CAPÍTULO 20.5

**AMBER**

Sangue.
Quente, espesso, e com cheiro incrivelmente forte.

Sangue era tudo o que eu enxergava enquanto caminhava pelos corredores.

Saint Monica estava uma bagunça.

Não uma bagunça como o de costume. Tudo estava realmente um caos.

Enquanto passava pelos corredores observava o sangue manchando as paredes, camas e colchonetes espalhados pelos chão, cadeiras quebradas, um pedaço ou outro de madeira ensanguentada no chão, e uma vez ou duas vi um corpo também.

Essa revolta não é igual as outras, os guardas nem ao menos estão tentando nos conter, eles apenas abriram mão de nós hoje.

Revoltas tem propósito e, normalmente, só acabam quando esse propósito é conquistado ou quando os guardas nós contém. Mas se não há guardas aqui, se for como eu imagino, se eles foram comprados, essa revolta só acabará quando seu propósito for comprido.

E temo que esse propósito seja a aniquilação da minha gangue.

Isso me deixa explodindo de preocupação, ainda mais porque nós nos separamos a algumas horas atrás.

Eu estou a tempos vagando por esse lugar tentando achá-los, e achá-los vivos.

Eu tinha uma das facas improvisada de Micaela na mão, ela pingava o sangue daqueles que achavam que podiam me derrumbar.

Eu podia estar extremamente preocupada com a segurança deles, mas eu estou muito mais raivosa com esse plano dos Guilards de tentar nos destruir.

Eu já tinha derrubado dois do grupo central deles, mas não pararia por ai. Não mesmo. Meu foco é o Ruivo, porque ele é o único que posso ferir o suficiente para afetar Marcus.

Uma mão agarrou meu ombro com força. A onda de adrenalina e a cerotonina fluiu sob a minha pele, mas eu já estava preparada para isso.

Segurei a mão que residi em meu ombro, segurei até alcançar o pulso de tal, e então o torci com rapidez e força, a pessoa gritou, um som agradável para mim agora.

No momento em que torci seu pulso, e consequentemente o braço de tal, a força da mão em meu ombro afrouxou, dei então um chute para trás, alcançando o que acredito ser o joelho da pessoa. E enfim fiz meu último golpe, puxei a pessoa pelo braço para cima de mim e usei o peso do próprio copo da pessoa contra ela, a derrubando no chão.

Só então vi os cachos de cabelo escuros que tanto conhecia. Jesus.

- O que você pensa que você está fazendo! - respondi o encarando ainda deitado no chão.

Ele tem muita sorte que eu não o esfaquiei.

- Acho que meu rim foi parar no pulmão - ele resmungou tocando o lugar onde com certeza seu rim ainda está. Revirei os olhos enquanto o ajudava a se levantar - Estava de procurando, pensei que você precisaria de ajuda, mas agora quem precisa de ajuda sou eu, de um médico de preferência!

Procurei por machucados ou feridas em Jesus, mas o máximo que vi foram seus punhos avermelhados, provavelmente pelos golpes que ele deve ter dado, fora isso tudo parecia normal.

- Temos que achar os outros, antes que os Guilards o façam.

- Eu sei onde eles estão.

◇◇◇

Jesus me levou até um quarto, não sabia mais dizer em que bloco nos estamos, ou o andar. Tudo tinha virado uma zona.

O quarto estava todo revirado e vazio. A cara de Jesus mostrava que ele não estava assim.

Jonas e Mica claramente não estavam aqui, mas havia algo de estranho no lugar. O quarto está movido, os moveis foram arrastados e derrubados, mas não foram quebrados igual feitos aos outros quartos.

Havia riscos no chão do movimentos que os móveis fizeram, havia mais de duas pegadas no chão sujo e melequento.

Não foi preciso perder muito tempo no local para saber que Jonas e Mica foram levados. E levou menos tempo ainda para que Jesus aparecesse com um papel em mãos.

