Capítulo IV
Sexta-feira, 05 de setembro de 2014
Noite, 18h03
Harley Cleanwater estava sentada de frente para o bar do The Royal William Pub & Dining, passando o indicador sobre a borda de uma dose de Grey Goose que conseguira encontrar naquele lugar, quando Eldric chegou. A bebida não estava tão gelada, mas nas atuais condições ela não poderia reclamar, com os ombros curvados e o vestido azul grudado em seu corpo, respirando profundamente ao senti-lo sentando-se sobre uma das banquetas ao seu lado.
— Qual a parte do "eu não estou seguindo você" isso faz parte?
Eldric deu um risinho e apenas depois percebeu que havia pigarreado antes, nervoso enquanto batia a ponta dos dedos contra a superfície de madeira do balcão, as luzes amareladas esquentando o rosto, o piso de ardósia perfeitamente intocado mesmo com a reforma que fizeram, as paredes de pedra de Cotswolds ainda eram as mesmas desde 1950 e o serviço permaneceu com sua excelência desde o início.
— Sinto que... — Ele sorriu para ela e Harley ergueu uma sobrancelha, desconfiada evidentemente. — ...lhe devo um pedido de desculpas.
Ela considerou suas palavras com um dar de ombros, bebendo o restante de sua dose de uma vez, sentindo o calor subindo pelo corpo enquanto os músculos relaxavam.
— Veio aqui para me contar o que sabe?
— Quem dera. — O rosto dele ficou vermelho e ele coçou a nuca. — Na verdade, não sabemos de nada, Harley.
— A imprensa deve adorar saber disso — provocou ela, girando a banqueta na direção dele, as pernas dobradas enquanto a ponta dos saltos esfregava levemente o canto da canela dele.
— O que quero dizer, Harley, é que não confio no delegado Lenny... — Os grandes olhos azuis pareceram buscar alguma reação dela, mas a detetive era indecifrável e nem mesmo seus lábios tão avermelhados pareciam dispostos a lhe dar uma dica. — Mas...sinto que posso confiar em você.
E ela deixou escapar uma risada de verdade, que ecoou pelo salão quente, com suas lareiras desligadas, mas abarrotadas de lenha, próximas às mesas onde pequenos casais jantavam. Harley sentia-se como uma bactéria ali, a única que não estava acompanhada. Bom, ao menos não por alguém que ela quisesse.
— Decisão horrorosa, Sr. Heartland — respondeu com um leve considerar em seu olhar enquanto brincava com o copo cristalino. — Confiar em uma estranha...
— Que me disse a verdade.
Ela deteve-se por um instante, deixando o copo de lado, os cílios se agitando enquanto apoiava o rosto em sua mão direita, o cotovelo sobre o balcão enquanto o atendente limpava algumas garrafas.
— O que quer dizer?
Eldric deu de ombros, como se tentasse mostrar que não ligasse para nada.
— Ao menos não foi hipócrita, disse a que veio e... — ele a fitou diretamente nos olhos. — ...foi honesta.
Ela exibiu um sorriso com o canto dos líbios, analisando o modo como o maxilar dele se mexia, com pequenas fisgadas de nervosismo de quem mordiscava a bochecha.
— E há motivos para acreditar que quem você conheça não está sendo verdadeiro?
E o homem semicerrou o olhar, certo de que ela era perspicaz, vendo o modo como seus olhos brilhavam ao fazer perguntas que ela certamente sabia que eram incisivas e que o jogariam contra a parede.
— Se eu disser, você me conta algo que já saiba?
Harley disse que sim e acrescentou:
— Mas não espere grandiosidades, sei tão pouco quanto vocês, já que cheguei aqui há um dia.
— E já criou uma teoria de que os assassinatos estão conectados.
Ela coçou a ponta do nariz e sorriu, um tanto incrédula ao perguntar:
— Vocês realmente não chegaram a considerar isso?
Eldric bufou, os músculos dos ombros tentando relaxar enquanto ele acenava para o balconista para que lhe trouxe uma dose de vodca. Quando lhe perguntaram se queria nacional ou importada e ele disse qualquer uma, o espírito da detetive feriu-se.
— Claro que considerei, mas... — Algumas pequenas gotas de suor brilhavam em sua testa. — Sabe, Lenny tem razão sobre sermos uma cidade pequena no meio de montanhas e ele dizer que prefere não pensar nessa possibilidade para não instaurar o caos faz até que sentido, porém...
— Não acredita nele — concluiu ela estalando os lábios quando o homem atrás do balcão, com o cabelo preso em um rabo de cavalo e olhos profundos, serviu o detetive com uma dose escura em tons de mel.
