Capítulo 6

Enfiei-me entre os pés de limão com o celular colado ao ouvido. A voz de Helena saía abafada pelas folhas que raspavam nos meus braços, mas não me importei. A urgência de compartilhar o que tinha acontecido ontem à noite era maior do que qualquer outra coisa. Meu coração ainda batia acelerado, como se revivesse cada segundo do momento em que Jorge me beijou.

— E você beijou ELE? O Jorge?— A Helena enfatizou o nome como se não pudesse acreditar. — Isso é tipo, uma novela portuguesa!

Ri nervoso, a imagem ainda viva na minha memória. E agora aqui estou eu, tentando desesperadamente evitá-lo.

— Foi... inesperado, sabe? — admiti, desviando de um galho mais baixo. — Ele me beijou, Helena. E foi... bom. Muito bom. Mas agora eu não sei o que fazer. Hoje cedo, o vi na vila, subi na bicicleta e sumi. Depois, tentei me esconder nos estábulos, mas ele apareceu lá também. Agora estou no meio das plantações de limão.

Helena gargalhou do outro lado da linha.

— Você é um desastre emocional, Marcus. Por que está fugindo dele?

— Porque eu não sei o que dizer! O que você esperava? Que eu simplesmente aparecesse e falasse: "Ei, Jorge, então sobre aquele beijo...?" Não consigo. Fora que Kaique mandou uma cesta com flores, mel... acho que devo ligar pra ele.

Passei a mão pela testa, afastando os fios de cabelo que insistiam em cair nos olhos. As plantações pareciam infinitas, os pés de limão se estendendo em todas as direções. Por um instante, pensei que tinha conseguido escapar de tudo, mas foi quando me virei e vi Gabriel.

Ele estava lá, parado, com a camiseta puxada para cima, limpando o suor da testa. Seu olhar encontrou o meu, e por um momento nós dois ficamos congelados. Helena ainda falava algo no meu ouvido, mas as palavras dela se dissolveram quando ele deu um passo na minha direção.

— Helena, preciso desligar — murmurei, minha voz soando muito mais calma do que eu me sentia. Apertei o botão para encerrar a chamada e deixei o celular deslizar para o meu bolso.

Gabriel continuava me encarando, com aquela expressão que era uma mistura de curiosidade e algo mais que eu não conseguia decifrar.

— Parece que você encontrou meu lugar favorito na quinta — ele disse, com um sorriso discreto, apontando para os pés de limão ao redor.

— Não sabia que tinha um "seu lugar" — respondi, tentando soar casual, mas meu tom saiu mais nervoso do que eu gostaria. Ele se aproximou, e senti o cheiro do limão misturado ao suor dele. Era... reconfortante, de alguma forma. Familiar e estranho ao mesmo tempo.

— O que você estava fazendo aqui? — perguntou, cruzando os braços.

— Nada demais — menti, rápido demais. Gabriel arqueou uma sobrancelha, como se soubesse que eu estava fugindo de alguma coisa.

Ele deu uma risada baixa, balançando a cabeça.

— parecia nervoso na ligação.

Meu rosto ficou quente. Suspirei, encostando-me no tronco de um limoeiro, sentindo as folhas roçarem nas minhas costas.

— É complicado — admiti, finalmente. — Não sei o que fazer com tanta coisa acontecendo, Gabriel.

— Gostou da cesta?

Olhei para ele, surpreso. Gabriel tinha um jeito direto, mas aquilo me pegou desprevenido.

— Mal chegou e já tem admiradores — disse ele, sua voz mais suave agora. — Você nunca sabe onde isso vai te levar.

— Mexeu nas minhas coisas? — pergunto meio estranho.

— Não, me entregaram hoje cedo, pediram para lhe entregar.

Revirei os olhos.

— É complicado... — Ele me olhou e sorriu, não estava curioso em saber quem me deu? — Então, o que vocês fazem aqui para se divertir? Bebidas, bar, essas coisas.

Gabriel deu de ombros, com aquele sorriso de canto que parecia sempre saber mais do que dizia.

— Não temos muitos bares por aqui, mas há um pequeno pub na vila.

Ele se afastou um pouco, pegando um limão de um dos galhos. Girou a fruta na mão como se estivesse considerando algo importante.

— Mas, honestamente, Marcus, não parece que você está precisando de mais confusão.

Senti meu rosto corar novamente. Era frustrante como Gabriel conseguia desarmar qualquer coisa que eu tentava esconder. Ele jogou o limão no ar e o pegou com facilidade, como se estivesse brincando comigo.

— Estou errado?

— Depende — retruquei, cruzando os braços, tentando recuperar algum controle da conversa. — Você sempre dá conselhos ou isso é só um hobby aqui na quinta? Parece que sempre alguém está disposto a falar algo profundo.