Estou com seus filhotes, mas seu espiãozinho escapou, por pouco. Me encontre onde nos conhecemos se os quiser de volta vivos.
~ Ruivo

- Pelo menos ele é direto. - respondi amassando o papel com desdém e o jogando no chão.

- Como pode estar tão calma? - Jesus questionou aflito.

Eu entendia seu nervosismo, ele se importa demais com os irmãos. Eu também.

Eu não estava calma. Eu podia sentir cada nervo da minha pele pulsar, podia sentir o sangue passando pelas veias, meu coração pulsando, meu peito subindo e descendo com rapidez, e acima de tudo eu sentia a dureza do ranger de meus dentes, meu maxilar enrijecido.

Há um estado acima da raiva, uma mistura entre a fúria e a calmaria, exatamente igual a imagem de um vulcão, calmo e sereno por fora, quente e incontrolável por dentro.

Esse é o estado que eu estava agora, e eu sabia que a partir dali, as coisas só iriam piorar.

◇◇◇

Estou andando sorrateiramente pelos corredores, agora já no fim da tarde desertos. Reconhecimento de área, é isso que estou fazendo agora. Jesus está do outro lado do prédio examinando perímetro externo, para o meu suposto futuro plano.

futuro suposto plano esse que eu não tenho, mas logo terei, assim que encontrar...

Duas mãos seguraram as laterais de meus braços, meu impulso foi mais rápido do que a corrente de adrenalina entrando na minha corrente sanguínea. Segurei com minhas mãos as mãos que me seguravam e as puxei para frente. Minhas costas colidiram com quem quer que estivesse atrás de mim, e no momento em que senti nossas costas se tocarem, torci os braços em um crucifixo.

Flexionei meus joelhos, saindo do meio do espaço entre os braços, deixando os dois estendidos sobre meus ombros, e então só foi preciso usar a força de seus proprio corpo para jogá-lo no chão, com força.

Um gemido escapou da boca do rapaz, com todo seu ar.

- Essa é sua forma de me agradecer por salvar sua bunda?! - Uma versão bem machucada do rosto de Grayson dizia quase sem força, provavelmente pela queda.

Me espante de inicio ao ver o estado do rapaz. "seu espiãozinho escapou, por pouco"

O Ruivo não estava brincando quando disse isso. Estendi minha mão e ajudei Grayson a se recompor. Mas ele estava mais do que destruído, sendo assim preciso o apoio do meu corpo para o manter de pé.

- Mas que merda! - exclamei por seu estado - Eles passaram com um caminhão por cima de você?

- Teria me machucado menos - ele me disse, levantando a lateral de seu moletom cinza e me mostrando as grandes marcas roxas em suas costelas. Minha nossa!

Carreguei Grayson até o quarto mais próximo e o coloquei em uma cama.

Ele não tinha nenhum machucado urgente que precisasse de meu preciosos tempo, e eu precisava pensar. Estava anoitecendo e cada vez eu tinha menos tempo para salvar Jonas e Micaela.

- Você vai abrir um buraco no chão desse jeito. - Resmungou ele.

- Preciso acha uma maneira de parar isto Grayson. - o encarei suplicando - Me ajude, me diga o que sabe.

O rapaz abaixou a cabeça envergonhado:
- Ele me apanhou antes da revolta começar - Grayson passou a mão por seus lábios machucados, recuando pelo ardor do toque - Só me lembro dos pequenos momentos de dor entre um desmaio ou outro.

- Não sei o que fazer! - respondi desesperada - Ele tem Jonas e Micaela no refeitório, é onde tenho que encontrá-lo. Não sei como sair dessa situação.

Eu estava prestes a surtar. Eu estou surtando!

- Faça o que você faz de melhor. - ele respondeu com desdém - De a ele o que ele quer, seja La Reina.

Quando ele pronunciou esse nome, eu travei. Eu nunca contei a Grayson sobre isso, e imaginava que ele não soubesse.

- Você sabe sobre isso?

Ele desdenhou enquanto fingia limpar as unhas:
- O Ruivo tagarelou sobre isso, uma vez ou outra. Ele gostava de ouvir a própria voz.

