Afetropia

Afetropia

É quando aquele mesmo sentimento não se limita e habita sua alma. Sentimento mais forte do que o normal. É a fusão do sentir na sua mais pura essência. Não é excesso, é transbordar sentimento. Você eleva suas emoções sobre aquilo.

"Todas aquelas luzes eram como vidas se encontrando ao longo dos séculos. A sensação que blindava a árvore das almas era essa: muitas histórias, inúmeras conexões. Centenas de milhares de encontros ao mesmo tempo. O lugar tinha cheiro de vida. E esse cheiro era a melhor coisa do mundo.

— Você passa mais tempo aqui do que em nosso lar. — Omã'ri se ajoelhou ao lado de Ont'ari. — Eywa deve estar feliz com a sua presença, minha filha.

O povo do céu tinha vindo uma vez. Destruiu tudo que pôde e deixou mortos que jamais serão esquecidos. A floresta para sempre os guardaria em sua fauna, como parte de seus laços mais profundos. Sempre que se conectava com Eywa, Ont'ari sentia um desejo gritante de viver sua vida. E de fazer isso da melhor forma possível.

— Efu, omum, rey, mamãe. — 'Sentir, saber e viver', da melhor forma possível.

— Toruk Makto está feliz com o nosso progresso. Parece que o povo do céu realmente desistiu da nossa amada Pandora.

— Eu espero que sim. As histórias que vocês contaram já nos deixaram apavorados. Não precisamos de algo assim nunca mais.

— Quando nos reerguemos depois da guerra, sentimos que valeu a pena cada gota de suor. Ter paz no mundo em que minha doce e adorável filha vive, é mais do que eu posso desejar depois do inferno da guerra.

Ont'ari riu e negou.

— Que palavra feia, mamãe. — E então a puxou para um abraço. — Gosto de estar aqui com você. Me sinto em paz.

— Você é minha paz, Ont'ari."

O barulho da lança atingindo o tronco da árvore foi alto. A ponta era afiada e o alvo tinha sido marcado bem no centro. Algumas pessoas se deram o trabalho de verificar, mas ninguém realmente estava corajoso o suficiente para se colocar entre a cruz e a espada de uma garota como Ont'ari. Ela era uma guerreira, a final de contas.

A lembrança que se instalou na cabeça da garota, levou ela para o caule da grande caverna. Era verdade que cavernas não possuíssem caules, mas as raízes que a rodeavam, deram origem ao nome conhecido. Ali era onde Jake Sully e seus guerreiros aliados, se uniam para treinar o povo Na'vi.

Há um ano o povo do céu tinha retornado. Mais maldosos, mais velozes, mais equipados, e certamente mais inspirados do que da primeira vez. Eles não tinham medo e nem respeito pelas crenças Na'vi. Pandora para eles significava apenas poder no mundo deles. E o significado para o povo, era totalmente ignorado. O planeta era apenas uma coisa e o povo era tratado como animal. 

Ont'ari caminhou até a lança, segurou com as duas mãos e usou um dos pés como apoio para forçar a saída. A ponta saiu sem uma ramificação. De fato, as armas Na'vi eram fortes e resistentes. Em contato com o inimigo era fatal. Os lábios tremeram conforme rosnou para o objeto, sentindo-se tola. Não importava a força daquilo, nem o quanto era resistente. Não tinha como competir com uma sub-metralhadora do povo do céu.

— Kaltxì, Ont'ari. — Lo'ak disse oi com um sorriso largo e desnecessário. A garota não se deu o trabalho de olhar para ele.

— O que quer, Sully? — Questionou.

— Você é uma ótima guerreira. Sua mira é certeira e você sabe se impor em batalha. Não sei porque meu pai não deixa você ir lá fora.

— Deve ser porque eu, diferente dele, não fujo de uma luta. E com isso, corro mais risco de morrer. E ele não quer mais esse sangue nas mãos dele.

— Não sei o que o Neteyam vê em você. — Agora Lo'ak tinha a atenção de Ont'ari. — Eu não devia ter falado isso, né? Que péssimo irmão eu sou.

E sobre os ombros de Lo'ak, estava Neteyam entrando no recinto. Kiri estava ao lado dele, e eles pareciam entretidos com algum assunto importante. A garota Sully assentiu, olhando um pedaço de papel que o irmão mais velho apontava. Neteyam era inteligente, e provavelmente estava apontando alguma falha no treinamento de Kiri. E ela ouvia com atenção, porque Neteyam tinha esse dom. Deixava as pessoas interessadas em todo seu conhecimento sobre um pouco de tudo.

Ont'ari pensou nisso. Em Neteyam. Ele sempre estava por perto, mesmo quando não se anunciava. Ela achava que Jake tinha colocado o filho mais velho no pé dela de propósito. Mas não parecia ser isso agora.

Para a idade dele, Neteyam era realmente um destaque. Não por ser filho de Toruk Makto, mas porque ele sempre fazia questão de ajudar os nativos. Jake era severo com a educação dos filhos. Mas Neteyam parecia uma exceção da regra. Ele era leal aos ensinamentos do pai, mas tinha seus próprios. E na primeira vez que Ont'ari se permitiu notar isso... foi estranho e bom.

