Capítulo VIII


Segunda-feira, 08 de setembro de 2014

Manhã, 10h51

Sentada na beirada da cama do hotel, Harley tinha as mãos fundas sobre o edredom. Pouco dormira na noite passada e, quando acordou, apanhou a última das três garrafinhas de vodca que havia no frigobar, antes que a camareira viesse fazer a reposição. O ardor era bom, queimava em sua garganta assim como as palavras da conversa que tivera com Eldric em seu carro durante a madrugada.

— Vai me deixa fumar aqui dentro? — perguntou ela assim que entraram, batendo a porta, sentindo o cheiro de balas de hortelã que mascaravam o tabaco das roupas dele.

— Achei que não quisesse o cigarro, devolveu ele — falou ligando a ignição.

— Se eu disser que mudei de ideia, você deixa, então?

Vencido, ele passou o maço para ela e colocou a marcha, começando a dirigir, mas não sem antes dizer:

— Abra o vidro, pelo menos.

Ela obedeceu, abaixando a janela e permitindo que o ar entrasse, levando seus cabelos na direção do motorista, assim como seu rosto, que estudava-o com cuidado, as laterais dos olhos apertadas, estreitando a vista, os pensamentos tentando entender a mente de Heartland, que parecia tão fodida e misteriosa como a dela.

— O que está olhando? — indagou enervado com o olhar, apertando o volante.

— Estou esperando que fale sobre Paul Dickens — explicou sem desviar o olhar, ainda que estivesse abrindo o porta-luvas, desconfiada que houvesse um isqueiro ali. Estava certa. Apanhou-o e acendeu o cigarro, que colocou no meio dos lábios já ressecados.

— Paul Dickens foi um pugilista. Premiado, por sinal, como ele fez questão de ressaltar.

— Conseguiu controlar o egocentrismo dele?

— Se não faço com o seu, duvido que o fizesse com o dele — retrucou com um sorriso no canto dos lábios, piscando para ela, que não se impressionou, na verdade apenas ergueu uma sobrancelha. — Sabe que eu adoro quando você me encara assim, não é?

— E eu adoro quando você fala sobre o caso, então continue, por favor. — Ela deu uma tragada, uma nuvem cinzenta escapando logo em seguida e traçando um rastro quase invisível aos olhos seguindo o caminho do carro pela noite.

— Acontece que usei o ego dele contra ele.

— Psicologia reversa?

— Nem foi preciso — negou. — Paul é um babaca arrogante que acha que todos devem algo para ele. Mais um branquelo mimado que só sabe falar das injustiças da sua vida.

Harley concordou com um gesto da cabeça, o cigarro entre o anelar e o indicador. Sentir o ar quente dentro de si acalmava seus nervos.

— Você disse "foi". Por quê? — perguntou ela, séria.

— Era exatamente onde queria chegar. — Ele trocou a marcha conforme viravam a rua, seguindo reto. — Paul foi acusado de crime culposo por ter se descontrolado em uma luta. Arrebentou o maxilar do adversário e, quando ele caiu no ringue, continuou a esmurrá-lo.

Harley permaneceu quieta, atenta, tragando seu cigarro e vendo como o sorriso nos lábios de Eldric mostrava que ele tinha mais a contar.

— No fim das contas, ele acabou por perder a credibilidade que tinha. Nenhuma marca queria patrociná-lo, afinal, qual seria o slogan que iriam usar? Comprem da nossa marca ou quebramos sua boca?

— Não deve ter sido apenas por isso.

Ele olhou-a de esguelha, vendo como seus lábios encaixavam perfeitamente o cigarro, como se já tivessem sido feitos para aquilo, de tal modo que o fez se perguntar, por um breve momento, com quantos anos ela teria desenvolvido o vício.

— O que quer dizer?

— Todos que participam de um esporte violento como o box entendem o risco que o esporte impõe, o próprio Direito cobre isso.

— Sim, mas ainda há regras no box, e ele passou delas. O adversário precisou de uma reconstrução facial, Harley...

— Podemos colocar no google a lista de quantos lutadores que precisaram reconstruir alguma parte do rosto por conta das lutas, isso não é desculpa, a meu ver.

— Então o que é?

— Um motivo.

