o5| Um jovem médico da cidade


Uma junta de crianças quase me acerta quando atravessam a rua completamente eufóricas para perseguir um carrinho de sorvetes. Olho para aqueles rostos felizes e corados e penso que talvez o mundo finalmente esteja se reerguendo. Um caça corta o céu acima de nossas cabeças, lançando uma rajada de vento para baixo. Seguro meu chapéu para não o perder, então observo Callum conversando alegremente com o grupo de crianças que está comprando sorvete. Sorrio comigo mesma ao notar que ele parece bem melhor essa manhã.

Termino de empilhar os inúmeros vasos de flores que trouxemos de meu jardim, na nas prateleiras largas da loja do velho Dorson. Pego o regador vermelho e molho as flores maiores que vejo que sofreram um pouco mais de desidratação, depois coloco um pouco mais de humo em alguns outros vasos. Retiro as luvas e as coloco na bancada, olhando satisfeita para o trabalho que fiz. Consegui coletar e cultivar flores diferentes esse ano, e ficaram todas muito boas.

- Ainda não sei como uma jovem consegue ser tão talentosa – Dolores aparece entre as cortinas com o avental sujo de terra. – A jardinagem é uma arte que nem todo mundo sabe dominar, ainda mais pessoas tão jovens.

- Bom dia Dolores – falo, reparando no punhado de bobes presos em seus cabelos loiros. – Não me diga que você ainda está tentando alguma coisa com aquele soldado refugiado?

Ela revira os olhos, retirando as luvas sujas e as colocando no balcão.

- Ele é alemão Dolores... e quem lhe garante que ele não é um criminoso de guerra?

- É claro que não é Larsa, ele estava ferido quando o encontrei na costa. Reiner é um homem bom, ele era da Resistência sabia? Sua família agora somos nós. E vê se para com essa aversão pelos alemães, não tem nenhum nazista aqui.

- Vou tentar – murmuro. – A verdade é que você está apaixonada por ele, e vão sair hoje, não é mesmo?

- Humm – ela estreita os olhos na direção de Callum. – Falando um pouco de você, não vai me dizer que aquele queixo quadradinho e perfeitinho não é de um homem alemão?

Solto uma risada.

- Que tipo de pergunta é essa? – pigarreio.

- Apenas responda – ela estala a língua.

- Ele é alemão sim – ela me lança um olhar irônico e levanto as mãos em sinal de rendição. – Certo, certo. Retiro o que eu disse.

- Você realmente está mais feliz desde a última vez que a vi – ela me encara de um modo estranho. – Bochechas mais coradas, sorriso fácil no rosto e está até mais simpática. Eu diria que a sua situação não está muito diferente da minha.

- Não viaja – retiro meu avental. – Ele é só meu amigo.

- Percebi – ela solta mais uma risada quando reviro os olhos. – Seu amigo por acaso está doente? Ele me parece meio apático, ainda mais usando aquela máscara.

- Está, mas vai ficar bom – repito. – Ele veio passar um tempo longe da cidade grande para melhorar, logo estará completamente saudável e poderá partir.

- E você vai deixar um homem desses fugir assim? Sem fazer nada?

- Pode ir parando, ele já é praticamente casado – observamos Callum agora cercado pelas crianças lambuzadas de sorvete, que faziam inúmeras perguntas sobre sua máscara. – Ele não iria querer nada com uma caipira como eu – falo isso mesmo lembrando do que ele me disse na última vez em que ficamos sozinhos.

- Deus do céu, olha só! Ela está até dispensando os mais belos pretendentes – Reiner nos surpreende quando aparece entre as cortinas carregando mais dois vasos grandes com girassóis. – Bom dia Larsa – seu sotaque carregado me lembra o de Callum. – Eu realmente não saberia reagir com dois homens interessados em mim – ele solta uma risada pomposa quando eu e Dolores lhe lançamos olhares confusos. – Calma, calma. É que o médico uma vez perguntou sobre você.

- O que você sabe que eu não sei, hein seu chucrute? – pigarreia Dolores.

Abafo uma risada por causa do sotaque carregado dele.

- O médico Gary uma vez me perguntou de qual rosa a jovem Larsa gosta mais, eu disse que não sabia – ele coça a barba castanha. – Ele está interessado nela.

- O quê? – me esganiço. – Aquele cara é uma piada, um grosseirão de primeira. Não dê a ele qualquer informação sobre mim! – me viro para Reiner. – Homens como ele não merecem o respeito de uma dama, antes que você pergunte alguma coisa.

- Komisch, ele me parece um homem respeitável.

- Pois não ache, ele não é – bufo.