Ont'ari rosnou como se visse um inimigo e deu as costas.

Neteyam ainda era um Sully.

— O que esta fazendo aqui, Lo'ak? — Neteyam estava perto deles agora.

Ont'ari pegou uma faca para amolar a ponta de sua tukru-l. A lança tinha sido herança de Tsu-Tey, seu irmão mais velho. Um que ela não teve o prazer de conhecer, pois a guerra que veio do céu, o matou. Essa foi a primeira baixa na árvore da vida de Ont'ari. Mesmo que não tenha o conhecido, saber que ele foi um herói e que morreu por tudo aquilo que acreditava, não fazia o coração da garota bater menos dolorosamente.

— Ont'ari e eu estávamos conversando. — Lo'ak disse, inocentemente e falso.

— Não estávamos, não. — A garota negou.

— Eu disse para ela que você gosta dela. Mas ela não pareceu nem se importar.

Maldição! A boca de Lo'ak era como uma erva daninha. Por que ele tinha que dizer qualquer coisa para ela? Maldição de irmão caçula! Neteyam olhou para a garota e percebeu que era alvo dela também. Ont'ari realmente não demonstrava nenhum tipo de emoção a essa informação. Mas era uma vitória. Não demonstrar nada ainda era melhor do que demonstrar desconforto ou ânsia.

— Você tem que parar de falar besteira. — O mais velho pegou o caçula pela nuca. — Nosso pai quer ver você. Vaza.

Lo'ak podia discutir ou só sair de fininho. Ele já tinha jogado a bomba, agora Neteyam ia ter que se virar.

Ont'ari ainda amolava a ponta de sua lança quando Neteyam se aproximou. Ela não se moveu, nem mesmo quando o garoto estendeu a mão na sua direção. Foi estranho. Tentador. Era um macho, independente da idade. Mesmo que fosse um adolescente, ainda não era controlador de seus anseios completos. Mas Ont'ari respirou fundo quando a mão do garoto passou direto por ela e pegou uma faca sobre a mesa de pedra.

O corpo dela relaxou.

— Meu irmão é um idiota as vezes. — Ele falou e puxou a sacola de flechas das costas. Despejou sobre a mesa e começou a amolar.

— Ainda estou para achar um Sully que não seja.

— Você pega muito pesado com a minha família. Não entendo o motivo.

— Você entende sim. Só que gosta de fingir que é bom demais para se importar.

— E você gosta de fingir que conhece todo mundo tão intensamente. 

— Eu sou observadora. Presto atenção nas pessoas. — Ont'ari logo se defendeu, indignada com a acusação. — Por que você ainda está falando comigo? Eu não ligo para as besteiras que o seu irmão fala. É problema de vocês o que pensam sobre mim.

— Você é inteligente, Ont'ari. E é forte. É leal ao nosso povo e não há muitos por aí como você. Sei que odeia meu pai porque ele pega no seu pé. Mas ele não faz isso por mal.

— Eu não odeio o seu pai porque ele pega no meu pé. Odeio o povo do céu por ter trazido essa guerra pro nosso quintal. — A raiva transpassando a razão. — Já se sentou com seus mortos? Eles choram, Neteyam. Todas as noites e dias e tardes. Nossos irmãos e irmãs continuam morrendo e seu pai, nosso Toruk Makto decidiu que vamos fugir e fingir que essas pessoas não são uma grande parte de nós.

— Ele está tentando salvar nosso povo.

— Sacrificando a maior parte dele. — Despejar suas dores e frustrações no garoto não ajudava. Mas talvez, ele precisasse de um encontro com a verdade. — Seu pai é um grande homem por que liderou os Na'vi contra o povo do céu? Não se engane. Seu pai é o povo do céu. Ele veio com os destruidores.

— A diferença é que ele mudou de lado.

— Nossos irmãos que morreram acham que foi tarde demais para isso.

Se ele ficasse bravo com as palavras duras dela, não seria ele mesmo. Nunca se sentiria bem com alguém falando mal de sua família. Mas Ont'ari era diferente. Não porque ele gostava dela. Mas porque ela estava perdida e deprimida e solitária. E o único jeito que ela conhecia de se proteger, era atacando todos que pareciam uma ameaça. E Jake era uma força gritante de tudo que ela temia.

Seu pai tinha razão no final das contas.

Ela está em um momento diferente do nosso.

— No mundo de onde o povo do céu veio tem uma palavra que eu gosto muito. Pasárgada. Significa um lugar onde só você sabe que precisa estar. — Ont'ari desistiu de afiar mais aquela lança. — Mas eu acho que você nem sabe onde precisa estar. Está perdida, Ont'ari. E tem medo de nunca se encontrar.

— Bem diplomático, como seu pai. Será um ótimo líder se a nossa civilização não se extinguir.

— Nunca poderei ser líder depois que meu pai descobrir que estou do seu lado. Como você mesma disse, o povo do céu destruiu tudo.

