CAPÍTULO 8.5

ATENÇÃOESPECIAL
Hoje um capítulo postado + bônus
Já aproveitem para curtir e comentar.

**AMBER**

Meu tio. Meu tio. Meu tio. Meu tio.

Meu tio quer vir me ver, aqui. Eu não sei nem como reagir a isso. Meu tio.

Eu cheguei a vê-lo apenas uma vez, eu tinha 8 anos de idade e só o vi uma vez, por um dia.

Como ele me achou aqui, nesse buraco? E por que, por que ele quer me ver? Como ele pode querer ver alguém que só viu uma vez?

Será que ele estaria com a minha mãe?

Eu me afastei do guarda Thompson sem ligar se havia algo mais que o guarda gostaria de falar. Tantas coisas aconteceram hoje, tantas coisas ainda podem acontecer.

O que será que meu tio quer? Será que ele vai apenas esfregar na minha cara o quão ferrada estou? Ou talvez ele esteja aqui porque realmente se importa comigo e queira me ver.

Eu realmente não sei, e eu odiava isso. Odiava essa situação e odiava o que ela me causava, esperança.

Aqui qualquer tipo de esperança é um risco, ela pode te destruir em questões de minutos. A esperança preenche o vazio que há dentro de nós, nos preenche com sonhos e hipóteses do que pode acontecer. Mas quando a esperança é perdida o vazio que ela deixa, é muito maior do que foi preenchido, e muito mais profundo também.

Uma mão agarrando meu pulso me tirou dos pensamentos autodepreciativos que eu estava para ter, e me deu um puxão me jogando dentro de uma cela qualquer que estava com a porta aberta.

De alguma forma, com aquele puxão, eu acabei com uma mão tampando a minha boca e com as costas colada na parede com força o suficiente para me fazer fechar os olhos e arrancar todo o ar de meus pulmões. Por um instante senti meu coração batendo forte dentro de mim, um instante foi o suficiente.

Um segundo depois meus dedos se encontravam ao redor da mão posta na minha boca. O detento seja ele quem for retirou a mão como um vulto de perto de mim, gruindo. Eu abri meus olhos e me espantei com o que via.

- Grayson? - eu disse espantada enquanto Grayson levava a mão que eu mordi de volta para si.

Ele estava perigosamente perto de mim, e eu estava perigosamente sem um ponto de equilíbrio para tentar impedir ou agir sobre qualquer golpe dado por ele.

- Nunca pensei que você fosse do tipo que mordesse, amor. - ele me olhou maliciosamente ainda perto o suficiente para me manter presa entre ele e a parede.

- Pare de me chamar de amor. - eu rugi tentando empurrar seu corpo para longe para que eu pudesse passar, mas mesmo fazendo esforço não consegui empurrar seu peito um centímetro mais longe do que o meu.

- Por que, amor? Não gosta quando eu sou carinhoso? - ele ironizou novamente, me fazendo revirar os olhos.

Sinceramente, Grayson vai acabar perdendo um membro até o final do dia se continuar me importunando dessa forma.

Eu bati as mãos no seu peito zangada, mas tudo que Grayson fez foi afastar minhas mãos de seu peitoral e colou nossos corpos com força. A surpresa me fez recuar para trás, fazendo minhas costas se encontrarem com o concreto gelado da parede.

Ele tem sorte, muita sorte, de ser uma das poucas pessoas das quais não me importo com o toque. Caso contrário....

- Devo perguntar onde sua mente conturbada e diabólica quer chegar com essa conversa, Grayson? - questionei levantando minha cabeça para cima, evitando deixar meu rosto muito perto do seu quando ele se aproximou mais. Mas mesmo olhando para teto, eu sabia que as sobrancelhas de Grayson estavam levantas e ele estava com aquele sorriso sínico no rosto.

- Eu não sei, deve? - o tom venenoso na sua voz foi muito explicito - Tem algo que está escondendo de mim, querida? - uma de suas mãos serpenteou pelo meu braço, e eu involuntariamente enrijeci, voltando minha cabeça para baixo, o encarando espantada. Seus olhos não mostravam nada além daquele brilho sádico em meio a cor azul de suas írises.