Callum caminha até nós com uma casquinha de sorvete e a estende para mim. Sei que os olhos de águia de Dolores estão cravados em mim, observando cada movimento. Tento não ficar constrangida com a plateia e aceito a cortesia. Olhar para o sorvete de morango me fez salivar, pois o dia estava muito quente, bem anormal para as temporadas de chuva.

- Não se preocupe, eu não provei – ele diz, colocando as mãos nos bolsos. – Não quero que corra nenhum risco por minha causa.

- Não precisa disso – repreendo, falando de boca cheia. – Eu posso muito bem dividir um prato com você. Aliás, esses são os fofoqueiros Dolores e Reiner – aponto para a dupla dinâmica. – Eles já investigaram você, então não vou perder meu tempo com apresentações.

- Quanta petulância – diz Dolores, indo até Callum. – É um prazer conhecer o homem que faz minha amiga sorrir.

Engasgo com o sorvete e olho feio para ela.

- Hallo mann – salda Reiner, em alemão.

- Hallo, soldat – Callum bate uma leve continência e meu coração palpita mais rápido. – Der Widerstand existiert noch?

- Ich kann seit Hitles Sturz keinen kontakt mehr haben. Aber ja, wir werden immer stehen.

- O que eles estão falando? – pergunto baixinho para Dolores.

- Seu amigo perguntou para Reiner se a Resistência ainda existe, e Reiner respondeu que faz algum tempo que tenta se comunicar através de cartas com eles, mas não consegue, mas que a Resistência sempre estará de pé.

- Humm – escuto com atenção o sotaque carregado de Callum e para a minha surpresa, gosto de ouvi-lo falando sua língua mãe.

Ainda que fizesse bastante calor, não demora muito para o tempo fechar. Dolores some por alguns instantes e depois volta com um pequeno vaso de lírios brancos e o estende para mim.

- São para o Sr. Callum – faço uma careta de confusão. – Cortesia para nosso visitante. Acha que ele vai gostar?

- Tenho certeza que sim, acho que ele é do tipo que fica feliz com quase tudo – suspiro. – Tenho que ir andando, ainda preciso comprar um novo lote de sementes e não é bom que Callum fique muito tempo nesse ambiente quente.

De repente Dolores agarra meu braço e me puxa para o lado. Dou de ombros quando os meninos nos olham desconfiados, depois lanço um olhar questionador para ela.

- Olha só quem vem vindo aí – ela sussurra em meu ouvido.

Meus olhos vagam pela larga rua adiante e então o vejo caminhando pela calçada da Benefit Street. O longo sobretudo negro combina perfeitamente com a calça marrom e as botas negras. Garry Heiko anda solitário, com sua bengala rústica e uma cartola que parece esconder mil e um insultos. Torço o nariz quando Dolores solta uma risadinha quando ele atravessa a rua e caminha em nossa direção, parando um pouco surpreso quando nos nota. Ele faz um cumprimento sútil com a cabeça aos rapazes e volta a nos encarar como se estivesse ponderando algo. Penso em pegar a mão de Callum e correr dali, mas é tarde demais, pois ele já está a alguns centímetros de mim. Engulo em seco quando ele pega uma margarida do vaso e a estende em minha direção. Fico o encarando, incrédula, por alguns instantes, e aceito a cortesia quando Dolores me dá uma leve cotovelada nas costelas.

- Obrigada – falo a contragosto.

- Para onde ia com tanta pressa, Dr. Heiko? – pergunta Dolores, impertinente como sempre.

- Ah, eu... – ele parece selecionar bem as palavras que vai dirigir a nós, pois já deve ter visto que tenho a língua afiada. – Estava apenas saindo de uma última consulta, sabe, ontem foi um dia muito corrido...

- Então quer dizer que ainda está no plantão do outro dia? Virou a noite trabalhando? Ouvi dizer que você trabalha até tarde, é verdade? – Dolores insiste em sua petulância, e uma parte de mim gosta de vê-lo desconcertado. – Atende gratuitamente as pessoas que não possuem muito dinheiro, não é?

O rosto de Garry começa a ficar vermelho, então ele ajeita a cartola e olha para os pés, visivelmente desconfortável.

- É, eu... fico lá até tarde. Não me lembro bem desde que horas estou em meu consultório... virei uma noite? Eu não percebi – Garry me parece atordoado e desorientado, como se não dormisse há dias. – Aquelas pessoas vêm até mim e imploram por misericórdia, eu não posso deixar que morram, elas... – Gary retira um lenço do casaco e enxuga o suor da testa. – Eu não mereço a idolatria delas, elas acham que eu sou algum tipo de santo.

- Então por que continua a atendê-las? – pergunto.

