Cap.24 - Desgraça
Matt POV
Eu, Wield e Drago comiamos sem parar. Apenas percebemos que estávamos realmente morrendo de fome quando sentimos o cheiro da comida recém invocada em nossa frente. Por algumas vezes, brigamos por alguma coisa, como um pedaço de carne ou uma fruta, mas logo resolvamos a situação.
Satisfeito, olhou para o outro lado do andar, encontrando minha mãe de pé em frente a uma estante repleta de livros e pergaminhos. Ela já havia lido alguns desses papéis, memorizando algumas coisas que com certeza considera importante para o futuro, e que é, de certa forma, fácil de executar. Ou é o que espero.
O mago da torre não saiu de sua salinha. Desde que eu e Wield a acordamos ele se enfiou lá para meditar. Consigo sentir daqui o cheiro de olhos naturais e incensos do tão ritual de meditação, para entrar em sua própria mente e buscar a paz interior e a sabedoria.
Não dô pra isso não.
Rapidamente, as horas se passaram. Através da janela, o vento forte e gelado entrou, sacudindo um pouco a estrutura exageradamente alta da torre, me fazendo engolir em seco. Ouvi minha mãe xingar baixinho, ela também não gostou daqui de cima.
Me deitei no chão, fechando os olhos e levando minha mão a testa, mais uma vez, sentindo minha draconia. As rachaduras mais graves haviam sido reparadas pelo mago, entretanto, eu ainda era capaz de sentir aquelas pequenas e fragmentos minúsculos faltando. Ela não está lisa como era, e com certeza não possui mais sua viva cor roxa. Não tenho um espelho para olhar como está.
Suspirei virando de lado e deitando a cabeça por cima do braço. Me encolhi armazenando calor. Em minha visão escurecida, fragmentos das luzes que encarei dançavam no escuro, criando formas familiares, monstruosas ou esquisitas, mais parecendo um mosaico em tons de verde, rosa e azul.
POV Drago.
Juntei um pouco de comida e fui até o outro lado da sala, encontrando Talia lendo, agora sentada contra a parede. Me aproximei, de tão entretida na leitura, não me percebeu chegando.
Eu: Ei. Eu trouxe comida.
Talia: Drago. — ela estava pálida, mas ao perceber que era eu, apenas voltou ao tom de pele comum. Então, ela sorri de leve. — Eu estou sem fome.
Eu: não me interessa, você vai comer sim.
Me sentei ao seu lado, tirando o livro de suas mãos e lhe entregando o prato. Ela soltou o ar pelas narinas e começou a comer sem reclamar. Enquanto ela estava ali, abri o livro na página que ela lia e passei a ler também.
Apenas suspirei.
Eu: você sabe que esse tipo de metal é guardado por Cristuras Gélidas, certo?
Talia: sei, porque?
Eu: é extremamente raro, e não vale a pena o risco. Ninguém vai lá só porque você se sente vulnerável sem sua armadura.
Talia: eu posso ir sozinha!
Eu: piorou. Você não vai, e ninguém vai.
Talia: Drago!
Eu: já passamos dessa fase há anos. Para!
Ela rosnou.
Talia: da pra você parar de ser tão protetor?!
Eu: graças a isso não está morta!
Talia: do que adianta? Você não percebeu, não é mesmo? Nossa relação não é mais a mesma, você não tem proximidade alguma do seu filho e, essa sua proteção fez com que o Matt crescesse sem saber o que é ou quem era seu pai! Drago, tudo isso está acabando com a gente, foram anos nós dois separados e ainda tem essa merda toda que não nos deixa reconstituir nossa família!
Suspirei. Parece que ela finalmente decidiu tocar nesse assunto.
Eu; nós vamos consertar tudo, Talia.
Talia: é só isso que tem pra me dizer, Drago?
Eu: não tenho mais nada para falar, o que precisava disse há anos. Nos afastamos porque você tinha de proteger Matt, e eu tinha de despistar seus rastros, além de proteger meu território. Você sabe muito bem que era preciso, só está assim porque, simplesmente, não aceita o que aconteceu e o que está acontecendo. Sim, nós planejamos e criamos expectativas e viver juntos, mas não deu certo! Nos cabe agora acabar com tudo e tentar voltar!
Ela respirou fundo e voltou a comer. Seus olhos estavam úmidos, e seu nariz vermelho. Ela queria chorar, mas não se permitia. Aquele maldito orgulho estava de pé, para que todos, inclusive Matt e Wield, a vissem como alguém forte. Ela esta em seu limite a muito tempo.
Segurei sua roupa e a puxei para mim, a envolvendo em um abraço apertado e acariciando seu pescoço com meu nariz, a fazendo arrepiar. Inspirei fundo e deixei ar quente escapar pelas nariz. Ela suspirou ao sentir o ar quente e fechou os olhos enquanto mastigava um pedaço de carne assada.
Talia: sabe... Meu cabelo está muito grande e...
Eu: eu sei.
Olhei seu longo cabelo branco e sorri. Estendi as garras e segurei seu cabelo, o cortando e o deixando a altura do ombro. Peguei a grande quantidade cortada e mostrei para ela.
Eu: da pra fazer uma vassoura.
Ela me olha.
Talia: palhaço
Eu: — rio. — A fonte da juventude fez muito bem a você, sabia?
Talia: claro. — ela franze o cenho. — acha que não sei o que está fazendo? Está tentando me distrair, me tranquilizar. Eu não preciso ser tranquilizada! Tenho de estar morrendo de ódio para continuar...
Eu: imagino.
Permanecemos nessa posição, estava tudo muito tranquilo pro meu gosto. Infelizmente, como nada é um mar de rosas, a torre começou a sacudir mais do que deveria.
Desgraça!
Talia: vamos!
Ela se levantou, me segurando pelos punhos e me levando junto. Matt e Wield haviam despertado sobressaltos, o mago estava em alerta, querendo de alguma forma fazer essa torre exageradamente alta parasse de tremer.
Olhei pra fora, percebendo que os Categoria 3 fugiam das enormes rachaduras que se abriam na terra. Uma luz se ascendeu lá embaixo, lava irradiava das rachaduras, borbulhando e pingando nas árvores, fazendo-as pegar fogo.
Vi algo familiar. Rosnei ao perceber um par de olhos entre a fumaça do incêndio. Devourer observava nossa desgraça e fazia questão de deixar isso óbvio. Então, sua presença desapareceu.
Um rugido irrompeu. Talia congelou ao meu lado, segurando meu braço com força, ela também reconheceu o rugido. A fumaça se condensou tomando uma forma extremamente familiar.
Talia: eu me lembro desse Categoria 1. Ele tentou me comer!
Eu: eu sei.
A torre era muito alta, superando o tamanho da criatura. Com seus olhos mortos e repletos de ódio, olhou para nossa direção, vindo até nós com seus passos pesados aumentando a extensão das fendas.
Wield: temos de apagar o fogo pra fumaça dispersar.
Talia: eu tenho um plano.
Continua...
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top