- Grayson eu não estou com paciência para seus joguinhos deturbados, muito menos depois daquela cena no...

- Eu vi como você me encarou quando aquele guarda se aproximou.

Aquilo me calou e por um momento eu simplesmente travei. Eu sabia do que Grayson estava falando, é claro que eu sabia, o fato é que ele não poderia saber. Afinal, temia que se Grayson soubesse o quão bem conheço suas expressões, bom, coisas bem ruins acontecessem.

- Não tenho ideia do que você está falando, Gray. Alguém bateu na sua cabeça com muita força hoje? - eu provoquei. Provavelmente essa não era a melhor hora para isso, mas se eu não fizesse Grayson poderia desconfiar mais.

- Você viu algo em meus olhos, eu sei que viu, eu vi algo nos seus também. - sua mão, até a pouco esquecida por mim, voltou a serpentear pelo meu braço passando por meu ombro até chegar na base do meu pescoço.

- Esse é um caminho pelo qual você não quer prosseguir, Grayson. - indaguei encostando minha cabeça na parede, tentando afastar seu toque, mas a mão continuava no mesmo lugar, sem prosseguir ou recuar. Grayson olhou no fundo dos meus olhos, ele parecia querer falar algo mais, mas foi interrompido. Interrompido por uma sirene.

Uma sirene alta e estridente tocou pelos corredores de St. Monica em uma sequência assustadora.

Eu demorei dois segundos para reconhecer o que era aquela sirene, assim como Grayson, nós dois nos encaramos com os olhos arregalados e um pouco pálidos quando entendemos o que estava prestes a acontecer. Gray se afastou de mim. Nós mantemos nossos olhares um no outro por mais um milissegundo antes de os dois sairmos pela porta em sentidos diferentes.

Eu precisava chegar logo no quarto, precisava ver se os outros estavam bem, por que essas sirenes... Essas sirenes, elas só indicando uma coisa.
Uma revolta está vindo.

◇◇◇

A pequena corrida do quarto em que eu estava até o meu próprio quarto foi uma loucura.

A gritaria dos que corriam pelos corredores, os móveis sendo arremessados para fora dos quartos direto ao chão, os papéis higiênicos pegando fogo sendo jogados pelos ares e o cheiro de queimado começava a tomar boa parte do ar.

Eu tinha esquecido o quanto eu odiava as revoltas, agora me lembro claramente o porquê.

Cheguei na porta do meu quarto, e espiando dentro dele não enxergava ninguém lá. E senti o desespero tomar conta de mim. Eu não tive tempo. Jonas, Micaela e Jesus. Eu não tive tempo de mostrá-los o que fazer em situações desse tipo. E achá-los agora? Nesse caos? É impossível. Como poderia? Esse lugar é enorme e tudo agora está um caos.

- Amber!

Uma voz gritou meu nome pelo corredor, e um pouco mais longe eu avistei o pequeno corpo de Micaela carregando parte do corpo de Jesus enquanto Jonas o carregava pelo outro lado. Meu deus. Ele estava desmaiado?

Eu corri até eles, esbarrando e derrubando qualquer um no caminho. Cheguei perto deles e percebi que Jonas também estava machucado e manchando. Aquilo era sangue? Mais que merda?

Retirei o braço de Jonas das costas de Jesus e assumi seu lugar erguendo o garoto acima de mim, enquanto impulsionava todos para o quarto o mais rápido possível. Um dos dois gemeu por dor nesse processo, eu não sei dizer qual deles foi ou se foram os dois.

Jesus não por sorte estava desmaiado, mas provavelmente estava muito perto disso.

Entramos todos no quarto meio atordoados enquanto detentos cruzavam o caminho uns com os outros no corredor lá fora. As sirenes continuavam como trilha sonora para todo aquele caos.

Micaela colocou Jesus deitado de bruços na cama, e quando olhei para suas costas, meu corpo paralisou, o ar sumiu de meus pulmões no meio da respiração, meus ombros tencionaram a certo ponto que chegou a doer, e meu joelhos, pareciam que desabariam a qualquer momento.

A blusa de Jesus estava repleta de sangue. Tanto sangue.

- O que merda aconteceu? - perguntei correndo para me ajoelhar perto da cama onde ele estava.

