Capítulo 5


Capítulo Cinco: Despertar

Por Gabrielli

Parecia que minha cabeça ia explodir. Era uma dor insuportável, como se tivesse uma britadeira no lugar do meu cérebro. Escutei um bip no lado direito, o som guiado pelas batidas do meu coração. Quando finalmente consegui abrir os olhos, não reconheci o ambiente que estava. Tentei movimentar minha cabeça, porém não tinha muito sucesso, e a única direção em que consegui olhar, era para frente. Minha cabeça estava confusa e a última coisa de que me lembrava, era de estar no carro com meu marido e minha filha cantando uma música enquanto íamos até Cabo Frio, pois queríamos fazer uma surpresa para a Nanda.

Olhei a minha volta e vi uma jovem morena que não aparentava ter mais de trinta anos, ela chamou meu nome e perguntou se eu a estava ouvindo, sua voz era suave. Queria responder, só que minha garganta estava seca, então apenas fiz que sim com a cabeça e ela sorriu. Achava que era uma enfermeira, já que o quarto parecia muito com um quarto de hospital. Meu corpo todo doía, era como se um tanque de guerra tivesse passado em cima de mim.

― Gabrielli! ― Uma voz firme, porém acolhedora, chamou meu nome, e olhei diretamente para o dono daquela voz, era um homem, talvez um pouco mais velho do que eu com feições tranquilas. ― Consegue falar? ― Sua pergunta me fez tentar falar novamente e um sussurro seco e rouco saiu da minha garganta. ― Monique, traga um pouco de água, por favor. ― Água! Sim, por favor, eu precisava de água. Parecia que tinha farpas na minha garganta de tão seca que estava.

― Aqui, doutor. ― Monique entregou um copo com água ao médico.

― Você não pode beber tudo de uma vez, senão te fará mal, tudo bem? ― Fiz que sim com a cabeça. Ele encostou o copo em minha boca, dando-me goles fracionados de água, mas engasguei um pouco, então o médico afastou o copo dos meus lábios. ― Melhorou agora?

― Sim! ― Minha voz ainda estava rouca, mas não era mais apenas um sussurro fraco, agora minhas palavras podiam ser ouvidas mais claramente. ― Onde estou? Meu marido e minha filha, onde eles estão? ― Tentei economizar minha fala, mas o menor esforço já me deixava exausta.

― Todas as suas perguntas serão respondidas, Gabrielli. Mas, antes, gostaria de saber qual é a última coisa de que se lembra? ― Tentei me recordar de tudo para poder responder a sua pergunta e algumas imagens vieram à tona.

― Lembro-me de estar no carro com minha família, estávamos a caminho de Cabo Frio, indo visitar a madrinha da minha filha. Estávamos cantando uma música e depois uma luz forte nos atingindo. ― Meu Deus, nós sofremos um acidente! ― Sofremos um acidente?

― Sim, vocês sofreram um acidente. ― Minha respiração falhou e a única coisa que veio a minha cabeça nesse momento foi a Mayanna.

― Minha filha! Ela tem dez anos e é deficiente auditiva. ― Tentei mexer meu corpo, mas não consegui, pois tinha um peso sobre ele e, assim como a dor, era muito grande.

― Acalme-se, Gabrielli! Sua filha está bem e fora de perigo. ― Respirei com alívio ao receber essa notícia e tentei fazer novas perguntas, pois precisava saber como meu marido estava e se a Nanda já havia sido avisada, mas o médico não me deixou continuar. Falou que nesse momento o mais importante era me examinar para saber como eu estava, que teria que fazer alguns exames e que era muito importante que eu me mantivesse tranquila.

Fui examinada minuciosamente e outro médico entrou no meu quarto, esse era bem mais jovem, mas não se aproximou muito, apenas auxiliou o primeiro. Ainda não conseguia mexer nenhuma parte do meu corpo, a impressão que tinha, era de que até mesmo meus cabelos doíam. Coletaram meu sangue e em seguida me levaram para outra sala, que parecia ser de exames, acho que de ressonância. Minha cabeça pesava muito. Pensei na Nanda e em como ela devia estar preocupada.

