CAPÍTULO 1
Capitulo revisado [✔️]
"Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que,
com frequência, poderíamos ganhar ,por simples medo de arriscar"
~ William Shakespeare.
**AMBER**
O maior erro que alguém pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum.
Sempre mantive essa frase tatuada no fundo do meu coração. Sempre que algo incerto aparecia no meu caminho, algo que me impedia de imaginar o futuro, eu me voltava para essa frase.
Se analisarmos bem, o medo chega a ser um sentimento tão velho quanto o mundo em si; e desde sempre esteve ali para incentivar e, as vezes, reprimir as pessoas.
Claro que isso não chega a ser necessariamente uma coisa ruim, se paramos para pensar que, se não houvesse medo com certeza a palavra "limite" nunca teria o verdadeiro significado que tem hoje.
O medo é como uma barreira, que nos mostra o que e quanto as coisas estão ao nosso alcance. Às vezes essa barreira serve como incentivo para que você supere suas limitações, se superar, curar seus medos.
E essa é a maior baboseira que me fizeram acreditar.
Afinal, como você pode conseguir superar algo que te impõem um limite? Como você consegue superar o que "teoricamente" te paralisa?
Exatamente, você não supera.
Acordei sobressaltada com meu alarme tocando extremamente alto, e levantando sem muita paciência desliguei logo o aparelho chato em cima da mesinha de cabeceira e sai da cama. Minha vontade mesmo era arremessar o pequeno aparelho na parede, mas certamente meu tio me mataria por isso.
Levantei-me para o meu banheiro ainda com os olhos ainda fechados, não sendo surpreendida ao cair por ter tropeçado em uma das inúmeras caixas jogadas o meu quarto. Por aqui está tudo uma zona ultimamente.
Me mudei a algumas semanas para Estes Park no Colorado, e minha casa está literalmente de cabeça para baixo. Eu e meu tio nos mudados para cá devido "a mais incrível e Irrecusável proposta de emprego do meu tio".
Segundo ele essa proposta era irrecusável, oferecendo o dobro do salário que ele ganhava antes, sem falar nos benefícios que a empresa oferece como a moradia grátis e mais algumas outras coisinhas. A empresa também cedeu uma vaga para mim "na incrível super-ultra-mega-master escola da região".
Perceberão o sarcasmo?
Hoje é meu primeiro dia de aula nessa Academia Phillipez Para Jovens com Futuro Brilhante, e eu espero mesmo que essa escola não seja tão chique quanto seu nome.
Quem eu quero enganar? Só deve ter riquinho lá.
Chegando ao banheiro, lavei meu rosto, abrindo rapidamente meus olhos pela primeira vez no dia. No espelho a minha frente não havia nada além do reflexo do que um dia foi uma garota normal, porém agora, não passava de apenas uma casca, um corpo que agora a minha consciência habitava, mas não pertencia.
Meus pijamas, grudado ao meu corpo e um rosto quase totalmente pálido, a não ser pelas olheiras escuras e profundas que fazem contraste na pele branca, mostravam do seu jeito como foi a noite anterior.
As noites nunca são fáceis, pelo menos não para mim. Como disse, isto é apenas uma casca da garota que um dia cheguei a ser. Apenas um corpo e uma mente que perderam a conexão um do outro.
Há um enorme número de pesquisas feitas que comprovam que as pessoas preferem mil vezes mais as noites do que os dias, que o subconsciente parece mais disposto a realizar projetos e metas depois do anoitecer, que ao anoitecer a parte do cérebro que é responsável pela imaginação e criatividade corre mais a solta.
Saber disso quase sempre me faz sentir como se estivesse em uma bolha, que me isola desse tipo de pessoa.
Veja, eu sou extremamente cautelosa em tudo que se diz respeito a mim, e por isso durante o decorrer do dia, eu passo cada minuto de cada hora de cada dia, garantindo que tudo esteja no lugar certo, e como não demonstrar mais do que eu preciso em qualquer situação cotidiana, eu penso em tudo a todo momento, como um meio de me sentir mais no controle das coisas.
Mas diferente do pensamento da maioria, eu não faço isso apenas por fazer, apenas por achar que tenho que estar no controle de tudo ou por me categorizar uma 'controladora', não, não ajo desse jeito por esses motivos.