Micaela ficou quieta, se encostando na estrutura da cama me observando e Jonas... O ar de meu peito sumiu novamente quando eu o vi. Jonas estava de costas para mim, ele... Ele também está cheio de sangue, e eu não sabia dizer se era dele ou de Jesus ou dos dois.

- Você... Meu deus, as... As costas dele, as suas costas...

- Eu estou bem - Jonas respondeu nem me deixando terminar. Ele andou até a janela e se apoiou por lá. - Ele precisa de mais ajuda que eu. - ele apontou a cabeça para Jesus. Não deixava de ser verdade. Jesus nem se mexia sem acabar resmungando de dor. Mas, minha nossa isso estava um desastre.

- Vocês tem muito o que me explicar - eu disse colocando um pano, que Micaela me passou, nas costas de Jesus, tentando reter um pouco daquele sangue.

- Onde é que caralhos você estava? - Micaela questionou, seu tom levemente alterado.

Eu a encarei cheguei a abrir minha boca para dizer algo, mas eu não sabia nem por onde começar, talvez pelo meu tio sumido? Grayson? A revolta?

- Isso não importa agora - eu disse rispidamente a garota, mas ela não se abalou pelo meu tom de voz, nem pelo modo como eu falei, ela não vacilou na sua postura nem com seu olhar, uma pena que para ela eu também não.

Quando Micaela desistiu, desviando o olhar, eu me virei para Jonas que ainda se apoiava a janela, observando-me e sua irmã preocupado.

- Sente-se nessa cama antes que acabe desmaiado, vou cuidar de seus machucados depois.

Ele parecia querer relutar contra aqui, mas eu não dei chance para ele sequer abrir a boca, eu o mandei aquele olhar, aquele que só usava com os outros detentos, para assustá-los. Jesus já está todo machucado, eu não vou arriscar que Jonas ficasse assim também.

Eu comecei a me levantar, mas Jesus de algum jeito, conseguiu segurar minha mão antes que eu me afastasse para pegar o kit de enfermagem na ponta do quarto.

- Amber. - sua voz saiu falhada - Minhas costas, elas doem. Por favor, me ajude. Por favor.

Ver Jesus assim. Vê-lo implorando por ajuda. Uma ajuda que eu nem sei se posso dar. Aquilo machucou meu coração, em um lugar muito profundo, onde eu pensei que não existia mais nada.

Eu já havia implorado assim antes. E então nunca mais.

Sentir o desespero na voz de Jesus, e não poder fazer nada para tirá-lo dali, me fez querer chorar, gritar, mas principalmente me fez querer sair lá fora e matar quem fez isso, mas eu não podia, não agora.

- Jesus. - eu me agachei na frente de seu rosto. Ele estava de bruços com a cara no meio dos braços, mas ele fez um esforço considerável para conseguir erguer o rosto ao meu. Toquei suavemente sua bochecha aproximando nossos rostos.

- Eu vou cuidar de você. Você vai ficar bom, ok? - ele suspirou baixinho enquanto Micaela assumia meu lugar nas suas costas, cuidando de todo aquele sangue.

Sua mão apertou meu pulso, a mesma que tinha me impedido de levar, eu nem me lembrava que ela estava ali. Eu livrei meu pulso dela, o substituindo com minha mão. Eu juntei nossas mãos as apertei. Força, era isso que ele precisava agora.

- Você vai ver. Mas você tem que ficar firme ok? Me prometa, prometa que você vai ficar firme. Por favor - eu sussurrava baixinho em seu rosto, ele apertava minha mão com mais força conforme Micaela continuava a cuidar de suas costas.

A dor que ele deve estar sentido... A angústia. Senti meus olhos arderem, e as lágrimas surgiram logo depois.

- E-eu prometo.

- Você. - eu disse desviando meu olhar para Micaela, sentada na beirada da cama com um pano ensanguentado nas mãos. - Está tão mal quanto eles? - ela negou, e mesmo sabendo que poderia ser mentira eu tive que acreditar nela - Ótimo, então de um jeito de bloquear a porta.

- Por quê? - foi Jonas que perguntou, já deitado na beliche de baixo do mesmo jeito que Jesus, com as costas ensanguentadas para cima - E que infernos de sirenes são essas?

