Olívia e o Rei Demônio - Capítulo Único
Tudo parecia calmo na cidade de Deville. Era um belo dia de verão como qualquer outro. O sol brilhava, os passarinhos cantavam e as pessoas viviam suas vidinhas fingindo que estavam felizes e tinham seus sonhos realizados.
Foi no parque central da cidade que aconteceu o acontecido. No meio da grama do parque vazio surgiu uma sombra sombria e de dentro da sombra sombria uma criatura sinistra e assustadora. Vestia um manto negro e tinha asas de couro como as de um morcego. Seu rosto era pálido, seus olhos mortos e seus chifres afiados. Sua mera presença enchia o ar com maldade e era como se uma canção lúgubre e funesta fosse tocada de um órgão de igreja.
− Obrigado, George – a criatura disse para o tocador de órgão que se encontrava ao seu lado.
− Não foi nada, chefe – disse o homem de bigode sumindo junto com o instrumento numa nuvem de fumaça.
A criatura então olhou ao seu redor.
− Finalmente, a Terra. Depois de muito tempo e do sacrifício de incontáveis demônios eu finalmente cheguei aqui.
A história de como a criatura chegara à Terra é longa, cheia de mistérios, conflitos, amores perdidos e será convenientemente ignorada neste conto.
− Agora eu finalmente poderei destruir este mundo! Mwahahahahaha! – ela gargalhou. Depois olhou para os lados novamente vendo o parque vazio. – Mas primeiro eu devo encontrar uma plateia. Falar sozinho assim me faz parecer um louco.
Olhou ao longe e viu uma pequena humana se aproximando. Seu nome era Olívia, uma menininha de dez anos com cabelos castanhos presos em maria-chiquinha. Voltava da escola e lia desesperadamente seu boletim, como se aquilo pudesse mudar suas notas.
A criatura percebeu sua presença e se teletransportou, utilizando-se de todo o seu conhecimento de ciência, magia, tempo e espaço adquirido durante seus éons de existência (e que também será convenientemente ignorado aqui).
A garotinha parou de andar quando uma sombra sombria cobriu o sol que acertava seu rosto. Ela olhou para cima vendo aquela criatura sinistra que lhe disse numa voz grave e maléfica:
− Alegre-se criança, pois você será testemunha da demonstração de meu poder máximo. – E olhou para a menina aos seus pés que já não estava mais aos seus pés. – Mas o que?!
A menina havia rodeado aquela coisa estranha que lhe bloqueava o caminho e continuara caminhando ainda olhando o boletim.
− Ei, pirralha! – A criatura teletransportou-se para a frente da garota novamente. – Ouça quando alguém estiver falando com você!
− Desculpe, tio. Mas me disseram pra não falar com estranhos e eu acho o senhor muito estranho.
− Ah! – exclamou a criatura. – Mas você se engana pequena humana. Eu não sou um estranho para sua raça. Vocês me conhecem há milênios. Tenho muitos nomes aqui, mas o título que mais prezo é o de Rei Demônio, Senhor do Submundo! Mwahahahahaha! – E olhou para a menina aos seus pés que já não estava mais aos seus pés. – Mas de novo?!
Mais uma vez o Rei Demônio se teletransportou bloqueando o caminho da garotinha que andava calmamente.
− Pare de fazer isso, pirralha, e me ouça!
− Mas eu preciso ir. Tenho que mostrar esse boletim pra Senhora Burquins. – Ela mostrou a folha de papel que segurava.
O Rei Demônio pegou a folha e a leu.
− Meu Deus... Er... Quer dizer... Diabos! O inferno não é tão vermelho como suas notas, pirralha.
− Cala a boca! – a menina gritou enquanto tomava o boletim do demônio. – Pelo menos eu não finjo ser o diabo!
− Eu não estou fingindo, menina. Eu sou ele – contestou o Rei Demônio.
− É?
− É.
− Então prove! – Olívia o desafiou.
− Pode falar. O que quer que eu faça?
− Mate aquele cachorrinho. – A menina apontou para o animalzinho que atravessava a rua a dois metros deles.
O cachorro pareceu entendê-la e com o choque caiu sentado, começando a ganir enquanto uma poça de urina se formava ao seu redor.
− Matar o cachorrinho?! – o Rei Demônio se assustou.
− Sim.
− Que tipo de criança pede algo desse tipo?
− Tem que ser algo realmente mau, se não eu não vou saber se é verdade.
− Bem, sim, mas... Não pode ser algo mais simples não? Tipo apagar o sol? Ou destruir a lua? Ou... Ou... Que tal se eu matar aquele homem. – O Rei Demônio apontou para o homenzinho que atravessava a rua a quatro metros deles.
