Capítulo 4
Após o almoço, Jorge parecia genuinamente empolgado em me mostrar os arredores da fazenda. Eu o esperava perto da piscina, tentando não parecer tão deslocado, mas a verdade é que tudo ali ainda me deixava um pouco desnorteado. Dali, eu conseguia ver as fileiras de limoeiros que pareciam infinitas. O cheiro cítrico no ar era forte e, me deixava zonzo, porém eu estava feliz por estar longe do Porto.
Fiquei distraído com o reflexo do sol na água da piscina, que dançava nas folhas ao redor. Tinha algo hipnótico na forma como o dia se desenrolava naquela quinta, como se o tempo passasse devagar, mas ao mesmo tempo rápido demais para eu conseguir entender.
Então, senti.
O toque foi suave e inesperado, começando nas minhas costas e descendo devagar até a altura do meu quadril. Meu corpo reagiu no ato: um espasmo que provavelmente me fez parecer um idiota. Quando me virei, Jorge estava ali, segurando uma taça de champanhe, o mesmo sorriso tranquilo de mais cedo, como se ele não tivesse percebido que minha alma quase saiu do corpo.
— Desculpa te assustar — disse ele, com uma voz que parecia tão sincera quanto o sorriso. — Não era minha intenção. Havia te chamado duas vezes, mas parecia concentrado demais olhando as plantações.
Tentei falar alguma coisa, mas minha garganta estava seca demais, talvez pela surpresa ou pelo toque, ou pelos dois.
— Ah... Eu estava só... admirando.
Brilhante, Marcus. Admirando. Claro.
Jorge riu baixo, e o som pareceu tão natural quanto o farfalhar das folhas ao vento. Ele estendeu a taça para mim, e eu a peguei sem pensar muito. O vidro estava gelado contra os meus dedos, mas era como se minha atenção estivesse toda nele. Jorge. Minha mente vagou rapidamente sobre Gabriel, eu não o via desde ontem. onde poderia estar?
— Então vamos? — Ele inclinou a cabeça em direção aos limoeiros, o sorriso ainda no rosto.
Eu apenas assenti, seguindo-o como se não tivesse outra opção.
Jorge caminhava à frente, com passos largos e uma confiança que parecia natural, como se aquele lugar fosse extensão dele. O champanhe nas minhas mãos fazia pequenas bolhas dançarem na superfície do líquido, e eu me perdi por um momento observando-os, tentando dissipar a sensação de estar completamente fora do meu lugar.
— Você vai gostar de ouvir essa — Jorge disse, com um olhar divertido, quase como se estivesse lendo meus pensamentos. — O champanhe que você está segurando... é feito com os limões que plantamos aqui. A gente tem uma colheita pequena, mas de qualidade. Quando o clima favorece, os frutos ficam perfeitos para isso.
Fiquei surpreso. Eu nem sabia que champanhe podia ser feito com limões. Olhei para ele, interessado, e ele continuou, sorrindo como se estivesse compartilhando um segredo.
— Sim, é algo peculiar. Acho que, no começo, ninguém acreditaria muito, mas a mistura certa do limão com o processo de fermentação... o resultado é incrível. E é uma das coisas que me orgulho muito por fazer parte dessa fazenda.
Jorge apontou para as árvores à nossa frente, que pareciam se estender até o horizonte. Ele fazia um gesto amplo com a mão, como quem apresentava algo precioso.
— Esses limoeiros... eles têm uma história. Meu pai sempre dizia que eles vieram com a fazenda, que já existiam quando ele e minha mãe chegaram aqui. Meu avô plantou os primeiros pés ainda jovem, quando se mudou para cá, e meu pai cuidou de tudo quando ele já estava mais velho. Eu... eu só dei continuidade ao trabalho deles, sabe?
Ele parou por um momento, observando os limoeiros com um brilho nos olhos, como se estivesse se reconectando com o passado. A maneira como ele falava era simples, mas tinha um tom de reverência, como se aquela terra e as árvores fossem algo sagrado, parte de algo maior do que ele mesmo.
— Isso aqui é um legado. Não tem como explicar sem parecer piegas, mas, quando você cresce em um lugar assim, com o peso das gerações que passaram por ele, você começa a ver as coisas de outro jeito. Não é só sobre o limão, mas sobre o que ele representa. E o champanhe é um pouco disso, é... uma homenagem, sabe? Uma maneira de continuar a história.