Ele estreitou o olhar, trocando de marcha, agradecendo pelos vidros estarem abertos e possibilitassem que sua pele se refrescasse. Quando Harley estava presente, era como se seu sangue corresse mais rápido, muitas vezes ao seu pau em momentos inapropriados.

— O quê?

— Deve haver um motivo para tamanha violência e a aversão dos patrocinadores.

Eldric pensou por um segundo, batendo as mãos sobre o volante.

— Você pode estar certa.

Ela apenas ergueu a sobrancelha ao ouvir isso, como se dissesse "há alguma surpresa nisso?" Mas Eldric apenas continuou:

— Quando conversamos, Paul disse que "tudo valeu a pena, pois aquele cara aprendeu o que era ser homem."

Os olhos de Harley reviraram, doloridos, a mão direita tocando a testa e tomando cuidado para não a queimar com o cigarro que já estava no fim. A mulher respirou fundo, deu uma última tragada e arremessou a bica para fora da janela.

— Está aí o motivo — concluiu a mulher, resquícios de raiva em suas palavras. — Se foi comprovado que a aversão dele a homossexuais foi o motivo por detrás da agressão, então é por isso que as marcas não quiseram continuar a patrociná-lo.

Eldric concordou com um movimento da cabeça.

— Posso procurar, depois, se o outro adversário realmente era homossexual. Se sim...

— Se sim, nada acontece.

O detetive estranhou, franzindo o cenho.

— O que quer dizer?

— Sei o caminho que quer seguir, e já lhe digo para poupar seus pensamentos. Não vai dar certo. — A mulher fitou-o rapidamente. — Tem mais um cigarro?

O homem não conseguiu evitar uma risada curta e grossa que escapou pelo canto da boca, por entre os dentes.

— Sabe que sim, eu lhe dei o maço!

Ela deu de ombros, apanhando um novo cigarro.

— Era só uma maneira de pedir por mais — explicou conforme acendia-o, as fagulhas e a chama iluminando a pele clara, tornando-a alaranjada.

— Você realmente não consegue pedir por favor?

Agora foi a vez de ela rir, sentindo a longa tragada permitir a passagem da fumaça morna por entre seus pulmões, aquecendo seu peito, relaxando os músculos, porque é isso que os assassinos mais perigosos fazem: eles fazem você se sentir seguro, acolhido, quente, e te matam aos poucos.

— Meu por favor será minha mão na sua cara, que tal?

As bochechas dele esquentaram e o maxilar endureceu. Na verdade, não foi só isso que ficou duro.

— Sei de um lugar muito melhor para colocar sua mão — respondeu malicioso, o brilho em seu olhar faiscando com o dela, que virou seu rosto na direção dele, afundando no assento, sentindo o cinto na altura do rosto conforme os lábios languidos o respondiam:

— Só em seus pesadelos, Sr. Heartland.

— Pesadelos? — indagou ele como se duvidasse disso, tamborilando os dedos assim que estacionou o carro na frente do hotel, mas Harley não estava pronta para descer ainda.

— Não haja como tolo, não lhe cai bem — retrucou devolvendo a frase de Eldric para ele mesmo. — Pessoas como nós não tem sonhos bons. Com tudo o que vemos, é difícil manter alguma camada de bondade.

Ela respirou fundo, pesado, uma carga emocional que Harley não esperava, o que o fez debruçar-se sobre o volante.

— Mas... não foi... sempre assim, não é?

As pausas em sua pergunta a fizeram engolir em seco.

— Como assim?

— Antes..., quando menores. Você deve ter sido feliz.

Ela riu. Riu profundamente, tomando cuidado com as cinzas que caíram sobre suas pernas.

— Do jeito que sou, realmente acha que sou feliz?

— Não? — Os olhos dele imploravam por uma contradição, mas ela concordou com ele, ironicamente, em uma negativa, maneando a cabeça de um lado para o outro, fumando, o braço direito apoiado sobre o esquerdo, que se cruzava por debaixo de seus seios.

Harley soube, naquele momento, que algo acontecera com ele tal qual ela.

Traumas vem desde cedo, em busca de suprir um vácuo em nossas almas.

E ele não são compartilhados com qualquer pessoa, então ela decidiu encaminhar a conversa para seu fim:

— Sabe o que me deixaria feliz?

— O quê?

