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Lalisa dormiu aqui no hospital comigo, toda vez que eu olhava para o lado, observava a mulher dormindo, desconfortavelmente, no sofá pequeno que tinha aqui. Me pegava admirando ela dormir durante a noite toda, durante todo o tempo que eu estava sem coragem para pegar no sono, com medo de talvez não acordar.
Lisa se remexeu um pouco e acabou caindo de sofá, o que me tirou uma boa risada. Mas eu acho que ela estava tão cansada, que apenas virou para o lado e dormiu novamente.
Seu celular começou a vibrar no sofá, me chamando bastante atenção, porém ele estava de tela para baixo, então eu não consegui ver quem era.
Flashback
— Pra sua sorte, eu não quero um filho teu, tua vagabunda. Deus me livre fazer você engravidar e você correr atrás de pensão — ele colocou a camisinha em seu membro ereto, vindo em minha direção.
— SAI, PORRA! SOCORRO!!! — gritei quando ele tentou enfiar seu membro dentro de mim. Dei-lhe um chute, e isso fez ele se estressar e me esfaquear na coxa, fazendo eu parar de me mexer.
Flashback
Pelo menos ele usou camisinha. Uma preocupação a menos.
Mas, porra, eu estou chorando de novo por ter lembrado dessa merda. Que ódio do Kai!
Se eu pudesse, eu me matava agora, eu me matava e acabava de uma vez por todas com o meu sofrimento. Tudo o que eu queria agora, era o abraço da minha mãe, mas ela é mais filha da puta do que o meu pai. Como ela teve coragem de fazer isso comigo? Ela expôs a minha privacidade para um psicopata.
Cada dia é mais difícil lidar com isso. Lembro-me de quando eu tinha apenas cinco anos, meu pai amava ficar comigo no colo, ou me dar banho. Eu não ligava na época, já que eu era criança, mas... o problema de verdade começou a partir do momento em que eu já tinha idade para me virar sozinha. Ele me obrigava a tomar banho com ele, às vezes. E, agora, eu entendo o porquê daquele grude todo.
A Lisa sempre me deu medo, mas depois que conversei com ela, eu percebi que a garota não era fria, arrogante ou agressiva, pelo o contrário, a pessoa que bota medo em Deus e no mundo, tem medo de uma simples barata.
Eu escutei tudo que ela tinha falado para mim, pensando que eu estava dormindo. Aquilo só me fez ter mais vontade de querer uma família com ela, mas... eu acho que não quero ter uma família com ela aqui em Toronto. Talvez se fôssemos para a Coreia, ficaríamos bem melhor do que aqui. Apesar desta cidade ser linda, ela me causou muitos traumas.
— Jen? — Lisa me chamou. — Está tudo bem? Você tá pensativa demais. No que está pensando? — ela caminhou até mim.
— Eu tava pensando em me mudar pra Coreia, só isso.
— Por quê? Não quer continuar morando aqui? — balancei a cabeça. — Eu prometo que assim que a gente terminar a escola, nos mudaremos para a Coreia. Você poderá escolher a cidade.
— Lisa, você não precisa fazer isso. Eu sei me virar sozinha.
— Eu quero fazer isso. Será melhor pra nós duas — ela se sentou na poltrona ao lado da cama, colocando a mão em suas costas e fazendo uma expressão de dor. — Inclusive, eu tenho certeza que dormir no sofá. Por que eu acordei no chão? Minha coluna tá doendo.
— Você caiu.
— Como?
— Você virou e caiu.
— Só?
— Sim.
— Por que não me ajudou? — olhei para o meu corpo, logo mirando meu olhar para as máquinas ao meu redor. — Certo. Entendi. Por que não me chamou?
— Você voltou a dormir, pensei que estivesse confortável daquele jeito.
— No chão de um hospital? — assenti. — Você sabe quantas pessoas morreram aqui? Mais de um milhão.
— Não exagera, Lisa — ri enquanto via ela segurar a minha mão.
A Lisa também é bem exagerada e dramática. Ela ama o meu carinho, ter a minha atenção, o meu amor, ela ama tudo o que tenha haver comigo. Confesso que às vezes chega a ser sufocante, mas sempre fico ao lado dela, pois quando ela faz beicinho, carinha de cachorro pidão e começa a chorar, não tem como resistir.
— Quais cidades você acha melhor para morarmos? — ela perguntou. — Tem ser uma cidade confortável para criarmos uma família incrível.
— A gente nem namora e você já quer uma família?