— Não mesmo. — Eldric apanhou o pequeno copo de vidro e o entornou na boca, metade do conhaque descendo de uma vez por seu corpo, queimando e esquentando o seu interior. — Sinto que... há algo a mais por trás dele não querer que as pessoas pensem que Ursel Hargroove está morto.
— Talvez ele não queira que as pessoas percam a fé — considerou ela e, nesse instante a voz de Lenny ecoou na mente dele: peço que tenha fé em mim, Heartland. — A questão é, perder a fé em quem?
E Eldric já sabia a resposta:
— Nele.
A mulher ergue as sobrancelhas em arco.
— Acho curioso o quanto a fé envolve as pessoas nesta cidade.
O homem ao seu lado estreitou o olhar, brincando com sua bebida ao perguntar:
— Como assim?
— Parece que as pessoas daqui dependem demais em acreditar em algo.
Ele pareceu pensar por alguns segundos, um pequeno biquinho formado com a saliência do lábio inferior.
— Não é assim em...
— Castle Combe? — perguntou ela quando ele não conseguia se lembrar do nome da cidade.
— Isso!
— Na verdade, nem tanto.
— Mas por que parece surpresa, então?
— Porque aqui se tornou mais um lugar no qual as pessoas preferem viver em seus ideias de fantasia do que aceitar a realidade.
— Talvez a realidade seja fria demais.
— Talvez tenha que ser mesmo — retorquiu rapidamente. — É uma criança morta, Eldric, não é como se fosse um passeio no parque cancelado pela chuva.
Ele respirou fundo, o peito inflando naquela camisa apertada.
— Painswick é uma cidade antiga, com seus próprios hábitos e costumes. — Ele inclinou-se sobre o balcão, vendo-a de frente. — É difícil para qualquer um aceitar que isso está mudando.
— Quanto mais tempo levarem para perceber o perigo com que estão lidando, melhor para o assassino.
— E é por isso que vim até você.
Ela estreitou o olhar.
— Como sabia onde eu estava?
Eldric percebeu o modo como o corpo dela distanciou-se.
— Uma estranha numa cidade pequena. — Ele riu daquele contexto. —As pessoas falam mais do que deveriam, detetive, já deveria saber disso.
— Bom, então por que não me fala sobre a conexão entre Ursel e Lucas?
Ele pareceu surpreso com tamanha crueza com que ela lhe fez a pergunta.
— Fora que eram amigos de igreja? Não tem muito o que falar.
Ela deu de ombros.
— Parece que já sabemos o nosso próximo passo, então.
— Nosso? — ressaltou ele e ela revirou os olhos.
— Se ambos se conheceram e passavam tanto tempo lá, como eu sei que faziam, então é um ótimo lugar para irmos.
— Você quer interrogar um padre?
Harley sorriu maliciosamente para ele, endireitando a coluna, suas curvas alinhando-se com o movimento ao perguntar:
— Por quê? Tem medo de que ele revele seus pecados?
...
Noite, 18h51
Eles concordaram em irem juntos para a igreja, e Harley não conseguia parar de estranhar aquela ideia. Sua família nunca foi muito religiosa e talvez isso tivesse sido um fator em falta, pois talvez se tivessem algo a crer tivessem tido mais amor, quem sabe. Não. A mulher destruiu essa ideia no mesmo instante, sabendo que seu pai, Jim, apenas usaria a força superior para justificar seus erros.
Pega em seu devaneio, ela sentiu os ouvidos aguçarem-se conforme Eldric falava. Se esparrariam até a missa das seis horas acabar para irem conversar com o Padre Lewis, então ao menos poderia tentar aproveitar a comida que pediram; um tanto peculiar, ela ressaltou.
No balcão no qual ambos apoiavam os braços, havia sido lhes servidos um prato de peixe-espada frito, acompanhado de manteiga feita com gengibre e alho, o aroma da fritura e dos temperos atiçando-os e fazendo a boca salivar, acompanhado de batatas amaçadas e espinafre.
— Já tinha comido esse peixe? — perguntou ele, apanhando um dos cubos que ele cortara da carne que parecia se desmanchar com facilidade.
— Admito que não.
Ela esticou o garfo em sua mão e apanhou um pedaço, passando-o na manteiga tão tentadora e levando à boca, o sabor do oceano invadindo seu paladar enquanto o toque da manteiga se intensificava.
— Queria ter comido antes — disse Harley ao acabar de mastigar.