Uma onda de culpa me corroeu.
- Eu queria contar pra você. - havia pesar na minha voz. Grayson apenas deu de ombros.

- Com a gente é sempre assim, já estou acostumado. É só mais uma terça-feira.

No fundo eu sabia que ele mentia, sabia que ele queria a verdade antes. Mas não tivemos tempo. Não tivemos tempo para muita coisa.

Estava na hora de arranjar tempo... Então eu fiz. Da melhor e mais rápida forma que eu encontrei, contei tudo a Grayson, todas as verdades, todos os porquês.

Como era minha vida antes, o que me fez parar aqui, expliquei a forma que agia, porque agia, sobre a gangue, eu lhe contei tudo.

No final, eu estava com a alma tão exposta a ele como eu estava com todos da minha gangue.
E ele apenas me encarava da mesma forma.

Uma lavagem de alma, um passo que deixou para trás nossa fase de inimigos. Um fim de uma era.

- Me ajude Grayson. - supliquei -Me diga como posso salvá-los.

Supliquei porque sabia que a mente distorcida de Grayson agora era a única luz para iluminar meu túnel escuro.

- Seja La Reina.

- Eu já sou ela. - respondi como se ele estivesse com delay, mas Grayson sacudiu a cabeça.

- Não, você mostra apenas uma parte dela. - seu tom era grave - Seja la reina por inteira, entre no papel, vista toda a máscara, La Reina é estratégica, racional, fria, e uma sádica. - ele dizia - Ela matou vários detentos no seu primeiro dia, matou o rei, dominou este lugar, tudo sem esforço, criou uma gangue de pessoas tão ruins quanto ela para sua própria proteção. Seja ela, por inteiro.

Ele está certo. Chega de medo, chega de incertezas, está na hora de agir!

Fechei meus olhos e deixei que viesse, deixei me imaginar sendo La Reina por completo.

- O refeitório tem duas saidas. Eles provavelmente as cercaram. - continuei com meus olhos fechados, tentando visualizar - Já sei como vou fazer. Vai ser rápido e certeiro, e só vou ter uma chance.

Abri meus olhos e então o encarei:
- Não vou envolver Jesus nisso. O quanto você consegue lutar?

- O suficiente. - respondeu com rigidez.

- E rastejar? - questionei, vendo a confusão tomar seu rosto.

- Qual o plano?

- Vou fazer uma pequena encenação.

◇◇◇

Encarando meu pulso, minha tatuagem, me pergunto se chegarei ao meus 23 anos depois hoje. Acredito que não, mas gostaria de achar que sim.

Aqui na dobra da parede onde estou encaro a violenta luta entre Jesus e Grayson. Odeio Grayson no momento, odeio que ele esteja batendo em Jesus. Mas é preciso que isso seja feito.

Não vou arriscar Jesus nisso, derrubá-lo vai mantê-lo longe dos problemas. É disso que eu preciso.

Mas a luta está demorando mais do que eu esperava. Jesus e Grayson estão lutando literalmente a unhas e dentes.

Grayson derruba Jesus quando se encaixa embaixo de seus braços, e em seguida sobe em cima dele distribuindo-o socos até sangue de Jesus pingue de seus punhos. Me obriguei a assistir aquela cena, ver o que fiz pessoas queridas para mim fazer. Tudo para acabar com uma ameaça.

Peguei todo o ódio, raiva e nojo que sentia, até mesmo de mim, e despejei eles no me plano e no fim da gangue de Marcus.

As coisas que sobrevivemos vivem dentro de nós para sempre, e esses sentimentos, por mais que eu despeje em meus inimigos, viverão sempre dentro de mim.
Estou canada disso, e não quero mais essa vida para mim quando sair daqui.

Quando encarei novamente os dois, Grayson, ofegante e ensanguentado, estava na minha frente, e atrás da grande figura dele eu conseguia ver os braços espalhados de Jesus, desacordado no chão.

- Pronto para parte dois? - sussurrei pela nossa proximidade. Ele não me respondeu, mas vi seus olhos observando cada parte do meu rosto. Grayson levou uma das mãos ensanguentadas até a minha bochecha.