Eu escutava atentamente, absorvendo cada palavra. A maneira como Jorge falava com tanto carinho sobre a fazenda me fazia sentir que, talvez, eu estivesse testemunhando algo mais profundo, algo que ele raramente compartilhava com alguém. Eu não queria interromper, então apenas assenti, sentindo que o silêncio entre nós estava carregado de respeito.
— É... acho que entendo o que você quer dizer. — Falei, tentando elaborar minhas palavras, embora a verdade fosse que eu não soubesse direito o que sentir. A história da fazenda, a dedicação de sua família, tudo aquilo parecia algo muito distante da minha realidade.
Jorge deu um sorriso suave, como se tivesse lido minha mente.
— Não se preocupe, Marcus. Não é fácil entender de imediato. Só queria te mostrar um pouco do que me faz levantar da cama todos os dias, pronto para cuidar disso aqui.
O ar estava quente, a brisa suave nos acariciando enquanto caminhávamos entre as árvores.
— Eu acho que vou começar a ver limões de um jeito diferente agora — eu disse, rindo levemente, tentando relaxar na conversa.
Jorge riu junto.
— Vai ser impossível olhar para um limão do mesmo jeito depois disso, mesmo vendendo quase toda semana, as finanças estão indo arruínas, só as colheitas não estão dando conta de manter a fazenda. Mas enfim, se algum dia você voltar aqui, prometo que te mostro como fazemos o champanhe. Pode ser uma experiência interessante para você.
Eu sorri, mas vê-lo ficar meio cabisbaixo por conta das coisas não estarem indo bem me deixou estranho. Jorge falava com tanto amor sobre essa terra. Pensei que as coisas iam bem.
— Eu adoraria. Quem sabe, né?
O sorriso de Jorge estava um pouco mais contido, como se o peso das palavras anteriores ainda pairasse no ar. Mas ele logo se recuperou, voltando à sua postura relaxada, quase como se estivesse tentando manter a conversa leve, mesmo com a sombra de um problema que não queria que transparecesse.
— Desculpe falar sobre essas coisas com você. As coisas vão melhorar — ele disse, com um tom que tentava parecer confiante, mas havia algo nos seus olhos que parecia não acreditar tanto nisso.
Fiquei em silêncio, absorvendo o que ele disse. Era evidente que a fazenda significava muito para ele, e aquele tipo de carinho por algo tão importante não era fácil de carregar, especialmente quando as coisas pareciam estar fugindo do controle.
A conversa seguiu em um ritmo mais tranquilo, e logo estávamos caminhando por entre os limoeiros novamente, com o som suave das folhas balançando ao vento preenchendo o espaço ao nosso redor. Eu sentia que, mesmo com as dificuldades de Jorge, havia algo profundamente honesto em sua maneira de tocar na terra, de cuidar de cada árvore. Não era apenas um trabalho, mas uma missão.
Jorge continuou, tentando sorrir de novo, mas agora com um brilho mais cansado nos olhos. — E você, Marcus? O que te trouxe até aqui?
Olhei ao redor, para as árvores que se estendiam até onde a vista alcançava, o brilho do sol sobre as folhas e o cheiro fresco de limão no ar. Apesar das dificuldades, eu não podia negar que aquele lugar tinha algo de especial. Algo que parecia ir além da beleza da paisagem.
— Eu... — queria pensar em algo mais interessante do que 'eu fugi', mas não conseguia. — Às vezes, é difícil de entender, mas... eu fugi.
Jorge sorriu, mais relaxado dessa vez, talvez aliviado por não precisar manter um fardo de positivismo forçado. Ou talvez perceber que meu problema parecia mais simples que o dele.
— Esse é o espírito! As vezes a gente precisa fugir mesmo.
A conversa ficou em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som do vento balançando as folhas. Eu me sentia mais leve, mas também um pouco mais perdido em meus próprios pensamentos. O ar estava quente, mas a brisa trazia uma sensação de calma, como se estivesse num lugar onde não precisava correr, onde as horas se arrastavam devagar, mas de uma maneira boa.
Jorge parecia absorver tudo ao seu redor, seus olhos descansando nas árvores como se elas tivessem mais a dizer do que ele conseguia compartilhar. "Às vezes a gente não sabe o que está procurando, mas sabe que precisa sair para encontrar", pensei, sem entender muito bem o que isso significava para mim.
