Capítulo I
Duas semanas depois...
Quinta-feira, 04 de setembro de 2014
Manhã, 06h31
Amenos eram os ventos do início de outono, que afagavam os cabelos tom de ébano da detetive. Gotas de uma garoa quase invisível ao olhar formavam teias brilhantes sobre os fios, os quais se moviam conforme o caminhar firme, os pés cobertos por sapatos de plataforma, as pernas justas numa saia de seda tão escura quanto a bolsa em seu braço, destacando o contorno de seu busto numa camisa branca que, caso ela não se cobrisse, viria a se tornar transparente.
Harley Cleanwater mantinha os olhos fixos nas casas à sua frente, que observavam os homens com olhos taciturnos, julgando-os com suas luzes amareladas assim que a noite dominava os céus. Ela não podia negar que a vista era muito similar à de Castle Combe, a cidade de onde vinha. Eram quase as mesmas construções, mas eram feitas com suas pedras tom de mel, um tipo de calcário que os deixou famosos, com famílias tão antigas quanto elas, flores e mais flores em vasos de barro decorando as entradas e os vastos campos eram tão amplos e retilíneos que a visão parecia se tornar infinita se não fosse por uma única construção que se elevava acima de todas.
A mulher teve certeza de que era para lá que deveria seguir.
Mantendo um cigarro entre os dedos e, em curtas momentos, o levando até os lábios, sentindo a fumaça preenchendo seus pulmões, ela considerou se toda aquela viagem iria valer a pena. As mulheres da pequena e fria Painswick encaravam Harley, julgando-a com seus olhos exageradamente redondos, a pele com as rugas sempre ressecadas. Se era para ser julgada, não precisava ter saído de sua cidade.
Quem é essa prostituta? Harley podia praticamente ouvi-las perguntando isso com a voz carregada de conservadorismo e, talvez, um tanto de aversão ao diferente. Painswick é uma cidade de Stroud de pouco mais de três mil habitantes que faz parte do condado de Gloucestershire. Não se poderia esperar muito e tudo isso pouco importava à mulher; apenas o seu trabalho era importante naquele momento. Sim. Se focasse naquilo, sua mente se distrairia das provocações costumeiras.
Não que Harley estivesse ansiosa para o seu trabalho, longe disso, mas a ideia de conseguir dinheiro a alegrava. Precisava manter seu escritório em Castle Combe, então aquele caso poderia ser de grande proveito.
Antes de ir para lá, ela se preparou psicologicamente, afinal não é todos os dias que se trabalha com um caso de um menino de doze anos desaparecido e um menino ainda mais novo - de dez anos - morto. Harley já podia imaginar todas aquelas mulheres chorando, seus lenços caros sendo usados para enxugar falsas lágrimas de consentimento que para nada serviam se não para piorar o estado de uma mãe que perdera sua criança.
Passando pela Saint Mary's Street, Harley cobriu-se com seus próprios braços, abraçando as laterais do corpo. Já era possível observar o frondoso jardim da Painswick Church, uma construção antiga, baseada num estilo de rococó gótico no qual Harley pode imaginar claramente demônios sobrevoando a pequena cruz que havia no topo da torre. Quando procurara por mais informações de onde iria se meter, Harley descobriu que o jardim daquela igreja fora projetado minuciosamente, com suas noventa e nove árvores arredondadas, uma intervenção do homem, talvez. Não. Talvez a terra fosse tão sagrada naquele local que as árvores cresceram daquela forma, ironizou ela em pensamento.
A área era contornada por um baixo muro de tijolos, o que não facilitou a vida dela, fazendo-a dar uma volta completa para chegar à entrada, onde um abarrotado de mulheres se reunia, fervorosas e, previsivelmente, com lágrimas nos olhos. Talvez fosse a frieza expressa na pele pálida da mulher que fizera todo o grupo encará-la. Ou talvez fosse apenas seu par de óculos de sol em meio à palidez do céu. Ela respirou fundo e os retirou, seus grandes olhos castanho-chocolate observando uma das mulheres, gorda, com um chapéu inconveniente para o momento. A mulher usava um longo vestido amarelado e cheio de flores: seus olhos repousaram sobre o cigarro dela.
