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Após me banhar, saí do banheiro e me deparei com um conjunto de moletom.

Por sorte, eu sempre carrego uma calcinha junto a um absorvente reserva. Nunca se sabe quando vai descer. Eu até poderia fazer as contas e tudo mais, mas a minha menstruação é toda desregulada. Tem vezes que ela vem no meio do mês, outras no final, e outras no início. Nunca entenderei.

Fui em direção a sala após me vestir, encontrando Lisa fazendo comida enquanto passava o jornal na TV da sala. Kuma e Love cansaram de brincar e foram dormir.

Os olhos da morena, caíram sob mim, fazendo com que ela não segurasse o sorriso ao me ver com a roupa dela.

— Você consegue sorrir? Nossa. Essa é nova — sentei-me num banquinho perto do balcão da cozinha americana.

— É que você ficou fofinha com a minha roupa. Cabe duas de você aí dentro, Jen.

— Jen?

— Sim. Posso te chamar assim, ou terá algum problema? — ela virou para mim e se escorou no balcão ao lado do fogão.

— Não. Imagina. Mas é que... não somos tão próximas pra você me chamar assim, entende?

— Entendo. Claro que eu entendo. Mas, se me permitir, eu quero ser mais próxima de você, milady — ela se curvou e eu não consegui conter o meu sorriso.

Logo a garota voltou a fazer a comida, virando de costas para mim. Ela estava com uma calça moletom cinza-clara e um suéter com a mesma cor da calça, nas mangas. Já no resto, era na cor branca e tinha um desenho de uma câmera. De acessório, ela estava com um pano de prato pendurado em seu ombro direito.

Meu celular vibrou e eu levei meu olhar para ele, logo vendo o número do Kai na tela do telefone. Bufei antes de atende-lo. Levantei-me e fui até o quarto onde eu ficaria.

— O que foi?

— A gente pode conversar? — ele perguntou com a voz meio arrastada e meio confusa. Ele parecia estar bêbado.

— Você tá bêbado, Kai. Conversamos outra hora — preparei-me para desligar a ligação, porém ele me gritou.

— Eu tenho algo pra te falar. Eu te traí. Na verdade, eu te traio com a Somi desde que começamos a namorar. Sabe, ela transa comigo, diferente de você que sempre diz que não é a hora e eu não sou a pessoa certa. Ela é muito boa, inclusive. Mas não liga pra isso, amor. Eu posso dar atenção pra vocês duas, escutou? — desliguei e taquei meu celular sobre a cama.

Raciocinei o que eu tinha acabado de escutar, levando minhas mãos até meus cabelos para puxa-los fortemente. Fui até uma poltrona e me sentei, logo inclinei meu corpo para frente, apoiei os meus cotovelos em minhas coxas, e tapei meu rosto com as minhas mãos, permitindo-me chorar.

O meu coração pulsava descompassado enquanto eu me deparava com a cruel realidade.

O quarto parecia girar ao meu redor, e o peso da traição me atingiu como um soco. As lágrimas brotaram involuntariamente, enquanto meu mundo antes colorido se transformava em tons sombrios de desilusão.

Cada palavra, cada promessa quebrada ecoava em minha mente, deixando-me perdida em um mar de emoções tumultuadas. O choque inicial de incredulidade cedeu lugar à tristeza profunda. Eu estava decepcionada não só com a traição dele, mas também a quebra de confiança que eu havia depositado tão completamente nele. O momento era um ponto de virada, onde o que antes era um amor seguro agora se transformava em cicatrizes emocionais que levariam tempo para sarar.

Algumas batidas foram ecoadas do lado de fora, fazendo com que eu engolisse o choro e prestasse atenção na fala da garota.

— O jantar tá pronto. Estou te esperando pra comer.

— Eu já tô indo — forcei a minha voz para que ela não percebesse que eu estava chorando.

Fui até o banheiro e lavei o meu rosto, logo mirei meu olhar para o espelho, me vendo no reflexo, com a cara toda acabada.

— Você não vai ficar sofrendo por um macho meia boca, Jennie Ruby Jane Kim. Você é mais forte que isso. Se preserva, mulher. Ele não te merece. Se você não quer transar, ninguém pode te obrigar a nada.

— Verdade — me assustei ao ver Lalisa atrás de mim. — Foi mal. Você tava demorando, daí eu resolvi vim ver se precisava de alguma coisa.

— E teve que entrar no banheiro?

— Eu ouvi você falar algo. O que aconteceu?

— Nada. Vamos comer? — ela assentiu enquanto me seguia até a sala-de-jantar. — O que é isso?

— Pad Thai, uma comida típica da Tailândia, um pouco apimentada, porém não tanto, digamos que este prato é o preferido dos turistas — ela puxou a cadeira para que eu pudesse me sentar. Logo a vi sentando na cadeira em minha frente.

— Eu sabia que você não era uma pau no cu.

— Quê?

— Lá no fundo, eu sabia que você não era fria e nem grossa. Muito menos assassina. Como uma pessoa gentil e cuidadosa que nem você pode ter coragem de matar alguém?

