Capítulo V


Sábado, 06 de setembro de 2014

Manhã, 06h37

Harley acordou com um ruído e levantou o lençol do rosto, alguns fios de seu cabelo emaranhando-se como vinhas diante dos olhos ainda embaçados pelo sono. O som se repetiu com mais força e certamente não era mais um ruído, mas sim notas que escapavam de um órgão um tanto desafinado. Ela girou sobre a cama e as molas rangeram, como se alertando-a no mesmo instante de que seu sono não voltaria nem que ela apertasse os olhos até ver estrelas. Mas o sono não voltou nem mesmo ao fechar os olhos. Em vez disso, fragmentos do sonho retornaram.

A mulher reabriu os olhos e viu, com a luz do dia que entrava pela pequena janela acima de sua cabeça, as vigas no teto e a cera da vela já apagada. Lentamente, ela se endireitou, tomando cuidado para que a cabeça não girasse. Depois, calçou os sapatos e certificou-se de que Eldric Heartland ainda dormia.

De duas opções uma: ou ela era silenciosa demais — o que muitos achariam questionável — ou ele tinha um sono pesado demais, porque seu corpo estava inerte, a boca babando na fronha do travesseiro e o peito largo exposto no suor grudado no tecido.

Realmente, aquela manhã estava mais abafada, mesmo com a chuva torrencial de ontem, o que era estranho, considerando que deveria ocorrer o oposto. Porém Harley não questionou. Painswick era uma cidade estranha, mas quem era a mulher para julgar?

Quando atravessou a porta do pequeno quarto, deparou-se com o corredor com o qual foram guiados na noite passada e se surpreendeu com o quão ele era mais largo do que esperava, com fotografias penduradas na parede à direita e um balcão enorme à esquerda, o qual permitia uma vista privilegiada da missa que o Pare Lewis ministrava. Ele estava em pé no púlpito, com seus trajes impecáveis e cantando um hino à medida que a irmã Minerva dedilhava o órgão ao seu lado.

Havia mais Irmãs, também, sentadas no primeiro banco, na mesma direção de uma fileira de crianças animadas demais, sacudindo as pernas e sorrindo, murmurando travessuras até serem censuradas por uma das freiras que estava sentada na ponta.

Talvez, se a família de Harley tivesse demonstrado o mero interesse por qualquer religião, a mulher pudesse entender o que fazia alguém levantar às seis e meia da manhã para ouvir um velho falando palavras de um livro escrito por homens.

Mas cada um tinha sua fé e, embora a detetive achasse tudo uma perda de tempo, ela ainda respeitava aqueles que pensavam o contrário.

Então, quando a música já chegava ao fim, ela olhou por sobre o ombro, fitando o homem que ainda dormia e ressonava. Eles haviam combinado de trabalharem juntos, porém algo no modo como ele agira na noite passada, no breve interrogatório, a fez decidir por prosseguir sozinha, naquele instante, conforme os pés se encaminhavam na direção do escritório do padre, os olhos variando entre as fotografias e as poucas pessoas lá embaixo.

Eram todas variações de um mesmo tipo de foto: um conjunto de freiras separadas em duas fileiras, a primeira sentada e a segunda em pé, as mais altas no fundo, obviamente, e o Padre Lewis no meio delas, com um sorriso afável como se visto em um desenho animado.

Bom, ao menos a partir de 2008, porque antes disso havia um velho carrancudo e amargo entre as senhoras, de olhos profundos e nariz de tucano, que parecia afastar qualquer pessoa da congregação.

Talvez realmente seja por isso que gostem tanto do novo padre...

Mas o que realmente fez Harley sorrir foi o fato de ter visto o rosto da Irmã Minerva desde uma fotografia em 2005, podendo acompanhar seu definhar a cada registro conforme os anos e os cabelos duros como palha apenas cresciam, ultrapassando a altura dos seios caídos.

Uma nova música já começava atrás de si quando alcançou o escritório do padre, o relógio já marcando seis e quarenta e permitindo que ela fizesse as contas de quanto tempo tinha para vasculhar o lugar.

Talvez vinte minutos...

Mas nos minutos que ela procurou por entre as pilhas de papéis, as prateleiras e até mesmo as poucas gavetas da mesa de Lewis, Harley não encontrou nada além da sua decepção e da leve surpresa em ver um garotinho parado na porta do cômodo, curioso e com uma beca branca de mangas largas demais, enrolando o tecido com os dedinhos nervosos enquanto ele percebia que ela o fitava.

— Oi — disse ela endireitando-se ao lado da mesa, afastando o rosto da última gaveta. — Qual o seu nome?

