Ciúmes e Verdades
A primeira coisa que fez ao abrir os olhos foi buscar seu celular. A cabeça latejava ainda mais que o dia anterior. Ela se debateu em meio aos corpos que a imprensavam. Gabriela e Leandro faziam um sanduíche dela.
Helena gemeu. Leandro gemeu em irritação de volta. Gabi parecia um peso morto, embolada pelo próprio cabelo.
Então percebeu o quanto estava suando, seu cabelo colando em suas costas e nuca. Empurrou a amiga um pouco e desistiu quando viu Lorenzo deitado aos pés dela.
Uma cama king size ficou pequena para quatro, parecendo um caixão na numeração errada. Helena inspirou fundo em busca de ar, mas até ele estava raro ali.
Empurrou Leandro, e claro, ele a empurrou de volta, ainda mais para o meio deles. Estava perdendo a paciência. Empurrou Leandro mais uma vez e com mais força. Quando ele fez menção em voltar para o lugar onde estava, ela reuniu toda força que podia e se sentou, se dando conta de como o corpo estava pesado. Toda força que fizera antes pareceu ter se esvaído quando a cabeça parecia pesar mais que o mundo.
Esfregou as têmporas, gemendo. Voltou a missão da procura do celular protegendo os olhos da claridade que teimava em fugir da cortina blackout.
- Achei! – Piscou os olhos quando o visor do celular acendeu. Procurou por qualquer notificação dele. Nenhuma. Certo. Ele precisava aproveitar a viagem dele. Afinal, estava em Los Angeles, quem em sã consciência não aproveitaria? Talvez estivesse com mulheres em sua cama naquele exato momento... Claro! Um homem como ele, com aqueles olhos, aquele corpo, aquela grana... Qual seria o problema? – Nenhum. – respondeu em voz alta com determinação.
Não tinham nada mesmo. Só um acordo idiota e mentiroso, como os dois. Então porque seu coração se retraia só de pensar que ele poderia estar com outra?
-Fica quieta, Helena. Estou tentando dormir, não está vendo? - Leandro reclamou enquanto se ajeitava na cama. Ela ignorou completamente o irmão enquanto virava uma detetive na internet.
Já estava nas redes sociais dele. Instagram. Facebook. Para terminar, encarou a foto do perfil dele do WhatsApp. Nada, só aquela carinha linda.
Devia estar ficando louca. Definitivamente, louca. Colocou o celular na cômoda depois que se levantou da cama.
- Que bom que já terminou - Helena virou o pescoço tão rápido que o sentiu estralar. Leandro estava de lado, sustentado pelo próprio braço. – Anda, Helena. Me ajuda aqui. Tô atolado!
- Eu tive que sair sozinha, por que tenho que te ajudar? – Helena não arredou o pé. Leandro franziu o cenho.
- Olha o meu tamanho, Helena. – Ele indicou o próprio corpo magrelo e alto. Gabi se remexeu e abriu os olhos com dificuldade.
- Nossa, acho que ainda estou meio bêbada, viu? – Gabriela sussurrou meio grogue.
- Outra imensa que vai precisar de ajuda. – O irmão concluiu. Helena riu e foi até ele. – Muito cômica essa situação. - Leandro revirou os olhos. Assim que seus pés magros tocaram o chão frio ele chiou, levando as mãos na cabeça. – Meu deus, deve ter um cimento no lugar da minha cabeça.
- Eu e Lorenzo vamos continuar aqui deitadinhos enquanto o Lê faz o café. – Gabi sussurrou novamente.
Leandro enviou um olhar ameaçador para Gabi, que rindo, se remexeu com alguma dificuldade e fechou os olhos novamente. Ainda bem que o irmão dela estava ali. A verdade é que estava cansada de comer fora, e quando em casa, comer congelados.