Ele riu, jogando o limão para o lado antes de se aproximar. Estava perto o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava dele, misturado ao cheiro cítrico do suor e da plantação ao redor.

— Só quando eu acho que vale a pena. Afinal, ninguém vem para Esperança se não estiver com a vida em um completo caos.

O silêncio que se seguiu parecia carregar mais do que palavras poderiam dizer. Não era desconfortável, mas também não era exatamente fácil. Gabriel tinha essa habilidade estranha de me fazer sentir como se estivesse sendo analisado, e ao mesmo tempo, como se isso não fosse uma coisa ruim.

— Eu vou ficar bem — declarei, tentando soar firme.

Ele inclinou a cabeça, estudando-me por um momento antes de abrir um sorriso largo, que iluminou seu rosto.

— Sei que vai. Só não se perca muito no meio dos limoeiros. Pode ser difícil sair daqui.

Antes que eu pudesse responder, ele começou a se afastar, assobiando algo baixo enquanto desaparecia entre as árvores. Fiquei parado ali, com o som de seus passos ecoando nos meus ouvidos, até que me dei conta de que estava segurando a respiração.

Soltei o ar lentamente e olhei ao redor. O mundo parecia maior do que nunca, mas ao mesmo tempo, confinado. Um limoeiro. Jorge. Uma cesta de flores e mel. Gabriel. Era muita coisa para lidar, e tudo parecia querer minha atenção ao mesmo tempo.

Voltei para o bungalow mais tarde naquele dia, tentando organizar os pensamentos. A cesta ainda estava lá, em cima da mesa da cozinha. Suspirei. Helena estava certa. Era uma novela.

Me joguei na cama, o notebook equilibrado nas pernas, enquanto o cursor piscava na tela em branco. A maldita tela em branco. Suspirei, apertando o nariz com os dedos, tentando reunir algum fiapo de inspiração. Campanha de Natal, Marcus. Você veio aqui para isso. Não para Jorge, não para Gabriel, não para limões.

Abri a pasta de referência no computador, cheia de imagens de flocos de neve, árvores decoradas, presentes e famílias felizes. Todas gritando "Natal!" de maneira genérica e sem alma. Eu precisava de algo diferente. Algo que capturasse o que o Natal realmente significava. Mas o que isso era?

Passei os dedos pelo teclado, digitando frases soltas:
"Natal é sobre reencontros."
"Natal é o momento em que você sente que pertence."
Deletei a segunda frase imediatamente. Soava piegas demais, como o tipo de coisa que você veria em um cartão barato de supermercado.

Levantei da cama, caminhando de um lado para o outro no pequeno bungalow. As ideias vinham em flashes desconexos, e nenhum parecia bom o suficiente. Meus pensamentos continuavam voltando para Jorge, para aquele beijo inesperado e para o sorriso irônico de Gabriel entre os limoeiros.

Me sentei na mesa da cozinha, encarando a cesta de flores e mel. A simplicidade daquilo me fez pensar. Jorge tinha dito algo sobre os limões daqui serem especiais, sobre como o limão da quinta era puro e único. Havia uma história ali, escondida nos detalhes. Talvez fosse isso que eu precisasse: algo genuíno, como este lugar.

Abri o notebook novamente e comecei a digitar. Desta vez, as palavras pareciam fluir mais facilmente:
"O Natal não é sobre o que você ganha, mas sobre o que você compartilha. Uma história, uma risada, um instante. É sobre encontrar o extraordinário nos pequenos detalhes – como calor de um abraço que você não esperava."

Sorri para a tela. Não estava perfeito, mas era um começo.

Então meu telefone vibrou na mesa, tirando-me da concentração. Era uma mensagem de Gabriel. Apenas uma linha:
"Se mudar de ideia, me encontre no pub às oito."

Olhei para o relógio. Ainda eram sete e pouco. Suspirei, fechando o notebook e me recostando na cadeira. A ideia de passar mais uma noite sozinho com meus pensamentos parecia insuportável.

Eu só precisava de uma desculpa para ir. E, no fundo, talvez eu já soubesse qual era. Vinte e cinco minutos depois, estávamos na caminhonete de Gabriel, seguindo pela estrada de terra em direção à vila. Ele ligou o rádio e cantou junto com uma música antiga, sua voz baixa e rouca enchendo o silêncio entre nós.

Quando chegamos ao pub, o lugar era exatamente como ele tinha descrito: pequeno, com mesas de madeira gastas, uma iluminação aconchegante e um palco improvisado no canto. O ambiente cheirava a cerveja e limão, e as poucas pessoas que estavam lá pareciam se conhecer há anos.

— Gabriel! — alguém gritou do balcão. Era o barman, um homem mais velho, com um bigode espesso. — Já estava na hora de aparecer!

— Trouxe um amigo hoje, Tiago — respondeu Gabriel, pegando duas cadeiras na mesa mais próxima do palco.