— Então diria que este é um bom primeiro encontro? — Eldric piscou para ela, um olhar travesso que a fez rir.
— Não sou esse tipo de mulher, senhor Heartland. — Ela apanhou mais um pedaço, girando o garfo sobre o espinafre.
— De qual tipo seria, então?
Ele virou-se, apoiando ambos os cotovelos na bancada, as pernas esticadas até o chão e um volume considerável no meio das pernas que ela já havia notado algumas vezes. Eldric sabia que ela estava olhando.
— Digamos apenas que não costumo ir a encontros.
— Então onde vai?
Harley sorriu com o canto dos lábios ao responder:
— Cenas de homicídio.
E isso arrancou uma risada sincero de dentro do peito dele, o que a fez rir também. Ou talvez fosse a segunda dose de bebida que ele pedira para ela? Okay, ela tinha de parar ali. E, como se ouvindo ao seu pensamento, ele perguntou:
— Quer outra bebida?
Harley engoliu em seco, os olhos rapidamente percorrendo as feições dele.
— Se está tentando me embebedar, senhor Heartland, já pode parar.
O homem pareceu ofendido, franzindo o cenho.
— Eu não... — Eldric ficou confuso, aturdido em seus pensamentos. — Juro que não era a intenção.
Desconfiada e sentindo as bochechas quentes, ela decidiu que era melhor interromper por ali.
— Acho que já deveríamos ir andando.
— Nem acabamos de comer. — Eldric sentiu o pescoço endurecer, cada músculo se retraindo. — Harley...
— Peça para embrulharem para viagem, então — retorquiu rispidamente antes de saltar de sua banqueta, as pernas firmes enquanto caminhava na direção da porta do pub.
...
Noite, 19h15
Quando Eldric saiu pela porta da frente, deparou-se com a figura da detetive a alguns metros de si. Fumava um cigarro esguio e a fumaça que escapava de seus lábios desaparecia pela noite, que se pintou de azul-marinho. Por um tempo, apenas ficou ali, observando-a como se a estudasse, a mente confusa e o corpo sem entender o porquê de estar suando tanto ou o modo como sua virilha parecia surpreendentemente quente enquanto a boca ressecava. Havia algo nela. Não que ele acreditasse que Cleanwater pudesse resolver o caso sozinha, mas estava vendo algo que.... certamente era raro, como se a motivação dela não fosse apenas o dinheiro, como ela havia admitido.
Assim que a mulher olhou por sobre o ombro com os cabelos tomados pela brisa e a pele ainda mais branca pelo luar, Eldric já havia retomado o seu caminhar, uma sacola de papelão nas mãos cheirando a manteiga e alho com alguns restos de peixe.
— Não pense em fumar no meu carro — advertiu ele e Harley arregalou os olhos, jogando a bituca no chão, pisando sobre ela, pegando-a rapidamente apenas para, em seguida, jogá-la fora numa lixeira ali perto.
— Achei que também fumasse.
— Nunca disse o contrário. — Ele começou a guiá-la por entre a fila de carros estacionados, parando atrás da viatura que fez Harley revirar os olhos, respirando fundo, entendendo o motivo dele pedir para que não fumasse.
Ela percebeu a súbita mudança no tom de sua voz, no modo como estava mais ríspido e menos acalorado. A detetive sentiu-se aliviada, afinal, se estava daquela maneira era porque ficara, de fato, ofendido, e isso levava a duas opções:
A) Eldric Heartland era um manipulador e sabia jogar com as emoções
B) Talvez ele realmente tivesse ficado magoado.
A segunda opção fez o estômago dela se embrulhar e o esôfago ardeu com a respiração, assistindo-o abrindo a porta do passageiro, colocando a sacola com comida no tapete emborrachado e convidando-a a entrar com um gesto de mão.
Harley respirou fundo. Okay, iria com a segunda opção.
— Não irá entrar? — Ele apanhou o celular em seu bolso e a tela iluminou seu rosto. — A missa acabou tem vinte minutos, já estamos atrasados.
...
A detetive sempre teve certo receio em dirigir na chuva, pois o carro parece adquirir vida própria em certas situações e decide estabelecer seu próprio diálogo com as poças de água, conversas essas tão fervorosas que resultavam em acidentes não tão incomuns. Naquela noite, ainda que não dirigisse, a hesitação vestia seu corpo assim como aquele vestido, porque a tempestade torrencial do lado de fora não parecia que encontraria seu fim tão facilmente.
— Tem medo de trovão? — zombou ele quando um raio cortou o céu e o estrondo repercutiu pelo ar. Na lataria do carro, os pingos pareciam pequenas esferas metálicas.