O menino, o qual não deveria ter mais de dez anos, permaneceu quieto, as grandes esferas castanhas que eram seus olhos encarando-a descaradamente, apesar da leve timidez.

— Jullian, o que está fazendo aí? — perguntou o Padre surgindo logo atrás dele, acariciando sua nuca e arregalando os olhos ao ver a detetive om a cintura apoiada ao lado da mesa. — Ah, Srta. Cleanwater...

— Já terminou a missa? — Ela resolveu ser direta, os braços cruzados sobre os seios.

— S-Sim — gaguejou ele em resposta. — Vá até sua mãe, Jullian, ela está louca procurando por você. — O menino manteve o olhar fixo em Harley até que ele não pudesse mais vê-la sem ter que separar a cabeça do corpo.

— Ele é sempre assim? — indagou como se tentando aliviar a tensão de ela ter entrado no escritório sem ter sido convidada, ainda que o Padre não tivesse visto-a vasculhando as coisas.

— Calado? Sem dúvidas — respondeu conforme fechava a porta atrás e si. — Pegou-me de surpresa, detetive, não esperava vê-la antes das nove.

— Não consigo dormir quando estou em um caso — explicou sentando-se junto a ele, quase como um espelho, cruzando as pernas uma sobre a outra logo em seguida. — E vou agradecer se puder ser o mais objetivo possível, padre.

— Ora, é claro! — falou gentilmente ao entrelaçar os dedos. — Peço perdão pela noite passada. As luzes caíram no meio da última missa, as pessoas saíram assustadas com a força da chuva e alguns garotos não conseguiram nem ir para casa...

— Leonard Hargroove era um deles, creio eu — inferiu ela afiada, com uma sobrancelha erguida.

— Sim. Liguei para a Sra. Hargroove assim que despertei e ela já veio buscá-lo. — O homem se reclinou sobre a cadeira e realmente parecia mais jovial do que a noite anterior. — A pobrezinha estava desesperada.

— Não imagino o motivo — retrucou ácida e recebendo como resposta um olhar cabisbaixo do homem, como quem não tivesse disposição para replicá-la.

— É filha única, Srta. Cleanwater? — perguntou ele de surpresa de tal forma que o rosto dela acabou desfazendo todo seu sarcasmo e tornou-se uma carranca pálida, dolorosa de se olhar, à medida que algo no fundo de seus olhos mudava ao responder:

— Te responder isso ajuda em meu caso de que maneira?

— Ah, não é isso, é só que... se dissesse que sim, já me ajudaria te entender um pouco — continuou incisivo demais, ainda que extremamente delicado, de tal forma que a frase escapava morna, mas queimava como brasa.

— Então sim, Sr. Lewis. — Harley arregalou os olhos e os lábios falaram em modo automático. — Sou filha única. Precisa da minha certidão também ou posso começar a perguntar o que é realmente importante?

O homem, com um esgar confuso de se decifrar, concordou através de um aceno da cabeça e pediu para que ela prosseguisse.

— Consegue se lembrar da última vez que viu Ursel Hargroove? — perguntou enquanto permanecia de braços cruzados, a respiração densa e o calor acumulando-se entre os seios.

— Acho... que se torna algo difícil de se esquecer a última vez de alguém que gostava muito.

— Ele era um bom menino?

— Ah, sim, e certamente muito promissor, sabe? Nadava rapidamente em qualquer piscina ou lago que encontrava... na verdade, era sobre isso que falávamos no último dia em que o vi.

— E quando foi isso?

— Um dia antes dele desaparecer — afirmou com os olhos tristonhos. — No dia vinte e nove de agosto.

— Sabe me dizer o horário?

— Por volta das nove.

— Da manhã?

O Padre Lewis respirou fundo conforme as memórias do Garotinho sorridente o atingiam em pancadas fortes demais.

— Sim, Srta. Cleanwater. — Sua voz mudou e se tornou áspera como uma lixa. Nunca se sabe como uma pessoa pode reagir ao remoer memórias sensíveis (e não se pode negar a delicadeza em um caso de assassinato, ainda mais de crianças), porém algo em Harley queria apenas sacudir aquele homem e manda-lo contar tudo o que sabia, porque aquele ritmo letárgico a estava enervando e, como resultado, sua perna batia debaixo da mesa. — Ele era um dos meus coroinhas.

A detetive ergueu uma sobrancelha.

— Não sabe o que é isso? — indagou Lewis quando ela permaneceu quieta.

— Creio que no âmbito religioso me falte um pouco de conhecimento, Padre. — Ela respondeu no mesmo tom seco. — Mas o senhor deve estar mais do que disposto a me explicar.

