Amizade e Saudade
Já em casa, Helena não sabia o que pensar acerca da informação que tinha descoberto. E isso a assustava mais do que ter uma resposta. Ela se deitou no sofá ainda com a roupa de festa e um copo de Wisky na mão. Deixou que os pensamentos viajassem nos teoremas a cada gole da bebida rascante.
Ela estava quase cochilando quando a campainha pareceu soar pelo menos três vezes. Helena se levantou do sofá a passos trôpegos. A pessoa agora dava murros em sua porta.
Tentou gritar, mas se calou rapidamente quando sentiu a cabeça quase explodir. Helena massageou os olhos, forçando-os a despertarem do rápido cochilo. A garganta seca a incomodou. Ela achou o copo de whisky que havia servido a pouco tempo. Tomando um gole esquecido do líquido abrasivo, foi até a porta.
- O que vocês estão fazendo aqui?! – Helena praticamente berrou quando viu Leandro e Gabriela na porta de seu apartamento.
- Assim que você recebe a sua família? – Leandro a encarou sob os óculos escuros. Helena colocou uma das mãos na cintura, ainda na frente da porta. Gabriela se remexia sob os próprios pés.
- Hel, deixa a gente entrar logo, estou apertada. – A amiga se segurou na alça na mala que tinha ao lado.
- Vocês vão viajar?
- Vamos... Estamos prestes a entrar nesse seu chiqueiro. – Leandro estava batendo o pé. Helena revirou os olhos, ignorando o irmão.
- Viemos ficar com você nesse momento, Hel.
- Mas, que momento?!
- Meio deprê. - Leandro disse e buscou o relógio no pulso. – Helena, estou perdendo a paciência. – Ele falou cada uma das palavras pausadamente.
Helena deu passagem aos dois. Gabriela correu porta a dentro e desapareceu no corredor. Leandro lutava para carregar a mala de rodinhas deles para dentro.
- Não estou em um momento deprê. – Helena murmurou. Leandro abaixou um pouco os óculos para olhar a cara de pau da irmã mais de perto. Logo depois, seu olhar baixou para o copo de Whisky na mão direita dela, como se a bebida respondesse tudo.
- Por que os óculos escuros? - Ela mudou de assunto, bebendo todo o liquido de uma só vez. - Já vai dar meia noite Leandro. - O irmão tirou os óculos do rosto. A boca de Helena se abriu quando se deparou com os olhos amendoados e inchados dele.
- Mas o que foi que...
- Não se preocupe, mana. Foram lágrimas de felicidade. Plena felicidade. – Disse enquanto cumprimentava Lorenzo, que trotava em volta dele. – Engraçado... finalmente eu e o pestinha estamos nos dando bem. – Ele afagou as orelhas felpudas do bichano. – Queria que o vô estivesse aqui para ver este momento... – o irmão soltou uma risada gutural.
- E qual a razão da sua felicidade? – Ela estava com as mãos sobre o peito. Como se a felicidade do irmão a atingisse negativamente. Gabi voltava pelo corredor levantando o fecho da calça jeans.
- Por causa da vida, mana. – Leandro abriu os braços. – La vien belle. – ele cantarolou.
- Aham, Leandro. – Helena estava descrente.
- Como você sabe, ele conseguiu a aprovação do conselho da Lirol. – Gabi acabou com toda expectativa do irmão dela. – Os acionistas adoraram a sua ideia, Hel.
Leandro deu uma risada fraca e se encaminhou para cozinha, ficando atrás da bancada. O modo como ele se escondeu atrás do granito a fez arquear uma de suas sobrancelhas.
- Mas...não foi bem a sua ideia, maninha... - A voz de Leandro estava melindrada. Ela apertou os olhos, buscando o olhar do irmão. – É, eu usei a sua ideia. Pronto, falei.
- Leandro... – era Gabi quem balançava a cabeça negativamente.
- Ah gente. Me dá um credito. Eu precisava mostrar trabalho pra aquela cambada. – Ele gesticulava.
- Com a ideia dos outros?! – Helena o interpelou.
- Os fins justificam os meios, não? - Ele deu mais uma risadinha.
- Não, nem um pouco, Lê... – era Gabi.
- Deixa Gabi...Eu seria hipócrita se não concordasse. Estou fazendo a mesma coisa, não é? – Helena se referia ao casamento de mentira que havia concordado para receber a herança. Ela deu uma risada de escárnio e se serviu mais uma vez do whisky.
- Exatamente por isso que estamos aqui. – A amiga tomou a liberdade de pegar o copo da mão dela e entorná-lo em seu lugar.
- Para mostrar como somos uma família de interesseiros? – Ironizou ela.
- Aí, essa doeu. – O irmão fez uma careta com a mão no peito. A amiga chacoalhou a cabeça para que bebida fizesse efeito mais rápido.