Saber que o sangue naquelas mãos, no meu rosto, é em parte de Jesus e de Grayson causou ainda mais dor em mim. Grayson com sua outra mão afastou meus cabelos da parte de trás de meu pescoço e aconchegou sua mão ali. Com um puxão me trazendo com força para mais perto dele, nossas testas se grudaram e ele fechou os olhos respirando fundo.

Eu sei o quão cansado ele está, até porque é o mesmo nível de cansaço que eu estou. Porque até nisso eu e o maldito somos iguais. Fodidamente iguais.

- Vamos mostrar àqueles filhas da puta o que acontece quando mexem com a nossa gangue. - seus enormes olhos azuis e encaravam com firmeza.

◇◇◇

Estou parada na porta do refeitório.
Não há mais volta daqui.
Tudo ou nada. Essas são minhas opções.

Fecho meus olhos. Busco La Reina dentro de mim. Repenso a imagem que todos tem dela. E a encorporo em mim. Esses filhos da puta mexeram com minha gangue, me mexeram com a minha família.

Eu os tolerei por tempo demais, não mais, isso acabaria aqui. Aqui e agora.

Fecho meus olhos e me concentro e enfim, entro no refeitório.

A cabeleira ruiva foi a primeira coisa que avistei quando adentrei no refeitório.

Ele está sentado sobre uma mesa, uma única mesa deixada no centro do estabelecimento. Dois de seus capangas se encontram na minha direita e outro um pouco mais distante a minha esquerda.

- La Reina. - a voz do ruivo ronronou - Você veio.

Procurei por meus amigos. Jonas e Micaela. Eu não podia perder meu foco principal, recuperá-los.

Os encontrei largados no chão, pouco atrás do Ruivo. Os dois apagados, e com alguns hematomas visíveis.

Levantei uma de minhas sobrancelhas frigidamente incrédula. Mas o Ruivo foi rápido em debater

- Alguns arranhões. De fato. Nada que não estejam acostumados.

Ele brincava com um palito em sua boca. O girando e o serpenteando por seus lábios enquanto ele falava.

- Imagino que vai colaborar para uma troca tranquila. - ele supôs. Eu me deixei rir. Uma risada dura e seca, que rompeu-se em eco pelo lugar.

Sabe o que é pior que a raiva? A calma extrema.

- Foi ousado. Rapta-los de mim. - lhe encarei com o olhar firme, mas meu corpo e minha voz continuavam tranquilos.

- Com você, tenho sempre que me superar para chamar sua atenção. - ele ronronou de volta.

Um deja-vu me ocorreu.

Grayson e eu em certo ponto já fomos assim. A diferença? É que hoje eu não tenho mais tempo para joguinhos assim. Não são mais tão divertidos.

- Deve ser difícil - eu comentei andando em sua direção - Seu irmão nunca o deu atenção suficiente em casa? - um sorriso brotou em meu rosto, no dele também.

Havia muita tensão no ar. E seus capangas estavam prestes a me atacar, caso eu  respirase errado ao lado de seu líder.

- Provocações. - ele riu - Você não está em um lugar confortável para fazê-las.

Tinha repulsa em sua voz. Eu poderia aproveitar isso.

- Você me odeia, não é? Por não ter acabado com a vida de seu irmão. - eu comecei.

- Como é?

Não era uma verdade, não que eu saiba, mas a primeira regra para desfazer uma gangue é desfazer a confiança de seus capangas ao seu lider.

- Você sabe... - eu instiguei enquanto caminhava ao seu redor - Se eu o tivesse matado, você estaria no controle agora, certo? - passei para perto de Jonas e Mica, que agoea começavam a acordar - Mas eu não o matei, e você não está no controle.

- Tenho dois membros da sua gangue nas minhas mãos. - dois capangas dele cercaram Mica e Jonas.

Uhu, raiva, estamos chegando em algum lugar.

- Os tem mesmo? - questionei sarcástica - Qual o preço deles, se pode ter a mim?