— Procuro por Elena Hargroove — anunciou ela, sabendo que detinha toda a atenção em si mesma, mas nenhuma das mulheres a respondeu, apenas se viraram e caminharam para dentro da igreja. Seria um longo dia.
Harley tragou uma última vez antes de lançar a bituca contra o asfalto e caminhou pelo pequeno trajeto de pedras que levava à porta da igreja de pedra, que acolhia a todos com um vento frio e uma má iluminação que fez os olhos da mulher doerem.
Havia duas fileiras com bancos envernizados, ocupados por inúmeras pessoas. Com a economia dos ornatos, a ênfase na decoração reduziu-se aos elementos principais, como: retábulos, arcos do cruzeiro e o púlpito. Harley sentiu seu corpo esquentar ao parar na parte de trás da igreja, na direção oposta à nave, onde um padre estava de pé, ao lado de uma mulher de vestido roxo de mangas curtas. Aquela deveria ser a Elena, próxima a grinaldas de flores, palmas e palmetas, conchas, rocailles e os ornatos de contornos curvos e sinuosos em composições amplamente assimétricas.
— I-Irmãos — começou ela com um gaguejo. Tinha uma voz doce. — Sabem o porquê de estarmos aqui. — Ela fungou. Harley se preparou para ver as lágrimas dela começarem a escorrer. — Um monstro está atacando nossos garotinhos.... — Ela fez uma pausa, sentindo sua garganta fechar e as palavras travando no céu da boca. — Mas não podemos nos deixar abater. Precisamos pedir a Deus para que ele nos ajude, que nos guie ao caminho de nossos meninos... não vamos deixar que Ursel... — Ela parou, encarando uma mulher loira sentada na primeira fileira. — Não vamos deixar que Ursel tenha o mesmo destino que Lucas. — Ela disse por fim, aliviada, abrindo bem os olhos e fitando o teto, como se uma faca acabasse de sair de seu estômago e ela visse a luz do senhor.
Uma mulher de cabelos dourados se levantou e apontou para Elena, gesticulando raivosamente enquanto falava:
— Vá se foder, Elena! — berrou e Harley se surpreendeu por ouvir aquilo dentro de uma igreja, erguendo uma sobrancelha, sem nem ao menos saber que anos depois viveria uma situação muito semelhante. — Você é tão ruim quanto quem os levou. — Então a mulher de cabelos dourados se virou, revelando seu rosto arredondado para Harley enquanto apanhava uma bolsa amarronzada e saía de forma apressada pela porta da igreja. Ela nem ao menos percebera que Harley estava ali.
A mulher no púlpito endureceu e suas bochechas queimaram em tons de vermelho conforme o restante do corpo pareceu empalidecer, até mesmo os fios loiros pareceram alcançar o tom de palha seca. O padre, uma figura alta e de olhos dóceis, com mãos suaves e um nariz de gancho, falou algo em seu ouvido.
— Temos de ser fortes, irmãos. — Ela terminou por entre o pigarrear, descendo do altar e indo em direção ao lugar, agora, vago no primeiro banco.
...
Elena estava do lado de fora da igreja em poucos minutos, conversando com uma mulher baixinha, de vestido preto e cílios compridos, o rosto já havia retomado a cor normal e o modo como articulava não mostrava resquícios de constrangimento algum. Harley se aproximou, passos suaves enquanto respirava fundo.
— Elena... — Ela começou a dizer, lembrando-se do foda-se que fora dirigido a ela minutos atrás.
— Sim? — A mulher se virou, as feições assemelhavam-se a uma fuinha, com pequenos olhos assustados e bem expressivos e um nariz achatado que se alongava pelo rosto. — Está participando das buscas? — indagou.
— Buscas...?
— Pelo meu Ursel — ela se moveu, revelando uma pequena bolsa de couro ao lado do corpo, de onde tirou um panfleto amaçado, mostrando a foto de um garoto sorridente, cabelos castanhos e olhos idênticos aos da mãe. Nele, estava escrito:
Ursel Hargroove
Idade: 12 anos
Desaparecido desde Sábado, 30/08
Visto pela última vez perto do asilo Richmond Village, vestindo short jeans e regata azul.