- É uma revolta. Estados no meio de uma revolta.

◇◇◇

Finalmente. Finalmente eu tinha acabado de cuidar das costas de Jesus.

Não foi nada fácil. Em momento algum. Nem para ele nem para mim. Fazia alguns bons anos desde a última vez que eu tive que suturar as costas de alguém com aquele tipo de corte. Além das minhas próprias costas a última vez que eu suturei um corte tão longo e comprido assim, foi na minha mãe.

Eu não consegui esconder o tremor das minhas mãos dos gêmeos, e eu cheguei a um ponto de não querer me explicar para eles também, eu estava focada demais em não dar mais pontos que o necessário nas costas dele.

O corte. Ele era horrível, ele se estendia do ponto mais alto de seu ombro esquerdo e se estendia em uma linha nem tão reta até a metade de suas costas. Mas eu felizmente já era experiente em o suficiente em dar pontos precisos e certeiros, assim pelo menos ele não sentiu mais dor que o necessário. Não que ele tenha sentido muita coisa, ele acabou desmaiando entre o primeiro e o terceiro entrar da agulha na pele.

Agora eu estava sentada na beirada da cama onde Jonas está deitado, e minhas mãos não passam de mistos de colorações avermelhadas. Jonas, ao contrário de Jesus, não tinha nenhum corte grande ou profundo, apesar de ainda assim ter alguns espalhados pelos ombros até o final da lombar. Eu contei 9 cortes agora. Sem falar no corte horroroso que ele fez na mão, que eu cuidadosamente já cuidei.

- Você tem jeito com agulhas - Jonas comentou enquanto eu terminava de limpar os cortes superficiais da sua pele com o álcool. Ele nem sequer reclamou pela queimação que sentiu.

Dei uma olhada rápida para Jesus e Micaela, que estavam na uta beliche, Jesus, apagado no beliche de baixo e Mica sentada encarando o chão da beliche de cima.

- Obrigada? - disse sem prestar muita atenção no que realmente ele estava falando, eu estou focada em cuidar dos machucados agora.

- Não foi um elogio - ele redigiu - Você sabe fazer suturas muito bem, e para isso é preciso ter prática. - concluiu

Eu parei de cuidar de suas costas, minhas mãos simplesmente pararam. Ele realmente estava insinuando o que eu acho que ele estava insinuando? Agora? Era verdade, eu tinha prática para ter suturas firmes, mas Jonas não precisava saber disso. Ele não tinha que saber disso, porque não tinha como eu contar que tinha prática em suturar sem contar como aprendi a fazê-lo.

- Não sei onde você quer chegar Jonas, mas agora não é a hora para falarmos disso. - eu sussurrei voltando a colocar minhas mãos nas suas costas ele suspirou e sua cabeça virou-se um pouco até que seus olhos encontraram os meus.

- Então existe algo para que precisamos falar? - um sorriso irritante surgiu em seus lábios. Eu o belisquei no mesmo momento fazendo ele suspirar pela surpresa e pela dor.

- Continue provocando-a assim stronzo, e acordará com uma faca enfiada em seu ombro no meio da noite.

A voz sonolenta de Jesus soou da cama ao lado, eu me virei no mesmo momento para ele, eu o examinei, vendo de suas expressões faciais e corporais até o machucado em suas costas. Eu o mandei um olhar significativo, querendo me certificar de que ele estava bem, ele pareceu entender isso quando respondeu:

- Tudo bem, estou melhor do que este - pelo jeito cômico de sua voz, eu poderia facilmente dizer que Jesus já tinha se curado, já que arriscava a tirar sarro de Jonas, tão debilitado quanto ele.

Um estrondo forte ressoou pelo lado de fora da porta, a tamanha força que o chão chegou a tremer e outra onda de gritos começou.

- Me explique de novo o porquê de estarmos aqui dentro enquanto o inferno se está surgindo lá fora? - Jesus questionou tentando se sentar na cama, eu estava me levantando para ajudá-lo, mas Micaela foi mais rápida o erguendo com cuidado até que se sentasse na cama. Eu finalizava as costas de Jonas enquanto isso.