Escuto o protesto de Jonas no fundo da sala, queria mostrá-lo o plano, mas sabia o quão arriscado era.

- Não posso discordar. - o Ruivo desceu da mesa e se aproximou de mim - Mas não sou ingênuo de achar que não está carragando nenhuma arma.

Ele passou a mão por meu corpo procurando pelas minhas facas.
Bom não foi difícil achá-las.

Ele as arrancou de mim, todas as 12.
Ele as pegou, com um olhar intrigado pela quantidade, mas não questionou.

Se aproximando da janela, ele se desfez de minhas facas lá. Poderia ter ficado muito puta com isso. Mas estava concentrada no capanga desamarrando os gêmeos e os levando até a saída.

- Procurem por Jesus. - eu disse assim que os dois me encararam, ainda com protestos em seus olhos - Ele vai precisar de vocês.

Os olhos de Jonas brilham, com clara negação no olhar, mas eu mantenho minha cabeça erguida e minha ordem dada. É isso que eles tem que fazer agora. Achar Jesus. Eu cuidaria do resto.

Não sei se eles entendem o que queria dizer, mas eles me obedecem.

Talvez essa seja a última vez que eu os veja. Eles tem noção disso. Mas eles não poderia ficar, não poderiam lutar comigo, eles sabem disso, sabem que de nós, alguém tem que viver.

Eles passam pela porta. E quando a mesma se fecha, a imagem dos dois juntoa a ela permanece em minha mente. Sinto que um pedaço de mim foi embora com eles também.

- Agora que eles foram embora... - o Ruivo assobiou passando por mim encostando uma das minhas facas no mej pescoço - Ajoelhe-se.

A ponta gelada da faca precionava com força na minha garganta. Mas eu não temeria.

- Nunca me ajoelhei para homem nenhum. Você não será o primeiro.

Eu mantive meu olhar frio, mas um sorriso sombrio surgiu no seu rosto. Um sorriso que revirou meu estômago por dentro.

- Desculpe, fiz você pensar que tinha alguma escolha? - ele precionou mais a faca, até que eu sentir o sangue escorrendo pelo meu pescoço em uma pequena tira.

Apesar de querer matá-lo por derrubar meu sangue, eu não o temia, não como ele queria que eu o temesse, não como eu temia Marcos.

- Eu não o temo, você não trás ameaça nenhum a mim. - eu respondi, vi seu rosto esquentar e ficar vermelho.

Sua mão de fechou em volta do meu maxilar me puxa do para ele, e eu ouvi passos ao nosso redor.

- Você teve sua chance de se ajoelhar por vontade própria, meus capangas não darão a você a mesma oportunidade. - ele respondeu com os dentes.

Minha voz foi suave ao perguntar:
- Que capangas?

No mesmo momento o som de um de seus capangas atingindo o chão soa pelo refeitório. Uma poça de sangue se forma no chão ao redor do seu pescoço.

O garoto encarou o local, mesmo sabendo que não havia ninguém ali. Realmente não havia ninguém no refeitório para atingir seu capanga.

Mas na tubulação de ar....
Bom trabalho, Grayson.

- Mas que... - ele começa a falar mas se interrompe quando outro de seus capangas vai ao chão. E então outro.

O cheiro de sangue toma conta do lugar, e quando entra em minhas narinas, me trás lembranças, e neste sentindo, me acorda para a verdade.

- Parece que seus capangas não estão acostumados com alguns cortes. - eu o sacaniei.

- Sua vaca. - ele gritou me atacando.

Fui rápida em desviar de seu golpe, mas não o suficiente, a faca atingiu meu braço e sangue começou a escorrer até minhas mãos. Mas eu não me rendi.

Tentei derrubá-lo, certamente o acertei alguns socos e até um chute no estômago. Posso nunca ter feito uma aula de defesa pessoal ou de luta, mas a vida me ensinou uma coisa ou outra para momentos como esse.

Eu consigo derrubá-lo usando uma de minhas pernas, ele cai de costas para o chão e esse é o momento que tenho para desarma-lo.