Quando ela chegou à nossa casa há onze anos, era uma jovem de dezesseis anos complemente desprotegida, fragilizada e com seu emocional extremamente abalado. Nada em sua vida foi fácil, mesmo sendo uma jovem de boa família e tendo tido a melhor educação. Cometeu o único erro que não devia, amou demais.

Hoje, tantos anos depois, ela ainda tinha os seus problemas, e mesmo estando mais forte, mais madura e menos menina, ainda possuía aquela mesma fragilidade. Quando me entregou a Mayanna para que eu a criasse e cuidasse como minha própria filha, questionei muitas coisas, a principal delas era: "e se depois que eu me apaixonasse pela criança, ela a pegasse de volta?" E se a família ou o pai da menina descobrisse? Inúmeras questões passaram por minha cabeça, questões essas que até então não haviam se concretizado, mas que nesse momento não faziam mais diferença.

Mesmo amando a May como se tivesse vindo de dentro de mim, sempre pedia a Deus para que Nanda criasse coragem para revelar à família que sua filha estava viva e bem e que era a menina mais linda e amorosa do mundo. Porém, sabia que essa revelação poderia me afastar da minha filha e pensava nisso todos os dias nos últimos dez anos. Vi o quanto tinha sido doloroso e sofrido para ela, que cuidei como se fosse uma filha no momento mais difícil de sua vida, cada lágrima, cada noite em claro, cada pesadelo, cada crise, estive presente em todas elas.

Porém, respeitava suas escolhas. Ela quis se exilar de todos, inclusive da própria mãe, e só me restou tentar ajudá-la da melhor maneira que pude e tentar convencê-la a contar toda a verdade. Não tive muito sucesso em minhas tentativas, nem nos primeiros anos e nem agora. Retornei para a sala um pouco mais cansada, cada respiração era bem difícil.

― Já acabamos, senhora Galvão ― disse o médico mais jovem. Sua voz me fez voltar dos meus devaneios e não tinha nem o notado, pois era impossível perceber muitas coisas com tantas dores espalhadas por todo meu corpo.

― Posso ter o resto das minhas perguntas respondidas agora. ― O fato da minha voz não passar de um sussurro rouco realmente me incomodava. O outro médico que eu identifiquei como sendo um neurologista saiu do quarto, deixando-me apenas com a Monique, a enfermeira, e com o médico jovem que devia ser um ortopedista ou traumatologista.

― O que quer saber? ― ele me perguntou.

― Em que hospital estou?

― Hospital Dias Campos, em Cabo Frio. ― Graças a Deus! Então, com certeza, a Nanda estava aqui. ― Me chamo Lucas, sou um dos médicos que participou da sua cirurgia. ― Tentei mover minha cabeça para dizer que sim, mas não tinha forças para isso.

― A madrinha da minha filha, doutora Fernanda Avilar, é residente na pediatria desse hospital, o senhor a conhece? ― Torcia para que dissesse que sim.

― Sim! Eu a conheço, sou amigo dela. ― Nem tinha notado que minha respiração estava muito lenta, até esse momento.

― Pode avisá-la que preciso muito falar com ela? ― Respirar estava começando a me incomodar.

― Gabrielli, você está muito fraca. Seu estado é muito grave e seu corpo precisa de repouso. ― A voz dele era muito suave e seu nome agora não me era estranho.

― Você disse que se chama Lucas?

― Sim! ― Será que era o mesmo Lucas? Tentei dar um sorriso, mas saiu mais como uma careta.

― Você é bem mais bonito do que a Nanda fez parecer. ― Ele abriu um largo sorriso. ― Lucas, por favor, preciso muito falar com ela.

― Irei chamá-la. Mas você está na UTI, Gabi, e a Nanda só vai poder entrar por alguns minutos.

― Na UTI? ― Ele confirmou com a cabeça. ― E por quanto tempo eu dormi?

― Quase três dias. ― Quando se está destroçada, o tempo realmente não parece passar.

― Por favor, preciso falar com a Nanda ― pedi mais uma vez.

― Vou trazê-la até você. ― Ele veio até mim e segurou minha mão. ― Não vou demorar. ― Tentei sorrir novamente, mas achava que não tinha tido muito sucesso.