— Uma informação que realmente nos ajudasse — admitiu arremessando a segunda bituca para fora, apoiando a cabeça contra o banco, cada vez mais na direção dele, percebendo o modo como Eldric analisava o movimento de seus lábios. — Foi inteligente em pensar que talvez Paul estivesse querendo se vingar do filho do ex marido de Elena, mas, se fosse o caso, teria sido Leonard a sumir...

— Mas quem disse que pensei isso? — interrompeu-a ele com o erguer da mão. — Pode ser muito perspicaz, lhe dou esse crédito, mas ainda não aprendeu ler mentes, Harley.

Ela estreitou o olhar e mordiscou a boca.

— No que pensou então?

— Paul conheceu Elena anos atrás, antes mesmo do divórcio oficializado com Dariel ...

— Sugere um adultério?

Ele mordeu o lábio.

— Talvez. Ninguém entendeu, de fato, porque o casamento de Elena ruiu...

— Allura sabe.

— E acha que a mãe acabaria com a reputação de sua própria filha? — O tom dele mostrava o absurdo daquela ideia. — Bem, de qualquer forma... não é esse o ponto que quero chegar.

— Então o que é?

— Eu não lhe falei a melhor parte da história que Paul me contou. — Eldric endireitou-se, fitando além do vidro do carro, na direção da árvore onde uma lata de lixo estava caída. — Em uma de suas primeiras lutas, o homem decidiu que não precisava usar proteção.

Harley arregalou os olhos e franziu o cenho.

— Como é?

— Exatamente o que ouviu. Ele dispensou os protetores de cabeça, bucal e genital, como um adolescente no corpo de um adulto. Usando as palavras toscas dele "eu queria provar que era macho e aguentava o tranco, que não precisava dessas frescuras pra vencer".

Harley não gostou do que ouviu, mas sabia que o pior estava para vir.

— E venceu?

— O que acha? — replicou com desdém. — Não, ele perdeu, mas não só a luta.

Ela sentiu como o ar pesou dentro daquele carro e o próprio vento no exterior pareceu morrer.

— Eu achei que Ursel fosse fruto do adultério de Elena naquela época durante todos esses anos, mas Paul Dickens é estéril, Harley, desde aquela luta, há mais de vinte anos.

Foi como se uma pá atingisse sua cabeça, um som metálico diminuto a uma faixa fina e aguda que ecoou em seus ouvidos, os olhos vidrados em Heartland, o estômago dela se revirando conforme o peito pesava e tudo se desfazia diante de si, a pele perdendo um tom, como se ela fosse desmaiar. Naquela madrugada, a última coisa que ela se lembrou de ouvir Eldric dizer foi:

— Pelo o seu rosto, já sabe o que isso significa.

Sim.

Sim, ela sabia.

E era por isso que dormira tão pouco e agora se esforçava para se erguer, as pernas presas em uma saia preta, de couro, o busto coberto por uma camisa branca, três botões abertos na linha do pescoço, revelando a volta de seus seios, os cabelos penteados preguiçosamente, batendo na altura do maxilar enquanto ela calçava seus saltos para ir encontrar com Eldric.

Se Paul Dickens era estéril, então Ursel Hargroove não era seu filho.

E isso mudava a perspectiva do caso.

...

— Juro que vou me surpreender quando você realmente tiver uma boa noite de sono — anunciou Eldric, na porta do hotel, dois cafés em sua mão, em copos descartáveis de isopor, um par de óculos de sol em seu rosto firme, apenas porque raios de sol conseguiram escapar por entre as nuvens naquela manhã, os braços fortes saltados na camisa azul e uma jeans preta presa com um cinto em sua cintura.

— Sabe que tenho café-da-manhã no hotel, não sabe? — relembrou ela apontando para trás, mas o sorriso dele se manteve.

— É sempre tão agradável vê-la — zombou esticando o copo para a mulher.

— Cale a boca — respondeu pegando o copo a contragosto, cruzando os braços, mantendo a bebida embaixo de um deles. — Acho que já está em um bom horário para ligarmos para o número, não acha?

— Já passa das dez horas. Se for um estabelecimento comercial, estará aberto, e se for da família, não estará mais dormindo.

Os olhos dela fitaram avidamente o papel quando o retirou do bolso, como se fosse um exame de DNA que gritava que Ursel não era filho de Paul.

— Está pensando que o número pode ser do pai, não está?

Harley respondeu-o apenas com o olhar, severa.

