EP.1 [3/4]
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As duas saíram do banheiro em silêncio e caminharam lado a lado para fora do hospital. O vento frio da manhã fazia as folhas das árvores balançarem. Jennie cruzou os braços para se proteger do vento, enquanto Lisa caminhava com as mãos atrás do corpo, parecendo perdida em seus próprios pensamentos.
— Não esperava que nosso reencontro seria num momento como esse — Lisa quebrou o silêncio, sua voz soando mais suave do que Jennie se lembrava.
— Quando a Rosé disse que queria nos juntar de novo, não imaginei que seria desse jeito — a voz de Jennie tinha um tom embargado, e Lisa percebeu isso imediatamente.
Lisa soltou um suspiro pesado, olhando para o chão.
— Eu queria que pudéssemos voltar ao passado... Você lembra quando ela propôs que fizéssemos uma viagem juntas? — Lisa falou e Jennie assentiu, um sorriso leve e melancólico surgindo em seus lábios ao lembrar de como Rosé insistia nessas ideias. — Deveríamos ter aceitado. Se eu soubesse que seria a última vez que nos veríamos as três juntas, eu não teria pensado duas vezes.
Jennie parou de andar e olhou para Lisa, sua expressão carregada de tristeza e arrependimento.
— Acho que o maior sonho da Rosé era nos ver juntas de novo... — Jennie suspirou profundamente antes de encarar Lisa. — Eu queria saber o motivo de termos nos afastado, Lalisa.
Lisa levantou o olhar, e por um instante seus olhos se encontraram.
— Eu também queria entender o porquê, Jennie — ela respondeu, baixando a cabeça logo depois, mesmo sabendo o motivo muito bem.
— Você sabe o que aconteceu com a Rosé? — Jennie perguntou, mudando o tom da conversa, visivelmente desconfortável. — A senhora Park não me contou como foi.
Lisa suspirou e se sentou em um banco próximo, parecendo carregar o peso do mundo nos ombros. Jennie hesitou, mas logo a acompanhou, sentando-se ao seu lado.
— Eu não sei exatamente — começou Lisa, com a voz baixa. — Só sei que a encontrei na praia, perto do farol. Parecia... — Ela fez uma pausa, respirando fundo. — Parecia que ela tentou lutar contra alguém.
— Lutar contra alguém? — Ela repetiu, quase sem acreditar, com o cenho franzido. — Por quê? Por que ela lutaria contra alguém?
Lisa passou a mão pelo rosto, tentando afastar as imagens que vinham à sua mente.
— Tinha marcas no corpo dela, como se... — Lisa parou novamente, hesitando. — Como se ela tivesse sido segurada à força, ou até mesmo agredida.
— Qual foi a causa da morte?
— Disseram que foi suicídio — respondeu Lisa, sem desviar o olhar de Jennie. — Mas eu tenho certeza de que foi assassinato. Ela foi afogada por alguém, Jennie, eu sinto isso. Se fosse suicídio, por que teria tantos arranhões e marcas no corpo? Não seria mais fácil ela... sei lá, ter se jogado de cima do farol? Por que escolheria se afogar, que é uma das formas mais lentas e agonizantes de morrer?
— Se foi mesmo assassinato, quem faria isso com a Rosé? E... por quê?
— Eu não sei. Eu realmente não sei. Mas vou descobrir — disse Lisa, decidida. — Vou propor uma investigação, mesmo que eles tenham dado o caso como encerrado. Vou falar com meu chefe. Nem que eu tenha que investigar sozinha e em segredo, eu vou fazer isso.
— Eu vou te ajudar! — Jennie declarou de repente, surpreendendo Lisa, que a encarou com um misto de surpresa e preocupação.
— Você vai o quê?
— Te ajudar. Tá surda?
— Nem pensar. Eu trabalho melhor sozinha, Kim — Lisa cruzou os braços e as pernas, parecendo determinada. — É melhor você voltar pra Seul. Eu te dou notícias quando descobrir alguma coisa.
