Desconfiança à vista
A cabeça latejava, e não era pouco. Fez força para abrir os olhos, mas pareciam colados. Ela levou a mão a cabeça, numa tentativa inútil de fazer a dor parar.
Essa era a hora do arrependimento pelo dia anterior.
Tateou em volta, e lembrou que havia dormido no sofá, então seu celular estaria no chão. Abaixou o braço, tateando o piso e encontrou pelos. Lorenzo. Tateou mais um pouco e encontrou o aparelho que quase escorregou de sua mão.
O visor apareceu. Em um ato repentino, se sentou no sofá, logo se arrependendo em seguida. Até que sua mente voltasse, seu mundo ficou literalmente branco. Depois que a vertigem passou ela apertou os olhos, o preparando para luz do visor do celular.
Quase hora do almoço. Os olhos femininos se arregalaram.
O que pensava que estava fazendo? Era uma mulher com deveres. Bebedeiras com direito a ressaca deveriam estar no passado.
Max havia ligado duas vezes. Já a amiga, tinha enviado quase uma centena de mensagens. Abriu a caixa de conversa com Max.
- Gatinha, difícil acreditar que desligou a chamada e não deixou explicar que a mulher que você viu é namorada do meu irmão.
Alívio e vergonha brigaram dentro dela. Mas pera, se lembrou:
- Você chama a mulher do seu irmão de linda?
Enviou, e se arrependeu. Ultimamente se arrependia muito de seus atos. Seu nome parecia ser impulsividade em vez de Helena. O modo como falava com Max transpassava toda autoridade que não tinha.
Ia enviar uma mensagem com desculpas, dizendo que sentia muito, estava embaralhando as coisas. Era o certo a se fazer, mas Max foi mais rápido:
- Sim. Linda é o nome dela. Linda Vanroldin.
Agora sim o rosto queimou de vergonha. O sentimento tão amargo que fez a puta dor de cabeça parecer fichinha. Com certeza essa era a hora de se desculpar. No entanto, Max parecia digitar sem parar:
- Sentindo ciúmes do seu marido? Não esquenta, sou todo seu.
Ela sorriu, desistindo da mensagem. Ainda assim, Max fazia tudo parecer simples. Navegou pelas outras mensagens do celular. Abriu a conversa que Gabi tinha iniciado, perguntado onde ela estava.
- Eu não morri, Gabi. Só tive uma noite ruim. Estou a caminho do escritório.
Nem estava saindo de casa, mas sabia que do jeito que amiga era, se não a tranquilizasse ela a enlouqueceria.
- Até que enfim! Estava quase acionando a polícia.
Ela revirou os olhos e fez um esforço com os braços para se arrumar no estofado. Seu corpo todo parecia mole e fraco demais para carregar a cabeça que pesava e latejava. Foi se arrastando para o quarto e depois para o banheiro.
Segurou a respiração e enfiou o corpo quente embaixo de um jato frio de água. Todo o corpo se arrepiou. Ela esfregou os braços na tentativa inútil de diminuir o frio. Saiu do banho o mais rápido que conseguiu. Bebeu a primeira aspirina que encontrou na caixa de remédios na estante do banheiro. Agora sim estava um pouco melhor.
Já no escritório, sua primeira aparição pela porta de entrada alertou a todos. Gregory segurou um riso. Gabi fincou os olhos arregalados nela. Cláudia a olhou com pena.
- O que houve?! – Helena exigiu saber enquanto olhava atordoada para os seus colegas. Gregory liberou o riso preso, e soltou uma gargalhada tão alta que a sobressaltou. A voz quase corroendo os tímpanos ressacados dela.
- Voltou dos mortos, doutora Helena? – Gregory brincou. – Vai assustar nossos clientes.
Helena olhou para si mesma, e checou sua roupa. Impecável. Fez uma careta para Greg e revirou os olhos.
- Hel, você está bem? – Gabi chegou mais perto e segurou o rosto da amiga.
- Bem que a doutora Gabriela disse que marte estava retrógrado hoje... – Murmurou Cláudia balançando a cabeça.
- Claro, Claudia! Culpa dos astros! – Greg gargalhou novamente. Marte com certeza era um problema muito menor do que a cabeça dela que parecia pesar como uma melancia.
Helena torceu o nariz. Não estava com paciência para aquela confusão toda. Se desvencilhou das mãos da amiga e foi para sua sala. Gabi a seguiu.
- Hel, só me dê um minutinho. – Gabi murmurou. Depois de alguns segundos a amiga voltou trazendo uma bolsa consigo, e remexendo o interior do tecido.
- O que está procurando? – Indagou Helena com os dedos segurando as próprias têmporas.