— Já pensei isso também — admitiu bebendo o café, espirais quentes subindo até suas narinas. — Já considerei que o garoto pode ser filho de Dariel , mesmo que o casamento estivesse ruino.

— Eu só... — Ela começou, mas a voz travou em sua garganta. — Só estou tentando centrar minha mente em tudo isso. Quanto mais procuramos, parece que tudo fica ainda pior.

— Fala como se não estivesse acostumada — retrucou ele observando os transeuntes do outro lado da rua, na calçada, guiando seu cachorro, rindo e sorrindo em uma cidade onde assassinatos deveriam causar o efeito contrário. — Depois que se acende a luz no inferno, é difícil desver os demônios.

Harley não sorriu com o comentário, apenas abandonou a bebida sobre o muro baixo da entrada do hotel e apanhou o celular, retrucando-o antes de digitar o número:

— Acontece que eu prefiro ficar com os demônios que já conheço.

A linha começou a chamar e, depois da terceira tentativa, uma voz fina, porém carregada de catarro provida de um resfriado terrível apresentou-se:

— Consultório do doutor Stevens, quem fala é a Amy, bom-dia.

Consultório. Muito bem, vamos improvisar...

— Bom-dia. — Harley colocou seu melhor tom em prática, amigável e tranquilo. — Aqui quem fala é Helen, eu gostaria de marcar uma consulta.

— Ah, sim, claro, para quando seria?

— O mais rápido possível.

A detetive ouviu o som de dedos apertando teclas rapidamente, com tanta força que pareciam que iriam quebrá-las.

— Consigo encaixar a senhora hoje, às quinze e trinta, porém o doutor está com um atraso de quinze minutos, até agora, então esse horário pode variar.

— Não, sem problemas, está perfeito! — cantarolou Harley, como se estivesse aliviada, como se tivesse uma mancha em seu corpo que precisasse ser vista o mais rápido possível.

— Ótimo, vou deixar agendado então. Qual o nome do paciente?

Então a mulher travou por alguns segundos, agitando os cílios, fitando Eldric, tentando não transparecer a dúvida.

— Senhora, está na linha?

— Sim, estou aqui. — Ela apertou a têmpora direita e franziu o cenho. — Acho que a ligação falhou, poderia repetir?

— Eu preciso do nome do seu filho ou filha que virá na consulta, senhora — explicou com paciência por entre um espirro, o qual ela se desculpou depois.

Então é um pediatra! O pediatra de Ursel!

— O nome é Samuel... Clearwater.

— Tudo certo então, sra. Clearwater, a consulta ficou marcada para hoje, às quinze horas.

— Perfeito! Muito obrigada, só mais uma coisa.

Um espirro.

— Sim?

— Poderia confirmar o endereço para mim? Acabei perdendo-o.

— Ah claro, o consultório fica na esquina da rua Redland Hill, acesso pela B4668, na localização BS 6.

— Muito obrigada!

— Eu que agradeço.

E desligou.

— Você realmente disse seu sobrenome?

Harley encarou Eldric com desdém quando ouviu a pergunta.

— O quê?

— Nem sabe direito quem é e deu seu nome?

— Eu disse Clear, não Clean, há uma diferença — retrucou. — É fácil de confundir, então se eu precisar mostrar algum documento na hora, posso jogar a culpa na secretária, assim como Harley e Helena passam perto.

Eldric duvidou disso com o olhar cético, mas dispensou um novo comentário e perguntou:

— E, afinal, de onde era esse número?

— Um consultório de pediatria, de um tal de doutor Stevens, em Bristol.

— Bristol!?

— Não fica tão longe daqui. É quase o mesmo tempo para chegar a Castle Combe, e minha viagem não foi demorada.

— Mas... por que um médico em outra cidade?

— É isso que vamos descobrir — concluiu ela com as mãos na cintura. Não iria beber aquele café. Parecia horrível.

— Bom... vamos lá às três da tarde?

— Aparentemente.

— Suponho que vamos fingir ser marido e mulher, então — zombou com um sorriso ardido e escancarado, que fez ela, nada impressionada, jogar a cabeça por sobre o ombro, os olhos estudando a postura relaxada que ele exibia encostado em seu carro. — Que tal aproveitarmos o tempo de outra forma?

