-8-
Hoje é quarta-feira, eu dormi na casa da Jisoo ontem, mas hoje terei que enfrentar a praga do meu pai.
Bem que ele poderia morrer enquanto voltava para casa depois de encher a cara.
Já é a última aula, e é mais um dia em que Lalisa estuda todas as aulas comigo. Os mesmos horários, sempre do meu lado. Por sorte, já estamos na última aula, que no caso, é história.
Eu e ela não conversamos e nem ser quer olhamos para a cara uma da outra. Acho que é melhor assim mesmo.
Briguei com Kai. Ele disse que o Suga me viu saindo do vestiário feminino, e logo após, viu Lalisa saindo de lá. Estamos brigados de verdade, porque não nos falamos desde segunda.
Confesso que não estou sentindo tanta falta dele. Eu fico muito melhor assim, é menos um para eu me preocupar. Minha agenda anda muito corrida, ultimamente. Tenho que resolver coisas sobre a escola, o campeonato de fim de ano, meu pai, minha mãe surtando lá em Seul, e o meu cachorro que está machucado.
Meu pai bateu no Kuma porque o cachorro dormiu dentro de casa — estava fazendo -4 graus lá fora.
— Já está quase acabando a aula, então eu vou acabar a explicação aqui — ela pegou um lápis que estava largado sobre a mesa, e marcou a página onde ela tinha parado a explicação. — Eu vou passar um trabalho pra vocês me entregarem segunda-feira, ok? O trabalho vai ser em dupla. Cada um vai escolher um tema sobre a América e escrever tudo de acordo com o que irei passar no quadro.
Mirei meu olhar pela a sala inteira, procurando alguém para eu fazer o trabalho. Avistei Suga que, infelizmente, era a minha única opção.
— A dupla de vocês vai ser quem está ao lado de vocês — a professora disse assim que virou para nós.
Eu e Lalisa nos entre-olhamos depois de horas sem observar uma a outra. Só agora reparei que suas roupas estão mais largadas, o que não é muito comum. Parece que ela colocou a primeira roupa que apareceu no armário, e que por pura coincidencia, eram todas pretas.
— Podem sair, pessoal — ela autorizou assim que o sinal foi tocado, fazendo todos os alunos saírem de forma amuatada pela a porta, querendo chegar o mais rápido possível na saída da escola.
Eu não me preocupei, pois tenho treino hoje. Portanto, arrumei meu material calmamente.
— Parece que vamos ser uma dupla, Kim — Lalisa disse enquanto me observava arrumando as minhas coisas.
— Infelizmente.
— Podemos começar a fazer o trabalho hoje? — ela sentou na mesa, observando atentamente cada movimento que eu fazia.
Encarei ela nos olhos, podendo sentir um calor inevitável me atingir com precisão, fazendo a atmosfera do local parecer mais quente, fazendo com que nossos olhos brilhassem de maneira desenfreada. Meu estômago estava tremendo, ansioso para saber o que iria acontecer após esta rápida e confortante troca de olhares.
— Pode. Eu faço a minha parte, você faz a sua, e depois a gente junta — coloquei minha mochila no meu ombro direito e passei na frente da garota para ir embora, mas ela me puxou pelo braço com um toque macio e repentino, fazendo-me ficar em sua frente.
Ela estava com uma calça cargo jeans na cor preta; uma jaqueta que tinha N e Y escrito no canto esquerdo, um pouco acima de seu peito, a jaqueta era na cor preta, porém, as mangas eram na cor cinza-claro; em seus pés, ela optou por usar um tênis todo branco, dando um charme para o seu vestimento. Seu cabelo estava solto, sua franja bem alinhada, seu rosto sem maquiagem, como sempre, mostrando que a garota possui uma beleza natural sem precisar de cosméticos. Ela estava sentada na quina da mesa, com a perna esquerda esticada, fazendo com que seu pé alcançasse o chão, e a perna direita estava metade — sua coxa — na mesa, e a outra metade "flutuando" ao lado do grande objeto amadeirado.
Pela a proximidade, pude sentir seu forte e bom cheiro masculino. Seu corpo estava perfumado com um perfume Kaiak, fazendo-me querer continuar sentindo-o por um bom tempo.