— Sabe para onde está indo, não sabe? — retrucou ela afastando o rosto do vidro.
— Você é a "forasteira", por aqui — alegou em brincadeira soltando as mãos do volante para sinalizar as aspas.
— Pelo amor, ao menos mantenha as mãos...
— No volante? Nossa, não achei que você fosse do tipo certinha mandona.
— Sou do tipo que prefere morrer de outro jeito, não num acidente de carro porque um garanhão arrogante se descuidou.
Eldric não pode deixar de rir, os olhos brilhantes tão qual a chuva prateada.
— Caramba, "garanhão"!? — A palavra realmente não havia sido das melhores. — Até parece que já viu o que eu tenho no meio das pernas. — E, depois da piada de mal gosto, ele ergueu as sobrancelhas em arcos, olhando-a de soslaio.
Harley não sorriu, preferiu permanecer inexpressiva quando replicou:
— Era a melhor forma de chamá-lo de animal.
O sorriso no rosto dele se desfez, de tal forma que Eldric só retornou a falar depois de dobrarem uma esquina:
— Não se preocupe, o carro, se eu o soltar, já deve até saber ir sozinho para a igreja.
— É mesmo? — perguntou apenas para afastar-se da própria quietude. Talvez fosse o álcool subindo até seu rosto e mente, mas, de alguma forma, a mulher relaxou no banco do passageiro, ainda que não tivesse soltado o cinto.
— Pode achar que nós, a polícia, não fizemos nada, e não vou culpá-la por isso, mas... é claro que fizemos os procedimentos. Análise, interrogatórios, pesquisas e estudo da autópsia...
— O garoto, Lucas... — interrompeu-o ela com a boca seca e os olhos notando o modo como as veias das mãos dele saltavam ao conduzir o carro, apesar de não fazerem esforço algum. — Ele não foi violentado, foi?
O ar do interior, severamente mais abafado que a atmosfera úmida de Painswick, pareceu condessar-se.
— Não. Não foi — respondeu sucinto. Aquele não era um assunto agradável, obviamente, porém Harley queria ouvir mais informações diretamente dele. — A autópsia não apontou nada anormal.
— E...
— Já tiveram algum caso assim em Castle Combe? — interpelou ele se encará-la. A detetive foi pega de surpresa e engoliu o que ia dizer. — Você é de lá, me disse isso, não? — Eldric insistiu com certo nervosismo na voz, uma impaciência que fez seu maxilar endurecer. — Como é a cidade?
Os lábios dela balbuciaram qualquer coisa sobre ser monótona e apática, com pessoas sem graça e onde nada acontecia. Claramente Harley optou por uma via mais delicada, porque o modo que ela descreveria a cidade — tá mais para vilarejo — de onde vinha, apesar de toda a paisagem bucólica e as flores, continuava apenas um pedaço de terra de sujeira, concreto e rochas, onde as cortinas, quando não estão fechadas, revelam rostos que te espiam por detrás das janelas. Um lugar corrosivo a ela, tanto quanto sua própria personalidade.
— Não parece um lugar tão ruim. — Ele diz quando para num cruzamento.
O modo como sua voz emana... Harley nota que há, sim, algo por trás daquele pavor em comentar o assunto; é estranho, e atingiu o corpo dela também, sufocando seu peito, e o melhor a fazer, no momento, era deixar o assunto de lado.
Porém não esquecido.
— Estamos chegando? — indaga ela esfregando a janela, embaçada por suas respirações mornas.
— Não consegue ver a torre? — O longo indicador de Eldric aponta para além da frente do carro, o qual já desacelerava.
Com uma chuva daquelas, onde o próprio vento canta, não dá para ver tão longe, e as gotas que escorrem das pesadas nuvens cinzentas tornam-se cortinas tão traiçoeiras quanto a névoa da manhã, que esconde os buracos das calçadas e os tornam armadilhas aos passos vacilantes de um velho; porém Harley conseguiu ver o que Eldric apontara: parecia uma espécie de agulha negra, que rasgava o céu da noite, de onde a água escorria desesperadamente até estourar no gramado.
O carro deu a volta na entrada e estacionou na frente da igreja. Eldric debruçou-se sobre o banco e apanhou um guarda-chuva, abrindo a porta e segurando-a com o pé conforme erguia e desabrochava os espetos metálicos.
Puxa, que cavalheiro, ironizou ela conforme assistia-o contornado o automóvel, quase escorregando, para alcançar a porta onde Harley estava.