Depois de segurar firme na minha mão uma última vez, Lucas saiu com a promessa velada de trazer a Nanda até mim. Orei silenciosamente para que ele não demorasse, pois precisava falar com ela, perguntar como nossa florzinha e o Rômulo estavam e se ele reclamou muito por ter que ficar internado. Quanto a mim, sabia que não estava bem, sentia isso, pois meu corpo inteiro parecia ter sido jogado dentro de um triturador. Isso, com toda certeza, queria dizer que eu não estava bem, e se tinha uma pessoa que seria incapaz de olhar nos meus olhos e me omitir alguma verdade, esse alguém era a Nanda, a conhecia como a palma da minha mão. E ela não sabia mentir, nunca soube, e quando tentava, era um desastre. Tentei relaxar e pensar em outras coisas enquanto esperava por ela. Monique, a enfermeira simpática, fez toda minha higiene pessoal enquanto a esperava e tentei me manter o mais conciente possível.

Por Fernanda

Quando olhei para Lucas, vi apenas um rosto indecifrável, ele estava com sua postura profissional, bem diferente do amigo, e isso me assustava. Tentei me manter firme, senti as mãos do Rafa envolvendo minha cintura e o braço da Mel se entrelaçando com o meu.

― Como ela está? ― Finalmente perguntei, cortando o silêncio.

― Acordada, estável, mas nada bem. O quadro clínico em que ela se encontra é estável, só que crítico. Realizamos alguns exames e quando sairem os resultados, saberemos com mais exatidão. ― Se os braços do Rafa não estivessem ao meu redor, teria desabado e levado a Mel junto comigo. ― Ela quer te ver, Nanda. ― Respirei profundamente e soltei minha respiração, tinha feito muito isso ultimamente.

― Leve-me até ela! ― falei para Lucas. Senti as mãos do Rafa apertando minha cintura.

― Tem certeza que você está bem para vê-la? ― Rafa me perguntou com um tom de voz preocupado.

― Sou médica, não há nada naquele quarto de UTI que seja novidade para mim ― falei olhando em seus olhos, peguei sua mão sobre minha cintura e a acariciei. ― Vou ficar bem.

― Nanda, ela não é uma simples paciente, é sua família de certa forma, e isso é diferente ― Rafa falou mais próximo a mim, com uma voz ainda aparentando preocupação.

― Ele tem razão, Nanda. Você não quer que um de nós dois vá junto? ― Senti angustia na voz da Mel, que já tinha soltado meu braço e agora estava do lado direto do Rafa.

― Estou bem! Preciso falar com ela sozinha, e ela está em uma UTI, vocês não iriam poder entrar de qualquer forma. Vou ficar bem. ― Me soltei dos braços do Rafa e abracei a Mel, depois voltei minha atenção para ele, acariciei seu rosto e o abracei bem apertado. ― Obrigada pelo apoio. ― Beijei seu rosto e me afastei, saindo da sala.

Coloquei toda a minha concentração em minha respiração e contei lentamente de zero a dez umas dez vezes. Nos meus anos como interna no hospital universitário da USP, antes de escolher definitivamente uma especialização, vi muitas coisas terríveis, suturei muitos cortes, atendi muitos casos de urgência, acidentes domésticos, de trânsito e até mesmo de arma de fogo. O ambiente da UTI era um dos que conhecia melhor, sabia o que esperar do som do monitor cardíaco, a fiação dos eletrodos conectados ao corpo da paciente, a sonda nasogástrica e todos os outros equipamentos necessários para manter uma vida, conhecia bem cada um deles.

Chegamos rápido ao andar da UTI, a Gabi estava em um dos primeiros quartos e tinha uma antessala para que houvesse uma preparação antes de entrar. Lavei bem minhas mãos até o antebraço, vesti a roupa verde de proteção, amarrei meu cabelo em um coque solto, coloquei a touca de proteção e, em seguida, a máscara. Lucas fez o mesmo procedimento que eu, só não colocou a máscara e a touca, e assim que estávamos prontos, seguimos até o quarto.

Assim que entrei, reconheci o ambiente branco e estéril de imediato, aparelhos que já me eram familiares e uma cama hospitalar enorme no centro. Vi a Gabi ligada a todos aqueles aparelhos, estava com os olhos fechados, parecendo cansada, e forcei meus pulmões a inalar o ar e soltar lentamente, tentando me manter calma. Rafa e Mel tinham razão, é completamente diferente quando é nossa família que está vulnerável. Ela parecia muito pequena no centro do leito, que parecia ser maior do que realmente era, entre os aparelhos, eletrodos e fios.