— Você é metade povo do céu. Sabe que eu te culpo tanto quanto culpo ele.

— Posso conviver com isso.

— Lo'ak tinha razão. — Ont'ari se afastou, carregando o olhar de Neteyam sobre ela; — Também não sei o que você viu em mim.

사랑  ..  [ •ᴥ• ]
𐀔 ⸚ ¡ Pandora ⏳ .. 공식적인 ♡

"Neteyam e os irmãos sempre estavam juntos. Pelo menos, Lo'ak não largava do seu pé. Ser irmão mais velho tem lá seus bons momentos. Mas as vezes,  Neteyam só queria deitar a cabeça num lugar e dormir sem que tivesse que impedir seus irmãos mais novos de levar uma bronca ou duas. Então, aproveitou que seus pais tinham saído e resolveu pela primeira vez na vida, ser inconsequente e quebrar uma regra.

Deixou os irmãos sobre os cuidados de Kiri, que era 10 vezes mais responsável que Lo'ak e foi passear. Foi ter seu momento de paz. Ele queria se encontrar com a árvore das almas. Era o único lugar onde podia se encontrar com seu avô, descobrir coisas sobre o passado da sua família e povo, sem uma enchurrada de sermões do pai. Tudo que Jake contava para os filhos, vinha com muitas promessas do que não podiam fazer.

Era tedioso as vezes.

Mas quando chegou na árvore, reparou que ela já estava ocupada. Havia uma garota lá. Ela estava de joelhos, com as conexões da sua calda ligadas ao solo. Ela parecia contente, feliz. Os lábios dela se mexiam como se estivesse em uma conversa extremamente confortável. Ela se sentia segura ali, era óbvio.

Neteyam estava enfeitiçado com a beleza dela. Nunca tinha visto uma pessoa mais linda do que aquela. Os cabelos longos caindo até a cintura, divididos entre tranças e cachos grossos. O sorriso largo nos lábios era uma visão dos céus. Ele estava suando de vontade de se aproximar. Não a conhecia. Nunca a tinha visto. Nunca se esqueceria daquele rosto na vida.

Quando pensou em dar um passo, percebeu que uma mulher se aproximou. Ela também era bonita. Era mais velha do que a garota. Neteyam voltou para seu esconderijo, enquanto observava as duas. A garota abriu os olhos e conversou com a mulher por um instante. Depois se abraçaram e Neteyam se sentiu invasor, de um momento íntimos demais.

Quando decidiu partir, uma luz no céu chamou sua atenção. Estranho demais para ser uma estrela, vago demais para ser um banshee da montanha. E tinha claridade exagerada.  Algo que nunca tinha visto. Pelo menos, não daquele tamanho. Parecia em vida com...

— Fogo! — Mulher gritou e alarmou, tanto a garota, quanto Neteyam. — O povo do céu voltou.

Foi tudo muito rápido. De repente, o fogo estava vindo e mergulhando floresta a dentro. As árvores começaram a cair. A menina gritou, como se isso fizesse alguma diferença. Não fazia. Neteyam precisou desviar de galhos e um vento forte demais jogou a árvore no chão.

A garota não parava de gritar. O caos estava armado. Precisava sair dali. Precisava avisar seu pai. Precisava voltar para casa. Precisava proteger sua família e seus irmãos. Ele precisava.

— Ont'ari! Ont'ari! — Mas a mulher simplesmente gritou. Ela gritou de medo, enquanto sua voz sumia no meio do caos.

Droga! Maldição! Neteyam correu na direção delas. A árvore tinha caído sobre elas. A mulher estava presa da cintura para baixo. E a garota estava apagada. O menino Sully se abaixou, alguns galhos continuavam caindo. Não tinha acabado aquele inferno.

— Por favor, por favor.... tira a minha filha daqui.  — A mulher implorou. Ela devia ter a idade de sua avó. — Não deixe ela morrer, menino. Por favor.

— Eu vou achar um galho. Vou tirar você daí.

— Não! Não, por favor. O fogo vai voltar e eu não quero que minha filha esteja aqui. Salva ela, por favor. Salva ela.

Neteyam não soube de imediato o que fazer. O coração dele parecia que estava derretendo. Se fosse embora dali, se deixasse aquela mulher ali, ela ia morrer. Mas se decidisse ficar, se tentasse salvá-la, os humanos voltariam e todos morreriam. Era uma bifurcação. Ele não sabia quem devia sacrificar. Não queria que estivesse nas mãos dele essa decisão.

— Ela é a única coisa que eu tenho, e a única família que me restou. Por favor, salva a vida dela.

Tinha sangue na testa da garota. Ela sangrava em algumas parte do corpo. Os braços estavam arranhados, as coxas, a barriga, o pescoço. Ela tinha dado sorte daquela árvore não ter caído sobre ela.

— Por favor...

— Tudo bem. — Com os olhos pesados de lágrimas, Neteyam a ergueu nos braços. Também estava ferido, mas estar consciente era uma vantagem. — Vou levar Ont'ari para casa.

— Cuide dela. Cuide, por favor.

— Eu prometo."

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