Assim que a passagem se abriu, o ar frio invadiu o quente e gelou o pescoço dela, os pulmões inflando-se por entre o refrescar naquela coluna seca formada pelo guarda-chuva, a mão dele segurando o cabo com firmeza à medida em que subiam os degraus em direção à aduela do frontispício.
A porta estava fechada e a aldraba de metal recebeu os dedos de Harley com delicadeza conforme ela batia-a contra a madeira.
Logo que Eldric fechou o guarda-chuva e acionou o alarme de seu carro, respingos da chuva gelada bateram contra eles quando uma rajada de vento se lançou contra a igreja, a água pairando nos fios curtos do cabelo da detetive, que sentiu uma gota em específico cair dentro de suas costas.
— Tem certeza de que alguém fica aqui? — questionou ela.
— Já estávamos atrasados antes mesmo de entrar no carro — retrucou ele com um dar de ombros e Harley sentiu-se nervosa por ele ter razão. — Podem estar dormindo.
Irritadiça, a mulher girou nos calcanhares, porém no mesmo momento um rosto esquelético e enrugado apareceu por detrás da porta, aberta apenas alguns centímetros, sem um corpo aparente. Harley poderia jurar que a cabeça flutuava.
— Posso ajudá-los? — A voz soou quase muda em meio à tempestade.
— Meu nome é Harley Cleanwater, e este aqui é o detetive Eldric Heartland. — Ela apontou para trás e o detetive fez um aceno de cabeça. A mulher cadavérica não pareceu impressionada. — Precisamos falar com o Padre Lewis.
A porta se abriu um pouco mais e — para alívio da detetive — a barra da batina da mulher esvoaçou pelo cimento da entrada. Ela não estava sem corpo, apenas vestia algo tão escuro que se perdia entre as sombras.
— Ah, eu sinto muito, queridos, o Padre Lewis já foi se deitar já que a luz caiu pela região. — A figura era baixa, magrela, de tal forma que o tecido parecia vesti-la e não o contrário, porém seus longos cabelos secos, quase como palha e no mesmo tom, marcavam a altura de sua cintura. — Podem voltar amanhã de manhã.
A senhora aparentava estar por volta de seus cinquenta e poucos anos, e Harley pensou se seria errado empurrá-la para trás no instante em que fez menção de fechar a porta na cara dela. O pé da detetive a impediu.
— Estamos aqui para falar sobre o desaparecimento de Ursel Hargroove e o assassinato de Lucas Yard.
Então, ao ouvir aquela frase, o rosto sereno da freira se desfez numa carranca pesada e fria, as rugas tornando-se fendas numa rocha velha que se escondia por detrás da madeira.
— Sinto muito, detetives — recomeçou ela sem fraquejar, as mãos fincadas na maçaneta. — Porém, como eu disse, o Padre já foi se deitar.
— Tenho certeza de que não vou atrapalhar o sono de beleza dele — retrucou a detetive, insistente. — Se bem que você precisa de um.
— Harley... — susteve Eldric em um alerta. Ela sorriu com os lábios colados, sarcástica.
— Acorde-o — ordenou Cleanwater firmando o pé ainda mais contra a madeira que a mulher insistia em deixar no caminho. — É um caso policial.
— A senhorita não é da polícia — ponderou com os olhos atentos e Harley ergueu uma sobrancelha ao responder:
— Mas ele é. — A mão dela apontou para Eldric por sobre o ombro.
— Olhe, entendo que é uma ocasião muito alarmante e que a perda de dois garotos é devastadora, porém...
— Que eu saiba, apenas Ursel ainda está "perdido". — O rosto da detetive esquentou impacientemente e a boca secou. — Lucas Yard já teve seu corpo encontrado porque a incompetência das pessoas dessa cidade parece ser tão grande a ponto de impedir uma investigação. De retardá-la. — Harley inclinou seu rosto para frente e quase tocou o nariz da freira. — Então, me diga, há algo por trás dessa porta que você não quer que eu veja?
O olha frio da freira não se absteve e pareceu enfrentar a detetive. As Irmãs não deveriam ser gentis?
— É justamente pela morte de Lucas que digo que é melhor voltarem amanhã. O Padre Lewis está cansado, pois auxilia as pessoas a enfrentarem seus piores pesadelos. Ele as ouve e as ajuda. É por isso que sugiro que voltem pela manhã. — O rosto dela abriu-se em um sorriso amarelo. — Ele estará mais do que disposto a atendê-los.