O teor sexual em sua frase a fez manear a cabeça para os lados em negativa. Em outro momento, ela já teria deixado Eldric fodê-la, afinal, o corpo dele parecia firme e robusto, com um pau que aparentava ser grande, do jeito que ela gostava, mas ali envolvia trabalho, envolvia ter de aturá-lo ao seu lado, então, por agora, Harley preferiu mantê-lo fora de sua cama e de sua vagina, respondendo:

— Que tal eu te mandar a merda? Acho que ainda não fiz isso hoje.

...

Por fora, não parecia um consultório. Era uma construção de madeira misturada a rochas cinzas e ocre, possivelmente apenas uma casa, de frente para três enormes árvores de copa ovalada, que acabou sendo adaptada para uma clínica particular que, por dentro, parecia muito mais cara, com janelas estreitas, de persiana, e um ar condicionado potente, talvez por isso a recepcionista, Amy, não parasse de espirrar. A pobrezinha parecia acabada, e Harley apanhou a caneta que ela lhe dera com cuidado, passando logo em seguida álcool em gel, disponível em um frasco ao lado do balcão de recepção.

— Agora é só aguardar um instante, o doutor já virá... — Ela deu uma fungada profunda que fez um esgar surgir no rosto da detetive, especialmente ao vê-la limpar o líquido que escorreu de sua narina contra a manga cor-de-rosa de seu pulôver. — Espere, onde está...?

Mas antes que a garota pudesse notar que não havia nenhuma criança atrás do balcão, apenas dois detetives, a porta à esquerda da entrada se abriu.

— E não se esqueça, nada de tomar líquidos muito gelados, cuide da garganta! — aconselhou um homem alto, caucasiano, de sobrancelhas finas o bastante que pareciam se desenhar sozinhas, um ponto de delicadeza em um amontoado de grosseria, não em comportamento, já que o dr. Stevens se exibia de forma exemplar, mas sim quanto aos traços rústicos de seu rosto avermelhado, com algumas marcas de espinhas do passado na lateral esquerda da face.

Uma mãe loira passou com sua filha rapidamente por eles, alcançando a porta e se despedindo de Amy não ficando para ouvir o desagradável clima que se instaurou assim que começaram a conversar:

— E eu posso ajudá-los? — perguntou o dr. Stevens encaixando as mãos nos bolsos do jaleco.

— Eles são sua consulta das três, doutor — explicou Amy. — Samuel Clearwater.

— Ah, pois bem, mas... — os olhos clínicos vasculharam rapidamente as duas figuras ali presente, desaprovando de imediato os óculos de Eldric, pendurados no bolso da camisa. — Onde está Samuel?

Amy apoiou-se no balcão e olhou por sobre ele, vendo que não havia crianças, encarando Harley com estranheza e certo medo, sentando-se sobre a cadeira novamente, esticando a mão na direção do telefone na parede.

— Não precisa chamar a polícia — disse Harley calmamente como se fosse algo que sempre fizesse, ainda que arrepios, por conta do ar condicionado, corressem sua coluna. — Nós somos ela.

O doutor, incomodado, engoliu em seco, rugas surgindo em seu pescoço conforme encrava Amy em busca de respostas, que só poderiam vir deles.

— Meu nome é Harley Cleanwater e este é meu parceiro, Eldric Heartland, somos da polícia de Painswick — explicou incluindo-se no departamento. Não precisava explicar que era de uma iniciativa privada. — Gostaríamos de ter uma palavra com o senhor, se não se importa.

— A senhora disse que era Helena... — resmungou Amy, ainda preocupada, a mão sobre a boca, incrédula.

Porém, para a surpresa da detetive, o dr. Stevens não objetou, na verdade convidou-os a sua sala com um floreio da mão, trocando um olhar severo para com sua secretária.

— Então... não existe Samuel Clearwater? — perguntou a garota resfriada antes de ele fechar a porta atrás de si.

...

— Bem, permitam-me apenas encerrar a ficha da srta. Youth e terei tempo para os senhores — pediu sentando-se sobre sua cadeira, convidando-os a fazer o mesmo, digitando no teclado rapidamente qual havia sido o quadro da menina. — Terceira dor de garganta em cinco meses. Isso não é nada bom, o sistema imunológico dela está fraco, pobrezinha... — explicou, mas se deteve ali, fechando a tela de seu computador, girando a cadeira na direção deles e entrelaçando os dedos. — Então, como eu posso assisti-los?