Informações: 432-8588
— Não, não estou aqui pelas buscas — respondeu com as palavras secas em sua boca, sentindo os olhos ardendo com o sorriso inocente de um garoto desaparecido.
A expressão de Elena se fechou e suas sobrancelhas se alinharam conforme abaixava o panfleto.
— Então a que veio?
Harley respirou fundo e cruzou os braços.
— Cheguei a pensar que a mulher que me contratou me reconheceria. — Sua voz seca a fez recuperar suas forças. — Sou Harley Cleanwater, sua detetive particular.
A boca da mulher se escancarou e depois assumiu a forma de um sorriso largo e melancólico.
— Senhorita Cleanwater! — A mulher a abraçou. Harley não retribuiu o movimento, ainda atônita com o movimento enquanto as madeixas loiras esfregando sob as narinas dela. – Achei que viesse apenas semana que vem.
Harley ergueu uma sobrancelha. Era incrível o fato das pessoas tentarem desviar seus erros com uma justificativa plausível.
— É uma pena que tenha de estar aqui, mas não tive outra alternativa... — A mãe afastou-se para alívio da mulher, começando a mexer num colar de corrente de ouro branco que estava usando, o indicador contornando seus desenhos abstratos. Harley nunca teria dinheiro para comprar uma joia assim. — Os oficiais daqui, se me permite dizer, são um tanto incompetentes.
— Não me importo com o que diga, senhora Hargroove. São as suas opiniões, não as minhas. — Harley retrucou, querendo que ficasse bem claro que ela não estava ali para ser seu novo ombro amigo.
Elena tentou manter o sorriso amarelado, medindo Harley com os olhos, julgando-a. De repente, ela agarrou a mão da mulher e a puxou para perto de um homem alto, vestido com tecidos etéreos.
— Padre Lewis — chamou a loira e o homem se virou.
Agora, um par de olhos castanho-escuros as encarava. Ele tinha um rosto quadrado, que já beirava os sessenta anos, com alguns fios grisalhos em meio a um amontoado escuro, as sobrancelhas falhas, além de algumas pintas escuras em sua testa, que parecia não ter fim devido à calvície. Seu corpo magrelo estava protegido por uma batina, preta, significando a morte como destino de todos, com seus trinta e três botões perfeitamente polidos e suas cinco abotoaduras, com seu amito arroxeado cobrindo seus ombros e servindo de conjunto para as vestes de Elena. Assim como a túnica branca que cobria toda a sua figura e lhe dava forma alguma, seus olhos passavam calmaria e Harley sentiu que aquele seria o único homem que não tentaria comê-la naquela cidade.
— Esta é Harley Cleanwater, está aqui para ajudar a encontrar o meu Ursel... — A mãe terminou, exibindo Harley como se fosse um troféu, um prêmio ganho na medíocre feira de ciências da cidade, empurrando com a mão esquerda em sua cintura. Harley franziu o cenho e fitou-a com desaprovação, mas Elena não perdeu o sorriso, apenas sentiu o nervosismo em seu corpo.
Enquanto o padre falava com sua voz mansa e aveludada, a detetive apenas pôde imaginar toda a vida de Elena. Primeiro, ela frequentara uma escola cara, mas que tinha professores medianos. Deve ter namorado três garotos, mas já havia sido comida pelo primeiro atrás de uma estante abarrotada de livros empoeirados da biblioteca que ninguém visitava. Ele havia gozado depois de alguns minutos e ela nunca sentiu um orgasmo.
Depois, antes de entrar na faculdade de direito tão desejada por seus pais, ela conheceu seu marido, que a convenceu a encher a cara e a dormir com ele. Resultado:
A) viveram felizes para sempre
B) se divorciaram em dois anos.
Elena acabara escolhendo a opção B, mas não sem antes dar à luz a um filho de cabelos chocolate igual aos do pai. Depois, num bar qualquer, ela conheceu um homem encantador. Agora, com a cabeça mais madura, ela decidiu não dormir com ele no primeiro encontro. Depois de alguns meses, eles oficializaram o casamento e, passando-se de dois anos, tiveram um filho: Ursel, que agora estava desaparecido.