Era estranho vê-la assim tão vulnerável, sempre foi ela quem esteve do meu lado e foi minha fortaleza no momento em que mais precisei, era minha vez de ser sua fortaleza e tentar retribuir da melhor forma possível tudo o que tinha feito por mim.

― Nanda, você está bem? ― A voz do Lucas parecia distante, mas consegui entender mesmo assim, e tive que fazer um esforço imenso para poder responder.

― Sim ― falei com uma voz quase inaudível. ― Estou bem, preciso apenas absorver tudo isso, não se preocupe Lucas. ― Ele fez que sim com a cabeça e voltou ao local onde estava.

Cheguei mais perto da cama e, assim que estava de pé ao seu lado, segurei sua mão direita. Seus olhos se abriram lentamente e percebi que, enquanto respirar para mim era algo simples, para ela era um esforço tremendo. Afastei minha máscara um pouco e vi o reconhecimento em seu olhar. Sua mão apertou um pouco a minha, um gesto discreto e suave, ela devia ter usado muito da pouca força que tinha para conseguir fazê-lo. Fez uma tentativa de sorrir, só que a musculatura da sua face não a obedecia como devia.

― Oi! ― falei, retribuindo seu aperto em minha mão.

― Oi! ― Sua voz era um sussurro rouco quase inaudível. ― Pela sua cara de profissional, devo estar horrível. ― Sua fala era lenta e fraca.

― Você não está horrível, está machucada e se recuperando de um acidente. Para com isso ― falei, controlando minha voz ao máximo.

― Você sempre foi uma péssima mentirosa, minha querida. ― Ela acariciava meus dedos enquanto falava. ― Por que não se senta? Acho que temos algumas coisas para conversar.

― Gabi, ainda está fraca, precisa descansar para poder se recuperar e sair daqui. ― Senti quando Lucas se aproximou, deixando uma cadeira plástica higienizada próxima a mim.

― Vou deixá-las à vontade. Nanda, qualquer coisa é só chamar. ― Fiz que sim com a cabeça, agradecendo, e sentei-me na cadeira.

― Obrigada, Lucas! ― Gabi agradeceu e Lucas se retirou. ― Ele é um bom homem, agora entendo por que se encantou por ele. ― Não consegui evitar um sorriso pela sua observação.

― Sim, ele é. ― Um segundo de silêncio se fez entre nós.

― Como está a May? ― Sua voz sussurrada quebrou o silêncio.

― Está ótima, na medida do possível. Chegou muito abalada, ainda está um pouco, na verdade, mas amanhã cedo vou levá-la para o meu apartamento. ― Ela pareceu estar avaliando minha resposta, até que se deu por satisfeita e partiu para a próxima pergunta.

― E o Rômulo? ― Ela saberia se eu mentisse, era muito boa quando se tratava de me ler. ― Não minta para mim, Nanda! Quero a verdade. ― Respirei fundo.

― Se eu mentisse, você saberia, Gabi! Então acredito que não adiantaria muito. Quando chegaram ao local do acidente, vocês dois estavam inconscientes e presos nas ferragens. ― Tentei controlar meu emocional e usei meu treino de anos na emergência como interna para pode continuar. ― Fizeram o possível, tentaram reanimá-lo, só que ele sofreu uma hemorragia interna e parada cardíaca. Sinto muito, mas não resistiu. ― E finalmente as lágrimas que lutei para que permanecessem anônimas, manifestaram-se. Gabi apenas fechou os olhos enquanto uma única lágrima escorria pela sua face.

― Tudo já foi providenciado? ― perguntou por fim, depois de alguns minutos que pareceram horas.

― Sim. Abraão e Olivia estão dando toda a assistência, organizaram tudo. ― Tentei voltar com o meu controle, mais por ela do que por mim.

― Que bom. ― Voltou a abrir os olhos e vi um mar de tristeza e dor estampado neles. ― Queria tanto ter me despedido... ― Sua voz estava ainda mais baixa, se é que isso era possível.