A sala em si não era tão impressionante e até um tanto apertada, considerando todos os certificados e diplomas que o dr. Stevens orgulhosamente expunha atrás de sua mesa, ao lado da única janela ali dentro, as persianas fechadas, ainda que faixas de luz conseguissem entrar.

Quando Eldric fez menção de começar, o homem o interrompeu:

— Estou achando tudo muito escuro, vou clarear um pouco. — Então, puxando uma gaveta de sua mesa, ele apanhou um pequeno controle e apetou seu único botão, que recolheu as persianas. Ele parecia contente em exibir onde gastava seus lucros. — Bem melhor, não?

— Depende — respondeu a detetive. — Tudo fica mais fio no claro. — Ela ergueu uma sobrancelha e, apesar de querer sorrir, Eldric não o fez, sério ao perguntar:

— Qual o nome completo do senhor?

— Jacob Stevens. Mas pode me chamar de doutor que já está ótimo.

No mesmo instante Harley teve certeza de que ele amava ouvir os outros chamando-o de doutor. Se amaciar o ego dele era o preço que ela tinha de pagar para obter as informações que queria, assim como Eldric fizera com Paul, então tudo bem.

— Dr. Stevens, sinto que é meu dever pedir desculpas pelo inconveniente — começou ela com a mão sobre os seios, teatral, mas soando sincera o bastante para ele, que sorriu, dispensando tudo aquilo, ainda que quisesse ouvir mais. — Chegamos aqui já com uma mentira, falsa identidade, peço desculpas.

— Ora, tudo bem.

— Achamos que não nos atenderia se falássemos quem somos, doutor — emendou Eldric ao assunto.

— E por que eu não os atenderia? — O homem soou quase animado por estar ali. Harley notou como, em seu jaleco, um pequeno broche com o símbolo de medicina pendia. — Eu sou inocente, hein! — brincou com uma risada que Harley não retribuiu, fazendo-o pigarrear. — Bem, não havia motivo para toda uma encenação, sou um livro aberto.

— É que viemos aqui falar sobre Ursel Hargroove, dr. Stevens — explicou Harley estudando o rosto dele, esperando uma reação de surpresa que, na verdade, não veio.

— Ursel? É claro, tudo bem, vamos falar, lembro-me bem dele. Na verdade, como esquecer um menino com esse nome, não é? Tão peculiar! — concordou, falante. De fato, ele era muito receptivo. — Sobre o que gostaram de tratar?

Eles, Harley e Eldric, não conseguiram evitar de trocar um breve olhar. Pelo visto o delegado Lenny e seus esforços de abafar a mídia sobre o caso eram mais eficazes do que pareciam.

— Dr. Stevens, Ursel Hargroove está desaparecido.

O sorriso no rosto dele se perdeu e uma mortalha pareceu cobrir a leveza de seus gestos.

— Como é...?

— Ursel desapareceu no dia trinta de agosto — acrescentou Eldric. — Desde então estamos investigando.

— Oh céus, que horror! — exclamou com as mãos apertando a cabeça. — Que horror! Que horror...

Eles aguardaram um minuto até que ele se recompôs.

— Bem... — A voz do homem saiu embargada pela súbita notícia. — Do que precisam? Quero ajudar!

— Mesmo?

— Sim. Ursel era um bom menino, obediente, que adorava vir aqui porque sempre dou uma bala aos meus pacientes no final... com baixo teor de açúcar, é claro.

— O que gostaríamos de saber é... Ursel costumava vir muito aqui?

Dr. Stevens pensou por um instante.

— Na verdade, não muito, o que significa uma coisa, afinal, por mais que eu goste de meus pacientes, os quero o mais longe daqui! — Um sorriso amarelo surgiu em seu rosto. — Puxa vida, como coisas terríveis acontecem tão de repente, não?

— Infelizmente — comentou a detetive. — Doutor, a verdade é que precisamos de toda informação que o senhor possa nos dar. — Os olhos dela brilharam para ele. — Estamos ficando sem saída, e creio que, um homem com toda a sua experiencia, deve saber o que acontece com um caso que não tem como seguir em frente.

Um bolo surgiu na garganta dele e foi difícil de digeri-lo.

— Detetive, eu realmente quero ajudar, mas... — Ela não gostou do tom. — ... creio que saiba que há o termo de sigilo entre médico e paciente. E eu, durante todos esses anos, me vangloriei por nunca o ter quebrado, nunca! Não posso começar agora...