Sentamos, e ele pediu duas cervejas. Quando chegaram, Gabriel ergueu a garrafa para mim.

— Às complicações da vida.

— E à falta delas — retruquei, batendo minha garrafa na dele.

Depois de algumas rodadas e muitas risadas, o karaokê começou. Gabriel foi um dos primeiros a subir no palco, puxando uma versão animada de uma música pop portuguesa que eu mal reconheci. Ele cantava mal, mas com uma confiança tão contagiante que todos no bar começaram a aplaudir e cantar junto.

Quando ele voltou para a mesa, ofegante, olhou para mim com um brilho nos olhos.

— Sua vez.

— Nem pensar.

— Ah, vai. Você não pode vir aqui e não cantar nada.

Eu ri, balançando a cabeça, mas, sob os aplausos encorajadores do bar inteiro e, principalmente, o olhar desafiador de Gabriel, acabei cedendo. Subi no palco e escolhi a música mais simples que consegui encontrar.

Minha voz tremia no começo, mas, no meio da música, comecei a relaxar. Quando terminei, o bar explodiu em aplausos exagerados, e eu voltei para a mesa corando, mas sorrindo.

— Nada mal — comentou Gabriel, erguendo a garrafa para mais um brinde.

Meu celular vibrava insistentemente no bolso da minha calça, quando vi a tela do celular era o nome de Kaique, junto com uma foto nossa que tiramos em uma viagem de cruzeiro.

— Eu preciso atender. — disse apontando o celular para Gabriel.

Ele me olhou estranho, o som do pub estava alto e ele não havia me escutado. — O que você disse?

— VOU ATENDER O TELEFONE — digo em voz alta.

Gabriel fez um joia com a mão e voltou a beber enquanto eu sai me esbarrando nas pessoas até o lado de fora do pub. Lá fora, o ar estava mais fresco, carregando o cheiro distante de mar misturado com as notas cítricas que pareciam impregnar tudo naquela vila. Coloquei o celular no ouvido, tentando ignorar o leve zumbido que o som alto do pub deixara nos meus ouvidos.

— Oi, Kaique. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, e limpei a garganta, ajustando o tom. — Tudo bem?

— Oi, Marcus. — A voz dele era familiar e confortável, mas havia algo na forma como ele dizia meu nome que parecia carregar mais peso do que de costume. — Vi que você recebeu a cesta.

Claro. A cesta.

— Ah, sim. — Balancei a cabeça, como se ele pudesse ver o gesto. — Obrigado, Kaique. Foi... foi gentil da sua parte.

Um silêncio se estendeu entre nós. A única coisa que ouvi além da respiração dele foi o som abafado do pub atrás de mim, risadas e a música abafada escapando pela porta semiaberta.

— Pensei que fosse uma boa maneira de... sei lá, me manter presente. — Ele riu, mas era uma risada nervosa, quase amarga. — Você está se divertindo aí?

O jeito que ele perguntou me pegou de surpresa. A pergunta parecia simples, mas escondia algo mais profundo, algo que eu não tinha certeza se estava pronto para lidar naquele momento.

— Sim, é uma vila pequena, mas é... charmosa. Diferente. — Olhei para a porta do pub, onde Gabriel apareceu por um momento, falando algo para o bartender antes de voltar para a mesa. — Estou tentando colocar as ideias no lugar, sabe?

— Entendo. — Kaique soava distante agora, como se estivesse digerindo minhas palavras. — Espero que esteja conseguindo. Só queria ouvir sua voz.

A culpa me atingiu com força, do tipo que te pega desprevenido e se instala no peito. Kaique era bom para mim, sempre foi, como namorado. E, ainda assim, ali estava eu, fugindo para uma vila no meio do nada e, sem querer, me envolvendo em algo que nem sabia como descrever. Para simplesmente fugir dele, como meu chefe.

— Kaique, eu... — Comecei, mas não tinha ideia de como continuar.

— Não precisa dizer nada. — Ele interrompeu, mas não de forma rude. Apenas... cansado. — Só... fica bem, tá?

Antes que eu pudesse responder, a linha ficou muda.

Fiquei parado ali por um momento, olhando para o celular na mão como se ele fosse explodir. O som do pub atrás de mim continuava animado, mas parecia vir de outro mundo.

Suspirei e voltei para dentro. Gabriel estava rindo com alguns locais, segurando mais dois copos de cerveja. Quando me viu, ergueu um dos copos na minha direção, um sorriso despreocupado no rosto.

— Achei que tinha te perdido. — Ele brincou, entregando-me o copo.

Sorri de volta, embora fosse mais um reflexo do que qualquer outra coisa.

— Eu estou aqui. — Respondi, levantando o copo para mais um brinde. Mas enquanto Gabriel ria e falava algo sobre o próximo cantor no karaokê, eu não conseguia evitar a sensação de que, de alguma forma, eu estava perdido.

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