Cartas na mesa

Chega o momento da sua vida em que você é uma simples carta do baralho e é colocado na mesa para ser escolhido. Depois... o mundo vira do avesso, completamente do avesso. Muda tudo. Aí você passa a ter o domínio do baralho e começa a descartar cartas da sua vida.

Rob Kenede Santos de Jesus

Spoleto 1923, semanas passam lentas quando esperamos alguém,é assim que Annabell se sente, seus medos aumentam,sua dor não passa e a angustia de tentar de qualquer forma ser útil, estão a sufocando. Cartas , talvez o medo de se desfazer do que lhe foi dado não permita ela ver por trás do que está escrito. Breno com certeza olharia e diria "Mas por que se apegar ao que não é seu, quando se pode mostrar muito mais..." Aquelas palavras fizeram Annabell se ligar no que se passava.

Arrependimento, não era isso, ele fez algo que foi necessário,mas o que? O que foi tão necessário que ele teve que fugir? A luz, as vezes brilha mesmo que fraca mas dessa vez a de Annabell acendeu com poder máximo.Ela se levantou e correu até o escritório do detetive tão rápido que o ar gelado queimava seus pulmões , chegando lá ela jogou as cartas sobre a mesa, Pietro olhou assustado , fazia um mês que não via essas cartas , então abriu a boca para falar mas Annabell foi mais rápida.

-Uccisore...-A expressão de pavor tomou conta de Pietro , não seu irmão não podia ser um assassino, ela estava errada não podia ser...- Ele matou o padre Joseph. Lembra do bilhete anonimo, era meu eu presenciei tudo, escondida no armário das hóstias . Eu não reconheci a voz mas era um homem tenho certeza, ele disse que o padre havia pecado constantemente e citou o nome de algumas garotas...Não lembro direito estava muito assustada...- Pietro lembrou do que Anna havia lhe dito, o padre abusava das meninas, tudo se encaixando,estava o deixando apavorado não por que , talvez ele tenha tentado proteger as garotas mas e as outras vítimas... Por que?- Pietro,eu sinto muito , sei que ele é seu irmão mas tudo está apontando para ele, lembro do padre reconhecer ele ... E... E...- Annabell cai no choro e Pietro passa a mão na suas costas como um ato de carinho.

- Se ele for realmente o assassino eu o farei pagar ,justamente , pelos seus atos. Obrigado por me ajudar...


Batidas constantes na porta fazem Annabell levantar da cama em que estava deitada e abrir a porta e sua reação é a mais pura das possíveis , um tapa na cara de seu inquilino fugitivo. Um mês era o que tinha se passado e agora ele volta sem a menor gota de vergonha que pode ter restado, com certeza era ele.

- Achei que a recepção seria mais afetiva...- Breno falou esfregando o rosto, ele estava diferente, sua barba havia crescido e o cabelo também.

-É o que você merece depois de sumir do nada!- Annabell queria parecer brava ,mas seus olhos a traíram ,as lágrimas escorriam pelo rosto.- Vamos entre logo!

-Desculpe por te preocupar, mas lembrei de uns parentes em Roma e decidi investigar nosso querido amigo Miguel falso, e se eu fosse você eu sentava porque não é pouca coisa não...- Dito e feito , Annabell sentou-se ao lado de Breno.-Miguel Florense realmente era um padre, mas não seu querido amor, ele estava vindo para cá quando foi morto ,dois dias antes houve uma fulga da prisão de Roma , cinco prisioneiros , quatro foram capturados e o quinto fugiu, deixe-me dizer que a igreja mandava cartas avisando sobre o ocorrido mas nunca havia respostas, e pelo que vimos ,o falso Miguel tem essas cartas, e o nome do nosso querido amigo é Giovanni Ciciliano ,preso por 5 mortes no vaticano, acha que ele era um bom padre por que?

O queixo de Annabell foi parar no chão e seu coração sumiu,se ele matou tanta gente por que não a matou também, e por que vir para Spoleto assassinar pessoas. Ela não deixaria aquilo em pune estava na hora de o jogo virar e todas as cartas ficarem a amostra , ela não esconderia mais nada e não se deixaria enganar, não mais.

Mais tarde naquele dia Annabel esperava o jovem assassino em sua mesa , ela havia pedido a Breno para lhe deixar sozinha pois isso era uma coisa que só ela podia fazer, e sem muita escolha ele obedeceu. Sentada próxima a janela ela observava o começo de uma chuva de inverno que trazia o vento frio e a melancolia consigo , as árvores balançando , pessoas andando na rua e o som de sua porta abrindo, seu medo ia além das portas e janelas de sua casa , pois ela não sabia o que podia acontecer ali.Giovanni se aproximou e tentou beija-la mas ela virou o rosto.

- Por que está tão misteriosa minha bella?- Perguntou ele se sentando ao seu lado.

- Eu sei que não és padre, sei que teu nome não é Miguel e sei também que és um assassino...- Annabell se virou e o encarrou no fundo dos olhos. Giovanni sentiu a dor dela como se fosse dele , ele não a queria mal.Sentiu o chão desabar sob seus pés.

- Como?- Foi só isso que saiu de sua boca.

- As cartas em seu baú ,Breno foi para Roma e só descobriu o resto,eu só queria saber o por que?- Sussurrou ela incapacitada de olhar para ele diretamente.

- Bem não tenho como responder o porquê ,mas posso te contar tudo , se necessário...- Ele fez uma pausa e pegou o rosto dela entre as mãos e a olhou no fundo dos olhos , aqueles mesmos olhos frios que ele viu quando ela entrou pela primeira vez na igreja.- Primeiro eu quero que saiba que meus sentimentos eram verdadeiros...

- VERDADEIROS? ACHA QUE MENTIR FAZ PARTE DE UM RELACIONAMENTO?- O rosto de Annabell estava vermelho enquanto gritava.- NÃO ME IMPORTA SE FORAM VERDADEIROS OU NÃO... Eu só queria que fosse sincero apenas uma vez...

- Tudo bem, então eu serei , lhe contarei tudo. Eu cresci numa família pobre sem um tustão desde criança aprendi a sobreviver no mundo , aos doze anos fui abandonado e ai vinha o ramo dos assassinatos facções criminosas , mulheres ( mesmo que nenhuma delas me satisfizesse) e ai cadeia para o resto da vida. Então tudo tão rápido , fulga,mais mortes ,Spoleto, você e mais mortes, tudo que fiz foi por você...- Giovanni foi interrompido por um tapa em sua cara.

- Acha que há motivo que justifique seus atos? Seu covarde ,não assume teus erros pois não és homem o suficiente , acha que matar por dinheiro ou por liberdade é motivo? Pois não é , se matas por liberdade ,não a terá pois serás perseguido e julgado até o fim .... - Seu sussurro o cortava mais do que seus gritos.- Eu quero que vá embora de Spoleto e nunca mais volte e se voltar eu vou estar te esperando pronta para te levar para o inferno... SAIA DAQUI AGORA!

Annabell se levantou e jogou um copo em direção a ele e a seguir voaram pratos e vasos a sua direção, Giovanni tentou chegar perto mas a garota enfureceu e pegou uma faca ameaçando-o , sem escolha ele saiu pela porta, olhou para trás por uma última vez e se foi. Annabell caiu no chão de joelhos chorando de desespero, ela estava pronta paro o próximo ato, o possível ato final.

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