Eldric deu um passo e aproximou-se do corpo da detetive. Ela olhou para ele e essa simples troca de olhares já o fez entender o que Harley estava prestes a causar.
— Que tal? — finalizou a freira.
Harley, com toda sua incredulidade e acidez, voltou o rosto na direção da caveira humana, umedecendo os lábios e um sorriso ao falar:
— Que tal agora? — Porém, ela não esperou resposta alguma, empurrando seu corpo contra a madeira e assistindo à freira cambalear para trás, assustada, aturdida, os olhos piscando rapidamente conforme ambos entravam. — Padre Lewis!? — chamou a detetive aos berros, caminhando pela escuridão, adentrando os bancos, olhando para cima, procurando por alguém por entre os feixes de luz oblíqua que passavam os vitrais.
— O que acha que está fazendo!? — A Irmã seguiu-os com pressa, a voz repreendendo-os num sussurro. — Fale baixo! Há mais pessoas que dormem aqui!
— Então vamos acordar todas! — replicou. — Esse caso é a porra de um assassinato, não um cachorro desaparecido!
A freira deteve seu caminha engolindo em seco, tão diferente de Eldric, que sorria, os olhos na direção de seus pés e a bochecha quente. Caramba, que mulher!
— Padre Lewis! — gritou novamente e o ranger de uma porta se abriu no andar de cima, nos bancos elevados que davam uma vista perfeita do púlpito e de todos que assistiam as missas no primeiro piso.
— Irmã Minerva, mas o que está havendo? — perguntou a voz calma e serena do homem que Harley encontrara logo no primeiro dia em que chegara. Ao menos, agora, já sabia o nome da freira mandona.
— Desculpe, Padre, há duas pessoas que gostariam de vê-lo — admitiu Minerva com certa vergonha, ou talvez fosse uma urticaria.
O velho materializou-se no alto, ajeitando as mangas do roupão que usava sobre um pijama de seda azulado apenas para se aproximar com uma vela em sua mão, como uma única estrela em todo aquele mausoléu escurecido.
— Quem são? — Lewis estreitou o olhar. A luz que carregava não lhe permitia ver coisa alguma.
— Sou a detetive Harley Cleanwater — apresentou-se para caso ele não lembrasse. — Estou aqui com Eldric Heartland, da polícia de Painswick. — Ela não conseguiu evitar que um sorriso afiado se formasse na direção da freira. — Viemos lhe fazer algumas perguntas.
...
Era uma bela sala, Harley tinha de admitir, com uma elegante lareira defronte às janelas de guilhotina, muito bem fechadas e contendo os pingos grosseiros que se esgueiravam pelo vidro, forrado por um tapete antigo, até mesmo poeirento, com prateleiras presas às paredes, sustentando livros e mais livros, além de porta-retratos com fotografias sorridentes, que pareceram perder o sorriso quando ela entrou, assim como Leonard Hargroove fez.
— Leonard? — Harley franziu o cenho e assistiu aos homens adentrando o escritório do padre. — O que faz aqui?
O garoto tinha olhos profundos, bem mais do que sua mãe, que não se surpreenderam ao vê-la ali, e os cabelos desciam em ondas sedosas até um pouco abaixo das orelhas, os braços largados como mangueiras vazias sobre as pernas cobertas pelo pijama listrado em branco e prata. Para um menino de quatorze anos, era incrivelmente alto, de tal forma que as pernas pareciam maior do que o restante do corpo.
— Leonard — chamou o padre por detrás dela e o rosto do garoto pareceu se iluminar, erguendo-se de imediato. — Já está melhor? Acha que consegue voltar a dormir? — A voz de Lewis emanava carinhosa e aveludada, realmente acolhedora, então Harley decidiu permanecer quieta para ver sobre o que eles falariam.
— Sim, padre — respondeu com um sorriso de lábios colados.
— Mesmo?
— Aham! — O menino sacudiu a cabeça de cima a baixo. — Acho que vou voltar ao dormitório, então.
— Faça isso, meu jovem — o velho anuiu à ideia e Leonard tratou de encaminhar-se até a porta, porém não sem ates olhar de relance para a detetive, de tal forma que ela sentiu como se tivesse invadido uma conversa particular. — Sentem-se — convidou Lewis depois de sentar-se por detrás de sua mesa, colocando a vela ao seu lado.
— Pedimos desculpas pelo incômodo, padre — começou Eldric —, porém sabemos que irá compreender devido às agravantes da atual situação.
— É claro, é claro! — Ele nem pareceu protestar. — Irmã Minerva, poderia trazer um pouco de água para nossos convidados?