O homem ao entendê-lo ficou em choque e caiu sentado, começando a chorar enquanto uma poça de urina se formava ao seu redor.
− Não. Tem que ser o cachorrinho – a menina insistiu. – Ninguém vai sentir falta daquele senhor.
− É verdade. – O diabo se recompôs e andou em direção ao cachorrinho que ainda tremia. A criatura levantou a mão sobre o animal que desapareceu no mesmo instante.
À aproximadamente dez mil quilômetros dali, existia uma ilha ainda não descoberta pela humanidade e que era populada apenas por cachorrinhas fêmeas (a explicação de como isso é possível será novamente convenientemente ignorada aqui). Num piscar de olhos um único cachorro macho apareceu no meio da ilha. Era o mesmo que o Rei Demônio havia fingido matar na frente da garotinha. É pertinente dizer que o cachorrinho morreu dois dias depois de chegar à ilha devido à exaustão física, mas havia um grande sorriso em seu focinho.
− Pronto – a criatura disse.
− Cadê o cadáver? – a menina perguntou.
− O que?! – exclamou o Rei Demônio encabulado.
− O cadáver – ela repetiu.
− Er... É... Eu o vaporizei! Sim! Achei que você não gostaria de ver o corpo do animalzinho e o vaporizei. Se não acredita em mim eu posso matar aquele homem e deixar o corpo dele aqui. – O diabo apontou novamente para o homem que voltou a choramingar.
A menina olhou o homem com desprezo e depois fitou novamente o diabo.
− Não, tudo bem. Quem o senhor disse que era mesmo?
− Eu... – O demônio fez uma pausa dramática. – Sou o Rei Demônio, Senhor do Submundo.
− E onde está sua coroa?
− Mas hein?
− Sua co-ro-a – a menina soletrou.
− Eu não uso uma.
− Mas você não é rei?
− Bem... – O Rei Demônio pareceu meio envergonhado. – Sim, sou rei, mas sabe... Olha, há algum tempo o inferno estava passando por muitos problemas com minha administração... e eu também estava meio cansado. No final decidimos implantar uma monarquia parlamentarista e acabou funcionando. Então eu ainda sou o rei, mas é algo meio simbólico.
− Hum... – a menina resmungou – Tipo a Inglaterra?
− Sim, sim! – O diabo ficou feliz por a menina ter entendido. – Garota esperta! Igual a Inglaterra. Só que no inferno não chove tanto e nossas mulheres são mais bonitas.
− Entendi. E o que o senhor quer?
O Rei Demônio pensou um pouco, pois já esquecera para que tinha vindo ali.
− Ah sim! – Ele deu um pequeno soco na palma da mão e depois vestiu uma expressão séria e engrossou a voz. – Você, humana...
− Olívia – a menina o interrompeu.
− Perdão?
− Meu nome é Olívia.
− Certo. – O diabo se recompôs e engrossou a voz novamente. – Você, Olívia, será a testemunha do meu poder máximo. Eu agora irei destruir a Terra! Mwahahahahahaha!
O Rei Demônio encarou a menina com seus olhos vermelhos enquanto gargalhava e viu que ela nem mesmo piscara. O silêncio caiu sobre eles e um minuto inteiro se passou sem ninguém dizer nem sequer uma palavra. A menina simplesmente encarava o demônio que por sua vez a encarava de volta embasbacado com sua falta de reação.
− O que foi? – o Rei Demônio finalmente perguntou.
− Estou esperando o senhor destruir a Terra – a menina disse com a indiferença de um homem que acaba de descobrir que não pode engravidar.
O queixo do Rei Demônio literalmente caiu. Este foi pego do chão pela menina, que limpou um pouco da poeira e o devolveu ao diabo.
− Obrigado – o demônio disse ao encaixar a mandíbula novamente em seu lugar e depois exclamou – Como disse?!
− Eu estou esperando o senhor destruir a Terra – ela repetiu com a mesma expressão imutável.
O Rei Demônio cogitou então se não seria possível que aquela criança fosse sua filha bastarda de quando ele costumava vir à Terra para dar um tempo do tormento eterno de seu reino e conhecer uns brotinhos. Depois se lembrou que isso não seria possível, já que o Selo de Beelzebub, que o impedia de vir à esse plano, e cuja explicação será conveniente ignorada mais uma vez, fora colocado há aproximadamente dois milênios atrás e quebrado só agora. Por isso aquela era apenas uma criança humana comum. Se é que se podia chamar aquilo de comum.