Avanço sobre ele e lhe acerto uma sequência de socos em seu rosto, despejo nele toda a raiva e frustração que minha máscara carrega.

É por causa desses sentimentos que usava tão poucas e controladas vezes essa máscara.

A faca voa longe de suas mãos, eu tento sair de perto dele e me lanço para pegá-la, mas o ruivo segura um dos meus pés, me segurando no lugar.

Mas eu não desistiria, não agora. Lhe chutei no rosto e escapei de suas mãos. Peguei a faca, e o toque frio da lâmina nas minhas mãos era excitante.

Mas quando me levantei para encará-lo, o barulho de uma arma sendo destravada me parou.

Eu respirei fundo, ajeitando minha postura, antes de soltar a faca no chão.

Malditos Guilards e suas armas.

- Sabe - ele começou dizendo atrás de mim - Eu gostaria de ter sido mandado para cá, no lugar de Marcus. - seus passos soaram mais perto e eu sabia que ele estavam andando ao meu redor - Ele sempre foi o mais inapto de nós dois. Eu por outro lado, sempre pensei em poder e sucesso. - ele pareceu na minha frente um sorriso diferente surgiu no meu rosto - Teriamos feito um estrago no mundo. Eu e você.

Eu achava Marcus um louco fanático, mas esse pelo visto, é seu irmão.

- Você tem noção de como foi difícil mandá-lo para o mesmo reformatório que você? - ele gritou revoltado - Como você não o matou? Ele era arrogante, ingênuo, e mentiroso! Você devia tê-lo matado!

Louco, totalmente louco.

- Enviou seu irmão aqui apra morrer? - repensei -... Porque assim, você assumiria seu lugar.

Ele gargalhou quando terminei.
- Finalmente. É uma pena que você descobriu isso tão tarde. - ele lamentou, ainda apontando a arma para mim - Agora vou ter que te matar por isso. Mas se serve de consolo, eu e você poderíamos realmente ter dado certo. Você tem um rostinho bonito.

"Você tem um rostinho bonito"

Aquela voz. Aquela frase ressoou na minha mente. Fazia longos meses, longos fodidos meses em que eu não lembrava da voz do meu padrasto. Que eu não fazia questão de tê-lo em minha mente.

Ele não vai sair impune, nenhum deles vai.

Eu o ataco, um urro surge da minha boca e eu o soco com tanta força que ele cai no chão. A sua arma também.

Ele e eu a encaramos no mesmo momento, e sabemos que quem a pegasse agora, venceria. Nós dois nos lançamos para ela, lutamos por ela.

Mas ele vence, ele alcança a arma após me acertar um chute no nariz. Ele levanta e mira a arma para mim.

E o encaro sabendo que é o fim. Meus pensamentos não estão preocupados com isso. Só consigo pensar que todos estarão bem, mesmo que eu não esteja aqui.

Ele parou em pé a minha frente. E eu de estava de joelhos aos seus pés.

- Parece que no final você ficou de joelhos, não foi? - o ruivo perguntou.
Mas antes que eu pudesse responder um tiro soou alto.

Minha vista ficou preta e eu esperei a dor, a queimação, mas não foi em mim que o tiro pegou.

Ruivo caiu de joelhos, com uma das mãos segurando sua perna ensanguentada. Na parte de trás, onde o tiro o acertou.

Quando olhei atrás dele, procurando que deu o tiro, fiquei incrivelmente aliviada em ver uma cabeleira loira e familiar.

Grayson.

- Ouh, estava carregada? - ele disse sarcástico - Essas coisinhas são bastante perigosas, melhor avisar os guardas para não deixá-las dando sopa por aqui.

Ele se aproximou em passos lentos de mim e me ajudou a ficar de pé. Me deixei apoiar nele enquanto ele permanecia ao meu lado.

- Vejam se não é o espiãozinho. - resmungou o ruivo - Ainda de pé? Aquela surra não foi o bastante? - questionou raivoso, e eu sabia o que vinha por ai - Da próxima vez pedirei conselhos a sua mãe, ela sabia o que fazer com você. Não é?