Lewis sentiu a pressão sobre seus ombros e quase não moveu o corpo quando replicou:

— Ser coroinha é consagrar desde cedo sua vida a Deus. Os jovens que o fazem, juntos, formam um grupo muito importante, no qual sempre encontram união, compreensão, confiança e estima. — Os olhos dele semicerraram-se para ela. — Coisas que todos devemos ter na vida, não?

Harley sentiu o ácido em seu estômago subindo pelo corpo.

— E o que esse coroinha faz? — perguntou a mulher. — O que eles precisam saber para serem de tão alto cargo — finalizou com a ironia que só ela detinha.

— A santa missa, parte por parte, assim como os lugares da igreja, principalmente a capela do Santíssimo Sacramento, os livros sagrados, os utensílios usados na celebração da missa e, por fim, as vestes litúrgicas.

— Roupas? — Harley pareceu quase surpresa.

— Sim, Srta. Cleanwater. Devemos honrar nosso trabalho com o máximo de conhecimento possível.

A detetive pareceu ponderar aquela informação apenas para, em seguida, retrucar:

— Acho que faltou conhecimento para o assassino de Lucas Yard, então.

O padre pareceu confuso.

— Achei que estivéssemos falando sobre Ursel, detetive.

— E eu achei que não se importaria se eu dissesse o nome de um outro coroinha que foi encontrado morto. — Os olhos dela queimavam de desconfiança e Lewis parecia aumentar isso a cada resposta.

— Então acredita que seja a mesma pessoa que esteja indo atrás dos jovens garotos?

Ela se inclinou para frente.

— O senhor não?

Não houve resposta.

— Um menino morto e outro desaparecido. Ambos se conheceram na igreja e eram coroinhas. Estou esperando, agora, o senhor me dizer que também teve contato com Lucas um dia antes dele desaparecer.

O Padre, apesar de inexpressivo, engoliu em seco, as rugas parecendo inertes ao movimento dos olhos, que a fuzilaram com curiosidade na mesma medida que a encararam como uma ameaça.

— O que isso quer dizer? — perguntou ele seriamente.

Harley mordiscou o lábio inferior com um sorriso cínico no rosto.

— O senhor é esperto, Padre. Sabe o que quis dizer.

Agora, o homem adquiriu uma posição defensiva, o corpo endurecendo quando se lançou na direção das bordas da mesa.

— Acha que eu seria capaz de tirar uma vida? De tirar a vida de uma criança!?

— O que eu acho não importa — replicou. — O que vai realmente importar é o que o júri irá declarar quando o senhor for levado ao tribunal.

— Realmente acha que sou suspeito? — O homem estava indignado, quase abobalhado, as mãos unidas para que não arranhassem a mesa.

— Serei muito franca com você, Sr. Lewis. — Harley umedeceu os lábios e arregalou os olhos à medida que as sobrancelhas se abriram em arcos. — Sim.

O olhar do padre pareceu quebrar, porque, no fundo, ele esperava por uma resposta diferente, e em sua concepção ser um suspeito era incabível. Mas, ao ver de Harley, até o mais santo dos homens pode ser um assassino, porque não sabemos os nossos limites até que sejamos colocados de frente a eles.

E, por mais que quisesse manter essa pergunta longe de sua mente, a detetive não conseguia: o que faria o Padre chegar ao seu limite com uma criança? O pior de tudo é que a mulher já tinha uma resposta para aquilo também.

— Então, eu sugiro que me conte o máximo que souber antes que, numa próxima visita, o senhor seja algemado.

Sentindo o pomo de adão subindo e descendo por seu pescoço enrugado, o padre se endireitou, ajeitando as vestes conforme pequenas gotas de suor escorriam por sua nuca.

— O senhor disse que falou com Ursel um dia antes, sobre... piscinas?

— Na verdade, sobre ele nadar — corrigiu o homem. — O menino nadava muito bem, e quando fomos pescar na Páscoa, ele invadiu o lago perseguindo um dos gansos. — A memória fez Lewis sorrir, melancólico ainda que com resquícios de apreensão, variando o olhar entre os olhos da mulher e a cruz fixa na parede. — Quando o vi naquela última manhã, Ursel estava tão animado que já queria saber dos planos da próxima pescaria, e eu disse que ele só poderia ir conosco se se comportasse, afinal é proibido nadar no lago onde se pesca...

— Ursel fez algo proibido? — Harley franziu o cenho diante aquele detalhe.

— São crianças, detetive, acabam por quebrar as regras de vez em quando.

— Creio que Elena não ficou feliz com isso. A mãe dele... sempre o descreveu tão perfeitamente obediente.