― Gabi, sinto muito, de verdade. Queria poder mudar o que aconteceu, voltar no tempo e ter viajado para o Rio como combinamos. Queria poder mudar tantas coisas, tantas decisões que tomei... ― Engoli em seco, tentando conter meu choro, algo que se mostrou mais difícil do que imaginei.

― Fernanda! ― Contei nos meus dedos de uma única mão as vezes em que a Gabi me chamou de Fernanda. ― Quero que me ouça bem e com atenção! O que aconteceu foi uma fatalidade, não foi culpa sua. Quisemos vir fazer uma surpresa a você, essa viagem foi uma decisão minha e do Rômulo, não sua. Você tem que parar de se responsabilizar por todo o mal do mundo. ― Mesmo sem perceber, voltei a chorar. Já tinha chorado nas últimas setenta e duas horas o que não tinha chorado minha vida toda.

― Ainda assim, me sinto responsável, mesmo que indiretamente. ― Minha voz estava trêmula ao falar.

― Mas, você não é! ― Em sua fala, percebi uma certeza surpreendente, mesmo com a voz fraca e rouca. ― Se responsabilizar por acontecimentos que estão muito além de você, não vai tornar as coisas diferentes do que são e tão pouco vai trazer o Rômulo de volta. ― Ela fechou os olhos por um segundo e voltou a abri-los. ― Você tem que contar a verdade para sua família, principalmente para o Rafael. ― Tentou falar mais alguma coisa, mas engasgou, fui até ela e reajustei o encosto de sua cama, peguei um pouco de água e tomou pequenos goles.

― Você precisa descansar Gabi, ainda está muito fraca, tem que repousar para poder se recuperar. ― Verifiquei o monitor cardíaco para ver se tinha ocorrido alguma alteração. Quando ainda estava verificando tudo, ela pareceu recuperar a voz.

― Não! Preciso falar com você sobre contar a verdade para sua família. Querida, já passou da hora de falar a verdade, esse momento não pode mais ser adiado e... ― Não deixei que continuasse.

― Já contei tudo ao Rafa. ― Ela se calou de imediato e me encarou.

― E como ele recebeu a notícia? ― Notei a ansiedade em sua voz.

― Não sei se um dia ele vai me perdoar, mas ouviu tudo desde o início e foi razoável, apesar das coisas que fiz. Fiquei muito surpresa com a atitude dele e com a forma com que lidou com tudo isso. Foi a primeira vez que vi o homem maduro que se tornou. ― Quase consegui ver um sorriso no rosto da Gabi.

― Isso não me parece tão ruim. Ele vai perdoá-la, não existe remédio melhor que o tempo. ― Sua respiração ficou um pouco mais lenta.

― Gabi, agora você tem que descansar. Estou falando como médica agora, não como amiga! ― Usei meu tom mais sério e profissional.

― Tudo bem, mas quero conhecê-lo ― falou como se tivesse fazendo um acordo comigo. ― O Rafael, eu quero conhecê-lo. Pelo seu tom, está claro que me liberar pra falar com ele hoje está fora de cogitação, mas quero vê-lo amanhã. ― Sua firmeza era nítida na forma que falava, se é que podia ser possível ter alguma firmeza nessas condições, e deixava claro que contrariá-la não era uma opção. ― Quero conhecer o pai da minha filha.

― Gabi, você não pode passar por emoções muito fortes, precisa se recuperar ― falei, tentando convencê-la a mudar de ideia.

― Acabei de receber a pior notícia que eu podia ter recebido, o homem com quem dividi minha vida durante quase trinta anos, que amei desde o primeiro momento, meu melhor amigo, companheiro, namorado, amante e marido, morreu. Minha dor e meu emocional não podem ficar pior do que já estão. Já que sou capaz de lidar com isso, um simples encontro com o Rafael não vai me abalar. Você não acha? ― Sua voz nesse momento quase não existia. Sua força, me emocionava.

― Tudo bem! Eu trago ele para conhecer você, só que não agora. Gabi, você tem que se recuperar, a May precisa de você e eu também. Quando estiver no quarto, trago ele, dou minha palavra. ― Era visível que não estava bem, muito machucada e fraca. Ela não me respondeu, apenas fechou os olhos e adormeceu.