- Hum... Só um instante...Ah! Achei. Era minha bolsa de maquiagem. Precisamos disfarçar essa sua cara de morte.
Helena deu uma risada sarcástica. Pegou o próprio celular e abriu a câmera frontal. Quando viu as pálpebras caídas e o tamanho das olheiras, soltou um gemido esganiçado, sentando-se desolada na sua cadeira.
- Rápido, Gabi. Meu deus. – Ela segurou as bolsas de pele abaixo dos olhos.
- Deve ter bebido a noite inteira, não é? Tsc...Tsc...
- Só extravasei um pouco.
- Está se extravasando, isso sim!
- E você é quem? Fiscal da vida alheia? – Helena devolveu com raiva. A amiga parou por um momento e a fuzilou com os olhos.
- Helena, você tem noção do quanto está sendo infantil? Admita para si que está apaixonada pelo seu marido de mentira e faça logo o que quer com ele! Se não fizer isso vai destruir a si mesma.
- Não! Pelo contrário! Se eu sucumbir a estes... – Procurou alguma palavra. Talvez... desejos? Ela não exacerbou. – Aí sim estarei sendo infantil.
- Você é uma escorpiana mesmo, minha nossa! Mas que cabeça dura! – A amiga espalhava o corretivo nas olheiras dando batidinhas com as pontas dos dedos. – Mas não se deixe abater.
- Não estou me abatendo.
Gabi parou por um segundo e a encarou. Logo depois voltou com a base, e espalhou no rosto dela com as mãos.
- Tenho uma notícia boa e uma ruim. Qual quer ouvir primeiro? – A amiga indagou enquanto a maquiava.
- A boa.
- Leandro conseguiu convencer os sócios a venderem algumas ações para a Fernoni&Tugaz. A ruim é que...bem, não sei ao certo. Mas percebi algumas movimentações estranhas quanto a algumas ações da Velax.
- Como assim percebeu? Você disse que não tinha experiência alguma com a bolsa de valores, lavagem de dinheiros...
- Mas eu aprendo rápido. – Gabriela a cortou, convencida. Helena a olhou com desconfiança. – Mas não é só isso, acho que precisamos de ajuda. Preciso de alguém que estenda de registros contábeis, não de computador e investimentos.
Aquela última frase soou um tanto estranha, dava vazão a muitos entendimentos. Elas se encararam novamente. Helena negou efusivamente com a cabeça, sabendo onde a amiga queria chegar.
- Não, nem pensar. Não vou pedir ajuda a Ryan. - . Os olhos da amiga fugiram dos dela. Gabi se virou e pegou outro pincel. Ela tentou olhar nos olhos de Gabi. A amiga foi evasiva novamente. – Gabriela, o que foi que você fez?
- Eu não. Ryan marcou uma reunião no primeiro horário da tarde...
- Desmarque. – Era uma ordem.
- Não tinha como dizer não... – A amiga tomou a liberdade e viu as horas no telefone de Helena. – E agora ele já deve estar a caminho.
- Tudo bem então, você fala com ele.
- Ele só marcou com a condição que fosse apenas com você.
- Que droga, Gabriela! Ele não tem o direito de fazer isso.
- Eu sei... Mas ele disse que tem informações valiosas para você.
- Sobre o quê?
- Sobre Max.
Helena arqueou uma sobrancelha. E ponderou por algum tempo.
-Não sei se podemos confiar nele. – Ela cruzou os braços. – E de qualquer maneira, não quero recebê-lo sozinho.
- Ok – A amiga deu o acabamento na maquiagem com um contorno nas maças da bochecha. – Podemos resolver isso.
Ela se olhou novamente na câmera frontal do celular e aprovou. Já não parecia mais uma morta viva.
Helena mergulhou no trabalho para não pensar no fato de que Ryan estava a caminho. Mas suas pernas que tremiam como duas britadeiras a denunciavam. Em reposta ao seu tormento, não demorou muito. Claudia bateu na porta dela e anunciou que ele chegara. Gabi e Ryan entraram juntos na sala e se sentaram em um sofá de couro na parte leste do cômodo.
- Boa tarde, Ryan. – Tentou ser neutra, mas a sua voz era cortante. Como se visse o esforço dela, ele sorriu resplandecente.
- Helena. – Ele assentiu com a cabeça, estudando-a como um animal à espreita.
Gabriela soltou um pigarro. Helena sabia o quanto a amiga estava desconfortável por participar daquela reunião, mas não iria ficar sozinha com aquele traste.
- O que quer, Ryan? Seja rápido.
Ryan pareceu analisá-la um pouco, acenando novamente com a cabeça.