— E ele era, por isso mantive em segredo esse incidente do lago — explicou com olhos atentos. — Nós corremos para uma das barracas, arrancamos as roupas, o ajudei a se secar e, antes que sua mãe retornasse com o almoço que os outros pais preparavam, tudo já estava de volta ao normal.

— E depois disso? Quero dizer, me refiro à conversa naquela manhã.

— Bom, Elena veio buscá-lo e eu não mais o vi.

— Sabe onde iam?

— Por ser uma sexta-feira, iam até o asilo onde a avó dele fica.

Harley assentiu com a informação, que batia com aquela que a detetive havia decorado do cartaz de desaparecido do garoto.

— Inclusive, se quiser saber mais, pode ir até lá. — O padre procurou por cima da mesa por uma caneta e um pedaço de papel, de tal forma que, quando os encontrou, escreveu rapidamente o endereço do lugar. — O asilo se chama Richmond Village e fica aberto de sexta a domingo. — O padre reclinou-se depois de empurrar a informação para ela. — Sei que, se explicar a situação, vão deixá-la conversar com Allura.

— Allura... — repetiu a detetive com a boca seca. — Nome estranho.

— Ultimamente, acho que não estamos podendo julgar o que é ou não normal, detetive.

— Certamente, Padre — concordou sem floreios, erguendo-se num salto. — Há muita coisa estranha por aqui.

Então quando ela deixou a sala, somente pensamentos ruins permeavam sua mente.

...

Certamente aquele não seria um local terrível para se morrer.

Harley Cleanwater jamais diria que haveria, em qualquer lugar neste mundo, um local que fosse agradável para se dar um último suspiro, porque a morte não é algo bonito, não é algo a se pensar. Ela acontecerá inevitavelmente, e não há controle algum sobre isso. O máximo que se pode fazer é tentar retardá-la e, por Deus, Harley já havia tentado fazê-lo por muito tempo para algumas pessoas, mas no fim elas morrem.

Todos morrem.

E por mais que seus pensamentos corressem pelos cantos mais obscuros de seu ser, seus olhos não conseguiam negar que o Richmond Village era um lugar pitorescamente lindo.

Pelo pouco que conseguira procurar a caminho dali, a detetive descobrira que era um local de repouso para maiores de cinquenta e cinco anos, e que para fazer parte dele era estupidamente simples, desde que você dispusesse de uma conta bancária tão gorda quanta a da rainha. Tudo bem, talvez isso fosse exagero, ela tinha de admitir, mas certamente aquele era um lugar para idosos seletos, por assim dizer, um local onde Bruce Whitewoods, o homem mais rico de Castle Combe, poderia descansar seus últimos dias.

Mas ali estava ela, tomando cuidado por onde pisava no caminho de cascalhos, observando as sebes das mais diversas flores, imaginando em qual das 41 Village Suites Allura estaria, ou talvez ela estivesse no spa, cuidando da pele velha e enrugada onde não poderia mais aplicar Botox.

É isso que velhas ricas fazem, não? Injetam veneno no rosto porque o seu próprio não pode ser utilizado.

Com pensamento tão sarcástico e corrosivo, foi difícil para a detetive conter um sorriso, porém ela fez o seu melhor quando chegou no balcão do local todo feito de pedras devidamente polidas, o telhado em marrom apontando como setas para o céu, longas janelas brancas estendendo-se pelas fachadas com suntuosidade enquanto uma atmosfera mais fresca do que o exterior envolviam a todos ali.

— Bom-dia, como posso ajudá-la?

Uma atendente morena, de cabelos cacheados altos e um sorriso mais alto ainda, quase impresso em seu rosto redondo, surgiu diante dela quase de imediato assim que a detetive colou-se ao balcão.

— Eu gostaria de fazer uma visita a Allura Hargroove.

— A senhora é familiar dela? —questionou sem perder o sorriso e Harley manteve-se ereta, impassível, ainda que tentando não ser tão abrasiva apenas com um olhar.

— Não.

— Oh. — A mulher pareceu surpresa e suas mãos repousaram sobre o balcão. — Amiga, então?

Harley respirou fundo. Melhor fazer aquilo rápido.

— Na verdade, sou a detetive Harley Cleanwater, fui contratada pela filha dela, Elena, para investigar...

— O desaparecimento de Ursel — completou a morena baixando o rosto, dando tempo para que Harley notasse seu nome em um crachá prateado: Bianca. — É algo terrível...

— Realmente. — A mulher sentiu um ar frio envolvendo seu corpo em um arrepio. — Por isso eu agradeceria muito se me levasse até ela.