Desde que Max fora embora ela remexera na geladeira diversas vezes atrás de sobras deliciosas, mas algum momento, tudo que sobrara tinha que acabar. E esse momento já tinha passado desde o primeiro dia, quando decidiu descontar sua ansiedade na comida.
- Vou fazer um café. – Leandro murmurou depois que saiu do banheiro, revestido pelo roupão de Max. Não adiantaria dizer que não podia, o irmão sempre usava tudo que coubesse em seu corpo e lhe agradasse, mesmo que não fosse seu. – E você vai me ajudar, Hel. Nem pense que vai ficar sentada feito um paxá esperando mensagens do seu boy.
- Não estou esperando mensagens dele. – Ela argumentou enquanto o seguia pelo corredor.
- E eu não sou homossexual. – Ele foi cínico. Já na cozinha, Leandro abria todas as gavetas e armários.
- O que está procurando?
- Aspirinas, Helena. Não rola começar o dia nesse estado sem pelo menos duas delas.
- Não estão aqui. Vou pegá-las para você. – Helena sibilou enquanto girava nos calcanhares. Mas assim que pôs os pés no corredor, Gabi ia saindo do quarto. Os cachos rebeldes todos amassados em um lado só da cabeça. – Achei que fosse ficar dormindo...
- Impossível dormir com Carlos me ligando.
Helena fechou a cara.
- O que ele quer? Ele não desconfia de que sabemos, não é?
- Não, não. Com certeza não. Na mensagem dele dizia que só queria me ver enquanto Max não chega.
A amiga, que ainda estava na porta do quarto a esperou pescar a aspirina na cômoda para que saíssem juntas do cômodo.
- Mas Max não chega nem tão cedo. – Ela deu de ombros, fingindo indiferença. Quatro dias em Los Angeles, e somente dois tinham se passado. Assim, Max chegaria somente dali a dois dias.
Gabi olhou para ela e franziu o cenho.
- Tem certeza? Na mensagem dele dizia que Max chegava hoje. - Helena parou de repente. A amiga, que já andava com dificuldade, lhe trombou.
- Tem certeza? – Ela devolveu a pergunta da amiga.
- Ahn...acho que sim. – Gabi pegou o celular entre as mãos frágeis e apertou os olhos para ler a mensagem novamente. Helena tentou ver por cima do ombro, mas a amiga, ainda que sem equilíbrio, não permitiu, tirando o celular da vista dela. – Sim, definitivamente aqui diz que ele chega hoje à noite.
Helena continuou a andar, a amiga e Lorenzo ao seu encalço. No automático, ela repassou as aspirinas para o irmão, que estava recostado no mármore da pia esperando a chaleira elétrica ferver.
- Quem hoje em dia não tem cafeteira?! Brincadeira...– Leandro balançavam a cabeça desacreditado.
- Eu não tenho uma também. – Gabi disse entornando um copo cheio de água pela goela. – O café fica muito mais saboroso feito no coador.
- Por que ele não me disse? – Helena cortou a amiga, pensando alto. Os dois olharam para ela. Leandro franziu o nariz para a irmã. Gabi suspirou, entendendo a indagação.
- Quem?! – Leandro perguntou alheio a indagação.
- Talvez ele queira te fazer surpresa... – Gabi murmurou uma boa alternativa.
- Ah, o boy de Helena. – O irmão concluiu.
- Talvez ele tivesse mentido para mim, isso sim. E se ele disse que vem outro dia só para ter tempo de fazer outra coisa por minhas costas quando chegar no Brasil?
O copo que a amiga ia levando até a boca parou no meio do caminho. Leandro soltou uma gargalhada enfadonha.
- Helena... – Gabi ia murmurando.
- Nossa, minha irmã está muito ferrada... ou talvez Max, né? Eu não iria querer lidar com um ciúme desse.
- Não estou sendo ciumenta, gente. Só quis dizer isso pelo fato de que se as coisas acontecer do modo como estou pensando, ele pode ser sincero comigo.