Grayson foui muito rápido ao socá-lo. Wu não consegui impedir, também não iria. O ruivo apaga na mssma hora.

Grayson se levanta fungando, passando as mãos pelos cabelos loiros.
- Perdão amor, acho que me excedi por um momento.

- Tudo bem, agora vamos amarrá-lo.

◇◇◇

Grayson e eu esperavamos que o ruivo acordasse logo. Nós o tinhamos amarrado em uma cadeira pouco tempo depois que ele desmaiou.

- Ele está acordando. - indicou a Grayson

Fechei meus olhos e deixei que La Reina viesse até mim.

- Vai querer participar? - perguntei sombria.

Grayson apenas negou sorrindo, muito satisfeito.
- Me contento apenas em assitir, amor.

Os olhos do Ruivo se abriram, e ele começou a tomar consciência de como os fatos ocorreram e uma serie de resmungos começo a deixar sua boca

- Vamos fazer isso do jeito fácil, ok? - eu comentei me aproximando do rapaz, mas ele gospiu todo sangue que a surra o deixou na minha cara.

Ele acha que sangue me enoja? Ele não sabe o que está por vir.

Passo minha língua no sangue ao redor da minha boca, e me inclino sobre ele.

- Tsc. Tsc. Tsc. Do jeito difícil então. Uma pena para você, porém muito bom para mim.

Vou até a mesa que Grayson arratou até  mim, pego o pequeno pedaço de metal, tão fino quanto um clipez, que consegui no meu caminho para cá.

- Você sabia que, minha fama não veio apenas por infligir dor aos outros, mas por saber os lugares certos para isso?

Eu me aproximei levemente do rapaz, trazendo meu ar predatório comigo. Hoje eu estou afim de brincar, e Ruivo seria meu brinquedo principal.

Eu me sentei sobre suas pernas, também amarradas, e me inclinei sobre ele ao falar:
- Pergunte a Grayson, ele sente até hoje o garfo que lhe enfiei nas articulaçoes de seu ombro.

Como mágica ouço o barulho das roupas de Grayson se moverem e sei que ele verificou o local onde eu o golpei tempos atrás.

- Você sabia também que embaixo da retina ocular é o lugar onde mais se sente dor? - eu comentei aproximando o metal de seu olho - Porque não testar?

- Onde está Marcus? - eu perguntei antes de abaixar sua pálpebra esperando que ele me respondesse, mas sua boca continuou fechada.

Isso me enfureceu, enfureceu La Reina. Eu lhe enfiei o pedaço de metal onde dizia fazê-lo. Mas nada saiu de sua boca a não ser por seus gritos.

- Nada? - disse falsamente desapontada - Talvez um dedo a menos o faça se lembrar. Eu me levantei e fui novamente até a mesa.

- Dedo? Eu quis dizer dente - eu sorri quando lhe mostrei o grande alicate que Grayson me arrumou - Ele te mandou me matar? - eu perguntei forçando o alicate em sua boca.

- O que ele quer de mim? - em nenhuma das perguntas obtive minhas respostas. Apenas dois dentes do verme.

- Ok sabe. Tem algo que deixei para o final, não queria perder as outras diversões - eu sorri passando a mão por seus cabelos suados com calma, antes de me levantar pega a minha arma e apontá-la pra seu pau - Diga-me qual era o plano de Marcus para mim. - eu disse em uma ordem, um comando.

Eu não era Amber Lewis implorando por uma resposta, eu era La Reina ordenando uma resposta .

- Você não vai atirar em mim. - a primeira e única resposta que ele me deu.

Tolo seja ele por duvidar de mim, de nós.
Eu não o deixaria falar assim comigo.

Pegi minha arma, miro e então atiro em seu ombro. Seus berros são altos e dolorosos

- Diga! - atiro novamente, dessa vez em sua perna. Ele grita mais.

Eu me aproximo dele devagar.

