4
Tinha sido apenas um olhar pelas altas janelas conforme o conde mostrava sua casa para Archie. Fora apenas sua curiosidade para ver os jardins tão elogiados da casa do nobre, quando o rapaz viu a mulher que subia em uma raiz alta, que tinha a altura dos seus joelhos.
Desde aquele contato com a moça, seus pensamentos estavam preenchidos por ela. Os olhos escuros e sombrios, os lábios fartos que pareciam um convite de tão tentadores e o cabelo preto que estava trançado para trás. Ele não conseguia se ater ao que o conde dizia, portanto, sua mãe havia tomado o controle daquela visita.
Assim que se sentaram em um sofá dentro do escritório do homem, Archie se viu desejando estar perto daquela mulher outra vez. Pelas roupas que a jovem usava, ele não achara a princípio que se tratasse de sua noiva, apenas o silêncio a havia denunciado.
— Sem querer parecer intrometido, mas se vossa graça não se importar, eu gostaria de conhecer sua filha pessoalmente — sussurrou o rapaz.
— Archie... o conde acabou de dizer que a filha está doente — a mãe avisou.
— Não demoraríamos nada, eu quero apenas conhecê-la pessoalmente. Minha mãe sabe que não sou adepto ao costume de casamentos arranjados, não quero parecer o proprietário dela quando nos casarmos.
O conde observou o rapaz com cautela, Archie achou que o homem não queria apresentar a filha mais nova, porém, seria estranho que recusasse o pedido.
— Se ela não puder sair do quarto, vossa graça, acredito que dada nossa situação atual, o senhor poderia nos abrir uma exceção e deixar que a víssemos um instante nos aposentos — sugeriu a viúva.
— Não precisamos ser tão cautelosos, minha filha não tem doença contagiosa alguma, vou pedir que a criada a traga — avisou e se levantou.
Archie levantou e o cumprimentou conforme o homem saía do cômodo.
— O que você está fazendo? — repreendeu a mãe.
— Estou tentando tomar algum controle dessa situação em que a senhora nos meteu.
Quando a porta voltou a abrir-se o conde se sentou novamente e garantiu que a filha seria trazida.
— Como estão os seus negócios? — ele indagou.
Archie imaginou que o homem temesse pelo conforto da filha, por isso lhe questionava sobre sua situação financeira. O rapaz ergueu o queixo e contou que estavam indo muito bem.
— O senhor não precisa se preocupar com o padrão de vida que sua filha terá de agora em diante, nós temos total condição de mantê-la segura e confortável — a viúva Harris avisou.
— Não tenho dúvidas — o conde respondeu.
— Há algo que precisamos saber sobre a saúde dela? — Archie inquiriu.
— Eu acredito que ela só precise se adaptar a uma vida de casada, provavelmente vocês não terão muitos gastos com relação a isso. Como eu já expliquei a sua mãe, minha filha falava normalmente até os cinco anos, depois misteriosamente, ela parou de falar. Os médicos não explicam o fato, perguntei se tinha algo a ver com o afogamento, mas não souberam dizer. Dizem que tudo está como deveria estar.
— Afogamento? — a viúva indagou nervosa.
— Sim, no lago do jardim frontal, ela caiu no lago no outono, mas conseguiu sair — ao concluir a fala Archie percebeu que a mandíbula do homem travou como se ele não quisesse falar a respeito.
Antes que o rapaz pudesse perguntar algo, a mãe lhe segurou a mão disfarçadamente, impedindo-o de dizer mais. Muitas questões rodavam na mente do jovem conforme encarava o nobre a sua frente, uma coisa que não lhe passou despercebida é que o conde jamais pronunciou o nome da filha, desde que começaram a conversar, ele não o ouviu dizer uma única vez.
Instantes se passaram, em que a viúva elogiava a propriedade e falou a respeito de como o marido sempre elogiava a família Williams, o conde disse que o Sr. Harris era um amigo próximo de sua esposa, os dois haviam crescido juntos e que o próprio teve o pai de Archie como um amigo.
A conversa não parecia fluir e por mais que novas tentativas de assunto fossem levantadas, logo eles se extinguiam. Quando uma batida soou a porta, todos ficaram de pé e a porta se abriu assim que o conde ordenou que entrassem.
Uma moça entrou no cômodo, uma que parecia completamente diferente daquela que Archie viu nos jardins mais cedo.
Jane usava um vestido azul justo que acentuava o quanto sua cintura era fina, o cabelo havia sido preso em um penteado no alto da cabeça e a jovem permanecia com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Ela ergueu o rosto apenas quando viu Archie, os olhos dela pareciam gritar silenciosamente para ele.
Uma pergunta que o rapaz não compreendeu.
— Esta é a minha filha caçula — o conde apresentou sem se aproximar dela.
— Peço desculpas por tirá-la de seu descanso, Srta. Williams — a viúva Harris disse conforme se aproximava.
A moça desviou os olhos de Archie e encarou sua mãe assentindo em cumprimento.
— Este é Archie Harris, o seu noivo — o pai apontou para o rapaz fazendo com que Jane voltasse a encará-lo.
— É um prazer conhecê-la — Archie falou e estendeu a mão.
Jane segurou a mão do rapaz e mesmo naquele gesto, ele conseguiu notar que a mão dela tremia. A palma estava fria contra a sua, Archie levou a mão da moça aos lábios, soprando ar quente contra seus dedos disfarçadamente antes de beijar a pele.
Havia uma cicatriz na mão dela, uma que ele não teve tempo de estudar, pois logo aquele contato foi quebrado.
— Vamos nos ver com alguma frequência até o casamento — o conde avisou. — Estive pensando Sra. Harris, creio que no próximo mês, podemos fazer uma celebração simples, não há muitos convidados de minha parte.
— Faremos o casamento em pleno outono? — inquiriu a mulher.
— É a única solução, a menos que a senhora consiga organizar uma festa de casamento em uma semana para aproveitarmos o fim do verão — o conde respondeu com um sorriso divertido no rosto.
— Seria interessante que vocês nos visitassem no próximo dia que puderem, assim a Srta. Williams poderia conhecer a propriedade que chamará de lar — convidou a senhora.
O conde franziu o cenho e forçou um sorriso antes de dizer:
— Claro, vou tentar acompanhá-la em dois dias, é o único dia que estarei livre.
— Perfeito, estarei ansiosa por essa visita.
— Temos que ir agora — Archie falou. — Até breve, Srta. Williams.
A jovem ergueu os olhos apenas o suficiente para um aceno cauteloso de concordância. Eles despediram-se e seguiram para fora da propriedade do nobre. Archie guardou suas suposições e perguntas até estarem na segurança de sua carruagem e com a propriedade do conde muito às suas costas.
— Percebeu que ele não disse o nome da filha? — inquiriu o rapaz.
— Não notei, querido, isso me passou despercebido.
— Ela parecia muito assustada também... notou como tremia? A mão dela estava fria — ele confidenciou.
— Ela estava doente, Archie.
— Me parece mais que isso... por que ela ficaria tão nervosa? — interrogou.
— Archie, ela é uma moça que viveu trancada na casa do pai a vida inteira, está prestes a se casar e você não me parece exatamente o tipo de homem que cause uma impressão de conforto.
— O que a senhora quer dizer com isso? — perguntou nervoso.
— Olhe-se no espelho, Archie. Você é um homem enorme, imagino o medo que ela deve ter. Uma mulher que não fala, que está se casando com um homem como você, ela deve estar se perguntando se você irá maltratá-la por sua condição.
— Espero que seja esse o problema — sussurrou em resposta.
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