- A cada três meses um detento idiota acha que pode bancar uma de revolucionário e incendiar o lugar. - eu disse passando os últimos esparadrapos por cima dos pontos - Os guardas daqui são preparados para isso. Eles deixam os detentos destruírem o lugar por algumas horas e depois trancam as celas automaticamente.

Era a verdade, tanto os guardas quanto o comportamento dos detentos. Desde que cheguei aqui em St. Monica, acho que já passei por duas dessas "revoltas" e posso afirmar que essa é a pior parte de tudo, a parte da espera. Ficar se escondendo no quarto esperando o momento em que toda a situação entre em controle.

- Eles não tem verba para montar uma enfermaria ou comprar uma comida decente para os detentos, mas tem dinheiro suficiente para automatizar as portas? - Jonas perguntou sarcasticamente, interrompendo meus pensamentos, Jesus e Micaela riram de sua piada.

- A corrupção é algo maravilhoso, não? - Jesus ironizou de volta. E todos sorriram.

- Eles ficam vigiando tudo pelas câmeras. Eles deixam os detentos acharem que podem fazer tudo o que quiserem, mas no final, punem aqueles que causaram mais estrago, por isso estamos aqui dentro, seguros e longe de problemas, e não lá fora. - eu finalizei me levantando da cama e indo até a janela esticando minhas costas.

- Não tão longe de problemas assim. - a voz de Micaela surgiu no ar, pouco atrás de onde eu estava. Ela está certa.

Eu desviei meu olhar da vista da janela a encarando por cima do ombro quando finalizei:
- É, nem tão longe assim.

◇◇◇

Eu estava deitada na minha beliche, encarando o teto há horas desde que as luzes se apagaram.

Eu por incrível que pareça, dessa vez, não são os pesadelos que não me deixam pegar no sono. São meus próprios pensamentos.

Ainda podia sentir o leve tremor nas minhas mãos, aquele mesmo tremor que senti quando encaixei a linha na agulha e encarei as costas de Jesus. Eu não entendo por que fiquei tão abatida com o fato de Jesus estar machucado dessa vez. Eu já cuidei de tantos de seus machucados, dos menores aos piores que se possam imaginar e, em nesses 7 longos meses desde que o garoto chegou aqui, eu nunca um desses Déjà vu antes. Não como esse.

Remendar as costas de Jesus hoje, me fez lembrar da minha mãe. Do tempo que eu minha única preocupação a noite eram os machucados que meu padrasto fazia na minha mãe quando chegava bêbado do bar. Se Jesus acha que eu tenho uma considerável quantidade de cicatrizes espalhadas pelo meu corpo ele realmente acharia minha mãe uma cicatriz em pessoa.

Ah, mamãe. Onde será que a senhora anda?

Decidi que não aguentava mais ficar rodando na cama, não com esses tipos de pensamentos rondando minha mente. Eu me levantei silenciosamente da cama e fui me reconfortar no meu querido canto ao lado da janela. Um lugar não tão confortável assim, mas que sempre me recebeu com uma bela vista. E de alguma forma, o frio do concreto nas minhas costas, e o chão duro e rochoso embaixo de mim, me passaram mais conforto do que a cama em que eu estava.

- Pesadelo? - a voz de Jesus chamou minha atenção. Ele está encostado na estrutura da cama. Eu nem sequer ouvi ele se levantar.

- Sim, não consigo dormir, você sabe, o de sempre. - eu não sei por que eu menti, mas eu fiz. E abracei minhas pernas, voltando a olhar por fora da janela.

- Mentirosa - Jesus rebateu se sentando ao meu lado antes que eu conseguisse ajudá-lo. Ele fez uma careta, mas não urrou de dor. Eu considerei isso algo bom, apesar de saber o quão doloroso está sendo. - Eu sei por que você não consegue dormir. - ele disse se ajeitando ao meu lado. Eu ainda estava abraçada a minhas pernas, Jesus ao meu lado com as pernas cruzadas. Sua mão alcançou a minha, e ele entrelaçou nossos dedos.

- Não foi sua culpa.

Seus olhos encontraram os meus, um pouco chorosos e com acúmulo de lágrimas.

- Eu sei que deve ter sido difícil para você. Imagino que cortes nas costas não tragam suas lembranças favoritas. - o aperto em minha mão aumentou.