- Acho que subestimei a sua imaginação, mana. – Ele murmurou enquanto coava o café. O cheiro da bebida quente sobressaiu no ar, abraçando a manhã deles.
- Por que tudo que digo sobre Max vocês me fazem parecer uma mulher louca?
- Não está louca, Hel. Só está apaixonada. E a paixão faz com que as pessoas fiquem fora de si. – Gabi disse.
A resposta da amiga fez ela calar o próximo comentário. Leandro serviu uma xícara de café para cada um. Mas o modo como ele ficou calado só fez parecer que estava dando um tempo para que pudesse pensar antes de despejar suas opiniões sobre ela novamente. E ela estava certa.
- Já sabe o que tem que ser feito, mana. Chega para ele e fala o que sente. Simples.
Helena sabia que sentia algo. No entanto, o problema não era sentir, mas sim ter medo do que estava sentindo, pois ninguém consegue desfrutar de um sentimento com data para acabar.
- Eu achei que nunca diria isso. Mas acho que a contraproposta de Max é muito boa. - Gabi murmurou.
A amiga se referiu ao contrato de sexo. Leandro deu de ombros, não sabendo ou não querendo saber. Helena deu uma risada seca, duvidando do estado mental de seus amigos.
- Só tenta, Helena. – Leandro foi taxativo - Essa sua tensão sexual está te deixando um saco, e estamos com paciência zero. Toda minha atenção está na Lirol. E Gabi... Gabi tem toda atenção dela no Leslie Chaw.
- Parem de chamar ele por este nome! – Gabi se irritou depois de bebericar da xícara de café.
- Quer que chamemos ele de quê? Ladrão?!
- Leandro! – Helena o repreendeu. Com um baque no mármore, Gabriela deixou a xícara de café e se retirou da cozinha. Leandro terminou o próprio café e deu de ombros.
- Vocês estão muito chatas, Helena. As coisas são muito simples: se quer, vai buscar! Pare de tentar ficar pensando. Sentimentos são feitos para sentir, não racionalizar. Ok? – Ele colocou a xícara dele dentro da pia e foi andando para a porta de saída. – Para mim, já chega! Vou tomar um ar. Ninguém consegue curti a própria ressaca com toda essa chatice.
- Você está de pijama, Leandro! – Helena o olhava perplexa.
- Usar pijama é moda hoje em dia. – Ele gritou antes de fechar a porta atrás de si.
Helena foi atrás da amiga que estava na varanda, sentada na namoradeira e abraçando as as pernas. Ela sentou ao lado dela, e sem saber o que falar, se calou.
Às vezes, quando imersos em tristeza, não há palavra que afague um sentimento, mas há companhia que diminua a dor de se sentir só.
Ela abraçou a amiga, inspirando seu perfume de rosas. Gabi tinha os olhos ao longe, viajando na paisagem da lagoa Rodrigues de Freitas.
- Ele está certo, sabia? – Gabi se referiu a Leandro. - Por que então não fico chateada comigo ao invés de pensar que não quero parar de amar esse ladrão? – A amiga divagava. Lorenzo deitou ao pé delas em solidariedade.
A palavra amor ecoou na mente de Helena. Como Gabriela poderia saber se amava um homem que conhecera a pouco tempo? Aquele era o abismo que as separava. Amor fora algo longínquo que um dia se permitiu acreditar, e que a desmoronou quando acreditou no "amor" errado.
Porque há muitos tipos de amor. E a sociedade nos estimula a crer no amor romântico. Isso, naquele em que o homem da sua vida vem trotando em cima de um cavalo branco para te buscar e te levar para os felizes para sempre.
Se é mentira? depende.
O problema, é que o primeiro amor que devíamos ser estimulados a buscar é o amor por nós mesmos. Só conseguimos amar o outro, se nos amarmos. Você pode ter muito amor na sua vida. Mas aquele que sempre estará junto de ti é o amor próprio.