− Olívia, você entendeu direito o que eu acabei de dizer? Eu vou destruir, observe a ênfase em destruir, a Terra. Sabe? Kaboon. Todo mundo morto. Você entende as implicações político-sócio-econômicas que isso acarretará para o planeta? Para começo de conversa não existirá mais uma palavra tão complicada como "político-sócio-econômico" neste mundo.
− Eu não entendo nada disso – a menina respondeu. – Mas eu sei que se o senhor fizer isso eu não vou precisar mostrar meu boletim pra Senhora Burquins.
− Isso porque não haverá mais Senhora Burquins! – o diabo berrou tentando abrir os olhos da menina.
− Exatamente! – ela gritou mais alto.
Olivia falava sério, mas o Rei Demônio ainda não podia acreditar e por alguma razão ele se viu tentando convencer a menina de que destruir a Terra era algo ruim, para então ele poder destruir a Terra e ficar feliz por isso ser algo ruim.
− Olha, se eu destruir o planeta, sua mamãe e seu papai vão morrer.
− Eu não tenho mãe ou pai.
− Ai caramba! Quem é a Senhora Burquins então?
− É a dona do orfanato onde moro.
− Pois é! Se eu destruir o planeta o orfanato também vai junto.
− Eu sei disso! – a menina disse impaciente. – E aí eu não vou precisar mostrar meu boletim pra Senhora Burquins. Pensei que você já tivesse entendido essa parte!
− Mas... Garota dos infernos! – O diabo pensou um pouco. – Sua escola! Sim, sua escola! Se eu destruir a Terra, todos os seus coleguinhas e professores irão queimar!
− Eu posso assistir? – os olhos de Olívia brilharam.
O queixo do Rei Demônio quase caiu novamente, mas dessa vez ele o segurou e o encaixou no ato. Mais silêncio. Aquela menina devia ser sua filha. Não era possível que não fosse. Tinha de ser pelo menos uma parente de quingentésimo grau ou algo assim. Ela conseguira acabar com sua vontade de destruir o mundo, algo que ele já vinha guardando há dois milênios, desde quando um carinha metido a bonzinho chamado Jesus se recusara a entrar para seu clubinho. Agora suas mãos estavam caídas, seu olhar triste e desanimado.
− Tio? – a menina quebrou o longo silêncio, curiosa com o desânimo da criatura.
− Não me chame de tio – resmungou o diabo.
− Seu demônio?
− Isso menos ainda.
− Vingador?
− Você nem sequer tem idade pra entender essa referência!
O Rei Demônio estava realmente irritado. Fez um movimento com a mão e um portal feito de sombras sombrias se abriu para o inferno ao som de uma nova música lúgubre e funesta.
− Agora não, George! – o demônio disse para o tocador de órgãos que apareceu junto ao portal e a música cessou. – Não estou no clima.
− Foi mal, chefe – o homem de bigode se desculpou e desapareceu numa nuvem de fumaça.
O Rei Demônio então começou a andar para o portal, mas logo sentiu um puxão em seu manto. Era a menina.
− O senhor não ia destruir o planeta?
− Perdi a vontade. Não vou mais.
− Por que não?
− Porque não quero!
− Por favor! – a menina suplicou com olhinhos de cachorro pidão.
O demônio ignorou o brilho no olhar da garota e simplesmente falou.
− Olívia, você é a prova viva de que este mundo não precisa da minha ajuda para ser destruído.
− Obrigada – Ela corou.
− Isso não foi um elogio.
− Ah.
− De qualquer jeito, já vou indo. Mas antes... – Ele se abaixou diante da menina. – Tenho um presente de despedida para você. – E tocou o boletim da menina o qual desapareceu instantaneamente.
A garotinha olhou para o não-boletim que estava em suas mãos e deu um sorriso de alegria contagiante.
− O senhor destruiu meu boletim?! – exclamou abraçando o diabo.
Este por sua vez afastou a menina gentilmente e disse com um terno sorriso nos lábios:
− Não. Eu o mandei para a Senhora Burquins.
O sorriso da menina desapareceu e no lugar surgiu uma expressão que só podia ser descrita por: "deu merda".
O diabo seguiu para o portal feliz consigo mesmo e, antes de atravessá-lo, falou:
− Até mais, Olívia. Te vejo em setenta e três anos. – E desapareceu pela abertura mágica.
Olívia por sua vez olhou novamente para o não-boletim que havia em sua mão e o imaginou aparecendo misteriosamente sobre a mesa da Senhora Burquins e depois imaginou a bronca que teria de ouvir.
− Diabos! – ela gritou e depois voltou a caminhar para casa, aceitando seu destino.
Fim
* * *
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