- Ja tive cortes por todo meu corpo, apesar das minhas costas serem muito piores.

Era verdade. Meu padrasto gostava de sempre testar novas opções, minhas cicatrizes nas costas podem trazer muitos borbulhos pelos corredores desse lugar, mas há outras cicatrizes também.

- Só queria dizer que não foi sua culpa, então pare de ficar se remoendo igual uma velha amargurada e volte a dormir. - ele gargalhou da própria piada ruim, eu me contive em revirar os olhos.

- Velha amargurada?

- Sim - ele riu novamente, aquele sorriso que fazia as gominhas embaixo de seus olhos aparecerem.

- Isso não aconteceu comigo porque faço parte de sua gangue, você sabe disso. Eu sabia onde estava me metendo quando dei aquele soco em Grayson. - ele chegou mais perto de mim, passando seu braço por cima das minhas costas, ele tocou meu ombro, me puxando até o seu peito. Eu deitei minha cabeça lá, e suspirei.

Jesus não disso uma única coisa errada, nenhuma sequer.

7 meses.

Estamos juntos a sete meses, e com todo esse tempo junto, já não tem mais uma parte de mim que Jesus não conheça. São sete meses de noites mal dormidas, juntos. De noites inteiras acordados conversando até de manhã, juntos. Tantos machucados cuidados, tantas feridas curadas. Tantos problemas que se sumiram quando eu simplesmente me abri com ele.

- Eu escolhi um lado Amber, não o contrário. - ele se ajeitou atrás de mim, seu braço em cima do meu ombro se apertou ao redor de mim, me abraçando mais forte. Eu suspirei, encarado o brilho da lua que passa pela janela, brincando com meus dedos pelos raios de luz que atravessavam as grades da janela.

- Você é meu melhor amigo Jesus, eu só não gosto de vê-lo assim. - eu sussurrei percebendo com precisão o quão fácil passava pelos meus dedos.

- Sou seu melhor amigo? - algo na voz de Jesus me fez sorrir. A surpresa talvez.

Eu nunca cheguei a admitir à ele que eu o considerava algo mais do que um colega de quarto, não cheguei a admitir isso nem para mim mesma antes de dizer isso.

- Pare com isso - eu dei uma pequena cotovelada em seu abdômen - Eu sei que nunca disse isso a você, mas eu nunca contei a ninguém dos meus sonhos antes de te conhecer, nem sobre meu padrasto, você é o único que sabe disso. - coloquei minha mão sobre a sua, ainda encarando a janela, Jesus suspirou atrás de mim - Você é meu melhor amigo. O único em quem eu escolhi confiar verdadeiramente. O único.

Eu estava feliz. Aqui e agora. Eu estava feliz por Jesus ter entrado na minha vida. Por eu ter aguentado aqueles três meses até o conhecê-lo, porque sinceramente não sei se teria aguentado esses últimos sete meses sem ele. Sem ter alguém para conversar ou me apoiar.

- Bem... Essa foi uma péssima escolha. - Jesus ironizou e eu bati em seu braço novamente, mas ele não riu dessa vez, não como antes. E eu sabia porquê.

O passado de Jesus. Eu sabia que ele odiava cada grama dele. E sabia que o garoto nunca se sentiu mais do que um carrasco.

Ele não preciosou me contar exatamente o que fez para chegar aqui, eu podia imaginar que com seu senso de super-herói indestrutível e seu amor incondicional pela mãe o colocaram em uma situação dificil, e que provavelmente o trouxe para cá.

- Não costumo julgar as pessoas pelos seus erros. - eu disse, fazendo minhas mãos encontrar a sua de novo.

- Bom, talvez devesse - ele retrucou usando seu braço para me puxar mais pra perto dele.

- Você não fez isso quando me conheceu. - eu virei minha cabeça encarando seus olhos. Tão cheios de alegria.

- Bom, isso com certeza foi uma péssima escolha. - dessa vez eu lhe dei uma cotovelada forte na barriga e ele gemeu de dor enquanto caia na gargalhada.

Meu melhor amigo, realmente.

