Capítulo 3
O silêncio da manhã foi quebrado pelo canto distante de pássaros, mas o que me tirou do sono não foi o som da natureza, e sim uma leve sensação de algo... estranho. Abri um olho lentamente, tentando ajustar a visão ao ambiente calmo do bungalow. A luz suave da manhã iluminava a pequena sala, e tudo parecia normal.
Foi quando abri o outro olho que percebi: nada estava normal.
A primeira coisa que vi foi um pônei. Sim, um pônei. Pequeno, peludo, de crina bagunçada, a apenas centímetros do meu rosto. Ele olhava diretamente para mim com olhos enormes e inocentes, como se tentasse decifrar quem era aquele estranho humano na cama. Minha primeira reação foi de confusão. "Eu ainda estou sonhando?"
Mas não. Eu estava bem acordado. Olhei ao redor, e para meu completo desespero, havia mais dois pôneis dentro do meu bungalow. Um deles estava casualmente mordiscando as frutas que eu tinha deixado na mesa da cozinha na noite anterior. A outra, bem... estava fazendo suas necessidades no canto da sala. Perfeito, pensei. Exatamente o que eu precisava para começar o dia.
Por um segundo, fiquei completamente congelado. Eu queria gritar, mas não consegui. O pônei perto da cama deu um passo à frente, o que finalmente fez o pânico me dominar.
— AAAAAAAAAH! — Gritei, pulando de volta para a cama como se estivesse enfrentando um leão selvagem. — Saiam! O que vocês estão fazendo aqui?!
O pônei mais próximo deu um leve relincho, como se estivesse achando graça da minha reação. O outro, ainda mastigando as frutas, sequer se deu ao trabalho de me olhar. Aquele que estava "decorando" o canto do bungalow continuava indiferente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Mas que droga...! — Sussurrei para mim mesmo, subindo ainda mais na cama, como se isso fosse me proteger. — Onde está Gabriel quando se precisa dele?!
Estava prestes a jogar uma almofada no que comia as frutas, quando a porta do bungalow se abriu abruptamente. A entrada foi marcada por um imponente cavalo preto, com uma figura montada que se destacou com uma presença carismática e inesperada.
A figura desceu do cavalo com uma graça surpreendente, e eu fiquei ali, estupefato, ao ver um homem jovem, com uma aparência vibrante e enérgica. Vestido com uma camisa branca impecável e calças de montar, o homem tinha um ar de autoridade, mas com um charme jovem e moderno. Seu cabelo, ligeiramente desalinhado pelo vento e o sorriso no rosto.
— Bom dia! — disse ele, com um sorriso largo. — Eu sou Jorge, o dono da quinta. Parece que nossos pequenos visitantes decidiram fazer uma visita matinal inesperada.
— Jorge? — perguntei, tentando me recompor e descer da cama com cuidado. — Eu esperava que você fosse... bem, mais... velho.
Jorge riu, a risada era calorosa e contagiante. — Ah, então a fama me precede! Posso ter a aparência jovem, mas conheço bem esses pôneis. Eles são bastante independentes.
Enquanto ele conduzia os pôneis para fora, o olhar tranquilo e os gestos confiantes de Jorge me faziam sentir que, apesar da surpresa inicial, ele era exatamente o tipo de pessoa que poderia trazer um equilíbrio agradável ao meu caos matinal.
— Sinto muito pelo susto — Jorge disse, enquanto os pôneis saíam do bungalow. — Eles têm um jeito próprio de fazer amigos.
— Não, não se preocupe — respondi, ainda tentando processar a situação. — Nunca pensei que começaria o dia com um show de pôneis.
Jorge sorriu, enquanto se preparava para sair. — Bem, se precisar de qualquer coisa, estarei por perto. E, por favor, avise se o cheiro dos limoeiros se tornar... demais. Vou mandar alguém vir limpar as sujeiras que eles fizeram...
— Obrigado. — falei, sorrindo com alívio.
Com uma última troca de sorrisos, Jorge retornou ao seu cavalo e se afastou, deixando-me sozinho com meus pensamentos sujos de como aquele homem era lindo.
Fechei a porta atrás de mim, mas aquele cheiro de pônei me fez abrir novamente.
— Meu Deus, como cavalos tão pequenininhos podem fazer algo tão fedorento. Eles estão podres. — digo rinso sozinho.
***
A manhã havia se passado, e com ela aquele cheiro de pôneis da casinha onde eu estava ficando. Estar longe de Lisboa e sem internet me fazia sentir uma liberdade inexplorada. Se isso não se chama PAZ, eu não sei o que é.