— É muito bom saber que esteja aqui, senhorita Cleanwater. — O padre estendera sua mão enrugada para ela ao finalizar, sorrindo com os lábios colados. Harley agitou os cílios e o cumprimentou. –— Como está nosso Leonard? Ainda virá na quarta-feira? — O padre se dirigiu a Elena, ignorando Harley logo em seguida.
— Está melhor... sabe, é muito difícil aceitar que Ursel não está mais em casa. — Ela fungou. Harley previu mais lágrimas. — Mas nós vamos encontrá-lo, tenho fé nisso.
— Deus irá nos ajudar, Elena.
Ela não respondeu à certeza do padre, apenas segurou suas mãos com forças e as sacudiu no ar, torcendo para que conseguisse acreditar naquilo.
Depois de sair daquele terreno esplendorosamente melancólico e manchado de lágrimas de mulheres, Harley não conseguia parar de pensar que havia acertado no fato de Elena ter dois filhos.
...
Tarde, 12h00
Com um pedido caloroso, a mãe desolada convidou Harley para almoçar num restaurante próximo ao terreno da igreja, de janelas com margens cor de âmbar e uma porta em arco. Uma mulher alta de vestido preto as guiou por entre as dúzias de mesas pálidas, que pareciam levantar uma névoa discreta sobre o local. Harley se sentara numa mesa próxima a uma das janelas, não porque a mulher as levara até lá, mas sim porque ela desejara ter uma vista da rua pouco movimentada naquela quinta-feira.
— Seria ótimo. — Elena respondeu quando a mulher a perguntou se desejariam olhar a carta de vinhos. Os cabelos loiros da mulher estavam jogados para trás no momento em que ela apanhou a carta de vinhos da mulher, que se despediu, dizendo que um garçom já viria atendê-las. — O que gostaria de beber, senhorita Cleanwater?
Harley nem ao menos precisou ler a carta de vinhos. Já sabia o que tomaria.
— Uma água já está bom. — Ela achou que não seria profissional demonstrar o seu apreço pelo álcool importando: mais especificamente uma boa garrafa de Grey Goose.
— Não seja tola, pode pedir o vinho que quiser.
— Acredito que seja antiprofissional beber com meu clientes.
Elena não disse mais nada, apenas pediu um refrigerante assim que um garçom de cabelos cortados à escovinha apareceu, baixando a carta de vinhos com certa decepção em seu olhar.
— Achei que fosse querer vinho.
— Era uma mera cordialidade — justificou a mãe.
Harley ergueu uma sobrancelha.
— Quem era aquela mulher na igreja? — A detetive perguntou diretamente quando o garçom retornou, colocando a lata de ginger ale na frente de Elena e a água para ela. Logo em seguida, tomou um gole do líquido gelado, que refrescou seu corpo.
— Era a mãe de Lucas Yard, Mary. — Ela respondeu como se fizesse total sentido para Harley. — O menino que foi encontrado morto, infelizmente – explicou Elena, como se ao colocar o infelizmente no final da frase já faria com que Harley simpatizasse com ela.
— Onde o encontraram mesmo? — Harley estreitou o olhar, analisando o modo como Elena apanhava o guardanapo para coloca-lo sobre seu colo. Parecia tudo tão...teatral.
— Numa caixa de areia no parque do centro — explicou enquanto fazia um biquinho, apanhando um segundo cardápio que já estava sobre a mesa.
Harley respirou fundo, olhando para baixo, sentindo as pernas desconfortáveis naquela cadeira enquanto dava de ombros e decidia guiar aquela conversa por outro caminho.
— Suponho que seu filho, antes de desaparecer, tinha atividades rotineiras...
— Ah, sim! — A mãe se exaltou, seus seios pulando para cima. — Ele tinha aulas de natação todas as quartas-feiras.
— Fale-me um pouco sobre a escola na qual ele estudava.
— Prepare-se para ouvir um discurso de uma mãe completamente apaixonada pelo ensino daqui. — Ela deixou escapar uma risadinha por entre os lábios vermelhos e os olhos brilharam. — Fui professora, sabia?
— Na verdade não, já que estou interessada no caso de seu filho e não na vida de meus clientes, senhora Hargroove — retrucou. Queria acabar com aquela palhaçada. Que tipo de mulher age de tal maneira com o desaparecimento de um filho?
Elena se encolheu na cadeira.