A verdade é que não sei quando isso começou, eu apenas me acostumei com a sensação de sentir cada coisa que acontecia ao meu redor e além dele, eu só consigo me lembrar que, em certo momento, as coisas começaram a dar tão errado na minha vida que eu precisei desenvolver meus instintos e evoluir minha mente para a minha própria autopreservação.
Por isso hoje sou tão cautelosa quando se trata de mim, eu consigo me controlar, consigo reprimir todos os sentimentos que me fazem querer gritar, até que não haja mais voz, para dentro de mim, para o fundo da minha alma. E eu sempre consegui manter esse equilíbrio em mim, sempre consegui me resguardar e manter esse meu lado adormecido.
Porém, a noite é diferente.
Quando eu deito a cabeça no travesseiro é como se tudo saísse do meu controle. É como estar montada em um cavalo e de repente eu perdesse as rédeas, imprevisível, perigoso, e com consequências extremamente dolorosas.
Apesar de tudo nunca cheguei a considerar minha mente algo incólume e inócuo, mesmo antes de tudo, muito pelo contrário, desde pequena minha mente se tornou um lugar nodoou, sombrio, vasto, pedante, perverso, caótico e pérfido; com murros de pedras tão altos construídos em volta que a luz do dia não entra mais. Tudo isso para que ninguém, nunca mais, entrasse nela, para que ninguém nunca mais fizesse o que fizeram antes.
Por isso minha cabeça nunca para, nem por um segundo qualquer, e no vigoroso silêncio sombrio do meu quarto, à noite, memórias ruins vem e vão, e os pensamentos não param de circular minha mente.
A noite quando eu pego no sono, todos os meus demônios mais sombrios voltam para me assombrar, e eu sinto que nunca vou conseguir me livrar deles.
Eles veem todas as noites e me fazem lembrar de coisas que eu só queria poder esquecer. Eles abrem todas as minhas feridas, cicatrizadas ou abertas, e sempre escolhem a que vai parecer doer mais.
Tocam no abismo obscuro da minha alma e trazem átona 17 anos de me piores momentos.
E como resultado, tenho frequentes pesadelos tão apavorantes, que as vezes, mesmo depois de acordar ainda não consigo levantar da cama, meu corpo fica totalmente paralisado como se ainda estivesse dormindo. As vezes acordo tão apavorada que meus gritos fazem os cachorros latirem na rua e as vezes acordo tão apavorada que a primeira coisa que faço é correr para a privada e vomitar por horas.
Suspiro, sei que ainda não inventaram uma forma de um dia durar para sempre e assim afastar todos os demônios para longe. E suspiro novamente, pois sei que vou vê-los de novo hoje à noite.
Sai do banheiro vendo a caixa amassada que passei por cima mais cedo, era minha caixa de fotos. Uma foto especial caiu pela borda amassada da caixa de papelão. Me agachei pegando a foto já com as pontas um pouco gastas. Era uma das minhas fotos preferidas.
Ela é uma foto de um pouco meses atrás.
Na foto está eu e mais três amigos muito queridos, nós estávamos em uma viajem que marcamos meio que do nada, eu diria. Essa foto em especial, é uma das melhores que tiramos, a princípio era um dia ensolarado de verão e nós estávamos aproveitando a luz do dia para tirar muitas fotos pra registrar todo aquele momento, todos nas fotos mostravam seus enormes sorrisos de cumplicidade e alegria, mas na hora que batemos a foto uma enorme nuvem veio e tampou o sol deixando a foto escura e em vez de aparecer nossos rostos sorridentes a foto penas registrou nossas silhuetas.
Eu iria descartar a foto, mas um dos meus amigos me impediu de fazer isso me dizendo uma coisa que nunca consegui esquecer.
"às vezes os momentos de clareza na nossa vida vão embora em um piscar de olhos, e tudo que sobra é a escuridão, aprecie quem ficou ao seu lado na escuridão, e não quem só apareceu quando houve luz."