Por Lucas

Depois de deixar a Nanda e a Gabi conversando, resolvi ir comer alguma coisa. Estava no hospital há três dias seguidos, fui até em casa tomar banho e dormir duas horas, mas voltei em seguida. Quando a Nanda me contou a sua história, fiquei surpreso, porém procurei não julgá-la. O ser humano, de um modo geral, tem o mau hábito de julgar o outro sem ao menos tentar se por no lugar e esquecendo que somos feitos de carne e osso, imperfeitos e que errar é da nossa natureza.

Cheguei ao balcão, pedi um café puro e uma porção de pão de queijo, em seguida me direcionei a uma das mesas próximas à janela, sentei-me e meu pedido não demorou muito a chegar. Pensei na Gabi e em como era delicada a sua situação, queria poder fazer alguma coisa, só que infelizmente tudo o que eu podia fazer, já havia feito, não estava mais em minhas mãos. Estava tão distraído e preso em meus pensamentos, que não notei quando alguém se aproximou.

― Posso falar com você? ― Quando olhei na direção de quem havia perguntado, surpreendi-me.

― Apesar de ser um país corrompido, acredito que ainda somos livres. ― Indiquei com a cabeça a cadeira que estava na minha frente. Tinha curiosidade em saber o que ele tinha para me falar, considerando que aparentemente Rafael não gostava muito de mim. Não podia fazer muito a esse respeito, se ele perdeu a garota, foi por ser um fraco que se deixou dominar pelas influências alheias, e eu não tinha nada a ver com isso. Sentou e me encarou. ― Em que, exatamente, posso te ajudar? ― Meu tom era neutro, não precisava ser amigável, mas também não seria mal educado. O pedido que ele devia ter feito antes de vir até mim, chegou, tomou um gole do seu café e repousou a xícara sobre a mesa.

― Serei direto, Lucas, para não tomar nem seu tempo e nem o meu. ― Não senti hostilidade em sua voz, apenas um pouco de controle excessivo e mal disfarçado. ― Preciso da sua ajuda em uma coisa, mas, antes, gostaria de te fazer um pergunta. ― Antes mesmo de ele abrir a boca para perguntar, já tinha uma ideia do teor da sua pergunta seria sobre meu relacionamento com a Fernanda. ― Você a ama? ― Foi tudo o que falou.

― Amor de homem e mulher? Cheguei a achar que sim. ― Eu mesmo respondi a pergunta que fiz, mas pensei um pouco antes de falar minhas próximas palavras. ― O que senti pela Nanda era apenas uma paixão louca e arrebatadora que acabei confundindo com amor, parece até patético um homem na minha idade falar assim, mas é a verdade. Percebi isso alguns dias depois que ela me falou sobre vocês dois terem ficado juntos em Búzios, fiquei magoado na hora, mas, por fim, acabei percebendo que minha chateação era mais pelo orgulho ferido do que pelo fato de vocês terem dormido juntos. ― Cada palavra era verdade. ― Gosto da Fernanda de verdade, ela é uma mulher sexy, sedutora, encantadora, geniosa, inteligente e incrível. Só que confundi meus sentimentos por ela pela química que temos e só consegui enxergar isso quando abri meu coração para ela, dando meu apoio nesse momento difícil pelo qual está passando. Talvez, se tivéssemos continuado, esse sentimento teria se tornado algo a mais. Amor, quem sabe. ― Ele pareceu satisfeito com minha resposta.

― Ok! Fico feliz com isso, poupa meu tempo em te esclarecer que eu irei lutar por ela ― disse, contendo um sorriso.

― Percebe-se! ― Tentei não transparecer a minha ironia, mas não sei se deu certo. ― Em que você precisa da minha ajuda, Rafael? ― perguntei novamente e sua expressão retomou a seriedade do início da conversa.

― Sei que você é um dos poucos médicos que tem acesso à Gabrielli e preciso falar com ela ― falou, indo direto ao ponto.

― Acredito que você sabe que ela está na UTI e que seu estado é bastante delicado, certo? Nanda, por ser médica, pode ficar com ela sem problemas. Como você não é familiar, infelizmente o acesso não é permitido. ― Fui direto, mas procurei não ser agressivo, pois não tinha nada contra ele, nunca tive.