- Posso te contar um segredo? - Jesus questionou sussurando com graça. Como se alguém realmente pudesse estar nos ouvindo. Mesmo sendo tarde da noite.

Dei um sorriso arrogante.
- Apenas se eu puder contar outro de volta.

Jesus sorriu, mas então ficou sério, o que mudou seu tom de voz.
- É sobre como eu vim parar aqui.

Entendi que, naquele momento, a graça tinha acabado, e que Jesus procurava por um desabafo depois de tudo, percebi que eu também.

- Você conta o seu e eu conto o meu?
Ele concordou com a cabeça e começou a falar.

- Nunca senti tanta vontade de beber como hoje.

Estranhei. Jesus costuma fumar. Mas eu nunca nesses 7 meses o vi beber.

Aqui em Saint Monica a bebida é usada principalmente como anestésico, e em outros casos também... Mas Jesus nunca aceitou tomá-la, em ambos as ocasiões.

- Eu nunca lhe contei, mas o motivo de eu ter vindo parar aqui tem haver com meu padrasto, e com a bebida.

Descolei minha cabeça do peito dele e o encarei.

- Achei que tivesse vindo pra cá porque protegeu sua mãe.

Pelo menos era isso que eu deduzi ao longo dos dias. Mas a verdade é que tenho me focado tanto nos meus problemas, que esqueci dos problemas de Jesus.

- Esse é um lado da história. Eu protegi a minha mãe dele. Ele era um bêbado, velho e batia na minha mãe enquanto estavam juntos. Fugiamos dele desde os meus 10 anos.

As palavras "batiam na minha mãe" me tocaram. E Jesus sabia disso.

Por saber da minha história com meu padrasto que Jesus evitou por tanto tempo me contar sua história.

- Sinto muito. - alcancei sua mão e a apertei - Imagino que querer a bebida hoje não deve ter sido fácil. Você é um guerreiro por não ter escolhido ela.

- Eu o odiava tanto. Queria tanto poder viver minha vida sem sentir a presença dele.... - ele parou para se lamentar - Se eu soubesse o preço que isso me custaria, nunca teria pedido por isso.

Eu sabia que custo Jesus se referia. Viver longe de sua mãe era horrível, ele sempre saia destruído das suas visitas semanais. Odiava vê-lo tão triste.

- Um dia vamos achar eles. E vamos dar um ponto final na nessa parte escura de nossas vidas.

Não eram palavras quaisquer essas. Era um promessa. Uma promessa de um futuro em paz e talvez feliz.

- Amber - ele me chamou, e só então vi as lágrimas em seus olhos - Eu matei ele. Foi assim que vim parar aqui.

Fiquei estática por dois segundos. Acimilar coisas inesperadas leva tempo. Mas que se foda o tempo, que se foda o correto, que se foda tudo. Jesus é Jesus. E ele ter matado ou não seu padrasto não muda isso.

Puxei o rosto de Jesus com minhas mãos e o obriguei a olhar no meus olhos enquanto preferia minhas palavras:

- Não dou a mínima para o que você fez com ele, ou como fez. Tenho certeza que foi pouco, comparado ao que ele merecia. - tomei uma pausa antes de continuar - Você ainda é meu melhor amigo, e eu ainda estou do seu lado. Você ainda é o mesmo. E você querer a bebida hoje, não o torna mais parecido com ele. Recusar a bebida hoje o torna melhor que ele.

Jesus assentiu entre as lágrimas. Eu chorei, ele chorou. E no fim nos abraçamos ali no chão mesmo. E nenhum de nós falou depois disso. Nenhum de nós precisou.

Tradução:
- stronzo: idiota.

********
Eai amores?
Curtiram o capítulo de hoje, não esqueçam que hoje temos um capítulo extra.

Enfim os verdadeiros problemas no reformatório começam a surgir. Depois dessa revolta só pancadas de qualidades vão surgir por aqui. KAKAKAKAKAKA.

E o Jonas e Jesus? Como sempre eles tem que se machucar, não é? Onde esses cortes feios surgiram? E pessoal vamos falar a verdade, Jonas e Jesus são aquela dupla que todo mundo quer ter amizade.

Votem aqui e vão para o próximo....
Pequeno spoiler: Capítulo bônus com narração especial.

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