— Não é verdade — protestou Eldric e Harley o encarou com surpresa, na verdade, ansiedade, pois não sabia se ele trilharia o mesmo caminho que ela estava tentando.

— Perdão?

— Assim que entramos, doutor, o senhor contou sobre as dores de garganta da srta. Youth. — Os olhos dele estavam sérios, diferentes do de Stevens, que se assustaram. — Três em cinco meses, não?

O pediatra balbuciou algo na tentativa de respondê-lo, mas antes que pudesse, Harleey interceptou-o, esticando sua mão sobre a mesa, tocando-o, atraindo seus olhos para os dela.

— Dr. Stevens, nós precisamos dessas informações. São elas que podem nos ajudar com o caso, de alguma forma... — Ela já sabia o que queria checar na lista de informações da garota, mas o homem ainda se mostrava relutante. — E é o senhor que pode nos ajudar, que pode ser o herói de Ursel!

Os olhos dele brilharam.

— Dr. Jacob Stevens, o homem que possibilitou o encontro de menino desaparecido — instigou a detetive com um sorriso. A arte de manipular exige jogo de cintura, e isso ela tinha muito quando queria. — Pense nas manchetes! O bem que o senhor fará voltará para você na forma de novos pacientes, doutor, novas possibilidades!

Seguiu-se um silêncio longo o bastante para ser excruciante e, quando ele foi rompido por Stevens, com o indicador em riste, não era o que a detetive queria ouvir:

— O termo de confidencialidade...

Mas a detetive o interrompeu ali mesmo, trocado um olhar com Eldric. O ego, depois de amaciado, tem que ser confrontado com o medo:

— As manchetes podem mudar, se preferir.

Ele a encarou sem nada dizer.

— Pode aparecer: médico se nega a ajudar investigação de menino desaparecido.

— Não... Não é bem assim — gaguejou sério, movendo o rosto de um lado para o outro. — Os senhores sabem....

— Sabemos que, se o senhor não nos der a informação que precisamos, agora, voltaremos com um mandado de intimação que o forçará a isso — retrucou Eldric sem deixá-lo terminar, um tom agressivo que fez Harley atentar-se a suas palavras tal qual o médico.

— N-Não pode ser... isso é ilegal...

— Não se houver uma justa causa e, nesse caso, o desaparecimento de uma criança convencerá qualquer juiz a acreditar que há — concluiu ele. Harley notou que realmente trabalhavam bem juntos quando pegou-se dizendo:

— Apreciamos sua posição em defender os direitos de seu paciente e o seu próprio, dr. Stevens, mas o caso é que... agora, isso será em vão.

O homem baixou os olhos, mas seus ouvidos não se tornaram surdos e ouviram perfeitamente quando ela disse:

— E quanto mais tempo perdemos, mais chances de Ursel estar morto.

...

Foi com relutância, porém, que Jacob Stevens imprimiu o histórico médico de Ursel Hargroove em seu computador, tristonho, sem seu sorriso de antes, ainda um tanto decepcionado consigo mesmo, ainda que tentasse dizer a si que estava tomando a decisão certa.

— Acredite, doutor, Sócrates o perdoará na hora de sua morte — brincou Eldric tentando fazê-lo sorrir e, de fato, conseguiu, porém os traços em seus lábios desapareceram rapidamente conforme a impressora cuspia algumas folhas para ele, que as folheou.

— Meu Deus... — A voz dele soou espantada.

— O que foi? — Harley ergueu uma sobrancelha.

— Bem, eu entendo a falta dessas últimas duas, mas... por que não tomou as outras?

— Dr. Stevens, do que está falando? — questionou Eldric impaciente, as pernas cruzadas e os braços apoiados na cadeira.

— E-Eu... eu até pediria para que avisassem a mãe do garoto, mas, na atual circunstância...

Harley não aguentou esperar e simplesmente apanhou os papéis das mãos dele, correndo os olhos rapidamente, não encontrando o perigo que tanto parecia alarmar os olhos do médico, esquecendo-se, por aquele momento, do que realmente iria procurar.

— O que o senhor descobriu?

— Ursel está com as vacinas atrasadas — explicou com feições tristes e preocupadas. — É meio irônico de se pensar nisso, agora, com o que me disseram que aconteceu, mas... ainda assim...