- Eu sou médico, enquanto eu for jovem e puder ajudar essas pessoas eu irei, com ou sem dinheiro – ele me lança um olhar irritado. Percebo que sua respiração está mais acelerada que o normal e os lábios estão esbranquiçados e rachados. – Satisfeita?

Abro a boca para retrucar bem no momento em que Reiner abraça eu e Dolores pelos ombros e me faz recuar.

- Muito bem Dolores, o que acha de se juntar a mim e ao Sr. Callum? Nós vamos jogar um pouco e precisamos de mais uma pessoa, vamos lá?

Dolores assente a contragosto e se despede de Garry com um sorriso radiante. Cruzo os braços e desloco o peso de uma perna para a outra, observando os três partirem e me sentindo traída por Callum, que nem sequer olha para trás. Garry apoia seu peso em sua bengala rústica e observa o movimento na rua, como se todos os lugares servissem de refúgio para não me fitar. Solto um suspiro e sigo seu olhar, que está pousado em dois meninos maltrapilhos na esquina da Benefit Street, onde contemplam a vitrine de uma confeitaria cara demais para eles sequer olharem. Era óbvio que os meninos não tinham dinheiro nem para o café da manhã, e seus joelhos ralados e sujos de sangue coagulado e fuligem denunciavam que talvez fossem órfãos.

- Ei! – pigarreio quando Garry começa a andar freneticamente em direção aos meninos e me deixa sozinha, então ando apressadamente em seu encalço. – Ei, o que vai fazer?

- Estou lhe poupando da minha presença – ele arfa, ainda sem olhar para mim.

- Eu perguntei o que você vai fazer – sibilo.

Ele não me responde, mas continuo seguindo seus passos. Atravessamos a larga rua e chegamos no final da Benefit. Os meninos ainda estão lá, acuados ao lado do luxuoso poste quando o confeiteiro abre a porta de repente e os enxota, esbravejando xingamentos em francês tão rápido que não consigo entender muito bem. Garry puxa duas notas de cem dólares rapidamente e coloca no bolso do confeiteiro, que o olha confuso e depois suaviza a expressão ao finalmente entender. Garry vai até os meninos assustados e se ajoelha até eles, não parecendo se importar quando suas roupas de grife arrastam no chão sujo.

- Como se chamam? – ele pergunta, em um tom paternal.

- Eu sou o Shmu e meu irmão é o Dilan – eles falam com suas vozinhas infantis e fracas por conta da fome. – Quem é você?

- Eu sou Dr. Heiko, mas vocês podem me chamar de Garry. Onde estão seus pais?

- Papai foi na guerra e não voltou, a mamãe está sentada no beco aonde a gente mora, mas ela não se levanta mais.

Engulo em seco.

- Posso ajudá-la se me levarem até ela, tudo bem? – os garotos assentem, então Garry se levanta e direciona o olhar para o confeiteiro. – Quanto posso levar com esse dinheiro?

- Muito, seigneur.

- Bem, prepare o máximo que puder e também quero todos os doces que estão em sua vitrine – o confeiteiro o olha com espanto e desconfiança, e Garry puxa mais dinheiro de seu casaco e então o confeiteiro lhe abre um grande sorriso.

- A seu dispor – fazendo uma leve reverência ele parte para dentro gritando ordens.

Enquanto Garry continua conversando com os garotos, olho para a esquina bem próxima de nós e vejo algumas crianças nos espionando discretamente, nos olhando com muita curiosidade. Todas com um aspecto muito sujo e nitidamente muito desnutridas.

- Larsa, vá para casa – diz Garry, desviando minha atenção para ele.

- O quê? – indago. – Eu...

- Eu disse, vá para casa – seu aspecto cansado me diz para não o deixar sozinho. – Sua tia ficará preocupada, eu não vou terminar isso cedo.

- Você sabe que eu irei – digo.

- Larsa, não irei terminar isso cedo, pode ficar muito tarde e perigoso para você, sabe disso.

- E você sabe que vai precisar de ajuda, olhe só a sua cara, está tão apático quanto essas crianças! Há quanto tempo está enfurnado naquele escritório Garry?

Ele suspira e retira a cartola, cansado demais até para discutir comigo.

- Tudo bem, vai ter que dizer a Sra. Cornélia que veio comigo por conta própria. Para onde vamos é muito perigoso, não é nada parecido com o seu pomar bonitinho – ele volta a apoiar seu peso na bengala, como se estivesse com dificuldade de se manter de pé. – Entendeu?

- Entendi.

                                                                          ***

Andamos apressadamente com os garotos em nosso encalço. Garry segura muitas sacolas e sua respiração está tão pesada que temo que ele tenha um colapso nervoso a qualquer instante. Mesmo que eu esteja carregando alguns pacotes, transfiro mais alguns dele para mim, pois ele vai precisar de mais energia quando chegar lá. Para nosso desespero, o céu fecha completamente e pesadas nuvens ameaçam chover. A ventania forte nos atrapalha bastante, agitando as sacolas em nossos braços e nos fazendo tremer de frio.