- Ei, vai com calma... – Helena estava ficando preocupada.
- Não, Helena. Me deixa tomar esse porre. – Gabi murmurou. Helena arregalou os olhos. – Melhor estar em um casamento de mentirinha do que estar dormindo com um criminoso.
Depois que Gabi comentou, Helena e Leandro se entreolharam.
- Carlos?! - Helena ligou os pontos na cabeça.
- Como você sabe? – Gabi indagou de volta.
- Mentira que você está apaixonada pelo Leslie Chaw latino. – Leandro interpelou Gabi com um comentário.
Helena segurou uma risada, que logo implodiu de si e preencheu o ambiente. A culpa da mentira guardada não era mais um peso tão grande com a bebida correndo em suas veias.
- Leslie Chaw do filme "se beber não case"? – Gabriela franziu o cenho tentando entender.
Chamar Carlos de Leslie Chaw era um apelido que Leandro tinha imposto anos atrás. De certo que Carlos não era chinês, mas sua herança latina de olhos puxados e os cabelos negros lisos causavam uma semelhança certeira.
Entretanto, não era só a aparência física. Na época que se conheceram, a cabeça de Carlos era guiada por quem dava mais dinheiro, e não importava quem estivesse em sua frente.
A única coisa que não combinava com o personagem era a personalidade. Leslie Chaw era um chinês meio maluco e interesseiro. Carlos era interesseiro, mas também, e principalmente, letal e perigoso.
- Exatamente, amiga. – Leandro concluiu. De repente Gabriela virou-se para Helena. Os olhos castanhos nublados.
- Você sabia? – A expressão divertida virou uma máscara de papel, dizendo muito por si. - Por que você não me disse que ele era um ladrão de colarinho branco?
Helena começou a falar e gaguejou.
- Eu... sei lá. Achei que ele tivesse mudado.
- As pessoas não mudam, mana. Só demoram algum tempo para se revelarem. – Leandro murmurou.
- Helena... – Gabriela estava visivelmente chateada.
- Desculpa, Gabi...
A verdade era que a amiga estava em um frenesi tão grande, num brilho que ela a muito tempo não via, que Helena não queria ser a pessoa a estragar a felicidade dela. E realmente havia pensado que Carlos pudesse ter mudado...ou tinha torcido para isso? Ela sentiu a cabeça embaralhada e o coração pesado.
- Me sirva novamente, Helena. – Gabi colocou o copo na mesa com um grande baque que a fez estremecer.
- Meninas, não se esqueçam de mim. – Leandro foi até elas com seu copo. Helena ergueu a garrafa de whisky já na metade e serviu os três. Eles levantaram os copos e brindaram. O tilintar alto do vidro ecoou pela sala junto com o latido de Lorenzo. – Como nos velhos tempos... à amizade.
Quando o relacionamento dela e Ryan acabou, aqueles dois foram a fortaleza dela. E mesmo em meio a depressão e crises de ansiedade, sua casa virou uma colônia de férias. Fizeram de tudo para trazê-la de volta a vida. Mas não trouxeram somente a vida dela, trouxeram o amor da amizade.
Eles eram tudo.
- A verdade. – Gabi foi categórica, fazendo pouco caso do motivo de Leandro. – Aos amigos Leais e verdadeiros.
Helena deu de ombros, não vendo motivo para brindar. Sozinha, Gabi ergueu de novo o copo e entornou todo o álcool junto com Leandro. Assim que ela ia beber, Leandro a interrompeu.
- Helena, brinda ao amor!
- Que amor, Leandro?!
- Se não sabe que você e Max são dois pombinhos apaixonados alguém tem que dizer... – Leandro murmurou e depois que fez uma careta, repuxando os lábios.
- Isso, Leandro! Precisamos da verdade. – Gabi confirmou. Helena bebeu seu líquido a contragosto.
Os três foram para varanda, sendo seguidos por Lorenzo. Não se incomodaram com as cadeiras, sentaram-se no chão. Leandro trouxe a garrafa de whisky e colocou no meio deles.
- Senti falta disso. – Leandro murmurou sentado no canto. O rosto virado para o céu estrelado.
- De nós? – Gabi perguntou, entornando mais uma. Leandro revirou os olhos rindo.
- Do álcool.
Gabriela riu. Um riso estrondoso. Helena a observou, sua estrutura frágil, os cachos caindo pelas costas da amiga. O rosto com um certo avermelhamento, devido a bebida. Os olhos antes ágeis, agora melancólicos. Com pouca bebida Gabi já parecia muito fora de si.
O arrependimento por não ter divido suas desconfianças em relação a Carlos voltando à tona.
- O que não falta na casa do vovô é bebida, Leandro. – Helena alegou dispensando os pensamento de culpa. O irmão a olhou sobressaltado. Como se percebesse que ela finalmente se referira a Marcelo como "vovô". Ele deu um sorriso diminuto.