― Sei disso, não sou tão ignorante, mesmo assim, preciso vê-la. Serão apenas alguns minutos e farei o que estiver ao meu alcance para não contrariá-la, sei que pode conseguir uma autorização. ― Por mais que eu quisesse ajudar e de certa forma gostaria, não achava aconselhável a Gabrielli receber mais visitas nesse momento.

― Não é tão simples Rafael, você não é da família, e a Gabrielli está muito fraca, precisa de cuidados extremos, o quadro clínico dela é muito preocupante e seu estado é grave. ― Ele precisava saber.

― O quão grave? ― Tinha que contar para a Nanda, e Rafael poderia me ajudar com isso.

― Ela está com infecção no sangue, os médicos estão tentando controlar com antibióticos, mas os últimos exames mostram que a infecção está começando a afetar os órgãos ― falei tudo de uma vez só.

― E não se pode fazer nada para reverter?

― Tudo o que é possível ser feito, já está ou já foi feito, a infecção é um agravante sim, só que não é apenas isso. Ela perdeu um dos rins e como eles têm a função de filtrar o sangue, isso apenas complicou ainda mais o quadro geral em que se encontra. ― Mesmo aparentando serenidade, dava para perceber que ele tinha ficado um pouco abalado com a notícia.

― Minha filha perdeu o único homem que ela conheceu como pai, não pode ter mais uma perda ― falou, me encarando. ― A Fernanda sabe?

― Não! E estamos fazendo todo o possível, Rafael, só que o corpo humano é imprevisível. Infelizmente não posso simplesmente colocar você dentro do leito de UTI de uma paciente em estado crítico. ― Usei meu tom profissional para que ele tentasse entender que não dependia apenas de mim.

― Ok! Não vou insistir, tenho que resolver outro assunto agora. Poderia avisar à Fernanda para me ligar antes de ir embora? Preciso falar com ela sobre "nossa filha". ― Senti que essa última frase foi uma indireta para mim e acabei fingindo não entender.

― Irei subir em alguns muitos e aviso a ela, pode deixar.

― Obrigada ― disse, se retirando logo em seguida.

Dava para perceber em seus olhos o amor que sentia pela Nanda, nunca amei uma mulher dessa forma tão intensa e sou bem sincero em dizer que se for para sofrer ou infringir o sofrimento de alguma forma, espero nunca amar. Quando já estava no balcão da lanchonete para pagar meu café, um furacão de olhos castanhos brilhantes e com rosto de boneca esbarrou em mim.

― Desculpa! Eu... Ei, Lucas! Desculpe-me por ter esbarrado em você, mas estou procurando meu irmão, você viu o Rafa? ― Nunca conheci uma mulher que falasse tanto e tão rápido como a Melissa. Uma coisa nela que era muito rara e única era a sua sinceridade, sempre falava o que pensava, sem filtros. Estranho, eu a estava avaliando demais.

― Ele estava falando comigo há uns minutos e disse que iria revolver um problema. Aconteceu alguma coisa?

― Nada de mais, ele tinha me pedido para dizer à Nanda que queria falar com ela, só que uma das enfermeiras me disse que ela voltou da UTI, deu um beijo na May e saiu.

― Já tentou ligar no celular dela?

― Tentei, só que acho que deve estar descarregado, foi direto para a caixa postal e... ― Mal terminou de falar e o celular tocou, ela o retirou de dentro da bolsa e olhou para o visor. ― É a Nanda! ― Aceitou a ligação. ― Onde você foi, prima? ― disse assim que atendeu. ― Imaginei que o celular estivesse descarregado... Ok!... Pode deixar, estou com o Lucas aqui, na lanchonete... ― Gesticulei para Mel falar que o Rafael pediu que ligasse para ele assim que possível e ela apenas fez que sim com a cabeça. ― Nanda, o Lucas está dizendo que o Rafa pediu para que você ligasse para ele assim que possível... Hum... Tá, pode deixar... Então, você pretende levar a May para o velório?... Tudo bem, não se preocupe, vai dar tudo certo... Também te adoro... Beijo.

― E então, onde ela está? ― Mel fez uma cara meio engraçada antes de responder.

― Em casa, ela está organizando tudo para a May no quarto de hospedes. Uma das vantagens em morar próxima ao trabalho.