Lalisa pousou suas mãos em meu quadril e me puxou mais para perto, tendo o total controle sobre mim. Nossos olhares se encontraram de maneira intensa e magnética. Ela me olhava de forma eletrizante e relutante. Hipnotizada, eu retribuía com um olhar profundo, tentando enxergar o maior segredo que a garota escondia, pelo os seus olhos. Cada centelha em nossos olhares contava uma história silenciosa de desejo e entendimento mútuo, formando um elo indescritível que transcendia as palavras no ar, porém sem dizer ou escutar, apenas sentir. O tempo pareceu congelar naquele instante, selando um pacto silencioso entre dois corações que batiam em uníssono, pela a proximidade de nossas bocas.
Ela deu um suspiro relutante com seus olhos refletindo uma hesitação palpável sobre mim. Era evidente que suas ações estavam em conflito com seus desejos, uma batalha interna que a deixava relutante em seguir adiante.
— Podemos fazer na minha casa? Não curto fazer esse tipo de trabalho sozinha. Eu não entendo nada de história — sua voz estava diferente. Ela estava mais grossa, juntamente com o jeito de sua fala baixa parecer um sussurro.
— Claro. Só me passa seu endereço e eu...
— Eu posso te esperar — ela mirou o olhar dos meus olhos para a minha boca.
— Jennie?! — afastei-me dela quando ouvi Jisoo me chamar. — O que está fazendo com ela?
— Resolvendo coisas sobre o trabalho de história. Vamos, unnie? — caminhei até ela e me expliquei com a voz trêmula.
Jisoo desconfiou, porém assentiu e começou a caminhar ao meu lado enquanto mantinha sua expressão desconfiada.
Olhei para Lalisa e ela prestava atenção em mim, atentamente, sem desviar o olhar. Sempre quando a vejo olhando para mim, reparo um brilho em seus olhos juntamente com suas pupilas um pouco dilatadas.
Por mais que eu tenha medo dela, eu acho que, talvez, ela não seja tão fria quanto aparenta ser. As aparências enganam, e eu acredito que a dela também.
— O que estavam conversando?
— Oi? — balancei minha cabeça, tentando raciocinar o que estava acontecendo. — Estávamos conversando sobre o trabalho de história.
— Trabalho de história? — ela parou ao meu lado e eu assenti enquanto abria o meu armário. — Você mente e a cara nem treme, né? — seus olhos se semicerraram e seus lábios curvaram-se em um pequeno sorriso de canto.
— Não estou mentindo, Chu — coloquei alguns livros no armário.
— Se estavam conversando sobre trabalho, por que precisava daquela proximidade toda? — fechei o armário e virei meu corpo para a morena.
Jisoo estava escorada em outro armário, com seu corpo virada para mim e seus braços cruzados.
— Você tava vendo coisas, Jisoo.
— Não tava, não — bufei e revirei os olhos enquanto cruzava meus braços, e demonstrava desinteresse no assunto. — Eu me lembro bem de quando eu cheguei e vi ela segurando firme a sua cintura, enquanto sussurrava algo olhando para a sua boca, que por pura coincidencia, estava a centímetros da boca dela.
— Para, Jisoo. Eu não tava a centímetros da boca dela.
— Jennie, você não tinha medo da Lalisa? Por que do nada ficou tão próxima dela?
— Eu não estou próxima dela.
— Jennie...
— Ela tá estudando comigo em todas as aulas, eu fui obrigada a me comunicar com ela. Eu não gosto e nunca vou gostar de uma assassina, Jisoo — falei alto e a garota sorriu, e só então percebi uma sombra passando do meu lado.
— Olha a assassina passando. Te espero lá fora, Jen — Lalisa disse em um tom engraçado e piscou para mim, fazendo a Jisoo rir e eu corar.
Jisoo foi para trás de mim e imitou Lalisa andando ao meu lado.
— "Te espero lá fora, Jen" — ela caminhou de um jeito desengonçado, totalmente diferente do caminhar da Lalisa, piscou e mandou um beijo no ar para mim.
— Para, sua idiota — ri.
— O que tá rolando? — perguntou Rosé enquanto se aproximava sorrindo.