A detetive lembrou-se de que a freira ainda estava ali quando ouvia-a responder:
— É claro. Gostariam de água gelada ou sem gelo? — perguntou, porém o padre a corrigiu de imediato com uma risada:
— Com nosso problema de luz, terá de ser natural mesmo. — Os olhos dele brilharam quando ela saiu, refletindo o laranja da vela. — Essa tempestade... devem ter algo muito preocupante para virem tão imediatamente para cá! — supôs ele para desgosto da detetive, a qual respondeu:
— Uma criança morreu.
O sorriso no rosto dele se desfez.
— Infelizmente...
— E outra está desaparecida.
A atmosfera pesou sobre o velho.
— O que a detetive Cleanwater está tentando dizer é que precisamos repassar algumas perguntas que já lhe fiz, padre, para vermos se o senhor lembra de algo novo ou... — Eldric sentiu as palavras travarem em sua garganta quando a mulher fuzilou-o por tê-la interrompido — ou...quer dizer para.. — Ela ergueu uma sobrancelha e desafiou-o a finalizar — para termos uma na perspectiva sobre o caso.
— Ah, pois bem, posso...
— Pode começar me falando o que Leonard Hargroove fazia em seu escritório? — interpelou ela com os braços cruzados.
Os homens se entreolharam, atônitos pelo modo abrupto com que ela fez a pergunta.
— Bom, como a senhorita falou, Lucas Yard está morto e, por mais que eu tenha esperanças de que Ursel Hagroove terá um fim diferente... é... — O padre gesticulou com as mãos enrugadas, o felpo do roupão seguido o movimento — ... difícil, sabe, para os familiares... não considerarem, ao menos, a hipótese de o pobre garoto também estar morto.
— Mas por que ele estava aqui?
O padre endireitou-se.
— Perdão?
— Já são quase nove da noite e a irmã Minerva nem ao menos queria nos deixar entrar, porém, de alguma forma, o garoto estava aqui dentro, em seu escritório. — A voz escapou incisiva e claramente amarga. — Por quê?
— O garoto anda tendo pesadelos, Srta. Cleanwater — respondeu com honestidade. — É meu dever, para com a palavra do Senhor, acalmar sua alma tão jovem e aflita.
— Realmente, muito jovem — ressaltou a detetive certamente cética. — Não consigo imaginar adolescentes em Castle Combe indo à igreja por conta própria.
Aquilo, de alguma forma, fez o idoso sorrir. Parecia orgulhoso.
— O Padre Lewis fez algo que muitos outros não conseguiram — falou Eldric inclinando-se para o lado, sentindo o perfume barato da mulher. — Uniu muitas pessoas.
— Ah, é mesmo? — quis saber ela com descrença, jamais perdendo contato visual com o padre.
— Acredito que seja algo muito bom incentivar os jovens a frequentarem a igreja — acrescentou Lewis, olhando-a com um sorriso largo que aprofundou suas rugas. — Então faço diferentes programações para atraí-los.
— Tipo?
— Organizo pescarias no período de páscoa, retiros, festas do pijama.
— A pescaria é algo muito concorrido por aqui. — Eldric afirmou com um gesto de cabeça.
— E onde estão os outros jovens?
Ambos os homens pareceram confusos.
— Perdão?
— Ora, se Leonard Hargroove está de pijamas e na igreja, acredito que veio para uma festa do pijama, não? Porém não seria uma festa com apenas vocês dois e aquela freira assustadora.
O rosto do velho tornou-se severo e perdeu qualquer leveza, como um professor que quer ser levado a sério num dia de prova.
— Leonard precisou dormir aqui pela tempestade e a queda de luz, senhorita Cleanwater, não foi nada planejado, admito — explicou. — E, perdoe-me, porém o que disse a respeito da Irmã Minerva?
— Que ela é assustadora — replicou sem rodeios e o padre não pode evitar um sorriso amarelado.
— Quis dizer antes disso.
— Não me lembro.
— Disse que a Irmã não queria nos deixar entrar.
Harley arregalou os olhos. Verdade, havia dito isso.
— Mesmo?
— Foi.
Nesse exato instante, a figura cadavérica ressurgiu com uma bandeja metálica e dois copos de vidro preenchidos por água. Um deles tinha a borda rachada, e foi esse que Harley deixou que Eldric pegasse.
— Irmã Minerva, é verdade que não ia deixá-los entrar?