O rosto de Bianca desfez o sorriso e transformou-se na personificação da frase: "eu adoraria, mas não posso", as sobrancelhas em arcos retorcidos enquanto ela mordiscava os lábios grossos.

— Não é a melhor hora, Sra. Cleanwater.

— Pode me chamar de senhorita — corrigiu a detetive apesar de saber que, com sua idade, senhora já seria apropriado. — E sei que pode, também, entender a gravidade da investigação...

— É claro! — antecipou-se apressadamente, quase tropeçando nas palavras. — Mas... hoje é um dia de visita, como pode ver...

Harley olhou ao redor e, realmente, havia pessoas mais jovens do que cinquenta e cinco anos, algumas tomando chá aos fundos, outras apenas conversando em um passeio no jardim e outras, bem poucas, brincando com os netos, que gritavam vez ou outra. Ainda assim, para a detetive, isso não parecia um empecilho.

— E?

Bianca respirou fundo, selecionando que caminho seguir.

— Em respeito aos outros idosos, creio que este não seja o melhor momento. As famílias vêm até aqui poucas vezes, para vê-los, não seria interessante atrapalhá-los com um assunto tão...

— Real?

— Triste.

— Mas é real — retrucou Harley percebendo que até ali, onde tudo parecia mais ameno, teria de tomar as rédeas da situação. — E negar isso pode gerar mais mortes e, adivinhe só... mais tristeza. — A detetive ergueu uma sobrancelha. — Não estou pedindo para fazer um anúncio de que estou aqui, Srta. Bianca, apenas para que me mostre onde está Allura para que possamos conversar.

A garota se deu por vencida, porque não havia ali um motivo para negar a entrada de Cleanwater, ainda que ela tivesse uma parcela de razão.

— Verei o que posso fazer — disse, por fim, e Harley apenas cruzou os braços, esperando.

...

Podia-se dizer que Allura Hargroove não negava seu sobrenome, caminhando com a mesma suntuosidade e prepotência de Elena, quase como se essas fossem características dominantes que ela passou pelo DNA, mas a velha certamente despertava a curiosidade de Harley muito mais. A mulher apresentou-se em sua própria suíte, onde as poltronas azuladas eram tão aconchegantes que as pernas de Harley sentiram-se convidadas a descansar ali, ao lado das janelas e das cortinas de seda branca, enquanto as mãos da idosa, atoladas de anéis, sacudiam impacientes.

— Deveria ter vindo para cá imediatamente, e não demorado tanto! — resmungou a mulher fechando o leve cardigã verde-musgo que cobria seus braços esqueléticos, os cabelos brancos claramente haviam sido pintados de preto e estavam duros pelo excesso de laquê.

— Como é?

— Duvido que tenha chegado agora em Painswick! — O rosto da velha tornou-se vermelho conforme largava o corpo magrelo sobre a poltrona. Harley fez o mesmo, os solados dos saltos sentindo a maciez do carpete branco, que deixava todo o ambiente ainda mais claro.

— Decerto que não.

— E por que só veio agora!? — Ela soava realmente indignada.

— Porque somente neste momento a senhora me pareceu útil.

Aquilo feriu o orgulho da mulher.

— Ora! E pensar que deixei minha partida de dardos para ser ofendida! — Os braços não paravam de se mexer, puxando o tecido do cardigã de forma empertigada.

— Não quis ofendê-la, Sra. Hargroove.

— E não quis, também, conversar com a última pessoa a ver o neto desaparecido?

O rosto de Harley endureceu.

— Elena não havia me dito isso.

— Não? — Allura franziu o cenho. — Bianca me disse que foi ela quem te contratou...

— Mas foi o Padre Lewis que me mandou até aqui.

— Ah, Padre Lewis! — Um carinho enorme sobressaiu em sua voz conforme as mãos abraçavam o próprio corpo, como se abraçasse o próprio homem. — Um homem incrível, devo dizer.

— Depende do ponto de vista — retrucou Harley apenas para, em seguida, receber um fuzilar incrédulo como resposta. — Porém não estou aqui para discutir primeiras impressões, mas sim para falar sobre Ursel.

— É claro... — Ainda que houvesse certo ressentimento por Harley só aparecer ali, agora, Allura arrefeceu a carranca em seu rosto. — Falarei tudo o que precisar saber.

— Isso já ajuda muito — admitiu inclinando-se para frente entrelaçando os dedos. — Se fizermos isso rápido, poderá voltar a sua partida de dardos.

A velha forçou um sorriso amarelado em seu rosto.

— Meu neto adorava dardos...