— Ele frequentava a The Croft Primary School, uma das melhores e mais perto da igreja. É um ambiente agradável...bom, era, ao menos... — a mãe olhou para baixo, fitando o guardanapo esbranquiçado que ela colocara sobre seu colo. Era evidente que todo aquele carisma e gentileza era apenas uma manobra para não deixar sua tristeza vulnerável a estranhos.
— Ele tinha uma boa relação com as outras crianças?
A mãe não levantou o olhar ao responder:
— Sim. Ele sempre foi um garoto muito doce. Tinha vários amigos.
— Tipo...?
Elena franziu o cenho e Harley prosseguiu:
— Sabe o nome deles?
— Havia uma garota... Anne. Ela era simplesmente grudada nele. — A mãe sorriu. — Nós costumávamos dizer que talvez ele se casasse com ela. Ursel torcia o nariz e dizia que nunca casaria, que aquilo não era algo que ele gostaria de fazer. — A mãe riu enquanto as lágrimas brotavam em seus olhos. Harley mantinha seu olhar fixo nos ombros endurecidos da mulher. — Sinto falta dele... todos nós...
Harley sentiu a boca seca e, assim, tomou um gole de sua água.
— Conte-me um pouco sobre o irmão dele.
— Leo?
Harley franziu o cenho e questionou:
— Há algum outro?
Elena agitou os cílios e franziu o lábio inferior antes de continuar:
— Leonard. Nós o chamamos de Leo. — A mãe explicou enquanto enxugava as lágrimas com a ponta da toalha da mesa, manchando-a de rímel. — Ele é o mais velho. Quinze anos já, acredita!? O tive ainda com meu primeiro marido...
— Ele tem contato frequente com o pai?
— Graças a Deus, não. — Ela deixou aquilo escapar de seu peito. — Quero dizer, o pai dele não é um bom exemplo. — Elena se corrigiu. — Tomou muitas decisões erradas na vida.
— E quanto a Leonard? Como ele é?
— Não poderia desejar um filho melhor. Acredita que com quinze anos ele já planeja seguir a carreira de padre?
Harley ergueu uma sobrancelha ao dizer:
— De fato, é difícil de imaginar.
Aos quinze anos, Harley já havia sido comida por dois garotos. Não ao mesmo tempo, é claro. Harley nunca se interessara em bacanais, mas havia uma garota que estudara com ela, Jean Mackenzie, que havia sido comida por todo o time de beisebol da escola de uma vez. Todos os garotos devem ter se sentido vangloriosos, mas se parassem para pensar, teriam ficado mais tempo com seus paus nas mãos olhando um para o outro do que dentro dela, já que havia quatorze rapazes no time e apenas uma garota. Harley também soube que ela, anos depois, havia engravidado de um desses meninos e que, agora, tinha um filho de doze anos.
— Ele se encontra com o padre Lewis toda terça, quarta, sexta e domingo. Praticamente passa sua semana naquela igreja — disse ela, contente. — Ursel também ia com o irmão todas as quartas. Ele o levava para a crisma.
Harley voltou seu pensamento para a conversa, deixando que Jean Mackenzie voltasse a ser apenas um fantasma de seu passado.
— O padre Lewis tinha um grande contato com os garotos, então — ressaltou a detetive.
— Na verdade, ainda tem. — Elena a corrigiu, pedindo para que um garçom viesse anotar seus pedidos para o prato principal. O estômago de Harley roncou. — Leo continua indo quase todos os dias na igreja. Está decidido sobre o que quer da vida.
— E o que você quer para eles?
Elena correu os olhos pela mulher antes de responder:
— Quero que sejam felizes.
...
Tarde, 13h02
Depois de um almoço que o mínimo que poderia ser dito sobre é que fora desconfortável e nauseante, Harley decidiu ir até ao posto de polícia local. Detetives contratados por iniciativas privadas nunca eram bem vistos, ainda mais se fossem de fora da cidade – o que era ela -, mas ainda assim a mulher achou a ideia válida. Ao menos mais valida e producente do que gastar uma tarde inteira ao lado de Elena Hargrove que, apesar de ser a mãe do garoto desaparecido, não lhe acrescentou em nada. Tentaria o esposo, mais tarde, mas no momento seus pés a guiavam por ruas quase desertas, com placas verdes indicando onde cada coisa ficava, desde supermercados locais até o posto policial.
