Prólogo: Os Balões
Era uma vez uma garotinha de longos cabelos castanhos emaranhados, que gostava de usar um vestido xadrez de rosa pálido com marrom, e na maior parte das vezes calçava botas de cadarço, com meias que iam quase até o joelho.
Essa garotinha não gostava de pentear e nem de prender os cabelos, e sempre estava suja, porque vagava por aí brincando com tudo e qualquer coisa que achasse pelo caminho. A sujeira não a incomodava, ela nem percebia.
Um dia essa mesma menina seria chamada de Colecionadora de Defeitos, mas, por enquanto, ainda não tinha descoberto sua paixão por colecionar, e por isso se referiam a ela apenas como Menina.
Aos olhos dessa Menina tudo era mágico. Ela andava pelas lojas do centro da cidade fingindo que era uma espiã em uma missão supersecreta, ou que era rainha em um reino misterioso, ou que era uma grande fotógrafa famosa, registrando com sua câmera (de papel) todas as maravilhas do mundo... Ou, ainda, que era uma bruxa com seu grimório (um pequeno bloquinho de anotações de mola) inventando encantos...
Enquanto brincava podia ser e fazer qualquer coisa, absolutamente qualquer uma, e ficava tão envolvida em seu mundo de faz de conta, que às vezes chegava a chorar de verdade, quando a história da brincadeira era emocionante. Ou perder a noção do tempo, e só voltar pra casa quando o céu já estava escuro.
A cidade em que a Menina morava era uma cidadezinha pacata e tranquila, onde todos a conheciam, e sabiam que ela vivia no mundo da lua. Todos zelavam por ela, enquanto andava por aí imersa em seus próprios sonhos, e sem se dar conta dos perigos do mundo real.
Era por isso que ela tinha tanta liberdade de vagar sozinha pelas ruas da cidade: porque todos tinham um carinho muito grande por ela, e sempre a protegiam de qualquer eventual fatalidade.
Bem, todo ano, nessa cidade, havia um festival de primavera chamado de Semana do Equinócio, onde todos os dias, por uma semana inteira, as crianças saíam para brincar na rua e comer guloseimas que só existiam na cidade nessa época. Era como uma feira, misturada com parque de diversões.
Nessa cidade haviam duas grandes praças: uma ficava bem no centro da cidade, e ao redor dela ficavam estacionados diversos carrinhos de comida: de pipoca, de churros, com uma sorveteria do outro lado da rua. E a outra ficava a uns bons quarteirões dali, em frente a uma grande igreja com janelas de vitrais coloridos. Essa praça era chamada de Praça de Pedra, pois, enquanto que a praça central era toda coberta por um gramado fofo e verde vibrante, a outra era inteira coberta por pedras de calçamento. E era ali que o festival acontecia.
Os moradores enfeitavam as ruas com bandeirolas coloridas, muitas luzes e o cheiro de comida quentinha exalava no ar. Haviam tortas de muitas qualidades, com especiarias que espalhavam seu perfume por todo lado, caldas quentes de uma grande variedade de frutas para por em cima do sorvete, crepes com recheios doces e salgados, geleias, coisas para mergulhar no chocolate, maçãs do amor e bebidas coloridas de muitos tipos, em copos que vinham com um pequeno guarda-chuvinha de papel na borda.
Além das comidas deliciosas, tinham ainda muitos brinquedos. Escorregadores, rodas-gigantes, máquinas de jogos de fliperama, e os clássicos: atirar as argolas, atirar dardos, atirar bolas em um alvo e derrubar a pessoa ali sentada na água, pegar a maçã dentro de um barril sem usar as mãos, etc.
Praticamente todas as famílias iam passear e levar os filhos para se divertirem um pouco. A nossa Menina ia por conta própria. Não brincava nos brinquedos, porque não tinha dinheiro suficiente para pagar as fichas; preferia gastar suas economias com os lanches, e brincar com as coisas que estavam ao seu redor, como sempre fazia.
No primeiro dia do festival, ela comprou um saco de papel cheio de amendoins caramelados e saiu mastigando um por um calmamente, apreciando o sabor adocicado e levemente picante, e observando as pessoas ao seu redor. Deu uma volta completa nas sete ruas onde as barraquinhas do festival eram montadas, e depois decidiu ir para o seu lugar especial.
Ela tinha descoberto esse lugar no festival do ano passado, quando buscava inspiração para uma nova brincadeira, e viu um pequeno portão atrás de uma barraca de cachorro quente. Ela se esgueirou por trás da barraca, abriu o portãozinho, que não tinha tranca, e entrou.
Lá dentro havia um grande terreno, cujo chão era de terra vermelha, e haviam alguns montinhos de tijolos por todos os lados, onde um dia houvera uma construção, uma casa, provavelmente. Esses restos de paredes chegavam no máximo até os joelhos dela.
Lá no fundo havia uma plataforma alta de concreto, que tinha o dobro de seu tamanho.
Uma pequena escadinha de tijolos e cimento, parcialmente quebrada, levava até o topo. Como estava quebrada, a Menina tinha que meio que escalar seu caminho até lá em cima, usando os pedaços de degraus como suporte.