— Ele costumava vir muito aqui? — Harley decidiu enganchar o início da conversa naquela oportunidade, a mão direita lentamente escorregando para a cintura, ligando o gravador do celular.

— Sempre que podia.

— E isso é muito?

Os olhos de Allura fitaram Harley escancarados.

— Quero dizer — a detetive tratou de corrigir-se — sei que a agenda dos seus netos é muito agitada.

— Bom, nisso tem razão — anuiu a idosa cruzando as pernas. — Elena tem mania de colocá-los em tudo quanto é atividade.

— Fala como se isso fosse uma coisa ruim — ressaltou Harley com o erguer da sobrancelha.

— Para uma criança de doze anos? Pode ser! — Os ossos dos ombros de Allura saltaram mesmo por debaixo do tecido. Sua magreza era extrema, o que fez Harley considerar se a senhora havia perdido o apetite desde o desaparecimento do neto ou se ela sempre fora assim, vítima de um metabolismo acelerado até mesmo para a maior idade. — Veja, eles têm natação, vão a igreja, participam de retiros, Leo até mesmo tem aulas de flauta... poxa! E quando sobra tempo para mim!?

Aquela última frase não devia ter sido dita, de tal forma que a detetive pode ver como os lábios dela se retraíram, tímidos, apavorados, na verdade, porque agora Harley sabia a verdade que tentava esconder, e a mulher fez questão de ressaltar:

— Parece que Ursel não vinha tanto assim.

Allura engoliu em seco, fungando o nariz, sentindo-o seco.

— Ele vinha quase todas as sextas.

— E isso não era o bastante?

— Por favor... — o tom dela era de desdém. — Seria o bastante ver as pessoas que você ama uma vez por semana?

— É mais do que muitas pessoas conseguem, devo admitir. — O tom de Harley, por sua vez, era muito mais pesado e sério.

— Estou pouco me lixando para elas! — replicou enérgica, rangendo os dentes. — Não é certo que uma vó veja seus netos apenas... o que? Quatro vezes ao mês? Eu não tenho toda a vida!

Harley engoliu em seco e respirou fundo.

— Então não acha que Elena seja uma mãe tão boa assim? — A detetive desejava, avidamente, por alguém que desfizesse o ideal performático que criavam ao entorno da santa Elena Hargroove, porém, por mais que duvidasse que a própria mãe pudesse desfazê-lo, ela resolveu arriscar.

— Eu não disse isso...

— Mas ela a negligencia, te deixa aqui nesta casa de repouso...

— Elena é uma boa mãe! — interveio com firmeza, cerrando os punhos. — Quase tão boa quanto eu.

Ah, sim, dizer que a filha era uma mãe ruim seria refletir a si mesma, como se todo o trabalho de uma vida tivesse sido em vão. Nenhuma mulher como Allura admitiria isso.

— Então não pode discutir com o fato de seus netos a verem uma vez por semana, apenas.

A velha encarou furtivamente, esperando para que a detetive concluísse seu pensamento.

— Fazer isso seria admitir que Elena não sabe o que é o melhor para os filhos, e isso a faria uma mãe ruim, não? — Harley resolveu jogar a pergunta de volta para a idosa, porque ela não acreditava no que dizia.

Para a detetive, os pais não sabem, de fato, o melhor.

Eles acham.

Eles colocam em seus filhos as esperanças perdidas e tentam tomar as escolhas deles como suas próprias.

Seus pais haviam feito isso, e Harley só conseguia pensar no quão desapontados ficariam ao verem a mulher que ela se tornou.

— A senhora visita seus pais?

A detetive agitou seus cílios, voltando sua atenção ao interrogatório.

— O que?

— Não diga "o que", isso é desrespeitoso! Diga "perdão?" ou "me desculpe?".

As sobrancelhas de Harley subiram de imediato, surpresas, aquela responda sendo digerida lentamente.

— Digo "vai se foder", que tal?

Allura escancarou os lábios, estupefata, um asco surgindo em seu rosto que fez seu corpo saltar daquela poltrona, o cardigã esvoaçando ao lado do corpo como asas verdes.

— Quem você acha que é para falar assim comigo!?

Harley ergueu o rosto na direção do dela. Tinha mais rugas do que pensara.

— QUEM VOCÊ ACHA QUE É!? — repetiu um tom mais alto, gritando, saliva escapando por entre os lábios. — EU PERDI UM NETO! EU! E VOCÊ CHEGA AQUI, TODA ARROGANTE, E ACHA QUE PODE FALAR ASSIM COMIGO!?

Harley esperou que ela terminasse, ofegante, para, então, retomar o controle, os olhos piscando cinicamente ao responder:

— Cada um lida com a dor de uma maneira, Sra. Hargroove, mas aviso que gritar não vai nos levar a lugar algum.

