Parte I
Samantha caminhava pelo quintal colhendo flores de todos os tipos, suas favoritas eram as rosas brancas, ela terminou de ajeitar as flores em seu cestinho e correu pra casa e mostrou as rosas a seu pai.
Ele encarou a pequena garotinha de cabelos curtos e negros por alguns segundos sorrindo e então passou a observá-la com um olhar sério.
— Sammy, você sabia que essa flor possui dois significados?
A garota nega com a cabeça e os olhos de Leonard brilham ao ver a inocência de sua filha.
— Rosas brancas simbolizam a paz e a harmonia, mas também são as flores que damos aos mortos quando eles partem desse mundo. — diz de maneira sucinta.
Sammy observa as flores tentando encontrar o significado das palavras que seu pai havia acabado de pronunciar nas pétalas daquelas flores molhadas de gotas de orvalho, mas não encontra nada.
Leonard só bagunça um pouco os cabelos ondulados da garota e vai em direção à cozinha ajudar sua esposa com o almoço.
— Vá fazer suas orações matinais, ok? — fala para sua filha, que já desaparece da sala caminhando em direção a seu quarto.
Ao chegar em seu quarto meio vazio, Sammy coloca as flores em cima da mesa de cabeceira, mas Agatha sua irmã mais velha joga as flores no piso de madeira e as destroça sob seus pés.
— Por que fez isso? — questiona Sammy tristemente.
— Estava lá fora colhendo essas flores idiotas de novo? Não escuta mesmo mamãe não é! Ela cansou de dizer a você que um quarto vazio é o símbolo de uma alma calma.
— Mas Agatha, essas flores são bonitas... — exclama a garotinha com uma rouquidão na garganta, já a ponto de começar a se debulhar em lágrimas.
— Só porque é bonito não significa que seja bom. Faça o que quiser, mas se lembre que é por isso que eles não te deixam participar dos jogos. — diz maldosamente. — Vou fazer as minhas orações com mamãe.
Samantha foi deixada sozinha naquele quarto vazio, ela brincou nervosamente com os cachinhos ondulados de seu cabelo, e se esforçou muito pra engolir o choro que ameaçava sair pela garganta e escorrer por seus olhos. Ajoelhou-se no piso de madeira amarelado e rezou com todas as suas forças para todas as divindades que conhecia pra que um dia sua irmã parasse de ser tão má com ela.
Enquanto isso Agatha estava posta ao lado de sua mãe, rezando a oração do Credo.
— Precisamos mesmo manter Samantha aqui mamãe? Por que só não a mandamos para o céu? — perguntou ela, interrompendo as orações da mãe.
— Querida, eu já conversei sobre isso com seu pai... Mas ele insiste que a garota é pura de coração e que isso seria um pecado. — cuspiu as palavras sem qualquer espécie de remorso. — Ele não vê que a garota é uma bruxa com toda a curiosidade teimosa, o cabelo curto e a cinicidade.
— Eu não gosto nada dela, se papai inventar de colocá-la nos jogos, não sei o que vou fazer. — a mãe da menina, alisa seus longos cabelos castanhos a acalmando.
— Vamos voltar a orar, se tem algo em que eu e seu pai concordamos, é que Samantha não está preparada pra jogar.
— Creio em Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra,
e em Jesus cristo seu único filho, nosso senhor
que foi concebido, pelo poder do Espírito Santo,
nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado,
morto e sepultado...
Depois de orarem umas três vezes essa oração, as duas subiram as escadas até o primeiro andar, em direção à cozinha. A refeição da família, se baseava em peixes e legumes todos os dias, qualquer tipo de carne era estritamente proibida na casa.
Samantha tinha alergia a peixe e outros frutos do mar, mas a família não se importava, ela passava mal todos os dias após as refeições, mas de qualquer forma não tinha outra opção de comida na casa. Se debulhar em carne vermelha era cometer um pecado contra tudo aquilo que Deus criou, e era algo que Leonard e Bárbara os pais das meninas que era ambos Pastor e Ministra da igreja não ousavam cometer.
Quando todos já estavam reunidos na cozinha para a refeição, o clima pesado da casa se instalou de vez, Agatha encarava Samantha com ódio puro, a garota não aceitava que tivesse que dividir seu quarto, sua casa e seus pais com aquela menininha estranha. Mas havia coisas que ela não se lembrava e que Sammy se lembrava claramente.
