua volta. Ela estendeu a mão para a cortina. Seu peito subia e descia rápido. O coração prestes a sair pela boca e cair esparramado no chão.
1, 2, 3...
Quando abriu a cortina soltou o maior berro da sua vida. Max quase caiu da postura de ponta cabeça e Lorenzo chegou a pular de sua cama improvisada num lençol no chão.
- O que... o que você está fazendo aqui?! Plantando bananeira na minha varanda?!
Max se desequilibrou, e quando ia cair, conseguiu sustentar um dos pés no chão e colocar-se em pé.
- Meu Deus Helena, você me assustou. Pensei que alguém tivesse sido atropelado na rua! – A mão direita dele foi até o coração enquanto eles quase ficavam surdos com o barulho de buzinas e carros que perpassavam pela avenida Epitácio Pessoa – É uma posição de Yoga. Eu pratico quando estou nervoso. - Ele tentou explicar.
– Eu pensei que meu apartamento tivesse sido invadido! – Helena praticamente gritou. Lorenzo foi até ela, o rabo balançava enquanto ele lambia a sua canela. – Você deixou a porta aberta! Não se faz isso no Rio de Janeiro.
Helena e Max se encararam. Ele apertou os lábios. Ela ergueu as sobrancelhas.
Max colocou as mãos dele sob os próprios joelhos e, para sua surpresa, começou a rir. Helena ainda estava parando na frente da varanda com a faca apontada para cima. Então Max gargalhou ainda mais.
– Plantando bananeira... - Murmurou antes de recomeçar a rir. Então foi a vez de Helena perceber o quão cômico era aquele momento. A gargalhada dela saiu abafada pela própria mão. – Você iria me furar como com uma faca de manteiga, gatinha?
Ela olhou a faca que segurava, deixando-a cair na chaise da varanda. Estava tão nervosa que nem percebeu que tinha pego uma faca sem serra. Não seria nem um pouco útil se seu apartamento tivesse de fato sido invadido. Max ria tanto que lágrimas lhe escapavam.
– Caramba Helena, eu sei que você não quer nada comigo. Mas precisamos ser amigos! Os dois já estavam sentados no sofá da sala enquanto ainda tentavam conter o riso. – Eu nunca ri tanto em poucos dias.
– Ah, está me chamando de palhaça... – Ela disse alisando os pelos da cabeça de Lorenzo. Max lhe dirigiu um olhar e Helena sorriu – Eu entendi o que quer dizer.Mas.... amigos, podemos ser.
Ele passou o braço pelos ombros dela e a apertou contra seu peitoral nu quando foi beijar o alto da sua cabeça.
- Só acho que não devíamos nos tocar tanto.
- Eu acho que devíamos nos tocar bastante.
Helena abriu a boca e a fechou novamente. Max não estava com uma expressão libidinosa.
– Como assim?
– Gatinha, ninguém nunca vai acreditar que estamos noivos se não tivermos contato íntimo, não acha?
– Hum... ah, sim.
– Está decepcionada? Se quiser, ainda podemos ter uma amizade colorida.
– Já tivemos nossa noite, Max.
– Então por que você está assim? Ela olhou para si mesma. A calça jeans e a blusa de manga vermelha. – Seu rosto, você está corada. – Ele gesticulou na frente da própria face.
- Deve ser por que acabei de tomar um susto, né?
- Acho que não, gatinha.
Ele a apertou ainda mais. Ao tentar se esquivar, se encontrou presa em seus braços. Max chegou perto. O calor dele praticamente a abraçava. A mão dele foi até o queixo dela, levantando-o. Quando os olhares se tocaram, Helena mordeu o lábio inferior. Max praticamente rugiu.
- Não acho que isso seja algo que amigos façam, Max.
- Amigos fazem muita coisa, gatinha.
- Claramente, temos conceitos muito diferentes de amizade.
Como se não se importasse com o comentário dela, ele abaixou a cabeça, até que encostasse o nariz no pescoço feminino. O corpo de Helena estava quente. E ela sentia a própria calcinha umedecer.
Ela fechou os olhos, e instintivamente, deixou pender a cabeça. Max inalou fundo o perfume de sua pele.
- Sinto sua excitação, Helena.
Seu timbre estava rouco. Ela começava a sentir dificuldades para respirar. Então, colocou as duas mãos no peitoral nu dele. O que seria um ato de defesa, terminou como um ato libertino.
Os músculos duros e definidos estavam abaixo dos dedos dela. As mãos femininas foram descendo até a barriga dele. Max soltou um murmúrio fraco.
O peito dele subia e descia repetidas vezes. De repente, ele se separou dela. Helena tentou se recompor rapidamente, abstraindo aquele sentimento de perda devido a ausência do calor do hálito dele em sua pele.
- Você está me enlouquecendo.
- Eu não estou fazendo nada, Max.
- Ah, está sim, gatinha... cuidado. Se continuar, não serei capaz de parar.
- Você parece estar muita tensão sexual reprimida. Por que você não se satisfaz?
– Pensa que eu não tentei? Hãm? - Ele apontou para própria cabeça. – Você está plantada na minha mente, Helena. Não consigo olhar para ninguém sem pensar que estou a traindo. É idiota, não é? Nosso casamento é de mentira, eu sei. Mas tudo o que eu quero, é te pegar contra parede e me afundar dentro de você. – As mãos dela se fecharam ao lado do corpo. Aquilo estava passando dos limites – Eu posso sentir sua excitação, imaginar a sua buceta avermelhada e molhada...