— Parece que a nossa Nini está tendo um caso com a assassina — Jisoo levantou seu braço para apoia-lo no ombro da loira, que se encontrava de queixo caído enquanto sorria.
— Não creio. Então o Kai é oficialmente um boi?
— É o que parece — Jisoo deu de ombros.
— Parem! Eu e Lalisa não temos nada e nunca vamos ter. Será que dá pra vocês entenderem isso? Que saco! — bufei e saí pisando forte até a quadra de basquete, escutando o barulho da risada das duas, diminuir conforme eu me afastava.
***
Logo após o treino, fui em direção ao estacionamento, encontrando Lalisa sentada no capô de seu carro, enquanto mexia em seu celular e tomava um energético. Aproximei dela com os braços cruzados, tentando não chamar a atenção dela, porém falhei miseravelmente quando ela me olhou com o semblante sério e frio.
— Vamos? — perguntei e ela assentiu, indo até o banco do passageiro junto comigo, para assim, abrir a porta para que eu pudesse entrar. Logo ela apareceu ao meu lado, se sentando no banco do motorista.
A garota ligou o carro e o aquecedor, agradeci por isso, pois minhas bochechas estavam congelando. Ela conectou seu celular no rádio do carro.
— Gosta de R&B? — ela perguntou enquanto mexia em seu celular.
— Gosto — de canto de olho, vi ela assentindo. Logo começou a tocar "Friends" do Chase Atlantic, que é minha música preferida deles, depois de "Moonlight", é claro.
Não demorou muito para que o carro começasse a andar. Eu passei o endereço da minha casa para Lalisa e ela colocou no GPS.
O vento gelado batia contra o carro enquanto eu e Lalisa permanecíamos em um silêncio tenso. O som suave de "Friends" começou a preencher o ambiente, criando uma atmosfera ainda mais sombria. Lalisa, olhando atentamente para a estrada, começou a cantar suavemente as letras da música, com sua voz baixa, e assim, cortando o silêncio sombrio que estava entre nós.
— Girl, tell me what you're doing on the other side...
Fiquei surpreendida pela habilidade vocal da garota. Desviei meu olhar da estrada, para ela. Meus olhos encontraram os de Lalisa. Ela continuou a cantar com sua voz carregando emoção, como se as palavras da música expressassem sentimentos que ela hesitava em compartilhar de outra forma.
— All of your friends have been here for too long.
They must be waiting for you to move on.
Girl, I'm not with it, I'm way too far gone.
I'm not ready, eyes heavy now.
Fiquei admirando a surpreendente habilidade vocal de Lalisa, e sem querer, deixei escapar um leve sorriso, rompendo a frieza que envolvia o carro. A música tornou-se um elo entre nós, suavizando a atmosfera pesada, enquanto as palavras cantadas refletiam emoções que estavam além das palavras não ditas no carro frio, que infelizmente ainda estava presente no carro.
Ela voltou sua atenção para a estrada enquanto voltava a cantar com a sua voz suave e boa de se escutar.
— Heart on your sleeve like you've never been loved.
Running in circles, now look what you've. done.
Give you my word as you take it and run.
Wish you'd let me stay, I'm ready now.
Depois de um tempo, quando estávamos quase chegando na minha casa, o som etéreo de "Moonlight" começou a preencher o espaço, envolvendo o ambiente com uma atmosfera melancólica. Lalisa, ainda olhando para a estrada, começou a cantar suavemente as notas da música. Sua voz misturando-se ao ritmo envolvente, fez com que a música ficasse ainda mais linda e boa de ouvir.
— We're running in the moonlight...
Senti uma conexão com a melodia, trazendo a vontade de cantar junto com a Lalisa. Misturando nossas vozes junto com as vozes dos meninos da banda, cantarolamos em uma altura agradável:
— We're running in the moonlight.
We're dancing in the open waves.
You're hangin' for a good time.
Something that'll make you stay.
O clima pesado começou a se dissipar à medida que nós compartilhavámos a música, com as nossas vozes entrelaçadas criando uma sinfonia emocional. A melodia de "Moonlight" tornou-se um elo entre nós duas, transformando o frio que ainda estava presente no ambiente, em um calor, enquanto as palavras cantadas expressavam emoções que se tornaram impossíveis de ignorar.
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