A idosa continuou de pé, a respiração densa como a de um cavalo de forma que Harley achou que podia enxergar os pulmões inflando por debaixo dos ossos.

— E o que você sabe sobre dor? — cuspiu a mulher como se as palavras fossem ácidas, inclinando-se sobre Harley. — O que você sabe sobre perder alguém?

A detetive sentiu uma bola surgir em sua garganta, e ela desceu arranhando, até alcançar seu estomago, onde se abriu e o embrulhou. Harley conhecia a dor, aprendeu a viver com ela desde cedo e aceitou que ela sempre a acompanharia, porém não seria para qualquer estranho que ela contaria seu passado.

Não.

Se o fizesse, seria para quem confiasse sua própria vida, a alguém que, mesmo que ela não admitisse que amasse, daria sua vida por ela.

Porém Allura era apenas uma avó que não suportava a ideia de que seu neto poderia ter morrido antes dela e, agora, descontava sobre a detetive, a qual, por não encontrar outra saída, decidiu lhe responder com meias verdades:

— Meus pais morreram quando eu ainda era jovem. — Os lábios da velha calaram-se. — Sei como é a dor de perder alguém.

O ar pareceu se materializar sobre os ombros delas, sobretudo sobre Allura, que quase afundou ao chão, os pés pesados e os ombros para baixo.

— Agradeceria, então, se a senhora pudesse voltar a se sentar — concluiu Harley calmamente, piscando sem pressa, sentindo o gosto das palavras até que a avó de Ursel reencontrasse seu lugar na poltrona azul. — Obrigada.

— Eu... me desculpe...

— Tudo bem.

— Não está não... o que fiz agora a pouco... não é maneira de se portar.

— Seu neto está desaparecido, eu entendo, mas isso não significa que ele esteja morto — relembrou a detetive, embora a cada dia que passasse aquela se tornasse uma probabilidade cada ver maior. — Por isso farei as perguntas mais diretamente, está bem?

Allura anuiu com um aceno da cabeça quase imperceptível, que lançou seus cabelos tingidos para frente.

— A senhora saberia me dizer o motivo de Elena usar o nome de solteira?

A idosa franziu o cenho.

— Perdão?

— Sua filha, ela...

— Sim, sim, eu entendi a pergunta, mas... — A boca dela secou. — O que isso tem a ver com Ursel?

— Apenas gostaria de entender o motivo, já que ela me deu a entender que se casou novamente, na primeira vez que conversamos — explicou com o dar de ombros.

— O primeiro casamento foi um erro, ela não quer ser boba com o segundo também. — O olhar de Allura pedia para que a detetive deixasse o assunto por isso, mas era claro que isso não iria acontecer.

— Por que um erro?

— Não trouxe nada de bom para essa família.

— Trouxe Leonard — respondeu deixando a idosa sem palavras, envergonhada, certamente, mas sem querer deixar transparecer, erguendo seu rosto bem alto antes de retomar o ar para si e prosseguir:

— Por um milagre.

— Não acredito em milagres, Sra. Hargroove.

— Foi um milagre meu neto ter nascido daquele homem, se é que podemos chamá-lo assim, e foi um milagre ainda maior quando o cretino saiu de nossas vidas.

A voz dela soava teatral pela quantidade de asco e raiva que se sobrepunha às palavras.

— Como o chamaria?

— Aberração! — A resposta já estava na ponta de sua língua e os dedos começavam a tamborilar por sobre o joelho dobrado. — Não há outro modo de dizer.

— E por que isso? — Os olhos da mulher apertaram-se nas extremidades. — Juro que estou me esforçando a entender, mas tudo me parece apenas ódio gratuito contra um homem que ainda não teve chance de falar.

— Ainda?

Harley franziu o cenho e Allura continuou:

— O que quer dizer com "ainda"?

— Irei falar com ele, se achar preciso... — expôs. —E, aparentemente, será.

Os olhos da velha reviraram tanto que pareciam que iam se perder nas órbitas.

— Boa sorte.

— Vou precisar?

— Aquele homem é uma aberração, uma afronta contra Deus, isso sim!

O ar travou nos pulmões da detetive.

— Contra Deus?

— Nosso bom Senhor fez o homem para ficar junto a uma mulher, não o que bem quisermos!

As mãos de Harley cerraram-se e as unhas cravaram na pele.

— Aquele cretino... espero que não tenha passado nada dessa doença para meu neto, senão...

— Senão o que? — A dureza assumiu o tom de voz da detetive. — Conte-me, Sra. Hargroove, eu adoraria saber.