Ele olhou para mim, como se me sentisse em sua mente de novo.
— Eu só nunca soube o que fazer com o que eu ouvia — falei de forma mais baixa, sem querer deixar as palavras pesarem demais.
Jorge parou de caminhar e me olhou, os olhos dele mais suaves agora, como se ele entendesse mais do que eu imaginava. Ele não disse nada, apenas estendeu a mão e tocou levemente meu ombro.
Com a voz calma, Jorge disse: — A gente só precisa ouvir.
Aquelas palavras ficaram no ar por alguns segundos, como se ecoassem nas árvores ao redor. Eu não sabia o que mais dizer, então nos movemos em silêncio novamente. À medida que caminhávamos, eu percebia que, no fundo, havia algo reconfortante no jeito como Jorge via o mundo, como ele aceitava as coisas e, ao mesmo tempo, fazia o possível para transformá-las.
Nós passamos por mais algumas fileiras de limoeiros até chegarmos a um pequeno celeiro. Jorge me indicou para entrar, e eu o segui, curioso. Ele cochichava alguma coisas alisando a crina de um cavalo totalmente preto que estava preso.
— Sabe andar a cavalo? — Perguntou ele ajustando a cela.
Olhei para ele e bebi um gole do champanhe que ele havia me dado. Eu não se quer me lembro quando eu fui em uma fazenda ou se quer estive perto de um animal como aquele cavalo. além dos invasores matinais do meu bungalow.
— Não mesmo! — afirmei.
Jorge soltou uma risada suave, quase como se já esperasse por essa resposta. Ele ajustou a cela no cavalo com mais cuidado, como se fosse um gesto cotidiano, enquanto eu tentava não parecer totalmente fora de lugar. Não que eu me importasse — havia algo de curioso no modo como ele tratava tudo com tamanha naturalidade, como se estivesse tão em casa ali quanto as árvores ao nosso redor.
— Não é difícil, só precisa de coragem — ele disse com um sorriso travesso, já afastando-se do cavalo e dando um tapinha na sua crina. — O difícil é ficar sentado o tempo todo na mesma posição, sem se mexer. Você não tem medo de desafios, tem?
Eu ri, tentando manter o tom leve, mas sabia que a pergunta não era tão simples quanto parecia.
— Esta debochando de mim? — falei, engolindo em seco.
— Jamais. Só querendo saber de suas habilidades. — Jorge olhou para mim por um instante, como se fosse medir as palavras antes de responder.
— Ficar ou fugir... às vezes a gente pensa que isso é uma escolha definitiva — ele disse lentamente. — Mas, no fundo, é tudo parte do mesmo caminho. O importante é saber onde você quer ir depois de cada passo. Bom, você já fugiu, subir no cavalo não vai ser comparado com isso, vai?
Era uma visão simples, mas, de alguma forma, soava mais profunda do que eu estava pronto para admitir. Olhei para o cavalo novamente, sentindo uma pequena curiosidade crescer dentro de mim. Talvez Jorge estivesse certo.
— E se eu tentasse? — perguntei, mais para mim mesmo, enquanto me aproximava do cavalo.
Jorge pareceu perceber a mudança na minha postura e sorriu com um brilho de aprovação nos olhos.
— Vou te ajudar a subir. Mas só se você prometer que não vai sair correndo por aí — ele brincou, com a voz cheia de cumplicidade.
Eu sorri, sentindo um pouco de nervosismo misturado com uma curiosa excitação. Era só um cavalo, mas eu nunca havia feito isso antes.
Jorge e eu subimos no cavalo, e a sensação de estar sobre o animal era completamente nova para mim. Eu tentava me manter firme, mas sentia o corpo do cavalo se mexendo sob mim de forma tão rápida e imprevisível que parecia que eu nunca conseguiria me equilibrar direito.
— Relaxa — disse Jorge, mas a voz dele estava abafada pelo som dos cascos batendo contra o chão, acelerando cada vez mais.
Eu tentei seguir seu conselho, mas o cavalo parecia decidido a ter sua própria aventura. Antes que eu pudesse reagir, o animal disparou pela trilha com uma velocidade surpreendente, e tudo o que eu consegui fazer foi segurar as rédeas com força, tentando não cair.
— Espera! — gritei, mas Jorge já estava ficando para trás.