– Pelo amor de Deus, pare.
– Você diz que não quer, mas seu corpo me diz outra coisa.
– Sexo não faz parte do nosso acordo, Max. Isso só vai tornar as coisas mais difíceis para nós dois.
– Não Helena, isso é que está difícil! Ter que ir dormir ao seu lado duro, sem pode comer você. – Max meneou a cabeça repetida vezes. Então, decidido, virou para ela. – Está certo...seremos somente amigos.
Ele por acaso era bipolar? Helena o encarou, absorvendo as palavras. Sua cabeça pendeu, assentindo. Se devia estar aliviada, por que então sentia uma pontada de tristeza?
Helena se levantou e foi para o banheiro, que era um refúgio. Ela respirou por uns segundos encostada na porta. Quando seu coração parou de acelerar, retirou suas roupas.
Enquanto a água descia por seu corpo, Helena fechou os olhos e sentiu a temperatura alta queimar sua pele. Suas mãos passaram pelos cabelos negros, torcendo-o para retirar o excesso de água.
Suas emoções pareciam uma montanha russa. Era incrível como estar perto de Max a fazia sentir excitada, enraivecida e estressada. Tudo ao mesmo tempo. Bem, talvez ela é quem fosse bipolar.
Um clique da porta a sobressaltou e a porta foi escancarada. No mesmo instante os braços buscaram esconder as partes íntimas.
– Até o banheiro você invade agora?!
– Não tem nada aí que eu já não tenha visto, gatinha. – Max sorriu quando se enfiou dentro do box e pegou uma espuma de barbear.
– Ah é? Tirou as mãos que escondiam seu corpo. Os olhos de Max perpassaram por si, o verde costumeiro, tornou-se mais sombrio. Ela sentia sua pele queimar em cada centímetro que o olhar dele tocava.
– Está tentando me testar, gatinha? Não vai colar, como você disse, amigos não fazem isso. - Ele piscou e saiu do banheiro antes de deixá-la encabulada – Vem logo, seu jantar vai esfriar. – Gritou quando estava longe.
Depois de vestida, ela foi guiada até a cozinha pelo cheiro maravilhoso de Frango. Max vestia um avental por baixo do peito nu. Ela olhou por cima do ombro dele para ver a comida.
– O que você está fazendo? – Ela precisou ficar na ponta dos dedos dos pés para conseguir ver que Max colocava um líquido sobre o frango.
– Frango ao molho madeira – Ele olhou por cima do ombro e sorriu para Helena. As covinhas apareceram novamente. No mesmo instante, o semblante dela enrugou-se.
- Você poderia se vestir, sabia? Aqui em casa não pratico nudismo. Enquanto o sorriso dele alargou-se ainda mais, as sobrancelhas dela se retraíram – E se eu também estivesse sem a minha blusa?
- Seria justo, não? Direitos iguais.
A boca dela quase caiu no chão. Preferindo não comentar, ela foi para sala e se sentou no sofá. Depois de alguns minutos ainda conseguia ouvir o riso de Max.
-Vem cá me ajudar, gatinha.
- Sabe que sou péssima dona de casa, Max.
Ela se encaminhou até a cozinha e segurou o refratário que abarcaria o jantar deles. Max tirou do forno o frango, e com cuidado, o passou para o refratário que ela segurava.
Por isso antes não vira nada, a comida estava escondida dentro do forno. A passos cautelosos, Helena levou o refratário para a mesa de jantar. Quando ela percebeu o que acompanharia o delicioso frango, perguntou:
- Que acompanhamento é esse?
- Quinoa, gatinha. – O modo como suas sobrancelhas arquearam mostravam exatamente a sua perplexidade. Mas em vez de explicar o que era aquele alimento.
- O que é isso? Não parece muito gostoso.
- Não é, mas depois você se acostuma. É bem nutritivo, e eu fiz especialmente para te deixar em forma.
Os dois pegaram os pratos e os talheres e se dispuseram a comer.
- Engraçado, naquela noite você não pareceu se importar com o meu físico.
Max precisou se levantar as pressas para pegar um copo de água. Dessa vez foi Helena quem riu e, alto.
- Como aprendeu a cozinhar? – Helena perguntou entre uma colherada e outra, depois que ele voltou a se sentar. – Isso daqui até que é bom.
- Não tive uma infância muito fácil. Quando meu pai faleceu, minha mãe entrou em uma depressão profunda... Então eu, como mais velho, fazia as refeições.
- Sinto muito.
– Não, tudo bem. Meu passado fez de mim quem sou hoje. Mas, e você? Não sabe cozinhar nada?
– Frito um ovo de vez em quando... e faço miojos deliciosos acompanhados de batata palha. – Helena deu uma risada sem graça e depois suspirou. – Eu e o Leandro sempre fomos muito mimados, acho que não nos aventuramos tanto fora da nossa caixinha.
– Você não parece tão mimada, agora.
– Tive um choque de realidade... é uma longa história.
– Tem a ver com o tal do seu ex?
O corpo dela se remexeu na cadeira. É, ele era muito insistente.
- Sim e não – Disse rápido demais – Mas...hum... acho que seria tudo bem se fosse só ele. Porque ok, não é novidade para ninguém que em alguns relacionamentos há infidelidade. O problema é quando pessoas da sua família traem a sua confiança.
- Gatinha, se não está pronta para falar, não fique instigando minha curiosidade. – Max fez um beicinho. Ela baixou a cabeça e continuou a comer.
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