Harley esperou que a mulher tremesse ou então mostrasse algum sinal de medo, por estar sendo educadamente repreendida, porém nada disso aconteceu e, depois de colocar a bandeja debaixo do braço, ela simplesmente respondeu:
— O senhor já estava terminando sua conversa com o garoto e havia dito que estava cansado, apenas pensei que seria mais prudente pedi-los para voltarem pela manhã.
— Mais prudente? Nesta tempestade? — Como se a natureza esperasse por aquela fala, um trovão cortou o ar. — Deveria tê-los convidado a entrar, não se pode negar isso a alguém nessas situações.
— É, que feio, irmã Minerva! — zombou a detetive com um sorriso sarcástico, sem exibir os dentes, antes da freira olhá-la de soslaio.
— Bom, de qualquer forma, em um ponto ela estava certa: estou deveras cansado e agradeceria se pudéssemos conversar direito pela manhã.
— Eu... — A detetive fez menção de falar algo, porém Eldric repousou sua mão sobre a dela e ela se deteve.
— Passem a noite aqui, na igreja, podemos arrumar dois colchões para vocês.
Harley esgueirou sua mão da dele.
— Padre Lewis, agradeço o convite, porém quanto mais rápido fizermos as perguntas, mais rápido iremos embora.
— Entendo isso, detetive, mas com o cansaço que estou... posso não lembrar tanto quanto depois de uma boa noite de sono.
Irritada e — por amis que odiasse admitir — também um pouco exausta, a detetive se ergueu num salto, recusando-se a olhar para Eldric.
— Onde ficam os quartos? — perguntou nervosa.
— A irmã Minerva irá levá-los até eles.
...
Terça, quarta e sexta.
Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta.
Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta.
Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta.
Essa frase ressoava pela mente de Harley como um cântico divino, apesar que a mulher certamente o descreveria como um ruído infernal, porque aquela linha de informação descia em espirais por seu corpo de tal forma que suas entranhas se embrulhavam com a memória do rosto de Leonard. O garoto estava abatido, certamente mais magro do que já fora, e carregava uma seriedade no olhar que não deveria ser vista em um adolescente.
A morte havia entrado em sua vida, por mais irônica que seja essa antítese, cedo demais.
Os quartos ficavam próximos à capela e bem de fronte ao confessionário, o qual, ainda que por entre as sombras, parecia perceber que Harley estava ali., entrando de cabeça baixa naquele cubículo onde conseguiram enfiar duas camas de mola, uma mesinha de cabeceira e um único abajur, que teve de ser dispensado e trocado pela vela que a Irmã Minerva deixou a eles antes de retornar a seus aposentos caminhando pela completa escuridão.
Aquilo deu um calafrio no corpo de Harley, porque, por mais que não pudesse ser considerado de fato uma fobia, ela tinha suas ressalvas quanto a andar no escuro.
— Não vai falar comigo? — perguntou Eldric já deitado, as molas rangendo com seu corpo e os sapatos caindo dos pés.
— Não temos o que falar — retrucou ela também descalça, sentindo as roupas um pouco molhadas tocando o lençol.
— Sabe...
— Vamos dormir, Heartland.
Ele deteve-se com o cenho franzido, fitando o teto que não sabia quantos metros estava acima de sua cabeça.
— Eu só queria ajudar.
— Pode ajudar não defendendo o Padre — vociferou fitando o perfil do rosto dele.
— Como é?
— Não houve imparcialidade alguma, senhor Heartland. Você estava do lado dele...
— Não estava não. Só quis deixar claro que ele fica bastante à vontade tanto com os adolescentes quanto com os adultos da congregação.
— E acha que fez isso de uma maneira impessoal?
Ele não respondeu.
— Vamos dormir e, quem, sabe, quando acordar, consiga realmente decidir o que vai fazer.
Então, apesar de ouvi-lo ressonar nos minutos seguintes, Harley Cleanwater demorou a dormir.
Terça, quarta e sexta.
Terça, quarta e sexta. Terça, quarta e sexta.
Eram esses os dias em que Leonard Hargroove ia para a igreja e, em nenhum momento, Elena falou que o filho passava a noite ali. Mas o que mais incomodava a detetive, e o que ela não conseguia afastar de sua mente, era o fato de que eles estavam numa quinta-feira.
*MAIS DE 5.900 PALAVRAAAAAAS!!! Gosto muito desse capítulo, pois me esforcei bastante para descrever o cenário em que estavam indo e como a relação de Harley e Eldric não necessariamente começou bem kkk espero que tenham gostado tanto quanto eu!!!
*Ah, não se esqueçam de votar, hein!!! Meta de 250 leituraaas para o próximo capítulo ser postado antes de terça-feira :D
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