Não que a detetive esperasse entrar no local e surpreendentemente ser arremessada com papeladas sobre o caso, com informações, listas de suspeitos ou até mesmo pistas que já os levariam até o culpado. Não. Longe disso. O que o recepcionista de bigode engraçado, curvado em suas pontas, lhe disse foi que as pessoas continuavam com suas buscas pelas Costwolds, onde colinas e espaços agrícolas formavam paisagens bucólicas o bastante para parecerem abençoadas.
Ela não teve que esperar muito, depois disso, talvez nem cinco minutos, mas eles pareceram uma eternidade enquanto a mulher permanecera sentada numa das cadeiras acolchoadas no outro extremo do balcão de recepção, extremamente limpo que até chegava a machucar os olhos.
Alguns instantes depois, um homem alto, de ombros largos e cabelos raspados nas laterais com um undercut surgiu, os braços justos numa camisa social que aumentava seus músculos enquanto as pernas ficavam ainda mais apertadas numa calça de sarja preta, onde uma chave pendurava no bolso lateral. Ele riu de algo que disse com a secretária e ela percebe o modo como suas costas se moveram.
— Srta. Cleanwater? — chamou uma voz, finalmente, despertando-a de seu transe. O modo como ele disse seu nome de forma tão despretensiosa indicava seu cansaço. Ele pediu que ela o seguisse por um corredor estreito, revestido por um papel de parede amarelo claro que imitava pequenas flores e arabescos em tons ainda mais sutis, mas a única coisa que ela queria continuar a fazer era fitar o traseiro arredondado daquele cara.
Antes de entrar na sala do delegado, passando por uma divisa de vidro jateado que dava a uma ala ainda mais reservada, o homem no balcão percebeu o olhar dela, seus olhos azulados fitando-a por completo antes de um sorriso travesso surgir em seu rosto. Ela manteve-se séria, mas empinou seu caminhar antes de entrar na sala.
O nome do oficial responsável por aquele posto chamava-se Lenny Lover, um sujeito baixo e gordinho, que se assemelhava a Gerald Humes, que chefiava Castle Combe, com exceção de que ele deveria ser pelo menos dez anos mais novo do que ele, embora suas olheiras fossem mais profundas e cravadas em seu rosto.
— Como posso ajudá-la, Srta. Cleanwater? — perguntou sem rodeios, cruzando os braços sobre o peito suado.
— Delegado Lenny, sou Harley Cleanwater, sou uma detetive particular...
— Particular? — ressaltou num tom mais alto.
— Sim. Fui contratada por Elena Hargroove.
Ele pareceu pasmo, quase atônito por ouvir aquilo, maneando a cabeça de um lado para o outro violentamente, os ossos quase estralando instantes antes dele se arremessar contra sua cadeira, que ficava atrás de uma pequena mesa de mogno, iluminada pela janela escancarada na parede oposta.
— Suponho que queira conversar sobre Lucas e Ursel.
— Haveria algum outro assunto que deveria me importar? — inferiu, afiada, recebendo um olhar displicente de um homem já cansado e sem esperança.
— Escute, Srta. Cleanwater, somos uma cidade pequena. Com problemas pequenos...
— O assassinato de um garoto de dez anos e o desaparecimento de um de doze? Chama isso de pequeno problema?
O homem bufou como um cavalo. Já estava vencido por completo e as pizzas de suor que formavam embaixo de seu braço era uma marca evidente disso.
— O que quero dizer, Srta. Cleanwater, é que não gostamos que pessoas de foram venham resolver nossos problemas.
— Acho que Elena Hargroove discordaria do senhor, afinal, ela me contratou. — Harley sentou-se sobre a cadeira que estava disposta à frente dele, cruzando suas pernas, o joelho direito sobre o esquerdo enquanto o fitava quase desafiando-o.
— Elena...meu Deus...ela está em choque, caramba...
— Eu também estaria, se fosse meu filho e a polícia não conseguisse encontrá-lo.
Lenny estatelou suas mãos sobre a mesa, alguns papéis, que não haviam sido guardados nos armários metálicos que ficavam sonolentos e enferrujando no canto direito da sala, caíram em direção ao chão revestido de um carpete cinza.