- Eu não podia desenvolver minhas tendências alcoólatras por lá. – Ele deu de ombros. – Tanto cochicho...
- E desde quando você liga para o que os outros dizem? – Gabi o alfinetou.
- Desde que estou numa casa com uma adega gigante e com vários olhos cravados nos meus movimentos.
- Câmeras? – Gabi apertou um pouco os olhos.
- Não, menina! É gente mesmo. Aqueles empregados de Marcelo são como corujas, sempre olhando e fofocando de longe – Leandro se aprumou, ficando maios ereto. – Estou cansado daquelas pessoas, daquela casa, daquela presidência... ninguém aguenta ser persona non grata o tempo todo.
- O tempo está passando rápido, Le. – As palavras de Gabi tentaram soar apaziguadoras, mas embaralharam-se um pouco. – Logo terá a votação para presidência.
- Graças à Deux! – Ele brincou e ergueu o copo dele em um brinde com o invisível. – E agora, que terminamos de lavar as roupas sujas, temos um assunto muito importante... o casamento de Helena.
- Não começa, Leandro.
- O que foi, mana? Já está na chuva, só falta se molhar.
Gabi franziu o cenho mais uma vez. As chacoalhadas que dera várias vezes já surtindo mais efeito. Helena pensou em acelerar o processo do álcool para que não precisasse entender as palavras de Leandro também.
Entretanto, é claro que o irmão estava certo. O tempo estava passando e teria que se casar. Já tinha encontrado um noivo, o que mais pretendia?
Depois de uma eternidade, a expressão da amiga se clareou.
- Helena está com medo, Lê. Ela não quer que o casamento dela se torne de verdade.
- Gabriela, de onde você tirou isso? – Helena a inquiriu.
- Não, Hel. – A amiga se arrastava em cada palavra. – Admita que está apaixonada pelo Max... Fala sério, Helena! Se permita!
- Me permitir viver um casamento de mentirinha?!
- Helena... – A amiga começou novamente.
- Não, Gabriela. Eu não tenho que ouvir essas coisas! - Helena foi categórica. Gabi levantou as mãos tremulas em sinal de defesa. – Por que não falamos de você?
Os lábios da amiga se repuxaram.
- Talvez não precisássemos falar de mim se você tivesse sido uma boa amiga.
Leandro soltou um relincho de surpresa. A boca de Helena se abriu e fechou várias vezes.
- Meninas, não vamos deixar o álcool tomar conta. Além do mais, Helena sempre foi uma péssima conselheira amorosa, Gabi. Deveria ter falado comigo.
- Claro, Leandro. Você é um maravilhoso amigo. Tanto que concedeu um casamento arranjado para própria irmã. – Gabi o acusou também.
- E fui muito bem-sucedido, meu anjo. Helena está prestes a se casar com o amor da vida dela.
- Amor da minha vida?! Estou prestes a entrar num casamento de fachada para receber uma herança quase que desconhecida.
Falar isso em voz alta tornava tudo ainda mais estúpido. E para admitir, a parte menos pior de toda aquela loucura era ele. Max. O dono daqueles olhos verdes, ternos ora selvagens que a faziam desfalecer e entrar em desespero.
Ela recostou as costas e a cabeça dela na parede de texturas grossas da varanda, e fechou os olhos. Se permitiu tentar identificar o que sentia. Respirou fundo. Sua cabeça e seu coração em conflito. Sentiu um nó na garganta. O seu coração...bem, o coração se retorcia de saudade. Ela balançou a própria cabeça, querendo negar seus sentimentos.
Tudo o que havia passado antes com Ryan criara um rombo tão grande em seu peito que a simples menção de uma nova paixão fazia sua mente relutar, querendo blindar-se. Mas com Max era diferente, o homem parecia ajudar a reconstruir seu coração a cada beijo.
Além disso, algum dia iria se apaixonar, não é mesmo? Pois a vida é feita disso: Novas paixões, novos amores. Relutar contra os próprios desejos e sonhos é negar a vida e o viver. E já havia perdido tanto tempo tentando recuperar-se. Não sabia se Max era o amor da sua vida. Mas com certeza, era um novo amor.
Gabi deitou no chão da varanda, abraçada a Lorenzo. Leandro deitou na namoradeira encolhido, as pernas gigantes sobrando. Ela, continuou perdida em seus pensamentos. Perdida em Max.
Levantou-se, meio grogue. Se segurou na quina da sacada da varanda, olhando a rua e a lagoa Rodrigo de Freitas. O movimento ainda palpável, mesmo que com poucas buzinas. As folhagens dos coqueiros e amendoeiras balançando-se com a brisa noturna.