E por isso, exatamente por isso, seu relacionamento não dera certo com Ryan, porque havia colocado a carroça na frente dos bois. Colocara nele toda a sua expectativa de felicidade, esperava ávida o casamento a fim de encontrar seu final feliz. Mas tudo o que encontrara no final do arco íris fora um balde de água fria. Helena viu o reflexo de si mesma quando restou sozinha. E o que via era alguém vazio, sem amor.
Quando deu por si, a depressão já estava ao seu encalço, refletindo seu interior oco. O caminho para vencer a doença foi o caminho para redescobrir e resgatar o amor próprio. Aquele amor que a preencheu em sessões de cinema sozinha; em tardes na praia vendo o pôr sol; no apreço por seu trabalho ao final de um longo dia.
Mas a Gabriela não precisara de um baque para reconhecer a grandeza de si mesma. Pelo contrário, investia tanto em si, na busca do autoconhecimento, que a deixava enjoada. No entanto, era a razão para que possuísse uma sensibilidade fora do comum. Então, se dizia sentir amor, Helena acreditaria.
Há no mundo poucas pessoas com a clareza necessária para reconhecer um amor à primeira vista. E Gabriella com certeza era uma dessas pessoas.
- Não podemos escolher quem nós amamos, Gabi.
Ela mesma era a prova, seu cupido parecia tão embriagado quanto ela na noite anterior. Os homens com quem estivera na vida a deixara longe do relacionamento que buscava.
A vida ri da nossa cara, nos mostrando a todo momento que não se pode ter tudo.
- Acho que é por isso que temos que aproveitar o que temos no momento. – Gabi murmurou com a cabeça entre as pernas.
- Como assim?
- Não sei – ela deu de ombros. – Estamos correndo contra o tempo, Hel. Você tem um relacionamento com prazo determinado. Eu tenho um homem que em algum momento estará atrás das grades... então, por que não aproveitamos o tempo que temos com eles, agora?
Helena ponderou por um longo tempo. Uma enxurrada de pensamentos e sentimentos perpassou pela mente dela.
- Eu sei que não confia em Max. Mas o jeito como ele olha para você tem muito mais que paixão. – A amiga continuou e Helena soltou um riso de descrença. – Pode rir, Hel. Mas a verdade é que vocês dois estão alinhados: não querem relacionamento sério. A única coisa que a impede de continuar é o medo de amar. Mas se quer saber minha opinião... – na verdade ela não queria a opinião de ninguém. – O medo a está impedindo de ter mais prazer em sua vida.
E como estava! Só de imaginar todo os dias e noites que poderia ter passado nos braços de Max, seu estômago se encolhia. Ela assentiu, concordando.
- Então acho que seu conselho vale para si mesma também.
- Sim. – Dessa vez quem soltou uma risada e fez uma careta foi a amiga. – Mas quer saber? - Gabi sentou ereta e empertigou as costas – Leandro está certo. Chega dessa sofrência! Se eu quero aquele homem, vou buscar!
Os olhos de Helena se arregalaram um pouco pela coragem repentina de Gabriela. Ela assistiu a amiga sair determinada da varanda. Lorenzo olhou para ela, compartilhando o susto. Helena se pegou rindo da carinha de confusão de seu bichano, e o chamou para a namoradeira em que estava sentada com tapinhas ao seu lado.
Lorenzo subiu e se sentou ao lado dela. Ela o abraçou, rodeando seus braços pelos pelos macios dele. Ele lhe deu um lambeijo na bochecha e ela sorriu, apreciando a reciprocidade.
- Isso foi um pouco estranho..., mas acho que ela tem razão. – Ela sussurrou e Lorenzo pareceu a olhar de esguelha. – Não me olhe assim, sei bem que sente tanto a falta dele quanto eu! – o abraçou novamente, inalando o cheiro de tutti fruti dos pelos. – Pelo menos não tenho que correr atrás de Max. Ele é quem está vindo até mim.
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