Encontrei uma bicicleta no canto do bungalow, um toque simpático da estadia. Era azul, com fitas furta-cor graciosamente presas no guidão. Olhei para ela e pensei que talvez houvesse algo de especial em andar de bicicleta em um lugar tão tranquilo. Era um convite para explorar, e eu estava mais do que pronto para aceitar.
Coloquei a cestinha da bicicleta, que parecia saída de um conto de fadas, e comecei meu passeio, eu queria ir até a cidade, gostaria de comprar morangos, leite e outras coisas. No caminho até a cidade, o ar estava fresco e o sol brilhava de forma suave, criando uma atmosfera perfeita para uma manhã ao ar livre. As folhas dos pés de limão balançavam suavemente ao vento, lançando sombras dançantes no chão.
Enquanto pedalava, o aroma dos limões se misturava com o cheiro da terra e da vegetação ao redor. O som dos pneus da bicicleta passando por cima das folhas secas e a leve brisa em meu rosto eram simplesmente relaxantes. A cada pedalada, eu sentia a sensação de estar me afastando ainda mais das preocupações e da agitação da vida que deixei para trás.
Quando cheguei à cidade, o mercado local estava repleto de cores e cheiros. As barracas de frutas exalavam uma doçura que fazia a minha cesta parecer pequena demais. Enchi-a com morangos suculentos, algumas maçãs frescas e uma garrafinha de leite. O ambiente vibrava com a energia dos vendedores e o burburinho dos clientes, criando um cenário quase festivo.
Enquanto eu me perdia entre as barracas, uma voz familiar chamou minha atenção.
— Olá, você de novo. — Levantei os olhos e vi Jorge com um sorriso estonteante, segurando uma sacola cheia de bananas. — Duas vezes em menos de 12 horas, acho que é o destino.
— Jorge! — exclamei, um pouco surpreso. — Não esperava te ver aqui.
— E eu não esperava ver você tão cedo depois da nossa "visita matinal". — Jorge riu, o tom brincalhão em sua voz. — Acha que a cidade está te tratando bem?
— Sim, está ótimo. Só estou tentando aproveitar o tempo livre e... comprar algumas coisas básicas. — Respondi, balançando minha cesta que já estava cheia.
— Bem, não posso deixar você carregar isso sozinho. — Jorge disse, com um sorriso que mostrava sua generosidade natural. — Deixe-me ajudar com as suas compras. Além disso, temos que conversar sobre aquele café que você prometeu.
Jorge me acompanhou pelo mercado, carregando parte das minhas compras e mostrando um entusiasmo contagiante sobre tudo ao nosso redor. Ele me contou sobre os produtos locais e as tradições da cidade com uma paixão que era impossível não se contagiar. Sua energia vibrante era quase palpável.
Ele me ajudou a pôr minhas sacolas na cestinha da bicicleta e, enquanto ajustava os itens, lançou um olhar animado para mim.
— Vamos ter um almoço em casa, se quiser participar, está convidado. — disse Jorge, com um sorriso convidativo.
Eu pausei por um momento, surpreso e agradado pelo convite. — Isso seria ótimo, Jorge. Agradeço pela oferta.
— Perfeito! — Jorge exclamou, parecendo genuinamente entusiasmado. — Será um prazer ter você lá. Assim, você pode conhecer melhor a comidada região. Petunêa cozinha para minha família por gerações, irá amar a comida dela.
Enquanto pedalava de volta ao bungalow, a sensação de liberdade estava me fazendo sentir uma outra pessoa desde que havia pisado nessa cidade. A bicicleta azul com fitas furta-cor parecia quase mágica sob o sol dourado, e eu não pude deixar de me sentir mais leve, como se o peso do mundo tivesse sido removido, mesmo que temporariamente.
Cheguei ao bungalow e deixei a bicicleta encostada perto da porta. O cheiro dos limoeiros ainda estava no ar, mas agora parecia quase acolhedor, um lembrete constante da serenidade deste lugar. Depois de uma rápida arrumação, peguei algumas coisas que poderia precisar e segui para a casa de Jorge.
A casa dele não estava muito longe, e o caminho era encantador, com os pés de limão lançando sombras suaves no chão. Quando cheguei, a casa de Jorge era uma combinação perfeita de charme rústico e elegância. O exterior era coberto por uma treliça de flores coloridas, e o jardim estava bem cuidado, com uma pequena fonte que produzia um som relaxante de água corrente.
Jorge estava na entrada, à espera, com um sorriso largo e um brilho nos olhos. — Oi, você, de novo.
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