Gabi sonolenta e bêbada balbuciava algo com Lorenzo, que a olhava, parecendo entendê-la. Leandro já de boca aberta, roncando. Helena sorriu um pouco. Ainda se surpreendia com a capacidade dele de cair no sono em qualquer lugar, de qualquer maneira. Já ela, era a única consciente, pensando em mil e uma inutilidades e preocupações.
- Estaba gostando dele, sabia totó? Euaindaacho...eleéum homem b-bom.– Gabi sussurrou, acarinhando os pelos dele. Helena parou de observar o movimento das ruas e foi até a amiga, deitando ao lado de Lorenzo e virando para ela.
Ela deitou de lado e sustentou a cabeça com a mão. O cotovelo doendo um pouco por causa do chão gelado e duro. A amiga a olhou, o semblante um pouco entristecido. E ela, incapaz de falar algo, deixou o corpo cair de barriga para cima. Não seria capaz de olhar nos olhos da amiga agora. E pelo barulho suave que ouviu, a Gabi fez o mesmo. As duas encaravam a luz amarelada do centro da varanda.
- Me perdoe. – Helena sussurrou, buscando apoio nos pelos de Lorenzo que estava deitado entre elas.
A amiga, que desde o momento que começaram a beber, já havia cochilado várias vezes no chão, já estava um pouco mais lúcida.
Para alegria dela, pois os problemas que surgiam deviam ser resolvidos no mesmo dia. E odiaria pensar que teria que esperar um próximo amanhecer para resolver coisas do passado.
Ela ficou escutando a respiração alta de Gabi, que parecia imersa em seus próprios pensamentos.
- Eu-u perdoo você.
Helena se deitou de lado novamente, sustentando a cabeça com a mão. Gabi fez o mesmo.
- Como foi que descobriu? – Ela perguntou a amiga.
- Pelo relatório de Ryan, e também pela sua descoberta lá no Hotel. – Gabi se referiu a mensagem que Helena havia mandado mais cedo acerca da sua descoberta.
- Então...você não falou nada com Carlos ainda?
- Não. Cancelei nosso encontro com uma desculpa esfarrapada. - Helena deve ter reagido tão mal, que a amiga continuou. – Eu sei, fui uma covarde, não é? Mas não queria falar com ele, porque...talvez ele pudesse me dobrar.
- Difícil confiar em si mesmo quando apaixonado. - Helena riu baixo, a amiga a acompanhou.
- Mas não acho que seja o seu caso. Hel... Max parece ser um homem bom. Quer dizer, Carlos também... só que do jeito dele. Eu só acho que talvez você pudesse aproveitar mais o tempo que vocês dois têm juntos.
Helena escutou a amiga. Aquela voz doce que sempre a provocava razão, mesmo quando não queria. Mas ainda assim, haviam razões para que não confiasse em Max.
- Mas não sabemos se ele está envolvido ou não.
- Eu sei. Mas veja bem. Tive um caso com um criminoso, e quer saber a verdade? Me sinto idiota, mas não arrependida. Viver com arrependimento é como deixar de viver.
Nossa. E era exatamente tudo aquilo que ela sentia. O medo de sofrer era tão grande que queria se afastar de Max. Mas, e se o acordo dos dois terminasse e ela não conseguisse satisfazer a fome por aquele homem? Terá valido tanto a pena ter cumprido o acordo, mas não ter usufruído o tanto quanto poderia?
Leandro soltou um bufo tão alto após o ronco que acordou de supetão, sentando-se na namoradeira com o corpo magro tremelicante. Helena e Gabi riram.
- Ha.Ha.Ha. Vocês são tão engraçadinhas. – murmurou sonolento.
E ela finalmente se deu conta, Max entrara na sua vida junto com um acordo um tanto maluco, mas despertara muito mais que só a expectativa sobre a possível herança. Quanto tempo fazia que não passava um tempo com seus melhores amigos?
Com Ryan, se envolveu tanto no relacionamento que não percebeu quando deixou de estar perto daqueles que mais a amavam e apoiavam. Seus amigos. E quando o amor deles acabou, os amigos foram tudo o que a restaram, quando ela não havia feito nada para manter aquela amizade.
Com Max, era diferente. A cada oportunidade, ele integrava a vida dos dois. Ainda que fosse um reles acordo com prazo determinado, em nenhum momento havia se oposto à sua vida pessoal e profissional, pelo contrário. Ele parecia querer conhecer tudo dela. Ele a aceitava por inteiro.
Já ela... No início, se pudesse terminar com aquele acordo sem saber nada sobre a vida dele, melhor. Helena fechou os olhos. Sentindo o egoísmo impregna-la. Mas e agora, se tivesse a chance de esquecer Max, o faria?
Não.
Helena abriu os olhos. Se quisesse mudar as coisas, haveria um novo dia. E aproveitaria o novo horizonte que estava por vir.
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