- Como eu disse na festa do seu...noivo. – Ele pareceu ter dificuldade para começar. Internamente, ela gostou. – Precisamos conversar.
- Estamos conversando.
Ryan olhou de esguelha para Gabi ao lado dele.
- Tudo bem. Olha, eu vou sair...
- Você fica. – Helena ralhou.
- Por favor, Gabi. É uma conversa particular. – A voz Ryan era mansa ao argumentar. Helena revirou os olhos, aquele charme persuasivo dele não era mais eficaz com ela.
Gabriela se levantou e olhou para a amiga com os olhos alarmados, como quem pede desculpas. Helena bufou ao ver a amiga indo embora.
- Se tentar alguma gracinha...
- Helena, não estou tentando nada. – Ele se levantou do sofá e foi até a aporta, fechando-a. Ryan voltou para onde esteve sentado e abriu a pasta que trouxe consigo. Helena franziu o cenho, estatelada na sua cadeira atrás da mesa de trabalho. Ryan foi até ela e colocou um maço de papéis à sua frente.
- O que é isso? – Ela evitou colocar as mãos.
- São registros.
- De quê? – Ela tateou os papéis com cuidado. Franziu o cenho ainda mais quando percebeu a quantidade de números que estava na sua frente.
- De diversas coisas. Movimentações bancárias, ações, contabilidade.
- Gabriela pediu isso a você? – Era uma coincidência suspeita que o Ryan aparecesse exatamente com o que Gabriela estava precisando.
- Não. Por que? – Ele pareceu estranhar a pergunta dela.
- Por nada. - Ela parou de olhar os documentos que não entendia e o encarou. Os olhos azuis nebulosos a encararam de volta.- Aonde você quer chegar, Ryan?
Ryan colocou as mãos nos bolsos da calça e olhou em volta da sala dela.
- Max.
- O que tem ele? Por que você não fala logo de uma vez...
- Helena. – Ele chegou um pouco mais perto. – A empresa desse cara está lavando dinheiro.
Helena tentou parecer surpresa. No entanto, a única coisa que a causava espanto era não saber como ele havia conseguido aqueles documentos. Ela cruzou os braços em cima do peito e arqueou uma sobrancelha.
- Hum... Supondo que isso esteja acontecendo. Onde conseguiu esses documentos?
- Tenho meus contatos. – Ryan respondeu. Ela repuxou a boca em discordância. Mas tentou novamente, e com outra pergunta.
- Por que está me entregando isso?
Pelo que lembrava dele, no mínimo, era para colocar uma grande desconfiança no "relacionamento" deles. Ele deu uma risada nervosa e suspirou apertando os próprios olhos.
- Eu sei que você deve estar pensando que quero atrapalhar, não é isso. Quero que seja feliz...
- Então por que está fazendo isso?
- Não quero que caia em outra furada, Helena...
- E faz isso stalkeando o que cara com quem eu tenho um relacionamento? Nossa, Ryan!
- Não! Não, Helena! Não estou te perseguindo. Eu os investiguei porque Leandro estava pensando em fazer negócios com a Velax Group. E eu não acho uma boa ideia, pelo pouco que percebi, é lavagem de dinheiro. E isso significa que essa gente não é boa.
Helena ficou se balançando na cadeira, sem saber o que fazer com as pernas. A cabeça explodindo com milhares de informações e desconfianças. Se ele queria plantar discórdia, definitivamente tinha conseguido. Ryan não a deixou pensar por muito tempo, porque logo continuou:
- Estou aqui porque quero te compensar.
Ela o encarou, tentando entender as intenções dele. Mas Ryan não permitiu, girou nos calcanhares e saiu de sua sala a passos acelerados.
Helena franziu o cenho e deu de ombros.
Depois, passou muito tempo olhando para o anel de noivado na mão dela. Aquele brilhante que refletia parte de seu rosto já não parecia mais tão lindo. Gabi entrou na sala dela tão logo Ryan saiu. Helena relatou tudo o que havia acontecido.
- Credo, parece até que ele sabia que precisávamos de ajuda... – Gabi murmurou pensativa. – Ele só confirmou o que desconfiávamos.
- Não sei se podemos confiar nele, Gabi.
- Não tem como analisar agora. Mas se pudesse chutar diria que com certeza esses documentos são legítimos. - A amiga olhava cada folha do maço que Ryan havia trago.
- Eu não entendi nenhum desses cálculos. – Helena gesticulou, desinteressada. Gabi devolveu um olhar sério.
- Realmente parece lavagem de dinheiro – A amiga disse enquanto juntava as provas – É muito preocupante.
- Por que?
- Porque não sabemos se Max está envolvido.
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