Agatha havia chegado na casa há dois anos atrás, era uma manhã de verão chuvosa quando Leonard e Bárbara chegaram com a garota de 12 anos em seus braços, ela estava totalmente inconsciente, Samantha não entendeu o que estava acontecendo e por isso fez milhares de perguntas aos seus pais, todas elas ficaram sem respostas, menos uma.
— Quem é ela? — perguntou Sammy, terrivelmente assustada com o silencio de seus pais.
— Ela é sua irmã mais velha. — disse seu pai sorrindo. Mas a garota pode ver por trás do sorriso do pai que algo estranho estava acontecendo, algo que ele queria esconder.
Desde então a vida da garotinha tinha mudado, ela que estava acostumada a ter a casa inteira pra si e o conforto de seus pais, agora tinha que lidar com uma irmã que a odiava e que ainda era completamente perfeita aos olhos de sua mãe.
Pra Sammy, a garota estranha ali não era ela. O jantar todo correu silencioso como era todas as noites, ninguém podia falar um “A” pois o momento da refeição era sagrado, à noite aconteceriam os jogos e depois todos iriam pra cama dormir.
— Depois de comer... — dizia a mãe das meninas para Sammy, enquanto cortava seu pedaço de bacalhau em milhares de fatias. — você deve ir para o quarto e trancar a porta, não pode sair por nada, ouviu?
Samantha só assentiu sem dizer nada, ela odiava a maneira como era tratada na casa, todos podiam participar dos jogos, mas por alguma razão todas as noites, ela era dita pra se trancar em seu quarto com Casper — O cachorro Golden Retriever da família e permanecer lá até a manhã seguinte.
Ela terminou sua refeição e acabou no banheiro vomitando sem parar o bacalhau que havia comido, sua cabeça girava e ela tentava manter seu equilíbrio, já que não podia desmaiar fora de seu quarto, ou seus pais brigariam com ela, os jogos estavam prestes a começar.
Ela teve de descer do primeiro andar até o segundo e caminhar rapidamente pelo quarto de seus pais, pela sala imensa até que finalmente chega a seu quarto, Casper estava deitado em cima de sua cama, por isso ela só tranca a porta e se joga na cama a seu lado. Sammy fecha seus olhos bem forte e espera pelo mesmo de sempre.
A meia noite em ponto, a gritaria começa, são gritos agudos, desesperados, sem folego. A garota sempre perguntou aos seus pais o que era isso, mas sempre recebia a mesma resposta misteriosa. “Faz parte dos jogos.” Bem, Sammy nunca entendeu bem o que esses jogos eram, mas pelo jeito que todo o porão parecia balançar ela imaginava que eles dançavam ou corriam todas as noites.
Ela sorria imaginando, quando os seus pais finalmente a deixariam participar, sem nunca entender o motivo de seus pais serem tão sérios e seletivos sobre isso.
— Por que não posso participar? — perguntava insistidamente todos os dias.
— Porque você é muita nova pra entender. — dizia seus pais, e ela se calava sobre o assunto novamente.
Quando os gritos, as coisas se quebrando e o barulho de folego acabou, a menina ficou inquieta. Ela tinha 8 anos de idade e desde muito nova sofria problemas de insônia.
Mesmo sabendo que era hora de dormir, a garota se revirava em sua cama, fechava os olhos dormia e acordava horas depois assustada. Era outro pesadelo... Um daqueles em que um monstro sombrio a puxava pelos pés e a revirava até que só houvessem pedaços, a criatura a fazia declamar promessas, até que ela não fosse mais capaz de falar.
Ela rezava a Deus todas as noites, mas nada disso adiantava, e ultimamente esse monstro não parecia mais assombrar somente os seus sonhos, ela se sentia observada todos os dias, desde o momento em que ela abria os olhos até o momento em que ela adormecia. Aquilo estava sempre ali, sempre com ela.
Sammy não aguentou mais, ela levantou de sua cama e fez algo que nunca tinha tido coragem de fazer antes, ela destrancou a porta e virou a maçaneta, sua irmã não tinha vindo pro quarto ainda... Ela passou por toda a sala na escuridão da casa, com todos os seus medos à flor da pele.
Caminhou até o lado da cama em que sua mãe estava e começou a mexer em seus pés pra ela acordar enquanto a chamava.
— Oh mãe... Mãe...
Quando Bárbara acordou levou um susto e chutou a garota, que caiu com uma pancada no chão. O pai dela acabou acordando e levantou pra socorre-la.
— O que foi Sammy? — perguntou assustado, pensando que a polícia estava em sua casa.
— Eu não consigo dormir. — disse ela, chorando de medo.