— Eu vou te ajudar sim! A Rosé também era minha melhor amiga, Lisa. Você acha que eu vou ficar de braços cruzados enquanto você tenta resolver isso sozinha? Se fosse eu no lugar dela, sei que ela não descansaria até descobrir a verdade. Então não adianta me impedir!
Lisa soltou uma risada curta e sarcástica, balançando a cabeça, enquanto olhava para o chão.
— Pensei que a cidade nova fosse te deixar menos teimosa, mas você continua a mesma chata de sempre.
Jennie estreitou os olhos, irritada.
— Como é que é?
— Foi o que você escutou — respondeu Lisa, levantando o olhar para encarar Jennie, desafiando-a com aquele mesmo olhar de sempre.
— É exatamente por isso que eu me afastei de você, Lalisa! — Jennie se levantou abruptamente, cruzando os braços. — Sua infantilidade é insuportável! Como a Rosé te aguentava, hein?
Lisa também se levantou, rindo de forma leve e provocadora.
— Como ela te aguentava, Jennie? Isso sim é um mistério.
— Não me enche, sua idiota!
— Não tô te enchendo. Você que me chamou pra conversar, lembra? — Lisa disse, andando ao lado dela.
Era como se, mesmo anos depois, aquelas brigas adolescentes nunca tivessem ficado para trás. Rosé sempre fazia questão de apartar as discussões, mas mal terminava uma reconciliação e elas brigavam de novo.
De repente, Lisa olhou para frente e arqueou uma sobrancelha, sentindo o rancor subir a cabeça ao lembrar do passado.
— Olha lá seu namorado.
— Quem? — Jennie perguntou, confusa, mas logo percebeu quem era.
Hwang Hyunjin, ex-namorado da Jennie, se aproximava com um sorriso educado e uma postura impecável.
— Oi, Kim Jennie! Quanto tempo — cumprimentou ele, curvando-se educadamente.
— Oi, Hwang Hyunjin — Jennie respondeu, forçando um sorriso enquanto se curvava levemente. — Faz tempo mesmo.
— A gente podia tomar um sorvete qualquer dia desses... se você quiser, claro — ele sugeriu, nervoso, com um sorriso tímido. — Temos muito pra conversar, né?
— Vou deixar vocês à vontade! — Lisa anunciou, com um tom irônico que só Jennie reconheceu. — Tchau, Jennie. Senhor Hwang.
Assim que se afastou, Lisa balançou a cabeça, resmungando baixinho: "Idiota. 'Quanto tempo, Jennie!' Podia ser bem mais."
No fundo, Lisa sabia que aquela irritação escondia algo mais. Desde o colegial, ela havia percebido que gostava de Jennie mais do que uma amiga. Mas naquela época, Jennie só tinha olhos para Hyunjin, e isso fez Lisa sufocar seus sentimentos. Rosé foi a única que percebeu, tentando incentivá-la a ser honesta consigo mesma. Mas agora, com Rosé fora de suas vidas, a distância parecia ainda maior.
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2012
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— Meninas!!! — Jennie exclamou animada enquanto corria em direção a Rosé e Lisa, que conversavam casualmente sobre a prova que haviam feito mais cedo.
— Alguém tá muito feliz pra quem provavelmente zerou a prova — provocou Lisa, arrancando uma risada de Rosé e fazendo Jennie murchar o sorriso no mesmo instante.
— Eu não zerei. Não sou burra que nem você — retrucou Jennie, cruzando os braços. Lisa mostrou a língua para ela, e Jennie, sem hesitar, revidou.
— Parem vocês duas! — Rosé mandou, já acostumada com as brigas constantes das amigas.
— Ela que começou — Jennie apontou, sentando-se na cadeira à frente delas. — Mas enfim, vocês não vão acreditar no que aconteceu! — disse, batendo palmas de tanta empolgação.
— Não pergunta — Lisa murmurou para Rosé, que ignorou completamente o conselho.
— O que aconteceu? — perguntou Rosé, compartilhando a mesma animação de Jennie.
— O Hwang Hyunjin me convidou pra sair! — soltou de uma vez, o sorriso brilhando em seu rosto.