Mas valia a pena, porque quando chegava no alto, sentia que estava em um refúgio afastado do chão e de todo o resto do mundo. Subia ali para pensar, para fingir que estava em outro lugar, para brincar.
E ela estava bem no meio de uma brincadeira – onde era paleontóloga e procurava relíquias nas ruínas de um antigo templo sagrado – quando de repente ouviu o barulho do portãozinho se abrindo, e passos pisoteando as pequenas pedrinhas em sua direção.
A Menina viu uma figurinha magricela se aproximando. Era um menino, branco que nem um fantasma, e de cabelos castanho claros, segurando na mão uma maçã do amor metade comida.
— Oi... — ele disse, tímido.
— Oi. Será que eu te conheço de algum lugar?
— Hm, não, acho que não. Não moro nessa cidade.
— Você parece um amigo que eu tinha, uma vez — a menina explicou.
— Que eu me lembre, nunca te vi. Mas a gente pode ser amigos, de agora em diante.
— Qual o seu nome?
— É Liam.
— Ah. Por aqui todo mundo me chama de Menina. Como você sabe desse lugar? Já veio aqui antes?
— Não... Eu só vi você entrando. Não quero brincar com as coisas lá fora. Achei que com você seria mais legal. Do que você está brincando?
— De encontrar tesouros. Sobe aqui. — Ela estendeu a mão para Liam e mostrou para ele como escalar até lá em cima — Vê esses tijolos do muro? Eu gosto de fingir que um deles está solto, e que lá dentro, no buraco, alguém guardou uma coisa muito importante. E que eu vou descobrir o que é.
— Tá bom, eu vou te ajudar. Pode ser?
— Ok. Eu vou ser a professora que está liderando essa expedição, e você vai ser meu colega.
— Tudo bem.
Assim os dois brincaram por muitas horas, até que Liam se deu conta de que já estava tarde, e precisavam ir pra casa antes que alguém desse por falta deles. Eles se despediram da mesma forma como se encontraram, sem grande comoção. Não combinaram de se encontrar no outro dia, porque a vida é muito mais simples quando se é criança, e quase nada precisa ser verbalizado. Os dois simplesmente sentiram o início de uma amizade muito divertida, e souberam em seus corações que se encontrariam novamente.
Os dois se viram em todos os dias do festival. Brincaram em seu forte secreto, experimentaram as mais diversas iguarias, passearam juntos pelas barraquinhas, observaram o céu, disputaram quem conseguia colocar mais chicletes na boca de uma vez, olharam as pessoas ao redor e criaram histórias sobre como seriam suas vidas baseado em sua aparência.
No último dia do festival, estavam sentados na plataforma do forte, com os pés balançando para fora, quando a Menina disse:
— Quando a gente solta um balão, pra onde ele vai?
— Acho que com o tempo ele estoura e cai de volta — Liam respondeu.
— Será? Você não acha que ele voa cada vez mais alto, até sair do planeta, e ir pro espaço?
— Não, acho que não.... Não deve ser assim tão fácil ir pro espaço. Acho que ele estoura antes disso.
— E cai aonde? — Questionou, novamente, a Menina.
— No mar, talvez.
— Ou em algum lugar qualquer — completou ela.
— É, provavelmente.
— Sabe o que a gente devia fazer?
Amarrar alguma coisa num balão, e soltar.
— Mas aí vamos perder essa coisa!
Aí é que entra a mágica. Um dia nós vamos encontrar essa coisa juntos.
— Mas como você sabe que isso vai mesmo acontecer? — Liam questionou, duvidando em parte do que ela dizia.
— Não sei. Por isso que vai ser mágico, oras! Eu acho que um dia vamos achar.
— Acha mesmo? De todo o seu coração?
— Aham! Eu acredito de todo o meu coração que um dia a gente vai achar juntos.
— Eu tenho uma coisa. — O garoto tirou do bolso do casaco um pequeno pergaminho enrolado e lacrado com um selo de cera — A minha avó me deu isso. Ela disse que é um mapa do tesouro. Meus pais dizem que ela é velha e não sabe mais o que está dizendo, mas eu acredito nela.
— Tem certeza? Talvez você perca seu tesouro pra sempre...
— Não é meu tesouro, é da minha avó, Amélia. De toda forma, você disse que acredita de todo o seu coração, e eu confio na sua palavra.
— Tá bom. Vem, vamos comprar um balão. — Ela concordou, decidida.
Eles voltaram para o festival e compraram três balões coloridos. Amarraram juntas as três fitas, e na ponta amarraram com muitas voltas o pergaminho. Subiram no alto da plataforma, deram as mãos, e soltaram os balões, que imediatamente subiram e subiram e subiram levando o pedaço de papel. Os dois ficaram de mãos dadas até os balões sumirem de vista. Depois, dividiram os caramelos que ainda tinham nos bolsos, comeram, se despediram, e seguiram por caminhos diferentes.
Não sei vocês, mas eu queria morar nesse prólogo!
Arrisquem um palpite sobre o que vai acontecer em seguida:
Vocês acham que o Liam vai reencontrar o mapa?
Agradeço a você por ter me acompanhado até aqui 🎈
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