Seus pais a olharam, ambos estavam aliviados e completamente irritados.
— Pesadelos? — perguntou seu pai. — Monstros não existem, eles não podem te pegar querida.
Ela não conseguia acreditar nisso, não importa quantas vezes ele lhe dissesse essas mesmas palavras.
— Você não deveria estar aqui, se rezasse não teria tantos pesadelos. — fala sua mãe, virando para o outro lado da cama e a ignorando.
— Agatha terminou de tomar banho, ela deve estar indo para o quarto, durma com ela, ok? — disse sorrindo e a expulsando de volta para o seu quarto.
Ela chorou por horas no banheiro, não importava o quanto se esforçasse, era impossível pra ela entender o porquê da frieza e do comportamento estranho de seus pais.
Quando finalmente chegou de volta a seu quarto, Agatha já estava lá.
— Você saiu do quarto? Continua pecando como se isso não fosse nada, né! — grita com a irmã.
— Eu tive um pesadelo... Mamãe e papai me disseram pra dormir com você.
— Como sempre né, vê se não fica se encostando em mim. — disse rispidamente.
Ela sorriu feliz e se deitou do lado de Agatha na cama, o sono veio rapidamente, em um minuto estava encarando a tinta branca do teto e no outro estava em um profundo sono sem sonhos.
O problema foi quando a garota acordou... Ela abriu seus olhos e se deparou com a escuridão, sua garganta estava fechada, seu nariz lutava em busca de oxigênio pra respirar, algo era pressionado contra sua cabeça e o desespero se apoderava dela.
Faltava ar... Ela não conseguia respirar.
Samantha juntou todas as suas forças e conseguiu empurrar aquilo que estava contra a sua cabeça. Seus olhos demoraram um tempo pra se acostumarem com a claridade novamente, e quando eles finalmente voltaram ao normal, a imagem que ela viu a assustou.
Agatha estava parada ao lado dela em cima da cama, seus olhos, a sua expressão eram de uma raiva pura e em suas mãos ela segurava com força um travesseiro felpudo.
— Nem quando eu tento te matar você morre direito. — exclama aos berros. — Eu te odeio, te odeio, te odeio!
Sammy completamente assustada sai do quarto aos prantos... E pensa pra onde deveria ir, seus pais a mandariam de volta pro quarto, a sua irmã estava totalmente surtada... Então só havia um lugar na qual ela podia ficar. Ela caminha rapidamente pela cozinha e quando chega a lavanderia, passa por muita dificuldade tentando alcançar a cordinha que libera a escada do sótão.
Quando ela sobe em uma cadeira e finalmente consegue abrir e entrar no sótão, sente medo.
O lugar era um poço de velharias, seus pais insistiam a ela pra ficar longe dali, diziam que sempre havia o risco dela se machucar ao mexer naquelas coisas, por isso era a sua primeira vez ali.
— Que lugar mais empoeirado. — disse a garota pra si mesma, enquanto tossia e explorava mais profundamente o sótão.
Seus pais estavam certos tinha todo o tipo de tralha ali, mas também tinham coisas intrigantes, tacos de basebol, jogos de tabuleiro, uma caixa cheia de celulares, chapéus, carteiras, uma coleção de facas. Ela foi passando por todas essas coisas com certa curiosidade, pegou um dos celulares da pilha e começou uma pesquisa na internet, foi muita sorte o celular estar dando sinal e estar pegando ali.
“O que significa matar?”
A garota não tinha a menor ideia do porque de sua irmã a odiar tanto ou qual foram as intenções que ela tinha tido mais cedo.
Vários resultados apareceram na pequena tela, mas o que mais afetou a garota foi ler que matar, era o mesmo que tirar a vida de alguém. Era isso o que sua irmã estava tentando fazer com ela? Ela gostava de viver, não queria que ninguém tirasse a sua vida. Isso era errado e ruim.
Ela ficou encabulada por alguns segundos, mas logo deixou aqueles pensamentos se dispersarem ao ver a porta marrom escura do outro lado do sótão. Parecia bem intimidadora, mas a curiosidade da garota foi maior, ela se arriscou a atravessar.
Ao entrar ela ficou muito surpresa, era o lugar mais sombrio de todo sótão. Havia ferramentas penduradas nas paredes, facas de diversos tipos, martelos, serras. Ela tinha pensado que os jogos tinham a ver com dança, mas agora estava cada vez mais convencida de que estavam construindo algo aqui em cima.