- Por aqui! – grita Shmu, dobrando uma esquina entre dos prédios imensos que pareciam ser do século XVI.

Um odor forte de putrefação quase me faz vomitar. Garry coloca as sacolas rapidamente em um grande caixote e me estende um lenço umedecido com álcool.

- Ponha no nariz – ele fala. – Não está acostumada com o cheiro, logo vai vomitar.

Faço o que ele pede e logo o mal cheiro se esvai. Caminhamos até onde os meninos estão e então vejo uma mulher sentada no chão. Sua pele macilenta e os lábios completamente comidos por ratos me faz dar um passo para trás, assustada demais para continuar olhando. Vejo Garry retirar seu sobretudo e colocar em cima do corpo daquela mãe jovem. Pingos gelados de chuva começam a cair, então os meninos pegam os pacotes e se abrigam em uma garagem velha e abandonada. Percebo que não tenho um guarda-chuva, e na verdade, aquilo não importa. Talvez eu não consiga dormir essa noite. Garry vem até mim e coloca sua cartola em minha cabeça, o que faz a chuva não cair em meus olhos. Ele suspira e olha com tristeza para o corpo abandonado.

- Os efeitos da Grande Depressão ainda estão presentes – sua voz soa um pouco baixa por conta da chuva. – Devemos sair daqui, vamos.

- Mas já? – indago.

- Não há nada que eu possa fazer para ajudá-la, ela está morta. As crianças só não conseguem compreender ainda, mas um dia vão. E não sou eu quem deve fazer isso, eu não tenho esse direito.

- Você prometeu ajudá-los Garry!

- Eu prometi tentar ajudar a mãe deles, não posso trazer ninguém de volta! Não posso agarrar os problemas de todos...

- São apenas crianças!

- NÃO POSSO LARSA! EU NÃO SOU O ESTADO!

Engulo em seco. No fundo sei que ele está certo. As crianças estão sorridentes com seus doces quando nos despedimos. Garry pega meu braço no seu e começa a caminhar na direção oposta. A chuva está cada vez mais forte e grosseira de tal modo que ficamos com dificuldade de nos orientar.

- Para onde estamos indo? – pergunto.

- Para minha casa, é mais perto e seguro. Quando essa chuva passar a levo para casa.

Ele retira um molho de chaves do bolso e vai em direção a uma casa rústica entre dois prédios bonitos. Subo a pequena escada e Garry fecha a porta atrás de nós, nos livrando da cacofonia lá fora. Um silêncio tranquilo invade meus ouvidos. Garry corre para dentro e logo volta com uma toalha grande e felpuda, entregando-a para mim.

- Pode entrar e...

Um grito escapa de minha boca quando ele cai inerte no chão. Corro até ele sinto as batidas aceleradas de seu coração, assim como sua respiração muito pesada. Minhas mãos tremem, mas procuro me acalmar. É óbvio que seu corpo estava tão exausto que precisou desligar um pouco. Toco em sua testa e deduzo que ele esteja no mínimo com trinta e nove graus de febre. Parte de mim sabe que vou ter que fazer certos procedimentos para cuidar dele, como tirar aquela roupa e dar-lhe um banho antes de coloca-lo na cama, e apenas pensar nisso me faz entrar em combustão.

Coloco a toalha nos ombros e procuro o banheiro. A casa de Garry não é grande, mas muito bonita e rústica, digna de um jovem médico da cidade. Acho um banheiro no final do corredor e acendo uma lamparina grande e bonita, ornamentada com ferro e vidro. A banheira grande de porcelana me deixa com vontade de tomar um banho, mas lembro que Garry ainda está estendido no chão e ardendo em febre. Giro a torneira dourada da banheira e uma água morna começa a fluir.

Vejo que ele possui alguns sais na bancada do espelho, então jogo alguns na água e o cheiro logo invade o local. Volto para a sala e o agarro pelos ombros, e para minha surpresa, ele não é tão pesado quanto parece. Coloco Garry na banheira com roupa e tudo e começo a despi-lo, torcendo para que ele não acorde. Entro na banheira para retirar sua calça e penso que quando tia Cornélia ficar sabendo o que fiz, ela irá me castigar pelo resto da vida. Não que eu ache isso certo, pois estou sozinha com um homem que mal conheço, em sua banheira e ainda mais o despindo, mas Garry está precisando de ajuda e eu não irei abandoná-lo, não depois do novo Garry que conheci hoje. 

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