— Verdade. Eu só brinco falando que sou uma assassina, mas no off, eu tenho medo de uma baratinha — ela disse e eu ri com o cenho franzido.

— Você tem medo de barata?

— Sim. Quem não tem? Aquele monstro sobreviveu a um meteoro — ela alterou o tom de voz, fazendo sua fala ficar engraçada.

Eu ri mais de sua cara, e ela me encarou com uma expressão confusa, porém logo sorriu para mim.

— Lisa, eu espero que não se importe, mas eu não estou com muita fome. E, sabe, também estou com o estômago embrulhado — ela franziu o cenho e me encarou com um semblante duvidoso.

Quando menos esperei, a garota se levantou e veio até mim, se sentando ao meu lado e puxando o meu prato de comida para ela. Estranhei, porém observei atentamente cada movimento, incluindo quando ela levou uma colherada de arroz frito até a minha boca. Esquivei-me e ela fez uma cara triste.

— Jen, você emagreceu muito dos últimos dias pra cá. Seja sincera comigo, você anda comendo?

— Como sabe que eu emagreci?

— Eu já disse que reparo em você. Agora me responda o que eu te perguntei.

— Eu como todos os dias. Você está vendo coisas, Lisa.

— Jennie... Você anda comendo, sim ou não? — suspirei e acabei negando com a cabeça, logo levantado meu olhar para a minha mão, que estava jogada sob a mesa, brincando com um guardanapo. — Por quê? Se você não comer, ficará sem forças para dançar.

— Estou de regime justamente pra dançar.

— Mas você já é magra. Se emagrecer mais, vira um palito — eu ri enquanto virava meu olhar para a garota.

— Palhaça. Eu não quero comer. Não estou com fome.

— Você não comeu nada, nem no lanche, nem no intervalo. É melhor você comer. Caso o contrário...

— "Caso o contrário" o quê? — a provoquei enquanto tinha um sorriso cínico nos meus lábios.

— Eu vou ser obrigada a fazer aviãozinho pra você. Isso é péssimo, não é? — ela perguntou cinicamente, fazendo com que eu risse sarcásticamente.

— Eu não quero.

— Fala em tailandês e eu não insisto mais.

— Como fala isso em tailandês?

— Mai ao — a pronúncia fica "meao", é como se você estivesse miando.

— Mai ao — repeti o que ela disse com a minha voz manhosa, me afastando ainda mais da colherada que estava me perseguindo.

— Olha só, uma gata miando — dei-lhe um leve tapa em seu ombro e comecei a sorrir abertamente, vendo os lábios da garota se curvarem em um fofo sorriso singelo, enquanto um brilho imenso atingia o seu olhar.

— Sua idiota.

— Fala que não está com fome, então. Antes que me pergunte, em tailandês significa "ao".

— Ao.

— Abre a boca — ela levou a colher mais para perto, encostando-a na minha boca, obrigando-me a abri-la. Logo senti o objeto adentrar a minha boca, fazendo com que eu juntasse os lábios para poder retirar a comida. Logo a Lisa tirou a colher de dentro minha boca e foi enche-la novamente. — Mastiga, Jennie.

Dei de ombros.

Surpreendi-me quando ela levou sua mão para o meu maxilar, me guiando para começar mexer o mesmo para que pudesse mastigar.

Assim que a comida passou pela a minha garganta, eu perguntei:

— Por que me deu a comida? Eu disse que não queria.

— "Ao" significa "quero". Eu menti pra você — entreabri a boca e a encarei indignada.

— Não creio.

— Pois comece a crer.

— Meu Deus, Lisa. Para de ser idiota — sorri enquanto via ela trazer mais um colherada até a minha boca.

— Se eu parar de te dar comida na boca, você não vai comer. E, se você não comer, não será nada bom — ela sorriu ao me ver mastigando com vontade, sem que ela tivesse que me guiar para fazer o ato. — Depois podemos assistir um filme. O que acha?

— Parece bom. Por que não assistimos "Meninas Malvadas"?

— Nunca assisti — ela deu de ombros enquanto pegava mais comida.

— Como assim você nunca assistiu. Ele é muito bom, não é atoa que é o meu filme favorito.

— Então eu assisto — comemorei. — Porém, porém — olhei para ela —, não garanto que não irei dormir.

— Eu te acordo se você dormir.

— Não tem necessidade. Eu vivo dormindo no sofá, estou velha de mais pra ficar acordada até tarde.

— Quantos anos você tem?

— Vinte. E você?

— Vou fazer dezoito anos o mês que vem.

— Sério? Que dia?

— Dia dezesseis.

— Que maravilha, Kim. Está planejando fazer algo?

— Sim. Ficar em casa assistindo série — ela riu.

A conversa continuou rolando enquanto ela dava comida na minha boca. Obviamente não neguei a ação dela. Eu precisava esquentar a cabeça, e ficar com ela estava me ajudando a esquecer do Kai.

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