Eu me peguei muito tempo depois ainda refletindo nessa mesma frase. Ela reflete exatamente a vida, onde uma hora vivemos na luz, mas de uma hora para outra podemos ser sugados para a luz, e apenas os que se arriscam a sair da luz e te buscar na escuridão são os que merecem a confiança verdadeira.
Guardo a foto na mala terminando de me arrumar. Passo os olhos no relógio em meu pulso, que marca 5h23m, ficando aliviada por saber que ainda estava cedo. Saí do meu quarto e segui pelo o andar de baixo para a porta de casa, mas não sem esquecer minha mochila da escola, não voltaria para pegá-la nem morta.
Já na rua calma e silenciosa - como as ruas são as 5 e pouco da manhã - quando a cidade ainda meio acinzentada começa a acordar, botei-me a caminhar em direção a cafeteria mais próxima, torcendo para que ela esteja aberta.
Desde que me mudei descobri uma cafeteria simples e aconchegante, mais o menos aqui de casa, desde que a vi comecei a frequentar quase todos os dias.
Adentro pela porta, nem tão cheia nem tão vazia para o horário do dia, sigo ao balcão que para a minha alegria está sem fila alguma, me aproximo do atendente no caixa, um garoto de cabelos castanhos escuros, de pele clara, bastante alto e sua roupa mostrava que até mesmo em uma cidade pequena há pessoas que entendem de estilo de moda. E mesmo ele estando de costa para mim, não deveria ser muito mais velho do que eu.
Não sei ao certo se ele trabalha aqui ou não, porque apesar de estar do outro lado do balcão ele não está uniformizado. Decido tirar a sorte e me aproximo do balcão e tocando a campainha, o rapaz se vira em minha direção, e então pude ver seu rosto, seus olhos de cor esverdeada, tão fundos e perdidos quantos os meus essa manhã, o cabelo castanho ainda meio bagunçado, mas bonito e sua roupa estilosa complementada por uma jaqueta com um nome de time que desconheço, porém com uma cara não tão boa.
- Posso ajudar? - sua voz rouca recuou pela pequeno espaço do balcão entre nós, mas sua cara era de total desinteresse.
- Oi - sorriu meiga apesar de sua face - Eu quero o de sempre.
- Desculpe, mas eu sou novo então... - o rapaz passa a mão nos cabelos a se envergonhar.
- Ouh, tudo bem são dois cupcakes de chocolate e um café puro pra viajem- sorri ao mesmo, ele assente e se afasta indo até o que julgo ser a cozinha do lugar buscar meu pedido, não muito tempo depois ele volta com uma sacola de papel.
Eu pago tudo certinho e volta a pôr minhas pernas a caminhar agora para um novo rumo, Centro La Casa Del Flores, um dos melhores asilos da cidade.
◇◇◇
- Quem é você? - ela pergunta assustada.
Mesmo que ouvir isso seja doloroso é compreensível já que ela ainda não se acostumou a o lugar, não faz nem um mês direito, mas eu já a vejo melhor aqui, com certeza aqui é o melhor lugar para ela estar.
- Eu sou... - suspiro - eu sou uma amiga sua e da sua filha... Se lembra? Ela que me mandou aqui. - a sua cara de confusão se aumenta, ela está tentando lembrar, sua face então se torna tranquila e ela abre o seu tão famoso sorriso.
- Mi-Minha filha?... Nossa que saudade dela... Ela é uma garota tão boa né, mesmo longe ela ainda se preocupa comigo - pelo menos hoje ela se lembrou disso, as vezes é mais difícil do que parece fazê-la lembrar das coisas.
Mesmo ela ainda não tendo culpa de nada ainda é difícil vir vê-la. Não que eu a culpe por tudo o que aconteceu, mas bom, é difícil...
- Bom sua filha me mandou aqui para comer uns cupcakes e café com você, gostaria de um? - ela abriu outro sorriso, pegou um dos cupcakes na caixa e começou a comê-lo.
A conversa ainda continuou ela estava feliz hoje, bem animada, gosto de vê-la assim, pelo menos hoje ela não falou sobre ele. Ela me distraiu entre seus devaneios até ver o horário no relógio da parede, 7h40, está quase na hora, é melhor eu ir indo.
Me despeço dela com um beijo na sua testa.
- Tchau mãe.
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