— Não seja por isso. Eu te pediria em namoro agora, mas... eu acho que esse não seja o lugar correto — ela olhou em volta. — Enfim, você que entende mais, qual cidade é melhor?
— Tem várias, tipo: Seul, Busan, Daejeon...
— Que tal Busan?
— Parece uma boa — ela assentiu enquanto tentava me distrair com alguma coisa aleatória em seu celular.
— Olha, o Kuma e o Love estão com o Jungkook — ela me mostrou um vídeo onde o Kookie estava brincando com os cachorros, e acabou sendo derrubado no chão e atacado por ambos, fazendo-nos rir.
— Lisa, fala pra Jennie que o cachorro dela é um dragão em miniatura — rimos do que o garoto falou, com um semblante de dor.
— Coitado dele — falei.
— Ele teve a ideia, agora aguente.
Murchei meu sorriso, olhando fixamente para a garota que sorria para o celular, vendo uma foto que Jungkook mandou.
— Lili, as meninas falaram comigo ontem, e... — engoli seco, vendo-a olhar para mim — eu não tô grávida? — ela balançou a cabeça, olhando para o chão. — E se eu ficar?
— Meio impossível, mas se ficar, vai ter muitos problemas. Elas te contaram que você vai fazer uma cirurgia? — assenti, deixando uma lágrima escapar.
— Lesão no útero, né? Que maravilha.
Ela deitou a cabeça no meu travesseiro, acariciando com cuidado a minha barriga, tentando controlar suas lágrimas que queriam cair.
— Eu sei o quanto você estava feliz em ter um filho... Agora, as chances de eu ter uma gravidez de risco, são muitas... Desculpa.
— A próxima vez que você pedir desculpa por algo que você não fez, eu juro que eu arregaço tua cara.
— Você não tem coragem.
— Exato, por isso te ameacei. Eu não levanto e nunca vou levantar um dedo pra você, Jennie.
— Bom mesmo.
— E, podemos tentar uma outra vez, o importante é que você tenha uma gravidez boa e saudável. Vamos dar tempo ao tempo, e depois que fizermos faculdade, veremos se teremos ou não um filho.
— Qual faculdade você quer fazer — perguntei, tentando mudar de assunto, pois aquilo estava me machucando demais.
— Fotografia. E você?
— Moda. Eu amo mexer com roupas, desenhar alguns looks aleatórios que passam pela a minha mente.
— Combina com você.
— Por que quer fazer fotografia?
— Eu amo fotografar, eu tinha uma câmera, mas ela quebrou. Ou melhor, alguns garotos quebraram.
— Como assim?
— Antes de eu entrar no ensino médio, eu sofria bullying. Essa foi uma da razões pela qual eu me fechei pro mundo. Os garotos quebraram a minha câmera em mil pedacinhos, e disseram que eu nunca poderia fotografar, pois isso era um trabalho para homem. E, eles também me chamavam de "meta". Metade homem, metade mulher...
Seus soluços puderam ser ouvidos pelo o quarto, e aquilo partiu o meu coração. Tentei abraça-la, ignorando a minha dor. Eu apenas queria lhe dar carinho e conforto. Deixei um selar no topo de sua cabeça e acariciei devagar as suas costas.
— Não fica assim, meu amor, você é uma mulher incrível, é uma mulher que consegue tudo o que quer, é talentosa, e tem a capacidade de fotografar bem. Tenho certeza que você é uma ótima fotógrafa. Inclusive, você vai ser a minha fotógrafa particular. Eu quero que você tire fotos minhas, dos nossos futuros filhos, dos nossos cachorros, e da gente... Então, não fique assim porque dois idiotas do colegial, fizeram bullying com você por conta da sua intersexualidade, você é especial e sabe muito bem. Eu digo especial, no intuito de afirmar o quão atenciosa, carinhosa, educada, gentil e romântica você é. A próxima vez que eu te ver chorando por isso, vou te bater. Entendeu?
— Uhum...
— Quando terminarmos a escola, você vai seguir a carreira de fotógrafa, se for o seu sonho, ouviu?
— Sim. Eu ouvi, Jen...
— Eu te amo — sussurrei, vendo-a encarar-me nos olhos.
Surpreendi-me quando ela me beijou suavemente, se preocupando em não me machucar. Permanecemos em um selinho cheio de amor e carinho, enquanto Lisa acariciava a minha bochecha com a sua mão, trazendo sensações maravilhosas de sentir.
— Eu também te amo — ela sussurrou, contra a minha boca, antes de voltar a me beijar.
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