Rosé comemorou junto com a amiga, mas Lisa simplesmente pegou seu caderno e começou a rabiscar, tentando disfarçar a onda de ciúmes e decepção que a atingiu como um soco.
— E aí? Como foi? Pra onde vocês vão? — perguntou Rosé, genuinamente curiosa.
— Ah, que maravilha! — exclamou Lisa, carregando sarcasmo na voz. — Vai escrever um livro sobre como foi? Só não fala demais, vai que sua garganta seca.
— Você me odeia, garota? — perguntou, irritada e com os olhos semicerrados.
— Eu? — Lisa apontou para si mesma, rindo. — Ache o que quiser, Jennie. Isso não me importa e nem me afeta.
— Meu Deus, quando é que vocês duas vão parar de implicar uma com a outra? — Rosé suspirou, já cansada. — Só sabem brigar, brigar e brigar!
— É sempre ela que começa, Rosé! — Jennie se defendeu, adotando um tom dramático. — Quer saber? Depois eu te conto tudo com detalhes. Tem gente aqui que claramente se incomoda com a minha presença. — Ela lançou um olhar direto para Lisa, que apenas deu de ombros, mantendo a atenção no caderno. — Tchau, amiga! — se despediu de Rosé, levantou e saiu apressadamente.
Rosé cruzou os braços e encarou Lisa, que evitava seu olhar a todo custo.
— Lalisa Manobal — começou Rosé, num tom quase maternal. — Que bicho te mordeu? Por que tratou a Jennie desse jeito?
— Só acho irritante o fato de ela ficar feliz com algo tão... sem graça — respondeu Lisa, fechando o caderno com força. — Quem fica feliz só porque um garoto te chamou pra sair?
— Uma garota apaixonada por esse garoto, talvez? — Rosé arqueou as sobrancelhas, intrigada e Lisa bufou.
— E por que sempre garota? Por que não pode ser um garoto? — rebateu, sem perceber o significado por trás de suas palavras. — Por acaso é errado um garoto sentir atração por outro garoto? Ou talvez uma garota sentir atração por outra garota? É pecado isso?
Rosé inclinou a cabeça, analisando a expressão de Lisa e já raciocinando o que estava acontecendo, sorrindo de orelha a orelha.
— Quem disse que é errado, Lisa? — perguntou suavemente. — Você tá estranha hoje e acho que já sei o motivo. — Ela olhou ao redor, certificando-se de que estavam sozinhas na sala de aula. — Me fala a verdade, você gosta da Jennie?
— O quê? Claro que não! — Lisa quase gritou, desviando o olhar. — Ela é mulher, e eu também sou. Não tem como ficarmos juntas.
Rosé sorriu, inclinando-se para frente e fechando o caderno de Lisa para forçá-la a encará-la.
— Lalisa, você é péssima mentindo. E pior ainda em disfarçar ciúmes. Tá na cara! — riu levemente.
Lisa passou as mãos pelo rosto, derrotada. Ela sabia que aquilo era visto como pecado na sociedade em que vivia. Portanto, o medo de acontecer algo com ela, a consumia.
— Tá bom, eu gosto dela. Mas não conta pra ela, tá? Eu tô tentando me convencer de que isso é errado. Talvez eu deva conhecer algum garoto e, sei lá, esquecer isso.
— Credo, amiga! — Rosé franziu o nariz. — E aquele discurso sobre gays agora há pouco? E daí que você gosta dela? Tenho quase certeza de que ela também gosta de você.
— Gosta tanto que quase rasgou a boca sorrindo por causa do Hwang Hyunjin — falou, cabisbaixa.
— Olha, se você tem dúvidas, por que não pergunta a ela?
— Perguntar o quê, Rosé? Perguntar se ela prefere ser morta pela sociedade ou viver feliz com o garoto que ela gosta?
— Calma aí também! "Morta" é um exagero, não acha?
— É a realidade, Rosé. Infelizmente, é a realidade nesse país e em muitos outros, acredito eu.
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