- Você tem uma chance de me dizer qualquer coisa antes de atirar no seu pau. - eu ameaço, então desço a arma para o meu de suas pernas.

Ele me encara furtivamente assustado, então eu engatilho a arma.

- Fomos deserdados! - ele grita - Aquele bastardo nos deserdou. Só por ser mais velho. Só por isso ele é a porra do líder. - Sangue espira em meu rosto enquanto ele fala, mas eu não ligo, pelo menos ele está falando - Eu seria bem melhor e todos sabem!

Eu aceno e o deixo continuar:
- Achei que se eu matasse você e ele. Dois dos grandes futuros prodígios do crime. Teria a atenção de meu pai e o faria mudar de ideia. - seu pai, chefe do crime líder de mercenários, toda essa confusão pir seu daddy issues idiota - Mas Marcus convenceu meu pai a me jogar aqui dentro e agora o matou.

Os Guilards que me perceguiram a todo momento aqui, na verdade foram deserdados por Marcus.

Eu estive lutando contra um bando de pirralhos largados esse tempo todo?

- Eu soube quando você foi para o hospital, eu tentei ir lá, para matá-la. Você mão tinha comprido com minhas expectativas. Você não o matou.

Eu não tive tempo para responder. O desgraçado me derrubou no chão, ele tinha se soltado, de alguma forma, e agora tentava a todo custo roubar a arma de minha mão.

Ele bateu com minha cabeça no chão repetidas vezes, e forço um o joelho que eu soltasse a arma em minha mão.

Eu o acertei lhe um chute e lancei a amar longe. Mas ele conseguiu se levantar antes de mim e pegá-la.

Ele sorriu como um fodido maniaco para mim e levou a arma para a posição do tiro. E então aperta.

E então eu sei, vou morrer.

◇◇◇

Não morri. Fechei meus olhos esperando um impacto que não chegou.

Quando abri os olhos, vi o ruivo deitado no chão e um Grayson com um ombro baleado o acertando um soco com o braço não machucado.

Eu o tiro de cima do Ruivo, pegando a arma e mirando em sua cabeça.

- Marcus tentou me matar e falhou. Eu poderia fazer o mesmo com você sem a chance de falhar, mas não vou. - eu abaixei minha arma ao falar.

Grayson, jogado ao chão e com o ombro ainda sangrando, me olhava como se eu fosse uma maluca.

- Você é uma vergonha para Marcus, assim como Marcus é uma vergonha para mim. Karma é karma. E sangue é sangue. Marcus darramou meu sangue, assim como hoje eu derrubo um de seu sangue. - eu me agachei ao lado do rosto derrotado do rapaz e sussurei. - Os Guilards me devem um favor agora.

Tudo parece calmo e de volta em seu lugar, e entao Jesus me aparece gritando.

- Amber. GUARDAS!

O som da tropa do patrulhamento de contenção começou a soar pelos corredores. E Jesus se aproximou de mim e começou a me guiar para fora dali.

Eu largaria o Ruivo ali facilmente, mas Grayson estava ferido. E eu não o deixaria para trás.

- Não posso deixá-lo. - disse parando Jesus - Precisamos voltar por Grayson.

- Ele me derrubou! Me bateu ate desmaiar!

Eu o entendia, e odiava não o contar a verdade.

- Você sabe o que o guardas fazem com os detentos, ninguém merece aquilo. - me culpo por usar o ponto fraco de Jesus para isso - Não posso salvar todos, mas posso salvar Grayson. Ele me salvou, mais de uma vez. Eu devo a ele.

Jesus me olha explodindo de raiva, mas solta minha mão para que possamos correr de volta para o refeitório.

Passamos pelos detentos loucos no caminho até a sala do refeitório. Quando entramos, Grayson ainda está no mesmo lugar. Jogado ao chão, sangrando. Mas não há nenhum sinal do ruivo por aqui.

- Vocês voltaram. Por mim. - Grayson sussura fraco ao nos ver.

- Cale a boca. - é a única coisa que Jesus diz antes de lançá-lo em seu ombro e o carregá-lo para fora dali.

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