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— Lisa, o pai da gatinha chegou — Jungkook falou e eu logo assenti, voltando a minha atenção para a mãe do garoto.

Eu e ele decidimos chamar a Jennie assim para não dizer nomes. Escolhemos gatinha porque, além de ela ser uma gatinha, seus olhos lembram os olhos de um gato.

— Vai dormir aqui hoje, Lisa? — ela perguntou.

— Hoje não dá, tia. Deixei o Love sozinho. Sabe o que significa pra um cachorro quando o dono sai. Tenho certeza que ele tá comendo minhas almofadas — rimos.

— Sei como é. O Gureum faz uma bagunça quando saímos.

— Cachorros são assim mesmo. Eu já vou indo, tia — levantei-me para dar um abraço nela.

— Já?

— Sim. Eu só vim trazer o Kookie mesmo. Tenho que ir tomar banho e cuidar do meu filho — despedi-me dela e me direcionei até fora de sua casa.

— Lisa, o que você vai fazer?

— A primeira coisa é descobrir se tem mais alguém da família dele morando com ele. O resto eu tenho que pensar.

— Como assim você ainda não tem o plano pronto em mente? — ele perguntou enquanto andava ao meu lado, com um semblante indignado.

— O plano perfeito não é feito da noite pro dia. Um assassinato não é feito da noite pro dia, Kookie — parei, olhei para ele e sussurrei enquanto mantinha meu olhar nos seus.

— Claro. Boa sorte!

— Eu não preciso de sorte.

Caminhei até a mesa onde Lee Yeongsu estava sentado, e me sentei em uma cadeira de plástico na cor vermelha.

— Quem é você?

— Alguém aleatório que queria beber, porém não encontrou nenhuma cadeira livre.

— Pode ficar aqui, então. Eu já estava indo embora mesmo — ele disse enquanto se levantava.

— Calma. Vamos nos conhecer. Eu estou sozinha, quero a companhia de alguém.

Ele me encarou, tentando me estudar por rápidos segundos, não descobrindo nada por trás da minha carinha de anjo, ele desistiu e voltou a se sentar.

— Quantos anos você tem? — perguntei.

— Eu tenho sessenta e um — o pai do Jungkook passou ao nosso lado. — Hoseok, traga mais uma garrafa e um copo— ele pediu e logo voltou a me encarar. — E você?

— Vinte — ele assentiu enquanto arqueava as sobrancelhas e via o Hoseok trazer mais uma garrafa, logo abrindo a mesma para que o senhor pudesse beber. — Você tem filhos?

— Tenho, infelizmente — ele serviu cerveja para nós dois. Aceitei, pois não quero que ele desconfie.

Infelizmente?

Ah, é hoje que eu mato este desgraçado, pau no cu do caralho.

Calma, Lisa! Tempo ao tempo, senão você se fode gostoso.

— Por que "infelizmente"?

— Aquela praga só serve pra me dar desgosto. Ela tá namorando com um maconheiro da escola. E, pra piorar, eu tenho que ficar comprando a merda de absorvente toda vez que vou ao supermercado. É o maior mico da minha vida.

Se controla...

— Por que sua mulher não compra? Pode ser uma opção — bebi um pouco de cerveja, tentando me acalmar para não meter um soco nessa cara amassada do caralho.

— Ela está em uma viajem de trabalho lá na Coreia do Sul. Não pode, sabe. A Jennie nem sai de casa, só serve pra estudar. Não vai pra uma festa, e nem nada.

— Desperdício da adolescência — ele assentiu com a maior cara de pau do mundo. — Só mora você e ela? Não tem outra mulher?

— Não. Só mora eu, ela e a porcaria de um cachorro que só mija e come.

Assenti.

Fingi receber alguma mensagem e levantei-me da mesa, logo recebendo o olhar curioso do homem.

— Onde vai?

— Minha mulher está enchendo meu saco pra voltar pra casa. Preciso ir.

— Mulher? Você é lésbica?

— Sim. Por quê? Algum problema? — franzi o cenho enquanto perguntava tranquilamente.

— Óbvio. Isso não é de Deus.

— Deixar a filha em casa e sozinha só pra beber, julgar ela por se concentrar na escola e não nas festas, e menstruar, também não é de Deus. Agradeça por ter que comprar absorvente todo o mês, preocupante seria se não tivesse a necessidade de comprar. 

Saí dali antes que eu desse um soco na cara daquele velho. Caminhei até o meu carro furiosa. Meus passos batiam com força no chão feito de concreto, que já estava um pouco escuro. Destravei meu carro ao chegar pelo do mesmo, e abri a porta para entrar no banco do motorista. Fechei a porta e liguei o carro, para assim, ligar o aquecedor e fazer o vidro desembaçar um pouco.

Avistei Jungkook se aproximando e abri o  vidro, logo tendo o corpo do garoto inclinado na janela do meu carro.

— O que foi aquilo? Por que saiu? — ele apoiou seus braços na porta para servir de apoio.

Seu rosto era iluminado por uma luz amarelada, que estava em um poste ao lado do veículo que me pertence, fazendo com que o garoto ficasse com a mesma coloração da cor da iluminação.

— Eu já descobri o que eu queria. Se eu ficasse mais um segundo com aquele velho, era capaz de eu matar ele ali mesmo.

— O que descobriu?

— Ele e a Jennie moram sozinhos, junto com um cachorro.