A velha notou a mudança em sua voz e engoliu em seco.

— Elena se separou dele e o rapaz nunca superou isso, mas agora ela está com Paul e teve um filho com ele, se o cretino aparecer novamente ele saberá como lidar com a situação.

Harley notou uma palavra em específico mesmo por entre a raiva que começava a afluir por seu sangue, pulsando nas têmporas e reverberando em seus ouvidos.

— Novamente?

— Ah, sim, Dylan apareceu por aqui um pouco tempo depois de decidirem se separar. Elena estava tentando manter as crianças longe dele.

— Mas... ele havia feito algo?

— Atrair-se por outro homem é uma doença, detetive! Meu neto não ficaria perto de um homem desses nem que eu morresse!

Harley fincou os dentes na carne do interior de sua bochecha, tentando aliviar os pensamentos através da dor. Não havia nada entre as duas para impedir ela de pular por cima daquela mulher e surrar a sua intolerância para fora, então a detetive decidiu contornar a situação, pensando em ganhar tempo para Ursel e não o desperdiçar, por mais que a mulher merecesse apanhar naquele momento.

— E a senhora, creio eu, teve um papel decisivo na separação de pai e filho.

— Tive o apoio do Padre Lewis, também, de toda a congregação, para falar a verdade — explicou com o nariz arrebitado, uma sobrancelha erguida como se desafiando a detetive a afrontá-la.

Agora Harley sabia o motivo da velha achar o padre tão maravilhoso.

— Então toda uma igreja, que prega pela família, impediu o pai de ver o próprio filho? — A detetive foi incisiva nas poucas palavras que escolheu, e viu como elas adentraram a carne de Allura.

— Uma família que se preze tem um homem e uma mulher cuidando dos filhos. Ponto final. De resto tudo é pecado.

Harley respirou fundo, pensando bem no que faria a seguir e, sabendo qual seria o próximo passo que tomaria para a investigação, a mulher se levantou, os dedos indo certeiramente até o gravador e o desligando, decidindo manter o que falou a seguir fora de registro:

— E como a senhora se sente, então, sabendo que não tem uma família?

Allura franziu o cenho.

— Do que está falando?

— A senhora não tem marido, ou ele está em algum outro quarto deste paraíso de asilo?

— Ele...ele morreu...

— Então não tem família nem neste asilo.

— Casa de repouso — corrigiu.

— Asilo.

— É uma casa...

— Asilo! — insistiu. — Ou tem medo da palavra por que isso a faz se sentir abandonada? Não consegue aceitar que sua família não a quer mais e a trancou neste lugar de onde nem pode sair sem autorização deles!

— Isso não é verdade...

— Ah, não? — As pernas de Harley endureceram conforme seu caminhar.

— Eles pagam muito para me ter aqui! Eles precisam até mesmo do meu dinheiro para bancar este lugar!

— E, apesar dessa fortuna, a senhora e toda sua família conseguem ser vazios. — O rosto de Harley quase tocou o de Allura, que se encolheu na poltrona azul quando a detetive debruçou-se sobre ela, as palavras como pequenos alfinetes. — Agora me diga, Sra. Hargroove, de que adianta Deus ter lhe dado tanto dinheiro se não lhe deu inteligência?

A velha fez menção de se levantar, porém Harley não se moveu e Allura se viu obrigada a voltar as costas para o assento acolchoado, encarando-a debaixo.

— Não faz ideia do que fala...

— É preciso o mínimo de inteligência para saber que respeitar a todos é o básico. — Ela se lançou para trás, girando nos calcanhares e indo em direção à porta.

— E é isso o que está fazendo? Me respeitando? — resmungou a idosa se erguendo quando a detetive já estava com a mão na maçaneta.

— Não, Sra. Hargroove, eu estou atrás de um assassino — retrucou sem sorrir, abrindo a porta, a raiva em seu coração martelando-o incessantemente. — Mas começo a temer que talvez ele não seja o único monstro nessa cidade.



*Aaaaa mais de 6.000 palavras!!! Esse capítulo foi muito interessante de escrever, amo quando os diálogos guiam a história!!! E aí, gostaram? O que estão pensando até agora?

*Se gostou, não deixe de votar, hein!!! Próximo capítulo chega na terça-feiraaaa, bom carnaval para todos!!!

*Curiosidade: alguns leitores acham que Painswick e Castle Combe foram criadas por mim, mas isso não é verdade!!! As cidades já existem, e cada localização e ambientação que coloco pertencem ao lugar, por isso coloquei a foto do asilo em que Allura fica no início do capítulo!!! Richmond Village é real :D

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