— Estamos trabalhando no caso. — O homem deixou as palavras escaparem por entre uma lufada de ar. — Deve ter visto nosso detetive antes de entrar.
Harley sentiu uma pontada atingindo seu peito. Ou teria sido sua virilha? Não saberia dizer ao certo, mas o formigamento estava ali e a fez erguer uma sobrancelha.
— Bom, creio que dois detetives venham a ser ainda melhor, não?
— Melhor para quem? Se uma estranha resolver o caso e nós não, estamos acabados.
Ela sentiu o ar com cheiro de mofo começando a esquentar.
— Achei que o principal seria focar no melhor para o garoto desaparecido. — Ela lambeu os lábios e cruzou os dedos. — E você não estar focado cem por cento nele é o que fez essa mãe vir me procurar. — Ela se levantou. Ele a acompanhou com os olhos. — Querendo ou não, Sr. Lover, eu já estou aqui.
— Não quero que isso circule.
— Isso o quê?
— A sua presença aqui.
— Ah, delegado... — Ela quis rir, mas conteve-se. — Como o senhor mesmo disse, aqui é uma cidade pequena, tenho certeza de que todos já sabem que estou aqui.
— Não duvidaria nada que Elena já tenha contado... — sibilou ele, achando que havia sido num tom baixo o bastante para que ela não o ouvisse. Mas Harley o ouviu, e saber que a Sra. Hargroove tinha fama por ser faladeira não era algo que a faria sorrir. — Eldric Heartland é a nossa melhor chance nesse caso, Srta. Cleanwater. — Os olhos dele brilharam na direção dela. — Perdoe-me, mas nem ao menos sei de onde a senhorita é.
— Castle Combe.
— Castle Combe. — Ele se ergueu novamente, caminhou até a frente de sua mesa e apoiou a cintura nela, fitando a detetive diretamente em seus olhos. — E o que a faz pensar que uma detetive de uma cidade ainda menor que a nossa poderia resolver esse caso? — A voz dele falhou no final, perdendo todo o impacto que aquela pergunta poderia causar.
— Porque mesmo que eu não seja da cidade, tenho empatia o suficiente para saber que a vida de uma criança está em jogo e que toda essa conversa é uma perda de tempo. — Ela sentiu o maxilar enrijecer. — E se a morte de uma criança não basta para o senhor entender isso, então aguarde pela segunda.
Harley girou em seus calcanhares, sentindo-o olhando para ela. A mulher tocou a maçaneta da porta e a abriu, uma fresta pequena o bastante para uma folha de papel escorregar por entre ela, no instante que ele lhe perguntou:
— Acha que o sequestrador é o mesmo cara que matou Lucas?
Ela fechou a porta e o olhou.
— Então o senhor acha que foi um homem?
O delegado engoliu em seco.
— Sinto desapontá-la, Srta. Cleanwater, mas não tenho tanta informação quanto pensa.
Ela fechou a porta atrás de si.
— Sempre temos de começar por algum lugar.
No final da tarde, quando o céu tomou pinceladas de conhaque e tingiu-se em tons acobreados antes que as estrelas surgissem, ela deixou o pequeno posto de polícia com um pequeno mapa desenhado às pressas por ele, no qual o delegado fizera um círculo, indicando onde o corpo de Lucas Yard fora encontrado, junto a um endereço que se ele não lhe tivesse dito em voz alta, ela nunca entenderia pelos garranchos. Um caderno de caligrafia lhe fazia falta, pensou ela enquanto caminhava em direção ao seu hotel.
Elena Hargroove estava certa. O corpo de Lucas Yard foi encontrado dia vinte de agosto num pequeno parque local do centro. O delegado ainda ressaltou que não havia marcas de violação em seu corpo, nem sinais de estrangulamento e muito menos sinais de luta. O assassino, aparentemente, não o tocara e no exame toxicológico nada foi encontrado. O caso era um tiro no escuro e mal sabia a detetive que essa escuridão iria consumi-la para sempre.
*Aaaaa primeiro capítuloooo espero que tenham gostado!!! Deixem aqui seus pensamentos e seus votos kkkkk
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