— Deve ser o Kuma.

— Quem?

— O cachorro da Jennie. Ela vive postando storys e fotos dele no Instagram dela. Você não a segue?

— A conta dela é privada, eu mandei solicitação, mas ela não aceitou. Como conseguiu?

— Ela aceitou a minha solicitação. Por que não tenta novamente?

— Vou pensar. Agora eu vou ir embora. Tchau.

— Tchau — ele endireitou sua coluna e se afastou um pouco do carro.

— Ah, amanhã eu não vou pra escola.

— Por quê?

— Tenho que levar o Love ao veterinário pra ele tomar vacina.

— Ok — ele deu leves tapinhas no topo do carro enquanto olhava para o bar de seu pai, e logo se afastou de mim, indo em direção a sua casa.

***

Depois de longos minutos, finalmente cheguei no meu apartamento. Assim que estacionei o meu carro, desliguei o som e o aquecedor, peguei meu celular e minha bolsa, e desliguei o carro, para assim, abrir a porta e sair do mesmo.

Assim que tive um contato completo do meu corpo quente e aquecido, com o ar gelado que dominava a atmosfera de Toronto, senti um arrepio, trazendo contigo o frio que dominou o meu corpo, fazendo-me tremer o meu queixo e rangir os dentes enquanto respirava fundo com a boca entreaberta, tentando controlar o ar gélido que me fazia tremer por inteira.

Fechei a porta do carro e o tranquei, logo dei uma corridinha para chegar no elevador. Cliquei no botão cinza-escuro para que o elevador viesse até onde eu estava, e assim que as portas se abriram, eu adentrei e toquei no número 39, o último andar, que era onde eu morava. Depois de alguns minutos, cheguei no andar que escolhi, e a porta se abriu após o acontecimento. Saí do elevador e caminhei até a porta número 397, enquanto tirava a chave do meu bolso.

Assim que fiquei em frente a porta do meu apartamento, coloquei a chave na mesma e a abri logo em seguida, podendo entrar no local e sentir o ar quente atingir o meu corpo fino, porém malhado. Fechei a porta assim que fiquei completamente dentro do apartamento, e logo tirei minha mochila e meu sobretudo, colocando-os no cabideiro de parede ao lado da porta. Coloquei minhas chaves no porta-chave grudado na parede cinza-escura, e caminhei até a sala, encontrando Love deitado no tapete. Aproximei-me para fazer carinho em seus pelos negros.

— Cheguei, meu amor. Está com fome? — olhei para o local onde fica sua comida, e vi que os potes estavam cheios, indicando que ele não havia comido. — Ô, meu filhote, você tem que comer, ok? — afaguei sua cabeça, fazendo o cachorro olhar para mim e tentar se aninhar em meu colo. — Calma, bebê. Eu vou tomar um banho primeiro, ok?

Levantei-me e fui tomar um banho rápido, apenas para tirar o cheiro ruim de cerveja e cigarro, já que no bar do Yoongi tem muitos fumantes. Logo após o banho, vesti meu pijama branco e cinza e fui até a sala novamente.

Sentei-me no sofá, logo vendo o cachorro pular e se deitar ao meu lado, colocando sua cabeça no meu colo. Sorri ao vê-lo pedindo carinho e comecei a acariciar todo o seu corpo. Enquanto fazia isso, peguei o controle e coloquei em qualquer filme aleatório. O escolhido foi "Fanfic", ele conta a história de um garoto trans. Parece ser bom.

— Love — o cachorro me olhou —, vai comer, senão eu não irei mais fazer carinho em você.

O cachorro pareceu entender, pois depois de alguns segundos, o mesmo se levantou e foi até onde ficava o seu pote de comida e água.

Aproveitei que ele saiu de perto e me levantei para pegar o meu celular, que estava na rack da TV. Logo procurei pelo o número da minha irmã mais velha, e liguei para ela.

— Fala, xará. O que posso fazer pra ajudar a nossa psicopata preferida? — sorri ao ver seu tom de voz animado.

— Preciso que vocês façam algo pra mim.

— Manda a bala — Bambam disse.

— Cês tão aonde que tá essa barulheira toda?

— A gente tá assistindo série. Abaixa aí o volume, Bambam — logo o volume da TV foi diminuindo, indicando que Bambam obedeceu a nossa irmã.

— Quem temos que matar?

— O pai da Jennie.

— Jennie Kim? — perguntou Minnie e eu afirmei. — Ok. Fácil. Tem algum plano?

— Tenho. Posso me encontrar com vocês amanhã?

— Claro, meu amor. Beijos — Minnie disse.

— Beijos, phi.

"Phi" significa irmã mais velha na Tailândia, já "nong" significa irmã mais nova. Eu e Minnie nos chamamos assim as vezes.

— A gente se vê amanhã, Pokpak — Bambam se despediu.

— Tchau, Mookmook — sorri ao ouvir a risada dele e desliguei logo em seguida.

Bambam é o irmão do meio, tornando-me a mais nova e a Minnie a mais velha. Quando éramos crianças, eu e o Bambam criamos apelidos uns para os outros. Sempre que ele me chamasse de Pokpak, eu teria que chamá-lo de Mookmook — o nome verdadeiro dele é Kunpimook Manobal.

Eu pensava que ele já tinha esquecido desse trato ridículo, mas não. Fiquei feliz que ele ainda lembra de algo besta que fazíamos quando éramos pequenos.

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