Eu estava perdendo o controle, e o vento batia no meu rosto como se me empurrasse para frente, até que, finalmente, o cavalo deu um salto inesperado, e eu quase fui ao chão. Em um impulso, o cavalo virou para a direita e me desequilibrei completamente.
Nesse momento, um som familiar — um cavalo relinchando — chegou aos meus ouvidos. Quando olhei para o lado, vi Gabriel chegando a toda velocidade, montado em outro cavalo, com um olhar decidido. Ele me alcançou com facilidade, puxou as rédeas do meu cavalo e, com um movimento ágil, me tirou do animal, me colocando no seu próprio cavalo.
— Tudo bem? — Gabriel perguntou, a expressão misturando preocupação e um leve sorriso, como se ele já tivesse previsto o que aconteceria. O cavalo em que eu estava correu para longe da minha visão.
Eu só consegui balbuciar, ainda ofegante: — Eu... acho que não sou muito bom nisso.
Jorge, agora mais perto, soltou uma risada baixa. — Acho que esse cavalo não estava muito a fim de passeio hoje, Marcus.
Eu olhei para eles, um pouco envergonhado, mas aliviado por não ter caído de cara na terra. Gabriel, parecia completamente tranquilo.
— Talvez seja melhor você começar devagar. — Gabriel disse, com uma piscadela. — Ou, quem sabe, eu te ensino a montar um pouco mais devagar na próxima vez, nem todos são ages como Jorge.
Jorge se aproximou, ainda sorrindo. — Não se preocupe, você vai pegar o jeito. E, se não pegar, sempre podemos fazer mais um passeio sem cavalos.
Eu ri, a tensão se dissipando, e com isso, talvez a sensação de estar fora de controle também começava a diminuir.
— Gabriel, leve Marcus até o bungalow, vou atrás do cavalo. — Jorge me olhou e sorriu — Te vejo por aí. — disse biscando e saindo trotando com o cavalo.
Gabriel segurou as rédeas do cavalo, me olhando com um sorriso tranquilo. — Vamos, então. Você vai adorar o caminho de volta. É bem mais calmo.
Eu assenti, ainda meio tenso, mas agora sentindo um pouco mais de confiança comigo agarrado a cintura de Gabriel. Ele guiava o cavalo com uma calma impressionante, como se estivesse totalmente em sintonia com o animal.
Enquanto avançávamos pela trilha, eu me permitia relaxar um pouco mais. O vento suave e o som dos cascos quebrando o silêncio ao nosso redor faziam tudo parecer mais tranquilo, como se o caos do momento anterior fosse apenas uma lembrança distante.
Gabriel, que estava em perfeita sintonia com o cavalo, falou com um tom descontraído. — Não se preocupe, já aconteceu comigo também. Mas é bom que tenha acontecido logo. Agora você já sabe que tem que estar atento a cada movimento.
Eu ri, me sentindo menos deslocado. — Bom, pelo menos agora tenho uma boa história pra contar, né?
Gabriel sorriu, sua expressão mais suave agora. — Às vezes, as melhores histórias começam com um pouco de caos.
A conversa ficou em silêncio enquanto seguimos pela trilha. Eu estava mais relaxado, mas ainda refletia sobre o que tinha acontecido. Como algo tão simples como montar um cavalo tinha me deixado tão fora de controle? O que mais na minha vida estava fora de lugar e eu nem tinha percebido?
Quando chegamos perto do bungalow, Gabriel parou o cavalo e me olhou novamente. — Acho que você vai precisar de um pouco de descanso, mas podemos conversar mais depois, se quiser.
Eu olhei para o bungalow, a paz do lugar me atraindo, mas também sabia que ainda tinha algumas questões para resolver em minha cabeça. — Acho que um tempo sozinho me faria bem. Mas, quem sabe, mais tarde.
Ele assentiu, com a mesma tranquilidade de ontem, e antes de eu descer do cavalo, colocou a mão no meu ombro. — Não se apresse. Às vezes, é preciso parar para entender o que a gente realmente precisa.
Eu agradeci com um sorriso e, sem mais palavras, caminhei de volta para o meu refúgio no bungalow. Quando entrei, a paz do lugar me envolveu de novo, mas agora com um toque diferente, algo mais profundo. Como se o caos do dia tivesse me mostrado um caminho mais calmo para seguir.
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