Sammy esbarrou em uma caixa cheia de cordas e produtos de limpeza, além de se deparar com um pequeno tanque no fundo da sala, mas o que mais prendeu sua atenção foram os lençóis esticados no chão. “Então eles realmente estão construindo algo.” — pensou a garota.
Ela foi se aproximando lentamente e percebeu que um líquido viçoso e escuro vazava por debaixo do lençol tingindo-o de uma cor diferente que ela não conseguia ver direito por causa da falta de luz do sótão, quando ela ligou o pequeno celular e a luz se espalhou pelo cômodo.
A menina pode perceber que aquilo que vazava por debaixo das cobertas era sangue, sangue vermelho como jorrou de seus joelhos da vez em que ela caiu de sua pequena bicicleta.
Era muito sangue, toneladas de sangue, ela levantou o lençol pra ver o que havia embaixo e se deparou com a visão mais horrível que já havia visto.
Debaixo do lençol havia uma mulher de longos cabelos loiros, em seu pescoço se encontrava um crucifixo, e por trás dele havia marcas arroxeadas horríveis, ela parecia uma boneca quebrada. Seu rosto estava completamente ensanguentado, havia um corte enorme em sua barriga que parecia estar mergulhado em sangue seco, e seus...
Seus olhos vidrados como os de um peixe fora d’água, eram algo que a garota nunca mais iria esquecer. A mulher encarava o vazio, como se gritasse por ajuda, como se não tivesse perdido a esperança de ser salva nem por um mísero segundo.
Samantha gritou e chorou enquanto levantava o lençol do segundo corpo, ela não estava preparada pra ver nada disso... Até os especialistas mais treinados tremeriam ao ver a bagunça que haviam feito com aquele homem.
O crânio dele estava completamente esmagado, suas pernas estavam quebradas e sangue estava espalhado por todo o lado, era uma imagem de filmes de terror, Sammy correu até o tanque e vomitou.
Ela continuava vendo na sua cabeça a imagem do cérebro do homem esparramado pelo chão, do sangue escorrendo pelo lençol que de branco acabou sendo completamente tingido de vermelho.
A menina começou a se desesperar, sacudiu-os como uma louca, tentou falar com eles, gritou por uma resposta, mas os corpos continuaram imóveis, intactos. Demorou um tempo até que lhe caísse a ficha, se eles não podiam se mover, nem reagir, isso só podia significar uma coisa:
Eles estavam mortos.
Ela não entendia nada daquilo, o que aqueles corpos estavam fazendo ali. Era esse o jogo que seus pais jogavam todas as noites? Eles cometiam essas atrocidades com as pessoas?
Tudo o que ela sabia, era que isso... Esses corpos, isso era muito diferente de criar algo, o que seus pais estavam fazendo era destruir.
Um barulho se espalhou por todo o sótão, a garota se lembrou que ela nem deveria estar fora de seu quarto, quanto mais estar espionando e descobrindo coisas sobre os jogos. Sammy corre para se esconder e acaba ficando sem uma solução, ela se deita do lado de um dos cadáveres e se cobre com aquele lençol ensopado de sangue.
— Sammy... Eu sei que está aqui, querida. — grita seu pai, enquanto rodeia a sala. — Apareça, não vou brigar com você por ter descoberto sobre os jogos.
Samantha sente verdade nas palavras do pai, mas está muito assustada, não sabe bem no que acreditar... Se os pais dela foram capazes de fazer isso com as pessoas, o que não poderiam fazer com ela?
Ela sente o sangue impregnar em sua pele, tenta tapar o nariz pra não sentir o cheiro podre dos corpos que continua fazendo com que sua cabeça delire, mas o cheiro é tão forte que é quase uma presença física.
Ela se move para o lado e da de cara com os olhos vazios da mulher, sua vontade de gritar é imensa, mas sua voz é congelada na garganta ao se lembrar do medo de ser descoberta, sua respiração saí entre cortante e ela tenta controlá-la, mas falha miseravelmente.
Mais vozes se espalham pelo porão, Agatha e sua mãe Bárbara se juntam a procura do pai por Sammy. A garota sabe que não pode permanecer naquele esconderijo pra sempre, mas lhe falta coragem pra se mover. Quando ela finalmente decide ir... Uma mão agarra o lençol que a cobria e expõe o lugar onde ela estava escondida.
Sua família a tinha encontrado, e ela não fazia a mínima ideia de o quão longe eles eram capazes de ir para encobrir os seus crimes.
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Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo tenso, deixem suas opiniões nos comentários.
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