— Isso é verdade? — questionou Eldric.

— Veja por si mesmo, a tabela está aí, com todas as doses tomadas!

Eldric prestou mais atenção e procurou pela tabela, encontrando-a logo no topo da primeira página.

— Mas isso não faz sentido... Elena não deixaria seus filhos sem proteção.

— Talvez só a proteção divina já lhes bastasse — comentou Harley tentando não parecer sarcástica, porque realmente falava sério, pensando no fanatismo de Leonard, mas Eldric apenas lhe ergueu uma sobrancelha e dispensou a fala.

— Todo o tratamento das vacinas estava em dia até os nove anos, três anos atrás.

Então um estalo na mente de Eldric o fez se erguer da cadeira.

— Obrigado pela ajuda, doutor, já é o bastante.

...

— Eu espero que me explique o que aconteceu lá dentro! — vociferou ela quando saíram na direção da rua, o sol mais forte, ardendo sobre a pele, fazendo a mulher tapá-lo com a mão enquanto Eldric apenas recolocou seus óculos. — Heartland!

— O menino parou de tomar vacinas tem três anos, Harley! — respondeu irritadiço.

— E?

— Já se esqueceu? Elena Hargroove se separou formalmente há três anos!

O rosto dela pareceu relaxar diante a surpresa, os lábios entreabertos e os olhos vidrados no outro lado da rua, na direção de uma casa onde uma senhora de cabelos grisalhos cuidava das plantas em sua janela.

— Então se uma mãe que se diz perfeita negligencia a saúde do próprio filho... — A voz escapou conforme o pensamento se formava.

— É porque era o pai que realmente prestava atenção sobre isso! — afirmou ele mordendo o interior da bochecha.

— Sabe que é uma hipótese arriscada, Eldric — ressaltou por estar voltando a desconfiar de Elena mesmo tendo visto-a chorar.

— Sem mais formalidades? — zombou ele e, como resposta, ela lhe revirou os olhos, começando a andar pela calçada a caminho do carro, os saltos doendo em seus pés firmes. — Mas sim, eu sei disso, Harley. — Ele acelerou o passo para acompanhá-la. — Assim como sei que está desconfiando de Elena, o que gera um conflito de interesses, não? É por isso que anda com dificuldade em focar. Pode não querer admitir, mas há algo de bom dentro de você que sabe que é errado desconfiar de uma mãe cujo filho desapareceu.

Ela olhou para ele com um sorriso displicente, apático e cínico.

— Não é errado até que encontrem o responsável — retrucou, agora seus nervos ficando irritados, o sangue correndo tão rápido que pulsava nas veias.

— E é por isso que eu digo que, se acredita que há mentiras por detrás de Elena, seguimos com essa teoria, de ela estar envolvida.

Harley estudou-o por um momento.

— Você também está desconfiando dela...

Ele baixou o olhar e sacudiu a cabeça, ainda que estivesse anuindo com ela.

— Investigar é dar um tiro no escuro e tentar seguir seu rastro. — Ele voltou a entregar os papéis para ela. — Vamos seguir com essa teoria, porque se era o pai que lembrava das vacinas, então ela não é tão perfeita quanto tenta dizer que é, sem falar do escândalo dela e Mary na igreja...

Porém Harley captou apenas um fragmento daquela frase. Pai. A palavra queimou em sua mente e ela arrancou os papéis das mãos dele, focando os olhos nas informações pessoais, logo no começo, acima da tabela de vacinações, lembrando-se do que precisava se certificar.

— Harley, o que está fazendo?

E ela sorriu. A incredulidade varreu seu corpo e ela respirou fundo. O caso dava voltas e mais voltas, como um círculo infinito de mentiras, que ela começava a trazer à tona.

— Tudo bem, vamos seguir com essa teoria.

Heartland retirou os óculos e decidiu deixá-los de lado, cruzando os braços e estreitando o olhar para ela:

— O que descobriu?

A voz de Harley secou ao responder:

— Aparentemente, você estava certo, Eldric. — Os olhos dela arderam ao encará-lo. — Leonard não foi o único filho que Elena teve com o primeiro marido. 


*Mais de 5.600 palavras que eu AMEI escrever!!! Espero que tenham gostado tanto quanto eu!!! Não se esqueçam de deixar um voto e fazer um autor feliz ;D

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