Despedi-me de Melissa e suas ironias. Tinha que admitir, ela era uma mulher intrigante, no mínimo. Fui até a UTI antes de começar minha ronda, queria saber como a Gabi estava após aquele encontro. Assim que cheguei, encontrei a enfermeira ministrando a medicação diária para combater a infecção, eram muitos rostos e nem sempre conseguia o feito de decorar o nome de alguém que não fosse da minha equipe.

― Como ela está? ― Perguntei à enfermeira que já estava recolhendo os seus materiais.

― Ainda fraca, com dores e confusa em alguns momentos, mas estável ― falou, verificando o soro. Quando finalizou seu trabalho, pediu licença e saiu discretamente. Verifiquei o monitor cardíaco e se a enfermeira tinha realizado a troca da sonda, aparentemente tinha feito um trabalho impecável, não que eu duvidasse, apenas achava que não custava verificar, hábitos da profissão.

― Acho que aquela enfermeira me deu medicamento demais para dor, estou meio que flutuando. ― Não cheguei a me ajustar com sua fala, porque sua voz estava fraca e muito sussurrada. Fiquei apenas surpreso de ela ainda estar acordada. Sem retirar minha atenção dos aparelhos, respondi-a:

― Isso é normal, você está assim, porque a medicação é muito forte. Depois que dormir um pouco, vai passar. ― Terminei de verificar tudo e voltei minha atenção para ela. ― Como está se sentido?

― Exatamente como há algumas horas atrás, parece que um tanque passou por cima de mim. Vai falar que isso também é normal, doutor Lucas? ― Passou um entendimento por seus olhos, que conheci de imediato. ― Quero que me fale a verdade Lucas, qual é a real situação? Por que um infectologista veio me examinar e recolher meu sangue? Posso estar debilitada, mas não tive minha capacidade cognitiva afetada. ― Não adiantaria inventar desculpas, então decidi contar a verdade. Expliquei todo o quadro clínico dela, assim como havia explicado para o Rafael há algumas horas.

― Quanto tempo eu tenho?

― Não é uma questão de tempo, Gabi. Estamos combatendo a infecção com medicação.

― Você disse que está se espalhando pelos órgãos! Se chegar ao meu coração, não vai ter muita coisa que possa ser feita! Então, quanto tempo eu tenho? ― Não sabia o que falar, estava certa, mas também não iria predeterminar uma data de morte para ela.

― Você está certa, Gabrielli, só que o corpo humano é imprevisível e não vou ficar datando sua morte, se é isso que você quer! ― falei com meu tom profissional. Ela fez uma careta, mas resolveu mudar de assunto.

― Quero que faça outro favor para mim!

― O que seria?

― Quero falar com uma pessoa.

― Você está em uma UTI, não pode simplesmente receber visitas assim, Gabrielli. Além do mais, precisa descansar, acabou de receber uma medicação forte e... ― Ela não me deixou terminar.

― Não tem nada que você me fale que eu já não saiba, preciso falar com ele, é caso de vida ou morte. Sei que como um dos médicos que está acompanhando o caso, você pode autorizar.

― Com quem você quer falar? ― falei conformado.

― Rafael Andrade ― ela falou enquanto lutava para manter os olhos abertos. ― Preciso falar com ele, é muito importante. E tem que ser ainda hoje.

― Gabrielli, já está tarde e você acabou de tomar uma medicação forte, não está em condições de receber visitas nesse momento ― tentei convencê-la a mudar de ideia.

― Eu me responsabilizo. Por favor, Lucas! Preciso falar com ele, já descansei tempo demais. Sei que a Nanda foi organizar o apartamento para receber a May, então aproveita que ela não está e ligue para ele. ― O pedido estampado em seus olhos, juntamente com sua determinação, me convenceram.

― Ok! Ele ainda está no hospital, vou tentar encontrá-lo. Agora, tente descansar um pouco. ― Coloquei o prontuário no suporte próximo à cama e saí com a missão de trazer o Rafael até ela. Não sabia por que tinha concordado com esse absurdo, só podia estar ficando maluco mesmo. Tinha alguma coisa me dizendo que eu precisava fazer isso, mas realmente não sabia se seria uma boa ideia.

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